SERTANEJA


Triste, 
Magra, 
Solitária,
Acompanhada apenas pela fome e a dor.

Mulher frágil mas forte 
No seu chorar,
no seu avançar,
Pela estrada poeirenta.

Seus pés descalços, 
Rachados,
são como o solo estorricado,
sem verde.

Você tem raízes nos pés.
Nas veias altas,
As pernas marcadas, 


Mas o ventre sempre fértil,
a desafiar a fome.
Você olha o céu sem nuvens
E traz nuvens no seu olhar.

Maltrapilha, 
Com braços finos mas fortes,
Bastantes para embalar 
Seus filhos na rede, 

No colo, 
junto ao coração que teima em esperar
A chuva
A água amanhã

Nas lutas da sua vida, 
Mulher destemida e sofrida,
Eu admiro a sua força. 

Mulher mãe.
Cidadã da fome e da dor,
Que coloca seus filhos no mundo 
E com suas mãos tece a cruz,

Ao devolvê-los ao berço-terra,
Na cruz da sua dor.
Eu louvo suas lutas inglórias,
Mas um dia lhe será concedida 


A alegria de mergulhar as mãos 
Na água pura 
Que a alma liberta se inunda de luz,
Matar sua sede de amor,

Num amor maior.
Sacrifício ainda lhe pedem,
E nos seus olhos tristes,
Você agradece as migalhas

Que lhe chegam dos que muito possuem.
Você ama,
Você perdoa 
O solo ingrato

E ainda sente 
Gratidão e amor.
Sertaneja, Imagem da dor,
Que lhe abençoe nosso senhor.


Cecília Meireles
Mensagem recebida por Shyrlene Soares Campos, no núcleo Servos Maria de Nazaré, dia 25/09/1999.

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