A Verdadeira Propriedade

 

Marcos estava comendo um pão, quando se aproxima uma moça de nome Edna, e lhe pede um pedaço. Ele nega, respondendo com visível irritação:

Vá trabalhar como eu! E começa a pensar em voz alta.

– Ah, como é bom nos aferrarmos ao dinheiro e imaginar que vamos mantê-lo conosco para sempre! E já que é nosso, o melhor e mais inteligente, é fazer com que aumente cada vez mais.

É bem mais interessante ouvir o tilintar das moedas no meu bolso, do que ouvir um fraco, um débil obrigado, que às vezes nem se ouve, da boca de um faminto; é bem mais gratificante ficar admirando a beleza e o luxo da minha casa e do meu carro, do que estragar meu dia na contemplação de casebres imundos, à procura de alguém que precise de alguma ajuda; e se eu posso, aproveitando a extrema necessidade de quem me procura, emprestar-lhe dinheiro a juros exorbitantes, por que eu me daria ao trabalho ou à loucura de dar dinheiro a quem quer que seja?

– Meus irmãos! Este é um dos maiores problemas da nossa evolução. O eu e o meu! Nunca o nós, nunca o nosso!

Aqueles que escolhem a porta larga e que se locomovem lentamente pela estrada atapetada da vida, curvados ao peso do seu ouro, a Alfândega da Morte lhes confiscará toda a sua bagagem dourada, pois é material! O que lhe sobra? Apenas uma pequena maletinha, aquela que deverá conter os bens e tesouros imperecíveis, que são de uso da alma. Decepção! Está vazia! E ela também é confiscada, por não ter nada a transportar pelo vale da morte!

Não! Não vamos nos iludir com o brilho fascinante do ouro. A Alfândega da Morte a que nos referimos, é incorruptível e só deixa que levemos conosco, as migalhas de amor que houvermos distribuído; os pequenos favores que tivermos articulado pelos outros; os simples benefícios que tenhamos feito a terceiros, tudo em nome da verdadeira caridade desinteressada.

Com enorme facilidade esquecemos que a verdadeira propriedade é a riqueza moral e espiritual. O resto, é apenas uma questão de saber quem tem mais ou menos bens materiais.

A caridade, que não é apenas a divina virtude que o Mestre Jesus nos ensinou. Ela é o mais completo e verdadeiro sistema contábil do universo, que nos permite ajudar para sermos ajudados. E já que falamos nisso, como será que estão as nossas contas-correntes no Banco da Vida?

Infelizmente, parece que bem magrinhas, provavelmente no vermelho... Afinal, nenhum de nós ainda se diplomou na Escola da Verdadeira Vida, porque se ainda estamos gravitando em torno do planeta Terra, é porque ainda não fomos admitidos na maravilhosa e desejada Universidade Cósmica dos Espíritos Superiores!

Na realidade, meus queridos irmãos, o que realmente conta, é o que o homem é e não o que ele tem. O que ele é, sempre o acompanha e o que ele tem, é confiscado para sofrer a ação da traça e ferrugem, de que nos fala o Mestre.

Se a nossa intenção é ficarmos milionários, então mãos à obra! Vamos dar mais, cada vez mais. Quanto mais damos, mais temos. E o que temos dado? Demos muito? Pouco? Não demos nada? Ou temos dado tudo o que nos é possível?

O que preferimos? Sermos comparados a um filete de água barrenta, aonde milhares nunca chegam e os que chegam não saciam a sua sede, devido à péssima qualidade da água? Ou comparados a um manancial de água cristalina, aonde todos os que chegarem terão suas gargantas, ressequidas pela avareza de terceiros, refrigeradas?

Roguemos ao Senhor dos Espíritos, que nos dê forças, coragem e determinação, para que nos transformemos em verdadeiros armazéns, de onde ninguém saia sem levar o que precisa.

Se nos pedirem pão e não tivermos, que eles levem a certeza de que amanhã haverá; se nos pedirem roupas e não tivermos, coloquemos sobre os seus ombros, um manto de esperança; se precisarem de remédios e não tivermos, vamos oferecer-lhes o bálsamo da resignação; se solicitarem sapatos e não possuirmos, que tal tirarmos as pedras do seu caminho, para que não firam seus pés?

Por fim, meus queridos irmãos, quando o nosso armazém estiver vazio, é porque nos avizinhamos das fronteiras da vida física e as nossas maletas, repletas de amor, caridade e boas ações, estarão livres, absolutamente livres do confisco pela Alfândega da Morte. Isso realmente nos pertence. É a nossa verdadeira propriedade!

E nesse momento, Marcos, que recusou dividir seu pão com Edna e os que como ele pensam e agem, saberão, com a mais absoluta certeza, que apenas dando é que se recebe!

 

Agnaldo Cardoso