O Ritual do Batismo

Sem a menor dúvida, o ritual e o formalismo não resistem à menor análise da razão e facilmente se conclui que foram introduzidos nos vários cultos com segundas intenções. (Cairbar Schutel)

Introdução

Sempre nos causaram espécie as passagens bíblicas mencionando o ritual do batismo, em especial a que relata o batismo de Jesus, uma vez que esse ritual não fazia parte das práticas religiosas dos hebreus. Assim, não sabemos o porquê, de uma hora para outra, aparece na Bíblia alguém realizando o batismo, porquanto a circuncisão é que era o ritual praticado naquela época (Lv 12,3). Para nós só existe uma explicação possível para isso, embora saibamos que não irá agradar aos fundamentalistas, mas como buscamos a verdade, não nos resta senão a alternativa de acreditar que tal episódio seja uma interpolação.

Mais ainda ficamos convictos dessa possibilidade, quando os próprios textos bíblicos nos levam justamente a essa hipótese. É o que veremos no desenrolar desse estudo.

Origem

Cairbar Schutel, em O Batismo, assim relata:

Esta prática, que assinala períodos milenários, parece ter nascido na Grécia Antiga, logo após a constituição de uma seita que cultuava a Deusa da Torpeza, a quem denominavam Cotito e a quem os atenienses rendiam os seus louvores. Esta seita, constituída de sacerdotes que tinham recebido o nome de baptas, porque se banhavam e purificavam com perfumes antes da celebração das cerimônias, deixou saliente nas páginas da História esse ato como símbolo da purificação do Espírito. (p. 15).

Corroborando essa versão, Celso Martins, em Nas Fronteiras da Ciência, afirma:

... Batizando as criaturas nas águas do Rio Jordão como símbolo da renovação espiritual de cada seguidor seu, João estava apenas lançando mão de um rito que remontava à Grécia antiga, pois o batismo é uma prática pagã que nos veio dos sacerdotes da deusa Cotito. Eles se banhavam antes de dedicar suas oferendas à referida deusa da mitologia dos gregos. Como tais sacerdotes se chamavam baptas, daí surgiu a etimologia da palavra batismo, banho em água, no ritualismo de muitas seitas cristãs e também orientais. (p. 30) (grifo do original).

Em Jesus e sua Doutrina, A. Leterre, por sua vez, nos diz ser outra a origem:

Os antigos persas apresentavam o recém-nascido ao padre, perante o Sol, simbolizado pelo fogo. O padre pegava a criança e a colocava em uma bacia com água, a fim de lhe purificar a alma. Nessa ocasião o pai dava nome ao filho. ...

A cerimônia do batismo, no verdadeiro sentido de banho expiatório, já havia, também, na Índia, milhares de anos antes de existir a Europa, tendo daí passado para o Egito. Na Índia eram as águas do Gange, consideradas sagradas, como ainda hoje, que possuíam esta propriedade purificadora, apesar de ser o foco da cólera-morbo; do Gange passou-se para o Indus, igualmente sagrado, de onde se propagou ao Nilo, do mesmo modo sagrado, para, finalmente, terminar no Jordão, onde João as empregava com o mesmo fim e como simples formalidade do seu rito. (p. 172-173).

Seja a origem qual for, o que fica claro é que ela está nas práticas de povos ditos pagãos.

Considerações sobre os relatos bíblicos

João Batista reconhece que Jesus é maior que ele, e diz: “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” (Mt 3,14), mas, por insistência de Jesus, batiza–O. Imediatamente após o batismo de Jesus, uma voz vindo do céu afirma: “Este é o meu filho amado, que muito me agrada” (Mt 3,17).

Observamos que João Batista identificou perfeitamente a Jesus como o Messias, fato confirmado pelo plano espiritual, do que concluímos, diante de tais fatos, que não haveria a mínima possibilidade de dúvida por parte da “voz que clama no deserto”. Entretanto, logo após sua prisão, João Batista manda alguns de seus discípulos perguntarem a Jesus: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?" (Mt 11, 2-3). Falta coerência nisso, já que, conforme relatado, João sabia perfeitamente quem era Jesus, e se, porventura, houvesse mínima dúvida de sua parte, ela teria sido completamente sanada pela manifestação espiritual ocorrida após o batismo, que identificou Jesus como o Messias.

Podemos, então perceber que o episódio do batismo de Jesus tem sido utilizado para validar e justificar o ritual do batismo praticado pelas igrejas ditas cristãs, não obstante contrariar ao que o próprio João Batista afirma: “Eu batizo vocês com água para a conversão. Mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. E eu não sou digno nem de tirar-lhe as sandálias. Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo”. (Mt, 3,11). Esta é uma evidente demonstração de que o batismo que ele praticava não era um ritual a ser seguido. Colocava, isso sim, o batismo do “Espírito Santo e com fogo” como aquele a que todos deveriam ser submetidos, argumento que pode ser confirmado em At 1,4-5: Estando com os apóstolos numa refeição, Jesus deu-lhes esta ordem: "Não se afastem de Jerusalém. Esperem que se realize a promessa do Pai, da qual vocês ouviram falar: 'João batizou com água; vocês, porém, dentro de poucos dias, serão batizados com o Espírito Santo'". Disso concluímos que o relato do batismo de Jesus, seja, provavelmente, uma interpolação.

Interessante é que os fariseus e os saduceus também queriam ser batizados (Mt 3,7), entretanto, foram rechaçados, já que João não via neles nenhuma postura de arrependimento. Essa atitude de João Batista nos leva a concluir que não era sua intenção de colocar o batismo como um ritual, pois se o fosse, teria batizado aquela “raça de víboras”. João Batista deixou claro o motivo mais importante por que estava batizando. Disse ele: "E eu não o conhecia; mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água" e "E eu não o conhecia, mas o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo." (João 1,31.33) Ou seja, foi apenas para ele identificar o Messias. Estranho isso. Afinal, eram primos! Mas uma vez cumprido seu propósito, deixa de ser necessário, passando a vigorar daquela hora em diante o batismo verdadeiro, o de Jesus. Este sim, é o verdadeiro batismo cristão: com espírito santo e com fogo.

Ademais, observamos que embora Mateus, Marcos e Lucas afirmassem que Jesus tenha sido batizado, João, um dos discípulos bem próximos a Jesus, nada diz sobre isso. É estranho isso para algo que dizem ser muito importante. E se o batismo é tão importante como alguns afirmam, então por que Jesus não atendeu a João Batista que Lhe disse “sou eu é que devo ser batizado por ti, e tu vens a mim” (Mt 3,14)? Sem contar que os apóstolos não foram batizados em água, mas o foram no Espírito Santo. Exatamente por isso é que podemos reafirmar que o batismo em água não possui sustentação bíblica para a sua aplicação, pois estaria contrariando essa determinação de Jesus.

Vejamos que Paulo, o apóstolo dos gentios, percebe claramente essa diferença: “... Paulo ... chegou a Éfeso e, achando ali alguns discípulos, perguntou-lhes: Recebestes vós o Espírito Santo quando crestes? Responderam-lhe eles: Não, nem sequer ouvimos que haja Espírito Santo. Tornou-lhes ele: Em que fostes batizados então? E eles disseram: No batismo de João. Mas Paulo respondeu: João administrou o batismo do arrependimento, dizendo ao povo que cresse naquele que após ele havia de vir, isto é, em Jesus. Quando ouviram isso, foram batizados em nome do Senhor Jesus. Havendo-lhes Paulo imposto as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e falavam em línguas e profetizavam”. (At 19,1-6).

Em outra oportunidade disse enfático: “De fato, Cristo não me enviou para batizar, mas para anunciar o Evangelho...” (1Cor 1,17), do que podemos ver claramente que, na sua convicção, o batismo não era importante para salvação de ninguém. Paulo vai ainda mais longe, é contrário, ao ritual que praticavam naquela época: a circuncisão, senão vejamos: “De resto, cada um continue vivendo na condição em que o Senhor o colocou, tal como vivia quando foi chamado. É o que ordeno em todas as igrejas. Alguém foi chamado à fé quando já era circuncidado? Não procure disfarçar a sua circuncisão. Alguém não era circuncidado quando foi chamado à fé? Não se faça circuncidar. Não tem nenhuma importância estar ou não estar circuncidado. O que importa é observar os mandamentos de Deus”. (1Cor 7,17-19). Evidentemente não deixa de questionar tal prática: “... Qual é a utilidade da circuncisão?” (Rm 3,1) ele, Paulo, responde demonstrando que isso não faz a menor diferença: “Então, será que Deus é Deus somente dos judeus? Não será também Deus dos pagãos? Sim, ele é Deus também dos pagãos. De fato, há um só Deus que justifica, pela fé, tanto os circuncidados como os não circuncidados”. (Rm 3,29-30)

Usando os mesmos argumentos de Paulo diremos: Não tem nenhuma importância estar ou não estar batizado, já que o que importa é observar os mandamentos de Deus.

Conclusão

A justificativa de alguns para o ritual do batismo é porque todos, ao nascerem, trazem como herança o pecado original. De fato, é bastante original o pecado de Adão e Eva, apenas isso, pois ao imputarem-no a todos nós, além de cometerem a maior das injustiças, ele é contrário ao que a palavra de Deus determina, leiamos: “Os pais não serão mortos pela culpa dos filhos, nem os filhos pela culpa dos pais. Cada um será executado por causa de seu próprio crime” (Dt 24, 26) ou “O indivíduo que peca, esse é que deve morrer. O filho nunca será responsável pelo pecado do pai, nem o pai será culpado pelo pecado do filho” (Ez 18,20).

Mas se tal coisa é verdadeira, se devemos ser batizados por conta do pecado original, então como explicar o batismo de Jesus, já que todos nós acreditamos que Ele tenha nascido puro? Por que Jesus nunca disse: Vá, seja batizado e será salvo? Evidentemente é porque Jesus nunca pregou o batismo de João, apesar de encontrarmos uma passagem bíblica colocando isso na boca de Jesus (Mc 16,15-16). É o momento em que, segundo Marcos, aliás é o único que diz isso, Jesus recomenda aos onze discípulos: “Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Notícia para toda a humanidade. Quem acreditar e for batizado, será salvo. Quem não acreditar, será condenado...”. É tão óbvio que colocaram essas palavras na boca de Jesus que torna difícil negá-lo, uma vez que a frase negativa deveria ser: “Quem não acreditar e não for batizado, será condenado”. Além disso, se compararmos essa passagem com o que encontramos em Atos, veremos que não era esse o pensamento corrente, já que nessa outra nem se fala em batismo, vejamos: “Crê no Senhor Jesus, e serás salvo, tu e tua casa” (At 16,31). Desconcertante é que esse versículo diz que apenas um precisa crer, e conseqüentemente sua casa, ou seja, toda sua família, será salva. Já no verso de Marcos a regra é outra, que não apenas nada foi dito dos familiares, mas afirma que a regra para todos é: "quem crer e for batizado...", deixando-nos em dúvida sobre qual delas é realmente a que se deve seguir. Mais complexa fica essa questão da salvação, já que também está dito: “É pelo Evangelho que vocês serão salvos, É pelo Evangelho que vocês serão salvos”. (1Cor 15,2), deixando-nos completamente perdidos quanto a saber o que efetivamente irá nos salvar.

Entretanto, para não ficarmos somente com a nossa opinião, vamos sustentar o que estamos falando com o que dizem os tradutores da Bíblia de Jerusalém. Leiamos suas observações relativas a Marcos capítulo 16, versículos de 9 a 20:

O trecho final de Mc (vv.9-20) faz parte das Escrituras inspiradas; é tido como canônico. Isso não significa necessariamente que foi escrito por Mc. De fato, põe-se em dúvida que este trecho pertença à redação do segundo evangelho. – As dificuldades começam na tradição manuscrita. Muitos mss, entre eles o do Vat. E o Sin., omitem o final atual... A tradição patrística dá também testemunho de certa hesitação. – Acrescentemos que, entre os vv. 8 e 9, existe, nessa narrativa, solução de continuidade. Além disso é difícil admitir que o segundo evangelho, na sua primeira redação, terminasse bruscamente no v. 8. Donde a suposição de que o final primitivo desapareceu por alguma causa por nós desconhecida e de que o atual fecho foi escrito para preencher a lacuna. Apresenta-se como um breve resumo das aparições do Cristo ressuscitado, cuja redação é sensivelmente diversa da que Marcos habitualmente usa, concreta e pitoresca. Contudo, o final que hoje possuímos era conhecido, já no séc II por Taciano e santo Ireneu, e teve guarida na imensa maioria dos mss gregos e outros. Se não se pode provar ter sido Mc e seu autor, permanece o fato de que ele constitui, nas palavras de Swete, “uma autêntica relíquia da primeira geração cristã”. (Bíblia de Jerusalém, p. 1785). (grifo nosso)

Apesar desses argumentos, é certo que ainda encontraremos pessoas que continuarão a aceitar a frase como verdadeira. Mesmo que fosse, por coerência, é muito improvável que Jesus estivesse falando do batismo de João. O mais certo é que estava se referindo ao batismo "com espírito santo e com fogo", que sucede a todo aquele que crê em suas palavras e pratica seus ensinos. Inclusive é o que podemos comprovar pela opinião do tradutor da Bíblia Anotada, que, em relação à Mc 16,9-20, diz:

... A discutível genuinidade dos vv. 9-20 torna pouco sábio construir uma doutrina ou basear uma experiência sobre eles (especialmente os vv. 16-18) (Bíblia Anotada, p. 1265). (grifo nosso).

E, especificamente, quanto ao versículo 16, explica:

Esta pode ser uma referência ao batismo do Espírito Santo (1Cor 12:13). O batismo com água não salva (veja as notas sobre at. 2;38; 1Pe 3,21). (Bíblia Anotada, p. 1265)

Por outro lado, entre o ritual do batismo praticado por João Batista e o realizado hoje em dia, há grande diferença, pois o anterior era o batismo da conversão que só era realizado após a pessoa confessar seus pecados, o que não acontece quando se batiza uma criança recém-nascida. De fato, o Batismo nos primeiros tempos do Cristianismo era tido como sendo um ritual que conferia uma espécie de selo ao novo cristão, ao novo convertido, ou seja, o ritual não era uma causa, mas uma conseqüência da conversão. E hoje, mesmo no caso de pessoas adultas que fizeram "estudo bíblico" para se batizarem, elas não confessam seus pecados antes, durante ou após a cerimônia.

Justificam alguns que, como Jesus foi batizado, nós também devemos fazê-lo. Mas, embora já tenhamos indicado por que Jesus foi batizado (João 1,31 e 33), por questão de coerência e de lógica, se o simples fato de ele ter sido batizado nos obriga a isso, então devemos manter o ritual da circuncisão, já que Jesus também se submeteu a tal prática. Ah! Só mais um lembrete: Jesus também foi crucificado...

 

 

 

 

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Ago/2005.

 

 

Referências Bibliográficas

 

Bíblia Anotada. São Paulo: Mundo Cristão, 1994.

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990.

LETERRE, A., Jesus e sua Doutrina: a distinção entre cristianismo e catolicismo: um estudo que remonta há mais de 8.600 anos. São Paulo: Madras, 2004.

MARTINS, C., Nas Fronteiras da Ciência, São Paulo: DPL, 2001.

SCHUTEL C., O Batismo, Matão, SP: O Clarim, 1986.