Ressurreição da Carne?

“... a carne e o sangue não poderão herdar o reino de Deus”. (1Cor 15,50)

Introdução

Não é de hoje que este assunto é encarado, pelos fiéis das inúmeras correntes religiosas cristãs, como uma coisa líquida e certa. Entretanto, a ciência vem afirmar que o nosso corpo físico, no processo de sua decomposição, restitui à natureza os elementos - carbono, hidrogênio, azoto, oxigênio, etc. - de quem tomou emprestado.

Este é mais um dos muitos motivos pelo qual não se concilia a Ciência com a religião, mas numa análise mais profunda, sem preconceito e nem dogmatismo, vimos que, biblicamente falando, a ressurreição nunca foi a da carne, como apregoam por aí.

Em busca da resposta

Parece-nos que, pela análise de algumas passagens bíblicas, o que encontramos foi justamente o contrário. Vejamos:

Mt 22,30: “De fato, na ressurreição, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu”.

Todos nós acreditamos que, indiscutivelmente, os anjos não possuem corpo físico. Ao Jesus afirmar que na ressurreição os homens e mulheres serão como os anjos do céu, por isso não se casarão, Ele nos remete à questão da ressurreição espiritual.

Jo 4,24: “Deus é Espírito”.

Aqui temos um paradoxo, pois a nós, segundo a crença dogmática, caberia viver no plano espiritual na mesma condição de vida que tínhamos aqui no plano físico, enquanto Deus, nesse mesmo plano para o qual iremos, vive puramente na condição espiritual. Absurdo teológico incompatível com a lógica, pois o plano espiritual está para o corpo espiritual, como o plano terreno está para o corpo físico.

Para a manutenção da vida do nosso invólucro carnal é necessário, dentre inúmeras coisas, de oxigênio, água e alimentação. Será que haverá tudo isso no lugar para onde dizem que iremos após a morte? O pior é que todas essas coisas deverão existir tanto no céu quanto no inferno, já que muitos correm o risco de terem como destino o lago de fogo. Quem sabe um milagre resolva essa questão?

Jo 6,63: “... o espírito é que dá vida a carne de nada serve”.

Será que os teólogos nunca leram essa passagem? Se a carne de nada serve, então qual a sua utilidade no plano espiritual?

Lc 16,19-23: “Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino, e dava banquete todos os dias. E um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava caído à porta do rico... Aconteceu que o pobre morreu, e os anjos o levaram para junto de Abraão. Morreu também o rico, e foi enterrado. No inferno, em meio aos tormentos, o rico levantou os olhos, e viu de longe Abraão, com Lázaro a seu lado”.

Considerando-se que o rico foi enterrado, pode-se concluir que foi isso o que ocorreu também a Lázaro. Tendo acontecido isso, forçosamente somos obrigados a aceitar que esses dois personagens não foram para o outro lado da vida, situação que se encontravam, conforme a narrativa, senão na condição de espíritos.

Lc 23,43: “Jesus respondeu: ‘Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso’".

Se essa afirmativa atribuída a Jesus for verdadeira, então a condição em que o “bom ladrão” transportou-se ao “paraíso” foi na condição espiritual, pois seu corpo deve, segundo o costume da época, ter servido de repasto aos urubus, já que os corpos dos executados, nessas condições, ficavam expostos para impressionar os transeuntes.

Lc 23,46: “Pai em tuas mãos entrego o meu Espírito”.

Mantendo a coerência com o que havia dito antes, Jesus entrega o seu espírito, não o seu corpo físico, já que, conforme havia dito anteriormente, a carne de nada serve.

1Cor 15,44.50: “... é semeado corpo animal, mas ressuscita corpo espiritual. Se existe um corpo animal, também existe um corpo espiritual,... a carne e o sangue não poderão herdar o reino de Deus”.

Paulo, sempre usado para sustentar algumas interpretações de conveniência, é quem também podemos usar para contestar, por mais uma vez, a crença na ressurreição da carne. Observar que o apóstolo dos gentios diz taxativamente que ressuscita o corpo espiritual e arremata, como que para não deixar dúvidas, dizendo que o corpo físico não pode herdar o reino de Deus.

Esses textos aqui relacionados são suficientes para reconhecermos que iremos ressuscitar no corpo espiritual e não no corpo físico, como ainda é aceito e defendido por muitos.

Mas alguém poderia objetar dizendo que Jesus teria ressuscitado em corpo físico, fato que confirmaria a ressurreição da carne.

Pelos relatos bíblicos Jesus foi crucificado às nove horas da manhã, tempo insuficiente para que, a partir das primeiras horas do dia, ocorresse primeiro a reunião do Sinédrio, depois, em relação a Jesus, sua prisão, as torturas que sofreu, sua condução a Pilatos, a Herodes, e a Pilatos novamente, para que caminhasse até o Gólgota carregando a cruz, deixando-nos em dúvida quanto aos fatos que realmente ocorreram.

Uma coisa que poucos sabem é que a morte por crucificação não era imediata, levava-se, segundo alguns estudiosos, de dois a três dias, outros estendem esse tempo a até cinco dias. Entre a sua crucificação e morte o tempo foi de apenas seis horas e como não quebraram seus ossos, o que faziam para apressar a morte do condenado, resta-nos a dúvida, por não termos elementos seguros para acreditar no relatado.

É tão evidente que o tempo foi curto que até Pilatos, quando foram reclamar-lhe o corpo, se surpreende de que Jesus já havia morrido (Mc 15,44).

Como o dogmatismo não manda mais ninguém para a fogueira, numa demonstração prévia de como os ímpios irão arder no fogo do inferno, pensadores têm surgido questionando até mesmo a veracidade dos próprios textos bíblicos, quanto à realidade da morte de Jesus na cruz. Essas dificuldades que acabamos de colocar, podem nos remeter a essa hipótese.

Para se ver, por exemplo, que os relatos não são tão mais inquestionáveis assim, transcrevemos do capítulo JESUS NÃO MORREU NA CRUZ constante do livro A Sociedade Secreta de Jesus o seguinte trecho:

Ao raiar do dia, no sábado, vendo o sepulcro aberto e tendo o corpo de Jesus sumido, os guardas, com medo de Pilatos, vão até os sacerdotes saduceus e contam-lhes a história do desaparecimento do corpo de Jesus. No que os sacerdotes saduceus tranqüilizam os guardas e garantem que, caso a história chegue aos ouvidos de Pilatos, eles (os sacerdotes) iriam convencer Pilatos a não punir os guardas, deixando-os em paz, pois era sabido que os discípulos de Jesus iriam mesmo tentar roubar o corpo.

Esta história está parcialmente contada em Mateus (28:11-15) Entretanto, como o cadáver de Jesus jamais apareceu e isto desmoronaria a tese da ressurreição, pois ninguém ressuscita sem morrer e para morrer tem que haver um cadáver; este corpo de Jesus morto jamais apareceu. E Mateus, novamente, conta exatamente esta história do roubo do corpo, mas depois diz que é mentira.

Para os próprios cristãos, segundo evidências claras na Bíblia, Jesus não morreu na cruz. Senão vejamos:

João (20:11-17) - Dois essênios de branco (confundidos como anjos) são vistos no sepulcro e Jesus – depois de "morto" - diz para Madalena, dentro do sepulcro, que ainda não havia morrido.

“Jesus disse-lhe: - Não Me detenhas porque ainda não subi para Meu Pai ".

Lucas (24:4-5) - Dois essênios de branco, resplandecentes, estão no sepulcro vazio e falam para Madalena, Joana e Maria mãe de Tiago: - “Por que buscais entre os mortos Aquele que vive?"

Mateus (28:3) - Um essênio, vestido de branco, estava no sepulcro e fala às mulheres sobre o desaparecimento do corpo de Jesus. (Aqui uma questão simples: Se Jesus tivesse morrido (matéria) e ressuscitado (espírito)... onde foi parar o corpo? Tinha de haver um corpo. Tinha de haver a matéria).

Marcos (16:5) - Um jovem essênio, vestido de branco, guardava o túmulo de Jesus e fala com Madalena, Salomé e Maria Mãe de Tiago. - Aqui sai Joana e entra Salomé, mas tudo bem - (Novamente a mesma questão simples: Se Jesus tivesse morrido e ressuscitado... onde foi parar o corpo?)

João (20:5-7) - Pedro entra no sepulcro e encontra ataduras de curativos e ligaduras espalhadas por toda parte. (Se Jesus havia morrido na cruz... por que colocaram ataduras, remédios, ungüentos e ligaduras num "morto", como as que Pedro encontrou no sepulcro? Coloca-se atadura e remédio em morto?)

Lucas (24:36-43) - Diante do espanto dos discípulos que imaginavam estar vendo um espírito, Jesus confessa aos discípulos, com todas as palavras que Ele não havia morrido na cruz. E para provar que era Ele mesmo, Jesus diz: - "Vede as Minhas mãos e os Meus pés?; Sou Eu mesmo!". E para provar que não era espírito e sim carne, complementa:- "Apalpai-me e olhai que um espírito não tem carne, nem ossos, como verificais que eu tenho!"

E para encerrar de vez a discussão sobre espírito e matéria, Jesus pede comida aos discípulos ainda assombrados: - "Tendes aí alguma coisa que se coma?". Deram-lhe então uma posta de peixe assado e, tomando-a, comeu diante deles".

Pode um relato ser mais claro? Ou seja, nem mesmo os cristãos, mais cegamente fiéis seguidores da Bíblia, podem acreditar na morte de Jesus na cruz, pois o relato de Lucas (24:26-43) é claro demais, cristalino demais, insofismável, resistente até ao mais insano dos exegetas de bicicleta. Jesus diz claramente que não havia morrido na cruz ("não ascendi ao pai"), que não era espírito e sim carne (e para provar que não era espírito e sim carne, complementa: Apalpa-me e olhai que espírito não tem carne nem ossos como verificais que eu tenho") e para finalizar Jesus pede comida e bebida, e de fato come peixe assado e bebe com os discípulos. (MACHADO, 2004, pp. 297-300).

Argumentos que não encontramos meios de como rebatê-los, ainda mais pelo fato de encontrarmos essa mesma informação em outras fontes. Vejamos:

“... o Alcorão diz o seguinte: ‘Eles não o mataram, não o crucificaram, mas isso lhes pareceu (Alcorão 4,156). ... Certos muçulmanos do Paquistão... para eles, Jesus foi de fato pregado à cruz, mas, quando o retiraram de lá, Ele ainda vivia. Então, livre da cruz, ele se curou e partiu para a Índia” (Revista Grandes Líderes da História, p. 29).

Tudo isso de certa forma poderia vir a corroborar o que está escrito em At 1,3: “Foi aos apóstolos que Jesus, com numerosas provas, se mostrou vivo depois da sua paixão: durante quarenta dias depois apareceu a eles,...”. Lucas, “... após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio,...” (Lc 1,2), afirma que Jesus se mostrou vivo, o que confirmaria aquilo que encontramos em outras fontes. É aqui que ficamos em dúvida, pois se Jesus se apresentou fisicamente, então a tese, que apresentamos para uma reflexão, de que ele na verdade não morreu na cruz, seria uma possibilidade que deveria ser mais bem analisada.

Todavia, alguém dirá: "Como é que os mortos ressuscitam? Com que corpo voltarão?" Insensato! Aquilo que você semeia não volta à vida, a não ser que morra. E o que você semeia não é o corpo da futura planta que deve nascer, mas simples grão de trigo ou de qualquer outra espécie. A seguir, Deus lhe dá corpo como quer: ele dá a cada uma das sementes o corpo que lhe é próprio. Nenhuma carne é igual às outras: a carne dos homens é de um tipo, a dos animais é de outro, e de outro a dos pássaros e de outro ainda a dos peixes. Há corpos celestes e há corpos terrestres. O brilho dos celestes, porém, é diferente do brilho dos terrestres. Uma coisa é o brilho do sol, outra o brilho da lua, e outra o brilho das estrelas. E até de estrela para estrela há diferença de brilho. O mesmo acontece com a ressurreição dos mortos: o corpo é semeado corruptível, mas ressuscita incorruptível; é semeado desprezível, mas ressuscita glorioso; é semeado na fraqueza, mas ressuscita cheio de força; é semeado corpo animal, mas ressuscita corpo espiritual. Se existe um corpo animal, também existe um corpo espiritual,...

Calma, não somos nós quem estamos dizendo isso, é Paulo, o de Tarso (1Cor 15,35-44). Sua afirmação da existência do corpo espiritual é de tamanha clareza que não deveria deixar margem a dúvidas, nem tampouco o surgimento de interpretações equivocadas.

Mas isso ainda não é tudo, pois quando ele arremata a sua argumentação, a coisa fica ainda mais clara, vejam: “Eu lhes digo, irmãos, que a carne e o sangue não podem receber em herança o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade”. (v. 50).

Há uma passagem muito elucidativa em que os saduceus, que afirmavam não existir ressurreição, perguntaram a Jesus sobre a situação de uma mulher que havia se casado com sete irmãos (para cumprir a lei do Levirato), queriam saber, quando da ressurreição, de qual dos sete ela seria mulher. Ao que Jesus responde: “De fato, na ressurreição, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu” (Mt 22, 23-30). Ora, todos nós aceitamos que os anjos são seres espirituais, daí se seremos iguais a eles, então, conseqüentemente, também seremos seres espirituais, condição em que ressuscitaremos. A afirmação de “seres espirituais” implica necessariamente na existência de um corpo espiritual.

Na seqüência, ainda afirma Jesus: “Quanto à ressurreição dos mortos, não lestes o que Deus vos declarou: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó?’ Ora, ele não é Deus de mortos, mas sim de vivos” (vv. 32-33). Vejam bem, se Deus é Deus de vivos, e os aqui citados foram Abraão, Isaac e Jacó, que já haviam morrido, concluímos que eles viviam na condição espiritual. Os que acham que a ressurreição será no final dos tempos, devem ficar desconcertados diante dessa passagem, pois, apesar do final dos tempos ainda não ter chegado, Jesus sugere que esses três personagens já estavam ressurretos e, portanto vivos.

A visão de Pedro sobre a morte e ressurreição de Cristo, também não deixa margem à ressurreição da carne. Segundo ele, o que aconteceu foi que Jesus “... Morto na carne, foi vivificado no espírito, no qual foi também pregar aos espíritos em prisão,” (1Pe 3,18-19).

Assim, diante disso e de tudo o que já colocamos anteriormente como ainda advogar a ressurreição da carne? Ela, a ressurreição da carne, falando à maneira do gosto de muitos teólogos, não possui respaldo bíblico.

Conclusão

Terminamos o estudo sobre esse assunto, esperando contribuir para o esclarecimento dessa questão, mas obviamente, não passa por nossa cabeça a unanimidade em relação ao que expomos, já que muitas pessoas, infelizmente, possuem a mente fechada para qualquer coisa que vá de encontro ao seu pensamento original, mesmo sendo este completamente contraditório. Pior ainda são os adeptos do: creio ainda que absurdo!

Percebemos em algumas pessoas um certo medo de questionar o que a teologia tradicional lhes passou, isso é fruto de um terrorismo religioso, pois quem está com a verdade não teme absolutamente nada. Entretanto, os que são frágeis na convicção e os que sabem que suas idéias não são realmente verdadeiras, farão de tudo para contestar aquilo que possa contrariar seus interesses. Mas devemos lembrar Jesus que dizia: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).

Encerramos ressaltando que: “... onde se acha o Espírito do Senhor aí existe a liberdade” (2Cor 3,17), do que é fácil concluir que onde não há liberdade o Espírito do Senhor não se encontra.

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Mai/2006.

Referências bibliográficas:

MACHADO, R. C. A Sociedade Secreta de Jesus, São Paulo: IBRASA, 2004.

Revista Grandes Líderes da História, nº. 1: Jesus, São Paulo: Arte Antiga, s/d.

Bíblia Sagrada Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990.

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.