Para entender o Espiritismo

Resposta ao “parapsicatólico”

Jó fala sem conhecimento, e às suas palavras falta sabedoria. (Jó 34,35).

“Só o desconhecimento dos fatos impede a sua aceitação. Óbvio que somente a apatia e a ignorância impedem a aceitação dos fatos”. (DOYLE, A. C).

A sabedoria do prudente é entender o seu caminho; porém a estultícia dos tolos é enganar. (Pv 14,8).

... não é um verdadeiro sábio aquele que não se curva perante o poder dos fatos. (RICHET, C.)

Introdução

Primeiramente diríamos que, para entender o Espiritismo, é preciso estudá-lo e muito, pois não é lendo só meia dúzia de livros Espíritas que fará de uma pessoa um bom entendedor de tudo quanto abrange seus princípios. Mais ainda, se há interesse real em compreender os seus fundamentos, é imprescindível abandonar preconceitos, sejam conscientes ou inconscientes, porquanto, somente assim poder-se-á efetivamente entendê-los.

Muito bem observou o Prof. Rivail:

Em lógica elementar, para se discutir uma coisa, é preciso conhecê-la, porque a opinião de um crítico não tem valor senão quando fale com perfeito conhecimento de causa; só então sua opinião, ainda que errônea, pode ser levada em consideração; mas de que peso é ela sobre uma matéria que não conheça? O verdadeiro crítico deve provar não somente erudição, mas um saber profundo no que concerne ao objeto que trate, um julgamento sadio, e de uma imparcialidade a toda prova; de outro modo, qualquer rabequista poderia se arrogar o direito de julgar Rossini, e um aprendiz de pintura o de censurar Rafael. (KARDEC, 1996, p. 23).

O Espiritismo não pode considerar como crítico sério senão aquele que tiver visto tudo, estudado tudo, aprofundado tudo, com a paciência e a perseverança de um observador consciencioso; que soubesse sobre o assunto quanto o adepto mais esclarecido; que tivesse, por conseguinte, haurido seus conhecimentos em outro lugar do que nos romances da ciência; a quem não se pudesse opor nenhum fato do qual não tivesse conhecimento, nenhum argumento que não tivesse meditado; que refutasse, não por negação, mas por outros argumentos mais peremptórios; que pudesse, enfim, assinalar uma causa mais lógica para os fatos averiguados. Esse crítico está ainda por se encontrar. (KARDEC, 1996, p. 25).

Para se proceder, no ensino do Espiritismo, como se o faria nas ciências ordinárias, seria preciso passar em revista toda a série de fenômenos que podem se produzir, começando pelos mais simples e alcançando sucessivamente os mais complicados; ora, é o que não se pode, porque seria impossível fazer um curso de Espiritismo experimental como se faz um curso de física e de química. Nas ciências naturais opera-se sobre a matéria bruta que se manipula à vontade, e se está quase certo de poder regular seus efeitos; no Espiritismo, trata-se com inteligências que têm liberdade, e nos provam a cada instante, que não se submetem aos nossos caprichos; é preciso, pois, observar, esperar os resultados e apanhá-los de passagem; também dissemos claramente que todo aquele que se gabasse de os obter à vontade, não poderia ser senão um ignorante ou um impostor, por isso ao Espiritismo verdadeiro não se porá jamais em espetáculo, e jamais subirá ao palco. Há mesmo alguma coisa de ilógica em supor que os Espíritos vêm desfilar e se submeter à investigação como objetos de curiosidade. Os fenômenos, portanto, podem faltar quando deles se tem necessidade, ou se apresentar de maneira diferente daquela que se deseja. Ajuntemos, ainda, que, para os obter, é preciso pessoas dotadas de faculdades especiais, e que essas faculdades variam ao infinito, segundo a aptidão dos indivíduos; ora, como é extremamente raro que a mesma pessoa tenha todas as aptidões, há uma dificuldade a mais, porque seria preciso ter sempre sob a mão uma verdadeira coleção de médiuns, o que não é possível. (KARDEC, 1996, pp. 36-37).

O que temos visto é que certos rabequistas de plantão, quer de batina quer engravatados, se arvoram em críticos do Espiritismo, sem ao menos terem se dado ao trabalho de estudá-lo e pesquisá-lo com profundidade suficiente para que possam abranger todas as nuances dos fenômenos mediúnicos. É muito comum, entre eles, o uso do argumento de que tudo é falso, mas, se fosse mesmo esse o caso, não deveriam se dar ao trabalho de combatê-lo, pois: “Se o Espiritismo é uma falsidade, ele cairá por si mesmo; se, porém, é uma verdade, não há diatribe que possa fazer dele uma mentira” (KARDEC, 2001, p. 55).

Entretanto, fato curioso, é que, nesse quase século e meio de vida, até agora ninguém fez algo que viesse derrubar, dentre outros, seus dois princípios basilares: comunicação com os mortos e reencarnação. Vemos, ao contrário, que os pesquisadores sérios estão justamente comprovando-os, para desespero dos fundamentalistas retrógrados que se apóiam em falácias, mentiras e calúnias como armas para combatê-los.

Por outro lado, tanta preocupação conosco não faz sentido algum, uma vez que não fazemos a mínima questão de recrutar adeptos, como podemos observar nessas judiciosas recomendações do codificador:

O Espiritismo tem por fim combater a incredulidade e suas funestas conseqüências, fornecendo provas patentes da existência da alma e da vida futura; ele se dirige, pois, àqueles que em nada crêem ou que de tudo duvidam, e o número desses não é pequeno, como muito bem sabeis; os que têm fé religiosa e a quem esta fé satisfaz, dele não têm necessidade.

Àquele que diz: “Eu creio na autoridade da Igreja e não me afasto dos seus ensinos, sem nada buscar além dos seus limites”, o Espiritismo responde que não se impõe a pessoa alguma e que não vem forçar nenhuma convicção.

A liberdade de consciência é conseqüência da liberdade de pensar, que é um dos atributos do homem; e o Espiritismo, se não a respeitasse, estaria em contradição com os seus princípios de liberdade e tolerância. (KARDEC, 2001, p. 122)

Mas por que desse falatório todo? Bom, caro leitor, para que você possa ter uma idéia do que se anda dizendo por aí, vamos apresentar-lhe um texto de um “parapsicatólico”, que tem como único objetivo de vida combater o Espiritismo. Essa pessoa é, como não poderia deixar de ser, um fanático religioso, que nem mesmo poupa sua crítica ferina aos que andam ao seu lado, na crença que abraça, atacando a todos os que dizem algo em contrário ao que ele vem espalhando, aos quatro cantos, contra o Espiritismo.

Quem quiser comprovar isso, ao navegar na Internet, faça uma visita ao seguinte endereço: http://www.catolicanet.com.br/gf/conteudo.asp?pagina=2928, onde está o texto intitulado “Para Entender do Espiritismo”, subtítulo “Não têm consciência” (visitado em 17.02.2006, às 13:00 horas). Tenta, o seu autor, provar que tudo não passa de coisas do inconsciente do médium, portanto, nada do que ele produz vem de outras mentes, no caso, de espíritos desencarnados, mas de sua própria, transformando o inconsciente num ser onipotente e onipresente.

Alhos e bugalhos

Já ouvimos, por incontáveis vezes, a expressão “misturando alhos com bugalhos”, cujo sentido cabe ao texto, do qual estaremos comentando aquilo que julgamos de maior relevância.

Duas pessoas podem estar usando a mesma palavra, mas dizendo coisas completamente díspares. Exemplificando: uma professora pediu a alguns de seus alunos que escrevessem, numa folha de papel, uma palavra iniciada pela letra “m”. Após alguns minutos, ela recolhe as folhas e vê que na do primeiro aluno estava escrita a palavra manga, na do segundo se lia manga e, na do terceiro, da mesma forma, aparece manga e, finalmente, na do quarto também aparece manga. Será que eles estavam falando da mesma coisa? Obviamente que a palavra que escreveram é a mesma, mas, por conta disso, os apressados concluirão que sim, ou seja, todos estavam falando a mesma coisa. Entretanto, essa não é a verdade, porquanto cada um escreveu essa palavra dentro da realidade do seu dia-a-dia. Para um deles, que morava num sítio, manga era uma fruta, enquanto que para o outro, cuja mãe era costureira, era uma parte de vestuário; para o terceiro, era uma peça de carro, visto estar trabalhando de aprendiz numa oficina mecânica, e, por fim, para o último, cujo pai era criador de bovinos de corte, a entendia como uma área de pastagem totalmente cercada para guardar o gado. Viu que ninguém falou a mesma coisa?

Pois é! É exatamente isso o que acontece com determinadas pessoas, como é o caso desse “parapsicatólico” (e “cia ltda”) que faz de sua vida um campo de guerra contra Espiritismo. Estranho, pois quem estuda Kardec deveria saber de sua opinião a respeito da liberdade e da tolerância para com os adeptos de outras religiões, conforme já a citamos um pouco atrás.

Já estarmos longe dos tempos onde a “liberdade de consciência” era de domínio das classes dominantes, tanto a civil quanto a religiosa, por isso não há sentido algum que, em pleno século XXI, ainda haja pessoas que querem encabrestar as outras com suas crenças. Se aquilo que crêem é bom para eles, ótimo, mas, pelo amor de Deus, nos deixem em paz, já que também nos rogamos no mesmo direito de acreditar naquilo que quisermos.

Por outro lado, percebemos que esses ataques são feitos numa tentativa desesperada de manterem-se no poder, jeito fácil que encontraram para manobrar os seus fiéis, que nem ousam contestá-los, que, dessa forma, usurpam o leite de suas crianças para encherem seus próprios estômagos.

Há uma frase que muito bem situa o Espiritismo: “só se jogam pedras em árvores que dão frutos”, está aí o motivo de sofrermos tantos ataques. Interessante é que nunca vimos nenhum líder religioso, do tipo desses que, sistematicamente, atacam o Espiritismo, combater, com o mesmo vigor com que nos atacam, o tráfico de drogas, agenciadores sexuais, etc., que tanto mal fazem aos nossos jovens.

Bom, vejamos a palavra que, no presente caso, tem causado essa enorme confusão entre os ignorantes daquilo que realmente ocorre nos fenômenos mediúnicos. A palavra é INCONSCIENTE, leiamos seus significados no Aurélio:

Adj. 2 g.

1.         Não consciente (1); incônscio:

2.         Med. Que está sem consciência (4):

3.         Que procede sem consciência (6) ou com desconhecimento do alcance moral daquilo que praticou:

4.         Leviano, inconsiderado, irresponsável.

5.         Em que se verifica a perda da consciência (4):

6.         Feito sem consciência (5 e 6):

7.         Psic. Pertencente ou relativo ao inconsciente (9).

S. 2 g.

8.         Pessoa inconsciente (3 e 4).

S. m.

9.         Psic. O conjunto dos processos e fatos psíquicos que atuam sobre a conduta do indivíduo, mas escapam ao âmbito da consciência e não podem a esta ser trazidos por nenhum esforço da vontade ou da memória, aflorando, entretanto, nos sonhos, nos atos falhos, nos estados neuróticos ou psicóticos, i. e., quando a consciência não está vigilante. [Cf., nesta acepç., subconsciente (2) e consciente (8).]

Complementando a explicação o Aurélio, trás também, na seqüência, o significado de INCONSCIENTE COLETIVO.

Inconsciente coletivo. Psic.

1.         Parte do inconsciente individual que procede da experiência ancestral e transparece em certos símbolos encontrados nas lendas e mitologias antigas, constituindo os arquétipos [v. arquétipo (3)].

Arquétipo está definido como:

Psic. Segundo C. G. Jung [v. junguiano], imagens psíquicas do inconsciente coletivo (q. v.), que são patrimônio comum a toda a humanidade: O paraíso perdido, o dragão, o círculo são exemplos de arquétipos que se encontram nas mais diversas civilizações.

A questão agora é saber em qual significado é empregado no Espiritismo, visto que sabemos qual é o usado na Psicanálise. É dela que os parapsicólogos o tomam emprestado.

Identificando os alhos, para separá-los dos bugalhos

Quem estuda os fenômenos mediúnicos, sabe perfeitamente que há certos médiuns que são classificados como médiuns inconscientes, tanto os que produzem fenômenos de efeitos físicos quanto os de efeitos intelectuais.

Falando dos vários sistemas engendrados para explicar esses fenômenos, Kardec cita o sistema sonambúlico, explicando-o:

45. Sistema sonambúlico. - Mais adeptos teve este, que ainda conta alguns. Admite, como o anterior, que todas as comunicações inteligentes provêm da alma ou Espírito do médium. Mas, para explicar o fato de o médium tratar de assuntos que estão fora do âmbito de seus conhecimentos, em vez de supor a existência, nele, de uma alma múltipla, atribui essa aptidão a uma sobreexcitação momentânea de suas faculdades mentais, a uma espécie de estado sonambúlico, ou extático, que lhe exalta e desenvolve a inteligência. Não há como negar, em certos casos, a influência desta causa. Porém, a quem tenha observado como opera a maioria dos médiuns, essa observação basta para lhe tornar evidente que aquela causa não explica todos os fatos, que ela constitui exceção e não regra.

Poder-se-ia acreditar que fosse assim, se o médium tivesse sempre ar de inspirado ou de extático, aspecto que, aliás, lhe seria fácil aparentar perfeitamente, se quisesse representar uma comédia. Como, porém, se há de crer na inspiração, quando o médium escreve como uma máquina, sem ter a mínima consciência do que está obtendo, sem a menor emoção, sem se ocupar com o que faz, distraído, rindo e conversando de uma coisa e de outra? Concebe-se a sobreexcitação das idéias, mas não se compreende possa fazer que uma pessoa escreva sem saber escrever e, ainda menos, quando as comunicações são transmitidas por pancadas, ou com o auxílio de uma prancheta, de uma cesta.

No curso desta obra, teremos ocasião de mostrar a parte que se deve atribuir à influência das idéias do médium. Todavia, tão numerosos e evidentes são os fatos em que a inteligência estranha se revela por meio de sinais incontestáveis, que não pode haver dúvida a respeito. O erro da maior parte dos sistemas, que surgiram nos primeiros tempos do Espiritismo, está em haverem deduzido, de fatos insulados, conclusões gerais. (KARDEC, 1996, pp. 61-62). (grifo nosso).

Este sistema se assemelha, em muito, com a opinião pessoal das pessoas que apregoam que tudo tem origem no inconsciente do médium. Kardec, em sua explicação, admite com honradez, que, em certos casos, isso realmente pode acontecer, mas não se aplica indistintamente a todos, daí diz, o codificador, ser necessário buscar uma outra explicação para esses fatos.

Sonambulismo é um estado de emancipação da alma. Uma pessoa dormindo pode acontecer que o seu espírito saia de seu corpo físico, e, nessa condição, tenha acesso a seu arquivo mental, onde estão também registrados os fatos ocorridos em outras vidas, uma vez que, eles ficam gravados no inconsciente – memória integral, segundo alguns autores -, como também há a possibilidade de que receba mensagens de outros espíritos.

Por um momento, vamos supor que esteja buscando em seu inconsciente, mas será isso o mesmo que alegam os parapsicólogos, seguidores das idéias do francês Robert Amadou? Essa corrente da Parapsicologia tem o “inconsciente” como sendo a causa produtora de todos os fenômenos mediúnicos, portanto, negam a participação de outras inteligências no processo e, nem de longe, sequer admitem a possibilidade de espíritos desencarnados serem a origem de tais coisas. Essa corrente é a que segue a maioria dos padres católicos, por razões óbvias.

Teremos que explicar melhor isso, senão a confusão ainda permanecerá. Como temos absoluta certeza de que tivemos outras vidas e que as experiências que passamos nelas não estão perdidas, uma vez que, elas ficam gravadas em nossa memória integral e podem, em determinadas circunstâncias, serem acessadas por nós. Assim, por exemplo, se numa vida passada o idioma falado por uma pessoa era inglês, ela poderá, num desses momentos de emancipação da alma, acessar esse arquivo e conseguir falar fluentemente o inglês, mesmo sem que o tenha aprendido na sua vida atual. Isso para o Espiritismo é produto do espírito do próprio médium, portanto, não é fenômeno mediúnico, mas anímico.

Essa memória integral nós podemos muito bem dizer, e acreditamos que sem erro, que é o nosso inconsciente. Mas o nosso inconsciente não cria absolutamente nada, apenas retransmite algo que aprendemos ou tivemos contato num certo momento de nossa vida, entendida aqui essa como sendo a do espírito. Se não estivermos enganados, o nosso pensamento está muito próximo daquilo que Jung chamou de inconsciente pessoal, conforme nos informa Hernani Guimarães Andrade. Senão vejamos:

“Tudo o que conheço, mas não penso, tudo aquilo de que já tive consciência mas esqueci, tudo o que foi percebido por meus sentimentos e meu espírito consciente não registrou, tudo o que involuntariamente e sem prestar atenção (isto é, inconscientemente) sinto, penso, relembro, desejo e faço, tudo o futuro que se prepara em mim e que só mais tarde se tornaria consciente, tudo isso é conteúdo do inconsciente”.

“A esses conteúdos se acrescentam as representações ou impressões penosas mais ou menos intencionalmente reprimidas. Chamo de inconsciente pessoal ao conjunto de todos esses conteúdos. (Jung, opus cit. pp. 354 e 355)”. (ANDRADE, 2005, p. 101).

Na definição Jung não diz que o inconsciente é um todo-poderoso, criador de coisas que não sabe ou nunca viu, enquanto que para os parapsicólogos que seguem a corrente francesa, o “inconsciente”, para eles, sim, é um todo-poderoso, que cria uma situação, mesmo que o indivíduo nunca tenha tido, em sua trajetória evolutiva, contato ou adquirido aquela informação. Transformaram-no, a bem da verdade, numa espécie de deus que tudo pode, tudo faz.

Voltando ao assunto, há também os casos de médium que fala ou escreve uma mensagem sem ter a mínima consciência dela, nesse caso dizemos que se trata de médium inconsciente ou mecânico. Mas não é a mesma coisa que dizermos que é produto do inconsciente desse médium. O que acontece é que o espírito comunicante age diretamente sobre o órgão físico do médium, garganta ou braço, por exemplo, sem que a mente do médium capte nada daquilo que ele, espírito, quer falar, é por isso que é inconsciente, ou seja, não tem conhecimento prévio da mensagem que transmite, por via mediúnica. Neste caso, ele age com intermediário, daí se classificar o fenômeno não como anímico, mas como mediúnico, pois está sendo medianeiro entre um espírito desencarnado e os encarnados. E, dependendo da particularidade de sua mediunidade, o médium poderá estar completamente consciente, inclusive, tabulando conversa com os assistentes, e não ter a mínima consciência da mensagem.

Normalmente os médiuns psicopictográficos (pintura mediúnica), quando em transe mediúnico, agem na mais completa inconsciência, se não todos, pelo menos a maioria deles, razão pela qual também dizemos médiuns inconscientes. Isso não significa dizer que o inconsciente deles tenha produzido tais pinturas. Entre os médiuns de psicopictografia podemos citar o baiano José Medrado.

Quem quiser conhecer as pinturas mediúnicas produzidas por ele, é só visitar: http://www.cidadedaluz.com.br/pt/medrado/galeria.php.

Neste site poder-se-á ver a sua versatilidade mediúnica, pois, até essa data (17.02.2006), produziu vários quadros por ação espiritual de trinta autores pintores, que, do plano espiritual, querem provar que, após a morte do corpo físico, a vida continua. Alguns quadros pintados por Medrado, inclusive, foram, segundo informações que ouvimos, pesquisados por uma Universidade da França que atestou serem autênticos, baseando-se no que se conhece do estilo do autor por suas pinturas realizadas quando vivo. Uma observação: esse médium fora do transe mediúnico não pinta nem “o sete”, fato que também se verifica com muitos outros com esse tipo de mediunidade.

Para entender o que o Espiritismo fala

Esclarecendo a seus consulentes, o “parapsicatólico” disse:

Diz Allan Kardec em "O Livro dos Médiuns" (nn. 179-180) com referência à psicografia (e à paracinesia: mesa dançante, brincadeira do copo, radiestesia etc.):

"Pode o espírito exprimir suas idéias, quer movimentando um objeto, a mão do médium servindo de simples ponto de apoio, quer acionando a própria mão (...). O que caracteriza o fenômeno é que o médium não tem a menor consciência do que escreve (...). É preciosa esta faculdade por (...). Todavia, é possível reconhecer o pensamento sugerido por não ser nunca preconcebido; nasce à medida que a escrita vai sendo traçada".

Os espíritas kardecistas falam também de mediunidade mecânica. Escreve Allan Kardec (n.45).

"O médium escreve como uma máquina, sem ter a mínima consciência do que está obtendo, sem a menor emoção, sem se ocupar com o que faz, distraído, rindo e conversando de uma coisa e outra".

Bom, o Capítulo XV de O Livro dos Médiuns trata apenas dos médiuns escreventes ou psicógrafos, assim, o que ali está se restringe apenas ao assunto tratado. Como é muito comum encontrarmos certas pessoas tentando distorcer as palavras de Kardec, se nos permite a paciência do leitor, iremos colocar esses dois itens na íntegra, vejamo-los:

Médiuns mecânicos

179. Quem examinar certos efeitos que se produzem nos movimentos da mesa, da cesta, ou da prancheta que escreve não poderá duvidar de uma ação diretamente exercida pelo Espírito sobre esses objetos. A cesta se agita por vezes com tanta violência, que escapa das mãos do médium e não raro se dirige a certas pessoas da assistência para nelas bater. Outras vezes, seus movimentos dão mostra de um sentimento afetuoso. O mesmo ocorre quando o lápis está colocado na mão do médium; freqüentemente é atirado longe com força, ou, então, a mão, bem como a cesta, se agitam convulsivamente e batem na mesa de modo colérico, ainda quando o médium está possuído da maior calma e se admira de não ser senhor de si Digamos, de passagem, que tais efeitos demonstram sempre a presença de Espíritos imperfeitos; os Espíritos superiores são constantemente calmos, dignos e benévolos; se não são escutados convenientemente, retiram-se e outros lhes tomam o lugar. Pode, pois, o Espírito exprimir diretamente suas idéias, quer movimentando um objeto a que a mão do médium serve de simples ponto de apoio, quer acionando a própria mão.

Quando atua diretamente sobre a mão, o Espírito lhe dá uma impulsão de todo independente da vontade deste último. Ela se move sem interrupção e sem embargo do médium, enquanto o Espírito tem alguma coisa que dizer, e pára, assim ele acaba.

Nesta circunstância, o que caracteriza o fenômeno é que o médium não tem a menor consciência do que escreve. Quando se dá, no caso, a inconsciência absoluta; têm-se os médiuns chamados passivos ou mecânicos. E preciosa esta faculdade, por não permitir dúvida alguma sobre a independência do pensamento daquele que escreve.

Médiuns intuitivos

180. A transmissão do pensamento também se dá por meio do Espírito do médium, ou, melhor, de sua alma, pois que por este nome designamos o Espírito encarnado. O Espírito livre, neste caso, não atua sobre a mão, para fazê-la escrever; não a toma, não a guia. Atua sobre a alma, com a qual se identifica. A alma, sob esse impulso, dirige a mão e esta dirige o lápis. Notemos aqui uma coisa importante: é que o Espírito livre não se substitui à alma, visto que não a pode deslocar. Domina-a, mau grado seu, e lhe imprime a sua vontade. Em tal circunstância, o papel da alma não é o de inteira passividade; ela recebe o pensamento do Espírito livre e o transmite. Nessa situação, o médium tem consciência do que escreve, embora não exprima o seu próprio pensamento. E o que se chama médium intuitivo.

Mas, sendo assim, dir-se-á, nada prova seja um Espírito estranho quem escreve e não o do médium. Efetivamente, a distinção é às vezes difícil de fazer-se, porém, pode acontecer que isso pouca importância apresente. Todavia, é possível reconhecer-se o pensamento sugerido, por não ser nunca preconcebido; nasce à medida que a escrita vai sendo traçada e, amiúde, é contrário à idéia que antecipadamente se formara. Pode mesmo estar fora dos limites dos conhecimentos e capacidades do médium.

O papel do médium mecânico é o de uma máquina; o médium intuitivo age como o faria um intérprete. Este, de fato, para transmitir o pensamento, precisa compreendê-lo, apropriar-se dele, de certo modo, para traduzi-lo fielmente e, no entanto, esse pensamento não é seu, apenas lhe atravessa o cérebro. Tal precisamente o papel do médium intuitivo. (KARDEC, A. O Livro dos Médiuns, Rio de Janeiro: FEB, 1996, pp. 222-223)

45. Sistema sonambúlico. - Mais adeptos teve este, que ainda conta alguns. Admite, como o anterior, que todas as comunicações inteligentes provêm da alma ou Espírito do médium. Mas, para explicar o fato de o médium tratar de assuntos que estão fora do âmbito de seus conhecimentos, em vez de supor a existência, nele, de uma alma múltipla, atribui essa aptidão a uma sobreexcitação momentânea de suas faculdades mentais, a uma espécie de estado sonambúlico, ou extático, que lhe exalta e desenvolve a inteligência. Não há negar, em certos casos, a influência desta causa. Porém, a quem tenha observado como opera a maioria dos médiuns, essa observação basta para lhe tornar evidente que aquela causa não explica todos os fatos, que ela constitui exceção e não regra.

Poder-se-ia acreditar que fosse assim, se o médium tivesse sempre ar de inspirado ou de extático, aspecto que, aliás, lhe seria fácil aparentar perfeitamente, se quisesse representar uma comédia. Como, porém, se há de crer na inspiração, quando o médium escreve como uma máquina, sem ter a mínima consciência do que está obtendo, sem a menor emoção, sem se ocupar com o que faz, distraído, rindo e conversando de uma coisa e de outra? Concebe-se a sobreexcitação das idéias, mas não se compreende possa fazer que uma pessoa escreva sem saber escrever e, ainda menos, quando as comunicações são transmitidas por pancadas, ou com o auxílio de uma prancheta, de uma cesta.

No curso desta obra, teremos ocasião de mostrar a parte que se deve atribuir à influência das idéias do médium. Todavia, tão numerosos e evidentes são os fatos em que a inteligência estranha se revela por meio de sinais incontestáveis, que não pode haver dúvida a respeito. O erro da maior parte dos sistemas, que surgiram nos primeiros tempos do Espiritismo, está em haverem deduzido, de fatos insulados, conclusões gerais. (KARDEC, A. O Livro dos Médiuns, Rio de Janeiro: FEB, 1996, pp. 61-62).

Observar que Kardec, ao iniciar o item 179, é claro dizendo “Quem examinar certos efeitos que se produzem nos movimentos da mesa, da cesta, ou da prancheta que escreve não poderá duvidar de uma ação diretamente exercida pelo Espírito sobre esses objetos”. Certamente o nosso crítico nunca examinou absolutamente nada desses fenômenos, já que seu dogmatismo religioso o cega para esse tipo de realidade. Entretanto, admite que os que comungam a seu lado possam ter visto, recebido mensagens ou conversado com os seus santos, católicos desencarnados, evidentemente, sem ser produto do inconsciente desses médiuns.

Como havíamos previsto, as pinceladas do que Kardec fala fazem, na versão do “parapsicatólico”, um argumento para sua hipótese, quando, o codificador deixa bem claro que há independência de pensamento entre o médium e o espírito comunicante. Que pelos exames feitos dá-se perfeitamente para estabelecer que existe no fenômeno um pensamento estranho ao médium, cuja inteligência e vontade própria não se confunde com o do médium. Afirma também aqui a existência do médium consciente e do inconsciente, embora não no sentido daquele que pensa esse nosso opositor sistemático.

Continuando nossa análise:

Acrescenta Aksakof no seu "Animismo e Espiritismo":

"Se um médium escreve (...) e se não pode reproduzir de maneira exata, precisa, o que ele próprio escreveu, quer em estado sonambúlico, quer quando tiver voltado ao estado normal, ficaremos no direito de pretender que está aí a prova irrecusável de que a consciência sonambúlica do médium foi alheia à sua atividade mediúnica e de que não teve naquilo parte alguma".

### Evidentemente. O problema é a respeito de quem é o ser inteligente que age nesses casos de "sonambulismo" ou transe: o espírito do morto ou o inconsciente do vivo?

Usar Aksakof para sustentar suas idéias é o máximo da incoerência, pois esse autor no livro Animismo e Espiritismo, demonstra, categoricamente, a existência do fenômeno mediúnico, combatendo exatamente essa tese de que tudo é produto do inconsciente, esse sabe-tudo criado pelos parapsicólogos dogmáticos. Só mesmo um insano para fazer uma coisa dessas.

E, por via das dúvidas, vamos ver o que ele, Aksakof, escreveu neste trecho citado que responderá à pergunta colocada:

7 - Diversos fenômenos de gênero misto-composto.

- O Sr. Hartmann nos diz: «A escrita em questão só é relativamente inconsciente, é consciente para a consciência sonambúlica latente; vemos a prova disso no fato de o médium, posto no estado de sonambulismo aparente, recordar-se do que escreveu em estado inconsciente e fornecer mesmo, a tal respeito, explicações verbais» (pág. 58); e mais adiante: «Se um médium, achando-se em estado sonambúlico, pode comunicar de viva voz o conteúdo exato de uma comunicação escrita, a distância, e acerca da qual não tinha conhecimento algum em estado de vigília, encontramos aí a prova absoluta de que a consciência sonambúlica do médium não é alheia à sua atividade mediúnica, que participa dela, de certa maneira.» (Pág. 113.)

Por conseguinte, se um médium escreve em estado sonambúlico, e se não pode reproduzir de maneira exata, precisa, o que ele próprio escreveu, quer em estado sonambúlico, quer quando tiver voltado ao estado normal, ficaremos no direito de pretender que está aí «a prova irrecusável» de que a consciência sonambúlica do médium foi alheia à sua atividade mediúnica e de que não teve naquilo parte alguma.

Encontramos essa prova no fato seguinte:

«Um correspondente que se assina F. E. B., tenente do Exército Real, membro da Sociedade Real asiática, publicou no jornal «Knowledge» de 2 de Março de 1883 a narração seguinte referente à escrita por meio da prancheta:

«Pus-me a fazer, há algum tempo, experiências com a prancheta: eu estava convencido, então, de que essa escrita era produzida pela atividade inconsciente da pessoa que colocava as mãos em cima do aparelho (sendo excluída toda a possibilidade de fraude). Esta explicação, se é exata, deve fornecer curiosos esclarecimentos acerca da atividade do cérebro. Eu conhecia, por felicidade, uma pessoa com a qual a pequena régua escrevia sempre admiravelmente bem, de maneira que me pude entregar a diversas experiências interessantes. Quando eu colocava a sua mão sobre o pequeno aparelho (que eu mesmo tinha feito, e que constava de uma régua na qual eu tinha feito um orifício para nele fixar o lápis) e apresentava uma pergunta, a resposta era dada com admirável presteza, com maior rapidez que se empregaria em escrevê-la pelo processo natural; a escrita era mui legível, se bem que o seu caráter mudasse freqüentemente, diferindo sempre absolutamente da escrita do médium; considero esta particularidade como muito significativa. Essa senhora ignorava o que escrevia até à ocasião de fazer a sua leitura. Em muitos casos, a comunicação, assim transmitida, só era conhecida por mim ou por uma outra pessoa somente, das que estavam presentes, e não podia ser devida, segundo a teoria da ação inconsciente, senão a um efeito da leitura de pensamentos.

«Mas é principalmente a experiência seguinte que eu desejaria assinalar à vossa atenção: magnetizei essa senhora por muitas vezes. Como é o caso habitualmente, ela podia responder a diversas perguntas durante seu estado de sono; mas ao despertar não se recordava mais de coisa alguma. (Farei notar, de passagem, que, se lhe sucedia perder um objeto qualquer no estado de vigília, ela podia indicar de cada vez, estando adormecida, o lugar em que tinha posto esse objeto.) Tive pois a lembrança de colocar suas mãos sobre a régua enquanto ela estava imersa em sono magnético. Recebi, como sempre, uma resposta à minha pergunta; antes de a ler, perguntei à médium o que ela tinha escrito; estava persuadido de que mo diria imediatamente. Porém, não pôde fazê-lo.

«Não é uma prova de que as palavras escritas por ela não eram produto de seu cérebro, nem em sua atividade normal, nem no estado especial que caracteriza o sono mesmérico? Devemos, por conseguinte, ou admitir um terceiro estado, desconhecido até o presente, ou. pelo contrário apelar para a idéia de um agente exterior, que não estou muito disposto a aceitar.» («Light», 1883, pág. 124.)

O erro do Sr. Hartmann provém de ter querido generalizar sua afirmação; pois, pelo fato de em grande número de casos a escrita ser obra da consciência sonambúlica, não resulta necessariamente que, em outros casos, ela não obedeça a uma sugestão de fonte estranha. A possibilidade dessa última origem é aparente no fenômeno seguinte, exposto pelo Sr. Young, a quem já conhecemos pelas citações que fizemos do «falar em línguas estrangeiras».

O Sr. Young refere o fato seguinte, que se deu por intermédio de sua mulher:

«Em uma sessão organizada em casa do Dr. Haskel, em presença do Dr. Budd e dos Srs. Kimball, Miller, Kilburne e outros, minha mulher falava em estado de transe, em nome de uma italiana que dizia chamar-se Leonor. Como minha mulher se prestasse freqüentemente a essas experiências magnéticas, um dos assistentes emitiu a suposição de que o «Espírito» que se manifestava não era outro senão o espírito do próprio magnetizador, que ali estava presente, entre os visitantes; ele propôs, conseguintemente, que o médium fosse subtraído àquela influência: o magnetizador devia mergulhá-la em sono mesmérico e tentar implantar-lhe a mesma personalidade.

«A médium foi imediatamente chamada ao estado normal e em seguida magnetizada. Obedecendo à vontade do magnetizador, ela começou a cantar com muito sentimento a ária bem conhecida de «Annie Laurie». Esse resultado encheu de satisfação as pessoas cépticas que acreditavam ver aí a demonstração de sua teoria. Mas o. triunfo foi de curta duração: quando ela estava na metade do último verso, a força estranha arrancou-a subitamente à influência do magnetizador, que, desde aquele momento, não teve mais poder sobre ela. Todos os esforços que empregou para coagi-la a terminar a canção foram vãos. Então ele desejou, pelo menos, livrá-la daquela influência que a dominava; mas, pela primeira vez, perdeu toda a influência sobre o seu sensitivo. Vendo o caminho inesperado que tomava a experiência, um dos assistentes externou este desejo: desde que a médium se acha sob a influência do «Espírito» de uma italiana, sugiram-lhe que cante uma ária nessa língua. Por mais surpreendente que isso possa parecer, esse desejo foi realizado sem demora, e os assistentes ficaram encantados pela excelente execução do trecho. Não havia italianos entre nós, mas algumas pessoas sabiam essa língua muito bem para poderem julgar dela. Essas experiências foram repetidas por muitas vezes, e pudemos ouvir minha mulher falar italiano.»

Neste caso, vemos que a sugestão do magnetizador visível teve que ceder à sugestão de um magnetizador mais poderoso, se bem que invisível.

Mas eis outro exemplo, ainda mais curioso: foi o magnetizador invisível que teve que ceder o lugar a outro magnetizador, igualmente invisível; talvez também uma comunicação ditada pela consciência sonambúlica da médium fosse subitamente interrompida por uma comunicação proveniente de outra fonte. Em carta publicada pelo «Religio Philosophical Journal», o Sr. Brittan, escritor espiritualista conhecido, refere assim esse fenômeno:

«Em 1852, em certa manhã, eu assistia a uma sessão, em Greenfield, Mass., com o médium D. D. Home, que se tornou tão célebre mais tarde. Um dos assistentes recitava o alfabeto, e as comunicações faziam-se por meio de pancadas. Em dado momento, essas pancadas se tornaram muito fortes, e o sinal convencionado (cinco pancadas) nos advertiu de que o alfabeto era reclamado. Alguém fez a observação de que esse pedido não tinha sentido algum, visto que o alfabeto já estava sendo recitado. O mesmo sinal foi repetido, ao mesmo tempo que a mesa dava violentos balanços, o que deu ocasião a que um dentre nós fizesse a reflexão de que a harmonia tinha sido substituída por medonha desordem. Acreditando ter adivinhado de que se tratava, fiz notar que não era necessariamente uma desordem, que, talvez, outra individualidade tivesse interrompido a comunicação, tendo provavelmente que nos comunicar alguma coisa urgente. Minha suposição foi imediatamente confirmada por pancadas dadas em diversas partes do aposento, e por grande estremecimento da mesa. Comecei a recitar o alfabeto e recebi esta confirmação: «Volta para casa, teu filho está doente, parte imediatamente, ou então chegarás tarde.» Tomei a mala de mão e parti. Apenas me achei na rua ouvi o silvo do trem que chegava à estação; era o último trem pelo qual eu podia ir para casa naquela noite, Eu estava distante da estação cerca de um oitavo de milha; comecei a correr o melhor que pude e cheguei no momento em que o trem se punha em movimento. Apenas tive o tempo preciso de saltar para a plataforma de trás do último vagão, Ao chegar em casa, verifiquei a exatidão rigorosa da comunicação espírita.» («Light», 1881, pág. 260.)

Qual poderia ser, segundo o Sr. Hartmann, a causa dessa interrupção de comunicação? É evidente que ela não residia no médium. Seria talvez um «despacho telegráfico» da consciência sonambúlica de um dos membros da família Brittan? Mas o Sr. Hartmann não admite as comunicações a grande distância, a não ser sob a forma de alucinação - tese que discutiremos mais tarde -, ao passo que no caso considerado ela se efetuou por meio de pancadas e de movimentos da mesa. Além disso, de que maneira a consciência sonambúlica teria tido conhecimento da aproximação do trem?

Eis ainda um caso semelhante. A causa da interrupção não é determinada; entretanto nada permite acreditar que essa causa deva ser procurada no próprio médium. Tiro a narração do fenômeno de que se trata ao reverendo Adin Ballou, em uma citação do professor Robert Hare («Experimental Investigation of the Spirit Manifestations», § 1602).

«Os agentes ocultos me haviam convidado a fazer, em lugar indicado e em determinada ocasião, um sermão sobre um tema qualquer, com a promessa de manifestar sua aprovação por meio de pancadas; o que foi executado com rigorosa exatidão. Certo dia, no decurso de uma sessão, a pergunta seguinte foi soletrada, sem que a lembrança de tal coisa tivesse ocorrido a quem quer que fosse: - «Escolheste o tema de teu sermão do domingo próximo?» - «Sim, um só, respondi; não me indicarás um tema para meu sermão da noite?» - «Sim.» - «Qual?» A comunicação começou pela letra O, e deteve-se. Eu ainda estava a admirar tal interrupção, quando outra individualidade invisível se manifestou, mas substituindo as pancadas por movimentos da mesa. Ela me informou que seu predecessor, o Espírito batedor, tinha sido chamado a outra parte, por pouco tempo, e que não tardaria em voltar. Efetivamente, um quarto de hora depois, meu primeiro interlocutor recomeçou a comunicação interrompida e terminou-a assim: segundo capítulo da primeira epístola aos Coríntios, versículos 12 e 13. Nenhum dos assistentes podia recordar-se do texto designado, que se verificou ser muito apropriado a um sermão naquele dia.»

Se essa interrupção fosse obra da consciência sonambúlica, a que razão plausível é preciso atribuir a substituição das pancadas por movimentos da mesa?

Eis outro caso, finalmente, em que nos é forçoso .escolher entre a admissão de um terceiro fator e o alibi ,da consciência sonambúlica:

«A jovem Mary Banning, médium, achando-se em casa do Sr. Moore, em Winchester (Conn.) a 14 de Junho de 1852, tinha chamado o Espírito de seu irmão, Josiah Banning; mas, contra seu hábito, ele próprio não se manifestou. O convite foi repetido durante toda a noite, porém em vão. Finalmente, à última hora, na ocasião em que todas as pessoas presentes iam retirar-se para se deitar, a presença de Josiah Banning foi bruscamente anunciada. O Espírito declarou que não atendera aos chamados que lhe dirigiram na primeira parte da noite, porque ele passara todo o dia na companhia de sua irmã Edith. A moça Edith Banning estava em Hartland (Conn.), a 16 milhas dali, como mestra de escola. Pouco tempo depois Mary Banning recebia uma carta de sua irmã Edith, escrita no dia seguinte pela manhã do dia em que se tinha realizado em casa do Sr. Moore a entrevista espírita da qual acabo de falar, e a moça Edith dizia que Josiah tinha passado perto dela todo o dia precedente e que sua visita a tinha impedido de dormir durante toda a noite.» (S. R. Brittan e Richmond, «Uma discussão sobre os fatos e a filosofia do Espiritualismo antigo e moderno», Nova Iorque, 1853, página 289.)

Eis duas irmãs médiuns, as moças Mary e Edith Banning, cujas consciências sonambúlicas deveriam estar de perfeito acordo, agir harmonicamente, e às quais o pretendido Espírito de Josiah Banning, seu irmão, deveria ter-se manifestado ao mesmo tempo! Entretanto, da narração que acabamos de citar, resulta que sucederam as coisas de modo diverso.

Ainda posso fazer menção aqui de uma experiência que foi feita em minha presença, em círculo íntimo; esse fato pertence antes à primeira série, mas coloco-o aqui como introdução, ao que se segue, onde figurarão as mesmas personagens.

A 17 de Outubro de 1873, terça-feira, eu assistia em Londres a uma sessão dada por uma médium de profissão, a Sra. Olívia; um dos Espíritos que ela invocava, Hambo, que pretendia ter sido um negro da Jamaica, dirigiu-me a palavra e disse-me entre outras coisas que gostava de ocupar-se da formação dos médiuns. Notando a esmeralda do anel que eu tinha no dedo, disse-me «que não apreciava a esmeralda, porque suas emanações são más»; porém acrescentou que essa pedra não me prejudicava, por ser lembrança de um amigo, o que era verdade: esse anel me tinha sido dado por V. J. Dahl. Disse também que ele e os Espíritos em geral preferem o brilhante como símbolo da pureza. «Sua mulher, diz ele, tem um brilhante no anular da mão esquerda» (o que era exato). «Estás vendo-o?», perguntei-lhe. «Sim, é uma médium notável (o fato também era exato), uma excelente mulher: sua mão esquerda ignora o que dá a direita» (o que era verdade ainda).

Hambo prometeu ir visitar-nos em São Petersburgo a fim de contribuir para o desenvolvimento das faculdades mediúnicas de minha mulher, e combinamos em que sua primeira visita fosse na quinta-feira, a contar de 17 de Outubro, isto é, a 20 de Novembro, às 8 horas da noite, e que ele se comunicaria por pancadas, pois que minha mulher não falava, em estado de transe. Eu tinha escolhido a terça-feira porque era o dia em que tinha o hábito de fazer com ela sessões inteiramente íntimas. Logo depois de meu regresso a São Petersburgo, recomeçamos nossas sessões; a ninguém eu tinha dito coisa alguma acerca da promessa que Hambo me tinha feito, e, quando comecei a sessão de 20 de Novembro, estava naturalmente preocupado com essa idéia, e, quando perguntei a mim mesmo se Hambo realizaria ou não a promessa, inclinava-me pela afirmativa. Entretanto, nada sucedeu. Essa falta não era de minha mulher, parecia-me evidente, pois que essa sessão não deixou de dar resultados e porque tivemos uma comunicação proveniente de outra parte. Assim, pois, sua consciência sonambúlica funcionava, e era realmente o momento de ler em nossos pensamentos e de fazer com que Hambo falasse.

As condições eram das mais favoráveis, pois que, como o diz o Sr. Dr. Hartmann, «um médium tem sempre grande interesse em adivinhar os pensamentos, conscientes e latentes, dos espectadores, pois que seu interesse é fazer comunicações surpreendentes, e nada impressiona mais ao «bom senso» dos assistentes do que ver comunicar coisas que eles acreditam ser os únicos a saber, ou que escapam mesmo à sua consciência no estado de vigília. É preciso, pois, supor sempre no médium a vontade de perceber. Se sucede ao médium trabalhar perante pessoas que, de seu lado, têm igualmente interesse em que se dêem fenômenos admiráveis, então o desejo de apoiar o médium e de lhe aplainar tanto quanto possível todas as dificuldades, deve necessariamente desenvolver-se nessas pessoas, o que dará em resultado incitar a vontade inconsciente a transmitir as idéias. Além disso, no decurso das sessões as mãos dos vizinhos se tocam, condição muito favorável à transmissão dos pensamentos.» (Pág. 72.)

Por que razão, pois, essa transmissão não se deu, pois que as condições requeridas estavam ali reunidas?

Como quer que seja, a experiência não deu resultado; não fiquei surpreso, sabendo quão pouco nos devemos fiar dessas espécies de fiscalização, e não pensei mais em tal coisa. Não tendo que felicitar-me com os resultados de minha tentativa, a ninguém falei nisso. Na terça-feira seguinte, fizemos uma pequena sessão de três pessoas, em companhia do professor Boutlerow. Apaguei a luz, ficando o aposento suficientemente iluminado pelo gás da rua. O alfabeto inglês foi pedido; repeti-o, e escrevi as letras indicadas pelas pancadas do pé da mesa em roda da qual estávamos reunidos. Não podendo acertar com o sentido das palavras traçadas, parei para acender a vela e orientar-me; minha mulher já estava em estado de transe, e, no papel, li as letras seguintes:

«gamhereanewaslasttemewthyou

Compreendi que se soletrava alguma coisa que poderíamos compreender mais tarde; por conseguinte, tornei a apagar a luz e comecei a recitar o alfabeto; entretanto, não conseguia descobrir o sentido das sílabas reunidas. Finalmente, quando terminou a comunicação, acendi a vela, e examinei o que tinha escrito durante esses últimos instantes, e li o que se segue:

As I promised, but I cannot yet take entirely control over her. - Hambo. (Como o tinha prometido, mas não posso tomá-la ainda completamente à minha conta. - Hambo.).

As letras tinham sido indicadas muitas vezes por pancadas dadas na mesa, e na última palavra essa executou movimentos violentos. Minha mulher, que tinha estado em transe durante toda a sessão, voltou a si placidamente no final da comunicação.

Então comecei a decifrar a primeira frase, e, substituindo algumas letras, obtive a frase seguinte: I am here and was last time with you. (Estou aqui e estava perto de ti na última vez.)

Porque então a consciência sonambúlica da médium descobria em meu cérebro a imagem de Hambo e a personificava, quando essa imagem não mais se achava em meu cérebro, a não ser em estado latente?

Já que acabo de falar de Hambo, posso agora citar uma experiência absolutamente única nos anais do Espiritismo e que encontra o seu lugar neste capítulo:

Na sessão seguinte éramos ainda três e aguardávamos a vinda de Hambo; mas, em vez do alfabeto inglês, pediu-se o alfabeto russo. Depois de algumas frases referentes à mediunidade de minha mulher, todas as quais interpretamos, pedem de novo o alfabeto. Eu tinha apagado a luz, e recitava e inscrevia as letras russas, sem poder lê-las, e fiz observar que eu tinha escrito em letras russas y u h (*), que provavelmente era a palavra inglesa which, e que era preciso recitar o alfabeto inglês. (É preciso explicar aqui que as três letras russas pronunciam-se u, i, tsch, ou, juntamente, como a palavra inglesa which.) Comecei por conseguinte a soletrar em inglês; imediatamente a comunicação parou. Acendi a vela, e vi que tinha escrito de maneira absolutamente correta Youh wife, «sua mulher» (na escrita, a letra r é igual ao h russo).

Assim não eram, como eu o tinha pensado a princípio, as letras russas y u h, porém a palavra inglesa your, e era essa palavra que tinha sido soletrada enquanto eu recitava o alfabeto russo; por conseguinte, aquele que ditava se tinha servido da forma das letras russas que se refletiam em meu pensamento, à proporção que eu repetia as letras, para compor dessa maneira uma palavra inglesa.

Eu já tinha tido oportunidade de ver por muitas vezes darem-se comunicações em língua estrangeira com letras russas, segundo sua semelhança de som com letras estrangeiras, quando era o alfabeto russo que era soletrado, - e foi por essa razão que tomei as letras russas y u h pela palavra inglesa which, - mas foi a primeira e única vez em que vi servirem-se da forma das letras russas, correspondendo à forma das letras de outra língua. Repito-o, não encontrei em parte alguma a narração de um fato semelhante, e acredito poder acrescentar que não há outro nos anais do Espiritismo.

Pode-se indagar por que motivo a consciência sonambúlica de minha mulher, que dispunha igualmente do alfabeto russo e do alfabeto inglês, não pediu imediatamente o alfabeto inglês, ou, finalmente, porque não soletrou as palavras inglesas servindo-se de letras russas que tivessem a mesma consonância; a palavra your, por exemplo, reproduz-se facilmente e mui exatamente por outras letras russas. Porém, não! o alfabeto russo foi utilizado exatamente da mesma maneira que o teria feito um estrangeiro que não conhecesse tal alfabeto e escolhesse somente letras que se assemelhassem pela forma às letras de sua língua.

Fenômenos desse gênero, que permitem supor a intervenção ativa de um terceiro fator, são numerosos no Espiritismo, mas deram-lhe geralmente pouca importância. Veja-se o que diz o Dr. Wolfe acerca do célebre médium Mansfield, que escrevia com ambas as mãos ao mesmo tempo em que falava:

«Vi o Sr. Mansfield escrevendo na mesma ocasião duas comunicações, uma com a mão direita, a outra com a esquerda, e isso em língua que desconhecia por completo. Enquanto se entregava a essa dupla ocupação,. conversava comigo acerca de assuntos diversos ou prosseguia em uma conversação começada antes de seu trabalho gráfico a duas mãos, dessa maneira, enquanto me falava de modo mui sensato, suas mãos também conversavam.

«Recordo-me com muita exatidão de que certo dia o Sr. Mansfield, enquanto escrevia com as mãos, em duas línguas, disse-me: «Wolfe, conhece na Colômbia um homem chamado Jacobs?» Respondi afirmativamente. Ele continuou: «Ele está aqui e deseja anunciar-lhe que deixou o invólucro mortal hoje de manhã.» Tive a confirmação dessa notícia. O fato passou-se a uma distância de algumas centenas de milhas. Que explicação se pode dar dessa tríplice manifestação intelectual?» (Wolfe - «Startling Facts in Modem Spiritualism», Cincinnati, 1874, pág. 48.)

O reverendo J. B. Fergusson, na página 57 de seu livro «Supramundane Facts» (Londres, 1865), dá testemunho de um fato semelhante. Um caso análogo, dado recentemente, é referido nos «Proceedings» (Memórias) da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, do ano de 1887, pág. 222.

O Sr. Crookes conta um caso semelhante: «Vi a Srta. Kate Fox (mais tarde Sra. Jencken) escrever automaticamente uma comunicação dirigida a uma das pessoas presentes, ao mesmo tempo em que fazia uma comunicação a outra pessoa, sobre assunto inteiramente diverso, por meio do alfabeto interpretado por pancadas, conversando, durante esse tempo, com uma terceira pessoa, acerca de coisas que nada tinham de comum com essas comunicações.» (Crookes, «Pesquisas», pág. 95.)

Finalmente, eu mesmo me recordo de que certo dia estando a Sra. Jencken em minha casa, em meu gabinete de trabalho, sentada à mesa, recebeu uma comunicação por escrito, e ao mesmo tempo se faziam ouvir pancadas perto dela, à direita e à esquerda, não alternativas, porém simultâneas.

Em fenômenos físicos, há numerosos exemplos em que um trecho de música foi tocado em muitos instrumentos (até seis) ao mesmo tempo, o que permite concluir pela pluralidade de centros agindo conscientemente. Vede, por exemplo, o número 372 de «Light».

Vou fechar este capítulo, mencionando um fato dos mais extraordinários, que se deu no começo do movimento espírita e cuja narração foi publicada no «Rochester Daily Magnet», de 26 de Fevereiro de 1850, com a assinatura das oito pessoas que tinham estado presentes. Encontrei esta narração no livro do Sr. Capron, «Espiritualismo Moderno» (págs. 82-87); porém só publicarei aqui um breve resumo.

Trata-se de uma comunicação idêntica dada, ao mesmo tempo, por pancadas, em dois aposentos da mesma casa, afastados um do outro.

O Sr. Draper tinha em sua família uma clarividente; dirigiu-se por seu intermédio ao Espírito de Benjamim Franklin, que ela pretendia ver, e apresentou-lhe esta pergunta: «Podem-se receber comunicações por meio de pancadas, em dois lugares separados?»

Depois da resposta afirmativa de Franklin e observando as instruções que ele tinha dado, as duas moças Catarina e Margarida Fox foram convidadas pelo Sr. Draper, assim como por alguns de seus amigos, a reunir-se a 15 de Fevereiro seguinte. Uma parte da assistência, com um dos médiuns, ficou no salão; e a outra, como segundo médium, dirigiu-se a um aposento situado no extremo oposto da casa. Ouviram-se pancadas ao mesmo tempo nos dois grupos.

Mas como se dessem interrupções a cada instante pela entrada de recém-chegados, os assistentes que se conservavam no salão receberam pouco depois esta comunicação: «As coisas não estão organizadas como pedi, eis porque não podem fazer a experiência atualmente. Não devem estar mais de quatro pessoas em cada aposento».

Quando o primeiro grupo se juntou ao segundo, verificou-se que as comunicações recebidas dos dois lados eram absolutamente idênticas.

Uma segunda sessão foi fixada para 20 de Fevereiro, e dessa vez as instruções de Benjamim Franklin foram seguidas à letra. O primeiro grupo recebeu esta comunicação: -«Agora estou pronto, meus amigos. Grandes transformações produzir-se-ão no XIX século. As coisas que lhes parecem obscuras e misteriosas tornar-se-ão compreensíveis. O mundo ficará esclarecido. Assino meu nome: Benjamim Franklin. Não entrem no outro aposento.»

O segundo grupo tinha recebido a mesma comunicação; somente a última frase estava modificada assim: «Vão à sala de visitas, e confrontem as notas que tomaram.» (Pág. 86.)

Que explicação natural se pode dar deste fato? É uma transmissão inconsciente de pensamentos entre dois médiuns distanciados um do outro? Devendo os dois médiuns funcionar ao mesmo tempo, as transmissões de impressões deveriam entrecruzar-se e juntar-se confusamente. Supondo-se que uma comunicação seja dada a princípio por um médium e reproduzida imediatamente pelo outro, as dificuldades não seriam menores. É preciso suspeitar que os médiuns tinham preparado as duas comunicações idênticas, antes da sessão? Mas não se deve esquecer que os médiuns eram duas crianças e, além disso, que nunca médium algum produziu pancadas à vontade!

Todas essas tentativas de explicações se desfazem perante o fato preciso de que na primeira reunião os médiuns não sabiam nem sequer que eram convidados para uma experiência especial e que ignoravam em que ela devia consistir, - assim como o afirmou formalmente o Sr. Draper. (Pág. 84.)

(*) Nota da Editora - Por não possuirmos o tipo, representamos por um "h" a letra russa, mais ou menos semelhante a um "h" invertido.

(AKSAKOF A. Animismo e Espiritismo, vol. 2, Rio de Janeiro: FEB, 2002, pp. 121-134) (grifos do original).

  Aksakof, nesse ponto do volume 2 de seu livro, procura demonstrar que há um terceiro fator, que não a inteligência do médium, daí o título do capítulo: Da natureza do agente inteligente que se manifesta nos fenômenos do Espiritismo, cuja proposta é “Exame do princípio fundamental do Espiritismo; apresenta ele fenômenos cuja causa deva ser procurada fora do médium?”. Coloca várias situações para demonstrar cabalmente essa independência entre a vontade de quem dá a mensagem e a do médium. Quem diz ser o contrário que então conteste tudo quanto foi colocado por este pesquisador, usando evidentemente critérios científicos e não inconscientes fundamentos dogmáticos.

  Apresenta o crítico, em seguida, as suas considerações sobre as pesquisas de William Crookes, vejamos o que fala:

William Crookes começa por compreender que a maioria dos fenômenos espiritóides é na realidade manifestação das faculdades dos vivos. Mas o falso argumento de "não ter consciência", dado o total desconhecimento de psicologia naquela época, inicialmente confundia o grande físico e grande pioneiro da pesquisa em parapsicologia (como antes enganara a Allan Kardec e a todos os pioneiros do Espiritismo). Escrevia W. Crookes:

"É do médium ou de uma das pessoas presentes que estão no aposento, ou antes essa inteligência está fora deles? Sem querer, presentemente, pronunciar-me de modo positivo sobre esse ponto, posso dizer que, mesmo constatando que em muitos casos a vontade e a inteligência do médium parecerem ter tido muita ação nos fenômenos, observei também vários casos que pareceram mostrar de uma maneira concludente, a ação de uma inteligência exterior e estranha a todas as pessoas presentes".

### Não fica de maneira nenhuma claro, como freqüentemente deturpam os espíritas, que Crookes aqui aluda aos espíritos dos mortos. Imediatamente acrescenta em nota:

"Desejo que se entenda bem o sentido de minhas palavras: (...) acontece às vezes que as faculdades suas (do médium ou dos assistentes) parecem agir de maneira inconsciente".

Os fatos em que o médium "não tem consciência" da sua ação deixaram Crookes desconcertado. Pelo desconhecimento próprio da época, repetimos.

De sua vasta experiência, Crookes escolheu este caso:

"Cheguei a ver a Srta. Fox escrever automaticamente uma comunicação para um dos assistentes, enquanto uma outra comunicação sobre assunto diferente era dada para outra pessoa por meio do alfabeto com golpes (da 'mesinha girante': paracinesia), estando a médium durante todo esse tempo conversando com uma terceira pessoa, sem o menor embaraço, sobre um assunto completamente diferente dos dois anteriores".

### Ora, se o inconsciente pode coordenar as atividades de conversar, correr... sem nem sequer saber o consciente onde deve colocar a língua e quais posições devem adotar os lábios, quais músculos deve mexer e como..., por que não poderia em estado alterado de consciência manifestar igual "divisão da personalidade" na psicografia e na locução automática?

Mais uma vez o crítico distorce as palavras dos outros, agora a do cientista William Crookes, e para, novamente, o restabelecimento da verdade, teremos que transcrever na íntegra o texto de onde foram pincelados os trechos citados:

CASOS PARTICULARES PARECENDO INDICAR A AÇÃO DE UMA INTELIGÊNCIA EXTERIOR

Ficou já provado que esses fenômenos são governados por uma inteligência. É muito importante conhecer a fonte dessa inteligência.

É do médium, de uma das pessoas presentes que estão no aposento, ou antes essa inteligência estará fora deles? Sem querer, presentemente, pronunciar-me de modo positivo sobre esse ponto, posso, dizer que, ao verificar que em muitos casos a vontade e a inteligência do médium parece terem muita ação sobre os fenômenos, observei também vários casos que parece mostrarem, de maneira concludente, a ação de uma inteligência exterior e estranha a todas as pessoas presentes (4).

O espaço não me permite dar aqui todos os argumentos que se podem apresentar para provar essas asserções, mas entre grande número de fatos mencionarei resumidamente um ou dois.

Em minha presença vários fenômenos se produziram ao mesmo tempo, sendo que a médium não os conhecia todos. Cheguei a ver a Sra. Fox escrever automaticamente uma comunicação para um dos assistentes, enquanto uma outra comunicação sobre outro assunto lhe era dada para uma outra pessoa por meio do alfabeto e por "pancadas". Durante todo esse tempo a médium conversava com uma terceira pessoa, sem o menor embaraço, sobre assunto completamente diferente dos outros dois.

Caso, talvez, mais surpreendente, é o seguinte: durante uma sessão com o Sr. Home, a pequena régua, de que já falei, atravessou a mesa para vir a mim, em plena luz, e deu-me uma comunicação, batendo-me em uma das mãos.

Eu soletrava o alfabeto e a régua batia nas letras necessárias; a outra extremidade da régua repousava na mesa, a certa distância das mãos do Sr. Home.

As pancadas eram tão claras e tão precisas, e a régua estava tão evidentemente sob a influência de um poder invisível que lhe dirigia os movimentos, que eu disse: "A inteligência que dirige os movimentos desta régua pode mudar o caráter dos seus movimentos, e dar-me por meio de pancadas, em minha mão, uma comunicação telegráfica com o alfabeto Morse?"

Tenho todos os motivos para crer que o alfabeto Morse era inteiramente desconhecido das pessoas presentes, e eu mesmo não o conhecia perfeitamente. Mal acabava de pronunciar aquelas palavras, o caráter das pancadas mudou; mas a comunicação continuou da maneira que eu tinha pedido. As letras foram-me dadas rapidamente, de modo que não pude apanhar senão uma ou outra palavra, e, por conseguinte, essa comunicação se perdeu; mas, eu tinha visto o bastante para convencer-me de que na outra extremidade da régua havia um bom operador de Morse, qualquer que ele fosse.

Ainda outro exemplo: uma senhora escrevia automaticamente por meio da prancheta; experimentei descobrir o meio de provar que o que ela escrevia não era devido à ação inconsciente do cérebro. A prancheta, como o fazia sempre, afirmava que, ainda que fosse posta em movimento pela mão e pelo braço dessa senhora, a inteligência que a dirigia era a de um ser invisível, que se servia do cérebro da senhora como de um instrumento de música, e fazia, assim, mover-lhe os músculos.

Disse eu, então, a essa inteligência: "Vê o que há neste aposento? - Sim, escreveu a prancheta. Vês este jornal e podes lê-lo? acrescentei, colocando o dedo sobre um número do Times que estava em uma mesa atrás de mim, mas sem olhá-lo. - Sim, respondeu a prancheta. - Bem, disse eu, se podes vê-lo, escreve a palavra que está agora coberta por meu dedo, e dar-te-ei crédito". A prancheta começou a mover-se lentamente, e com alguma dificuldade escreveu a palavra "however". Voltei-me e vi que a palavra however estava coberta pela extremidade do meu dedo.

Quando fiz essa experiência, tinha evitado, de propósito, olhar para o jornal, sendo impossível à senhora, embora o tentasse, ver uma só das palavras impressas, porque estava assentada perto de uma mesa, além de que o jornal estava sobre outra, que se achava atrás de mim, e o meu corpo interceptava-lhe a vista.

(4) Desejo que se compreenda bem o sentido das minhas palavras: não quero dizer que a vontade e a inteligência do médium se empreguem ativamente de uma maneira consciente ou desleal à produção dos fenômenos, mas que acontece algumas vezes que as suas faculdades parece agirem de maneira inconsciente.

(CROOKES, W. Fatos Espíritas, Rio de Janeiro: FEB, 1983, pp. 46-49) (grifo nosso)

Crookes, nesse ponto, dá como certo que os fenômenos são governados por uma inteligência, a questão que se propõe resolver é: é a inteligência do médium ou não? Ele, honestamente, diz que em alguns casos fica patente ser a do próprio médium, entretanto, “observei também vários casos que parece mostrarem, de maneira concludente, a ação de uma inteligência exterior e estranha a todas as pessoas presentes”, o que prova, a contragosto do crítico, que nem tudo é produto do inconsciente, fato que nem se dignou a comentar, obviamente, porque isso é contrário à sua maneira de ver essas coisas. Se aqui Crookes não atribui a um espírito, também não o nega, já que como um verdadeiro cientista está apenas inicialmente analisando as possibilidades, sem negar ou afirmar absolutamente nada. O certo é que o fará mais a frente.

Mas antes vale aqui ressaltar que Crookes, agindo na qualidade de cientista sério, procurando examinar se o fato pode vir do inconsciente do médium, pede a força invisível para usar o alfabeto Morse para citar uma palavra dum jornal, cujo dedo a tampava, ficando satisfeito com os resultados que conclui não ser do inconsciente do cérebro do médium. Entretanto, nosso crítico de má-fé procura distorcer suas conclusões usando meias palavras para enganar o leitor. Apesar de propalar aos quatro ventos que “conhece de Espiritismo muito mais que muitos Espíritas”, está, esse pobre coitado, iludido pelo seu próprio inconsciente.

Quanto a sua colocação final “Ora, se o inconsciente pode coordenar as atividades de conversar, correr... sem nem sequer saber o consciente onde deve colocar a língua e quais posições devem adotar os lábios, quais músculos deve mexer e como..., por que não poderia em estado alterado de consciência manifestar igual ‘divisão da personalidade’ na psicografia e na locução automática?”, poderemos responder: poder até que pode, entretanto, para definir isso cabe a comprovação científica e não apresentar uma mera hipótese.

Mais adiante, o próprio Crookes atribuirá os fenômenos espiritóides à "força psíquica" do médium e dos assistentes:

"A teoria da força psíquica nada mais é do que a simples verificação do fato quase indiscutível atualmente: (...) certas pessoas (estão) dotadas de uma organização nervosa especial (...) Como a presença de uma tal organização é necessária à produção dos fenômenos, é razoável concluir que essa força procede dessa organização por um meio ainda desconhecido (...) Tem sua fonte na alma ou inteligência do homem".

Nesse ponto citado pelo crítico, Crookes procura relacionar as várias teorias utilizadas para explicar o fenômeno da manifestação espiritual, senão vejamos:

TEORIAS EXPOSTAS PARA EXPLICAREM OS FENÔMENOS OBSERVADOS

Primeira teoria. - Os fenômenos são todos resultantes de fraudes, de hábeis disposições mecânicas ou de prestidigitação; os médiuns são impostores. e os assistentes são imbecis.

É evidente que esta teoria não pode explicar senão muito pequeno número de fatos observados. Admito de boa vontade que, entre os ,médiuns que têm aparecido diante do público, existam muitos impostores consumados, que se aproveitam do gosto do público para as sessões espíritas, a fim de encher a bolsa de dinheiro, ganho sem dificuldade; que haja outros que, não tendo para enganar nenhum interesse pecuniário, sejam levados à fraude pelo único desejo, parece, de adquirir notoriedade.

Achei-me em presença de vários desses embustes: alguns eram muito engenhosos; os outros eram tão grosseiros, que não há uma pessoa testemunha de fenômenos reais que se deixasse enganar.

Um investigador desse gênero de fatos, que no começo de suas pesquisas encontra uma dessas burlas, desgosta-se, e é natural que, ou em particular, ou pela voz da imprensa, emita suas opiniões; e englobe na mesma condenação toda espécie de "médiuns".

Com um médium verdadeiro, acontece que os primeiros fenômenos, que se observam, parecem geralmente provenientes de ligeiros movimentos da mesa e de fracas pancadas sob os pés ou as mãos do médium; esses efeitos, concordo, são muito fáceis de imitar pelo médium ou por qualquer outra pessoa sentada à mesa. Se, como acontece algumas vezes, não se produz nada, o observador céptico retira-se firmemente convencido de que, já tendo com a sua penetração sem igual descoberto que o médium enganava, este tem receio de praticar outras fraudes em sua presença.

Escreverá, pois, aos jornais; explicará a fraude, e, provavelmente, expandir-se-á em sentimentos de comiseração à vista do triste espetáculo de pessoas que, inteligentes em aparência, se deixam levar pelo erro. que ele descobriu ao primeiro golpe de vista.

Há enorme diferença entre as sortes de um escamoteador de profissão que, cercado de aparelhos, auxiliado por certo número de pessoas ocultas e de comparsas, iludem pela destreza e ligeireza de mãos, em seu próprio teatro, e os fenômenos que se produzem em presença do Sr. Home, em plena luz, num aposento particular que, até ao comêço da sessão, foi ocupado sem interrupção por mim e por meus amigos, que não somente não teriam favorecido a menor fraude, mas ainda observavam de parte tudo o que se passava. Ainda mais: o Sr. Home foi muitas vezes examinado antes e depois das sessões, a seu próprio pedido. Durante as manifestações mais notáveis eu lhe segurava por vezes as mãos e colocava os meus pés sobre os seus; não propus uma só vez modificar as disposições para tornar a fraude menos possível, sem que ele não consentisse imediatamente, e, muitas vezes mesmo, chamou a atenção para os meios de controle que se podiam empregar.

Falo sobretudo do Sr. Home, porque tem muito mais força que os outros médiuns com os quais fiz experiências; mas, com todos, tomei precauções suficientes para que a fraude fosse riscada da lista das explicações possíveis.

Que se não esqueça que uma explicação, para ser admissível, deve satisfazer a todas as condições do problema; não é lógico, pois, que uma pessoa, que talvez só tenha visto alguns fenômenos inferiores, diga: "suponho que tudo isso é burla", ou mais: "tenho visto como essas peloticas podem ser executadas".

Segunda teoria. - As pessoas, que assistem a uma sessão, são vítimas de uma espécie de loucura ou de ilusão e se persuadem de que se produzem fenômenos que não existem realmente.

Terceira teoria. - Tudo isso é o resultado da ação consciente e inconsciente do cérebro.

Estas duas teorias só podem evidentemente abraçar uma muito pequena parte dos fenômenos, e elas mesmas não os explicam senão de maneira improvável: elas podem ser refutadas em poucas palavras.

Chego agora às teorias "espirituais": É preciso lembrar que a palavra "espírito" é empregada em um sentido muito vago pelo maior número de pessoas.

Quarta teoria. - Os fenômenos produzidos são resultantes do espírito do médium, que se associa talvez ao espírito de todas as pessoas presentes ou de algumas somente.

Quinta teoria. - São devidos à ação dos maus espíritos ou demônios, que se manifestam como querem e da maneira como lhes apraz, a fim de destruírem o Cristianismo e de perderem as almas dos homens.

Sexta teoria. - São produzidos por certa classe de seres que vivem na Terra, mas imateriais, invisíveis aos nossos olhos, e todavia capazes, em certos casos, de manifestarem a sua presença. Em todos os países e em todas as épocas, têm sido conhecidos sob o nome de gênios (o que não quer dizer que sejam necessariamente maus), gnomos, fadas, duendes, diabretes, anões, etc.

Sétima teoria. - As manifestações são devidas à intervenção dos mortos: é a teoria espiritual por excelência.

Oitava teoria. - A da força psíquica que é antes um complemento das teorias 4, 5, 6 e 7 do que uma teoria por si mesma.

Segundo ela, supõe-se que o médium ou o círculo das pessoas reunidas para formar um todo, possui uma força, um poder, uma influência, uma virtude ou um dom, por meio dos quais seres inteligentes podem produzir os fenômenos observados. Quanto ao que podem ser esses seres inteligentes, é matéria para outras teorias.

O que há de certo, é que um médium possui uma, qualquer coisa que um ser comum não possui. Dai um nome a essa qualquer coisa; chamai-lhe X, se quiserdes, embora o Sr. Serjeant Cox a denomine força psíquica. Esse assunto tem sido tão mal compreendido que julgo aceitado dar a explicação seguinte, servindo-me das próprias palavras do Senhor Serjeant Cox:

A teoria da força psíquica nada mais é do que a simples verificação do fato quase indiscutível atualmente: o de que, em certas condições, ainda imperfeitamente fixadas, e a certa distância ainda indeterminada, promana do corpo de certas pessoas, dotadas de uma organização nervosa especial, uma força que, sem o contato dos músculos ou do que a eles se ligue, exerce uma ação à distância, produz visivelmente o movimento de corpos sólidos e neles faz vibrar sons. Como a presença de uma tal organização é necessária à produção dos fenômenos, é razoável concluir que essa força procede desta organização por um meio ainda desconhecido. Assim como o próprio organismo é movido e dirigido interiormente por uma força que é a alma, ou é governado pela Alma, Espírito ou Inteligência (dai-lhe o nome que quiserdes) que constitui o ser individual a que chamamos homem; também é razoável concluir que a força que produz o movimento, além dos limites do corpo, é a mesma que o executa dentro dos seus limites. E, assim como se vê muitas vezes a força exterior dirigida por uma inteligência, também é razoável concluir que a inteligência que dirige a força exterior é a mesma que a governa interiormente. É a esta força que dei o nome de força psíquica, porque este nome define bem a energia que, em minha opinião, tem sua fonte na Alma ou Inteligência do homem.

Quase inteiramente de acordo com aqueles que adotam esta teoria da força psíquica, como sendo o agente pelo qual os fenômenos se produzem eu não pretendo afirmar que tal força não possa ser algumas vezes captada e dirigida por alguma outra Inteligência que não seja a da força psíquica.

Os mais fervorosos espiritualistas admitem em realidade a existência da força psíquica sob o nome de todo impróprio de magnetismo, com o qual ela não tem a menor relação, pois eles afirmam que os espíritos dos mortos não podem executar os atos que se lhes atribui senão por meio da força magnética do médium, isto é, dessa força psíquica.

A diferença entre os partidários da força psíquica e os do espiritualismo consiste nisso: - que sustentam aqueles não se ter ainda provado senão de maneira insuficiente que existe um outro agente de direção que não a inteligência do médium, e que se trata dos espíritos dos mortos; ao passo que os espiritualistas aceitam como artigo de fé, sem pedir mais provas, que são os espíritos dos mortos os únicos agentes da produção de todos os fenômenos.

Assim, a controvérsia se reduz a uma pura questão de fato, que não se poderá resolver senão por laboriosa série de experiências e pela reunião de grande número de fatos psicológicos: será esse o primeiro dever que terá a cumprir a Sociedade de Psicologia atualmente em organização. (CROOKES, 1983, pp. 54-60).

Essa força nervosa, a que alude Crookes, é aquilo a que denominamos de Ectoplasma. Em alguns médiuns essa energia se exterioriza para fora do seu corpo físico, tomando algumas vezes a forma de uma espuma de barbear, para ser utilizada pela força inteligente e invisível – um espírito -, que produz o fenômeno. Observar que Crookes deixa o assunto para ser resolvido “por laboriosa séries de experiências”, não dando, inopinadamente, sua opinião. Entretanto, como cientista que era, continua realizando suas pesquisas. Vejamos agora um trecho do relato de Crookes sobre elas:

Formas de Espíritos

"Em carta que escrevi a esse jornal no começo de fevereiro último, falei dos fenômenos de formas de Espíritos que se tinham manifestado pela mediunidade da Srta. Cook, e dizia que aqueles que se inclinassem a julgar severamente a Srta. Cook suspendessem o seu juízo até que eu apresentasse uma prova cabal, que acreditava suficiente para resolver a questão.

Neste momento a Srta. Cook consagra-se exclusivamente a uma série de sessões particulares, às quais não assistem senão um ou dois dos meus amigos e eu... Vi o bastante para me convencer plenamente da sinceridade e da honestidade perfeitas da Srta. Cook, e para crer, com todo o fundamento, que as promessas que Kátie me fez, tão livremente, serão cumpridas.

Nessa carta descrevi um incidente que, em minha opinião, era muito próprio para me convencer de que Kátie e a Srta. Cook eram dois seres materiais distintos. Quando Kátie estava fora do gabinete, em pé, diante de mim, ouvi um gemido vindo da Srta. Cook, que se achava no gabinete. Considero-me feliz por dizer que obtive, enfim, a prova cabal de que falava na carta supramencionada.

Por enquanto não me referirei à maior parte das provas que Kátie me forneceu nas inúmeras ocasiões em que a Srta. Cook me favoreceu com as suas sessões em minha casa, e só descreverei uma ou duas das que se realizaram recentemente. Desde algum tempo fazia eu experiências com uma lâmpada fosforescente, que consistia em uma garrafa de 6 ou 8 onças que continha um pouco de óleo fosforado, e que estava solidamente arrolhada. Eu tinha razões para esperar que, à luz dessa lâmpada, alguns dos misteriosos fenômenos do gabinete pudessem tornar-se visíveis, e Kátie também esperava obter o mesmo resultado.

A 12 de março, durante uma sessão em minha casa, e depois de Kátie ter andado entre nós, e de ter falado, durante algum tempo, retirou-se para trás da cortina que separava o meu laboratório, onde os assistentes estavam sentados, da minha biblioteca, que, temporariamente, serviu de gabinete.

Um momento depois ela reapareceu à cortina e chamou-me, dizendo: “Entre no aposento e levante a cabeça da médium: ela escorregou para o chão". Kátie estava então em pé, diante de mim, trajada com seu vestido branco habitual e trazia um turbante.

Imediatamente, dirigi-me à biblioteca para levantar a Srta. Cook; e Kátie deu alguns passos de lado para me deixar passar. Com efeito, a Srta. Cook tinha escorregado um pouco de cima do canapé, e a sua cabeça pendia em posição muito penosa. Tornei a pô-la no canapé, e fazendo isso tive, apesar da escuridão, a viva satisfação de verificar que a Senhorita Cook não estava trajada com o vestuário de Kátie, mas que trazia a sua vestimenta ordinária de veludo preto e se achava em profunda letargia. Não decorreu mais que três segundos entre o momento em que vi Kátie de vestido branco diante de mim, e o em que coloquei a Srta. Cook no canapé, tirando-a da posição em que se achava.

Voltando ao meu posto de observação, Kátie apareceu de novo e disse que pensava poder mostrar-se a mim ao mesmo tempo que a sua médium. Abaixou-se o gás e ela me pediu a lâmpada fosforescente. Depois de ter-se mostrado à claridade durante alguns segundos, m'a restituiu, dizendo: "Agora, entre e venha ver a minha médium". Acompanhei-a de perto à minha biblioteca e, à claridade da lâmpada, vi a Srta. Cook estendida no canapé, exatamente como eu a tinha deixado; olhei em torno de mim para ver Kátie, porém ela tinha desaparecido. Chamei-a, mas não recebi resposta. Voltei ao meu lugar; Kátie tornou a aparecer logo, e me disse que durante todo o tempo tinha estado em pé, perto da Srta. Cook; e perguntou então se ela própria não poderia tentar uma experiência, e, tomando das minhas mãos a lâmpada fosforescente, passou para trás da cortina, pedindo não olhasse para o gabinete.

No fim de alguns minutos, restituiu-me a lâmpada, dizendo que não tinha podido sair-se bem, que havia esgotado todo o fluido da médium, mas que tornaria a experimentar em outra ocasião. Meu filho mais velho, rapaz de 14 anos, que estava sentado à minha frente, em posição que podia ver o que se passava por trás da cortina, disse-me que tinha visto distintamente a lâmpada fosforescente, que parecia plainar no espaço acima da Srta. Cook, iluminando-a durante o tempo em que ela, estivera estendida e imóvel no canapé, mas que não tinha podido ver ninguém segurar a lâmpada.

Passo agora à sessão que se realizou, ontem, à noite, em Hackney. Kátie nunca apareceu com tão grande perfeição. Durante perto de duas horas passeou na sala, conversando familiarmente com os que estavam presentes. Várias vezes tomou-me o braço, andando, e a impressão sentida por mim era a de uma mulher viva que Se achava a meu lado, e não de um visitante do outro mundo; essa impressão foi tão forte, quê a tentação de repetir Uma nova e curiosa experiência tornou-se-me quase irresistível.

Pensando, pois, que eu não tinha um espírito perto de mim, mas sim uma senhora, pedi-lhe permissão de tomá-la nos meus braços, a fim de poder verificar as interessantes observações que um experimentador ousado fizera recentemente, de maneira tão sumária. Essa permissão foi-me graciosamente dada, e, por conseqüência, utilizei-me dela, convenientemente, como qualquer homem bem educado o teria feito nessas circunstâncias. O Sr. Volckman ficará satisfeito ao saber que posso corroborar a sua asserção, de que o “fantasma" (que, afinal, não fez, nenhuma resistência) era um ser tão material quanto a própria Srta. Cook. Mas o que vai seguir mostrará quão pouco fundamento tem um experimentador, por maior cuidado que tenha nas suas observações, em aventurar-se a formular uma importante conclusão quando as provas não existem em quantidade suficiente.

Kátie disse então que, dessa vez, se julgava capaz de mostrar-se ao mesmo tempo que a Senhorita Cook. Abaixei o gás, e, em seguida, com a minha lâmpada fosforescente penetrei o aposento que servia de gabinete.

Mas eu tinha pedido previamente a um dos meus amigos, que é hábil estenógrafo, para notar toda observação, que eu fizesse, enquanto estivesse no gabinete, porque bem conhecia eu a importância que se liga às primeiras impressões, e não queria confiar à minha memória, mais do que fosse necessário: as suas notas acham-se neste momento diante de mim.

Entrei no aposento com precaução: estava escuro, e foi pelo tato que procurei a srta. Cook; encontrei-a de cócoras, no soalho.

Ajoelhando-me, deixei o ar entrar na lâmpada; e, à sua claridade, vi essa moça vestida de veludo preto, como se achava no começo da sessão, e, com toda, a aparência de estar completamente insensível. Não se moveu quando lhe tomei a mão; conservei a lâmpada muito perto do seu rosto, mas continuou a respirar tranqüilamente.

Elevando a lâmpada, olhei em torno de mim e vi Kátie, que se achava em pé, muito perto da Srta. Cook e por trás dela. Kátie estava vestida com uma roupa branca, flutuante, como já a tínhamos visto durante a sessão. Segurando uma das mãos da Srta. Cook na minha e ajoelhando-me ainda, elevei e abaixei a lâmpada, tanto para alumiar a figura inteira de Kátie, como para plenamente convencer-me de que eu via, sem a menor dúvida, a verdadeira Kátie, que tinha. apertado nos meus braços alguns minutos antes, e não o fantasma de um cérebro doentio. Ela não falou, mas mover a cabeça em sinal de reconhecimento. Três vezes examinei cuidadosamente a Srta. Cook, de cócoras, diante de mim, para ter a certeza de que a mão que eu segurava era de fato a de uma mulher viva, e três vezes voltei a lâmpada para Kátie, a fim de a examinar com segurança e atenção, até não ter a menor .dúvida de que, ela estava diante de mim. Por fim, a Srta. Cook fez um ligeiro movimento e imediatamente Kátie deu um sinal para que me fosse embora. Retirei-me para outra parte do gabinete e deixei então de ver Kátie, mas só abandonei o aposento depois que a Srta. Cook acordou e que dois dos assistentes entrassem com luz.

Antes de terminar este artigo, desejo salientar algumas diferenças que observei entre a Srta. Cook e Kátie. A estatura de Kátie era variável: em minha casa a vi maior 6 polegadas do que a Srta. Cook. Ontem à noite, tendo os pés descalços e não se apoiando na ponta dos pés, ela era maior 4 polegadas e meia do que a Srta. Cook, e tinha o pescoço descoberto; a pele era perfeitamente macia ao tato e à vista, enquanto à Srta. Cook têm no pescoço uma cicatriz que, em circunstâncias semelhantes, se vê distintamente, sendo áspera ao tato. As orelhas de Kátie não são furadas, enquanto as da Srta. Cook trazem ordinariamente brincos. A cor de Kátie é muito branca, enquanto a da Srta. Cook é muito morena. Os dedos de Kátie são muito mais, longos que os da Srta. Cook, e seu rosto é também maior. Nas formas e maneiras de se exprimir há também diferenças assinaladas.

A saúde da Srta. Cook não é assaz boa para lhe permitir dar, antes de algumas semanas; outras sessões experimentais como essas, e em conseqüência disso insistimos fortemente para que ela tivesse um repouso completo antes de recomeçar a campanha de experiências de que dei uma exposição sumária,e, em próximo tempo, espero poder fazer conhecer os resultados".

ÚLTIMA APARIÇÃO DE KÁTIE KING, SUA FOTOGRAFIA COM O AUXILIO DA LUZ ELÉTRICA

"Tendo eu tomado parte muito ativa nas últimas sessões da Srta. Cook, e obtido muito bom êxito na produção de numerosas fotografias de Kátie King, com o auxílio da luz elétrica, julguei que a publicação de alguns detalhes seria interessante para os espiritualistas.

Durante a semana que precedeu a partida de Kátie, ela deu sessões em minha casa, quase todas as noites, a fim de me permitir fotografá-la à luz artificial. Cinco aparelhos completos de fotografia foram pois preparados para esse efeito. Eles consistiam em cinco câmaras escuras, uma do tamanho de placa inteira, uma de meia placa, uma de quarta, e de duas câmaras estereoscópicas binoculares, que deviam todas ser dirigidas sobre Kátie ao mesmo tempo, cada vez que ela ficasse em posição de se lhe obter o retrato. Cinco banhos sensibilizadores e fixadores foram empregados, e grande número de placas foram preparadas previamente, prontas a servir; a fim de que não houvesse nem hesitação nem demora durante as operações fotográficas, que eu mesmo executei, assistido por um ajudante.

A minha biblioteca serviu de câmara escura: ela possuía uma porta de dois batentes que se abria para o laboratório; um desses batentes foi levantado dos seus gonzos, e uma cortina, colocada em seu lugar, para permitir a Kátie entrar e sair facilmente. Os nossos amigos, que se achavam presentes, estavam sentados no laboratório, em frente à cortina, e as câmaras escuras ficaram colocadas um pouco atrás deles, prontas a fotografar Kátie quando ela saísse, e a tomar igualmente o interior do gabinete todas as vezes que a cortina fosse levantada para esse fim.

Cada noite, havia 3 ou 4 exposições de placas nas 5 câmaras escuras, o que dava pelo menos 15 provas por sessão. Algumas se estragaram no desenvolvimento, outras ao regular a luz; apesar de tudo, tenho 44 negativos, uns medíocres, alguns nem bons nem maus e outros excelentes.

Kátie recomendou a todos os assistentes que ficassem sentados e observassem essa exigência; somente eu não fui compreendido na medida; depois de algum tempo permitiu-me fazer o. que eu desejasse, tocá-la, entrar no gabinete e dele sair, quase todas as vezes que eu quisesse.

Acompanhei-a muitas vezes ao gabinete e algumas vezes vi Kátie e a médium, ao mesmo tempo; geralmente, pois, eu só encontrava a médium em letargia, e deitada no soalho; Kátie, com o seu vestuário branco, tinha instantaneamente desaparecido.

Durante esses seis últimos meses, a Srta. Cook fez-nos numerosas visitas e demorava-se algumas vezes uma semana em nossa casa; só trazia consigo pequena mala de mão, que não, fechava à chave; durante o dia estava em companhia da Sra. Crookes, na minha ou na de algum outro membro da minha família; não dormia só, não tinha ocasião de preparar algo mesmo de caráter menos aperfeiçoado, que fosse apto para representar o papel de Kátie King.

Eu mesmo preparei e dispus a minha biblioteca, assim como a câmara escura, e, como de costume, depois que a Srta. Cook jantava e conversava conosco, ela se dirigia logo ao gabinete; a seu pedido eu fechava à chave a segunda porta, guardando a chave comigo durante toda a sessão; então, abaixava-se o gás e deixava-se a Srta. Cook na escuridão.

Entrando no gabinete, a Srta. Cook deitava-se no soalho, repousando a cabeça num travesseiro, e logo depois caía em letargia. Durante as sessões fotográficas, Kátie envolvia a cabeça da médium com um chale, para impedir que a luz lhe caísse sobre o rosto.

Várias vezes levantei um lado da cortina, quando Kátie estava em pé, muito perto, e então não era raro que as 7 ou 8 pessoas que estavam no laboratório pudessem ver, ao mesmo tempo, a Srta. Cook e Kátie, à plena claridade da luz elétrica. Não podíamos então perceber o rosto da médium, por causa do chale, mas notávamos as suas mãos e pés; vimo-la mover-se, penosamente, sob a influência desta luz intensa, e, por momentos, ouvíamos-lhe os gemidos.

Tenho, uma prova de Kátie e da médium fotografadas juntamente; mas Kátie está colocada diante da cabeça da Srta. Cook.

Enquanto eu tomava parte ativa nessas sessões, a confiança que em mim tinha Kátie aumentava gradualmente, a ponto de ela não querer mais prestar-se à sessão, sem que eu me encarregasse ,das disposições a tomar, dizendo que queria sempre ter-me perto dela e perto do gabinete. Desde que essa confiança ficou estabelecida, e quando ela teve a satisfação de estar certa de que eu cumpriria as promessas que lhe fazia, os fenômenos aumentaram muito em força e foram-me dadas provas que me seriam impossíveis obter se me tivesse aproximado da médium de maneira diferente.

Kátie me interrogava muitas vezes a respeito das pessoas presentes às sessões e sobre o modo de serem colocadas, pois nos últimos tempos se tinha tornado muito nervosa, em conseqüência de certas sugestões imprudentes, que aconselhavam empregar a força, para tornar as pesquisas mais científicas.

Uma das fotografias mais interessantes é aquela em que estou em pé, ao lado de Kátie, tendo ela, o pé descalço sobre determinado ponto do soalho. Vestiu-se em seguida a Srta. Cook como Kátie; ela e eu nos colocamos exatamente na mesma posição, e fomos fotografados pelas mesmas objetivas colocadas perfeitamente como na outra experiência, e alumiados pela mesma luz. Quando os dois esboços foram postos um sobre o outro, as minhas duas fotografias coincidiram perfeitamente quanto ao porte, etc., mas Kátie é maior meia cabeça do que a Senhorita Cook, e, perto dela, parece uma mulher gorda. Em muitas provas, o tamanho do seu rosto e a estatura do seu corpo diferem essencialmente da médium, e as fotografias fazem ver vários outros pontos de dessemelhança.

Mas a fotografia é tão impotente para representar a beleza perfeita do rosto de Kátie, quanto as próprias palavras o são para descrever o encanto de suas maneiras. A fotografia pode, é verdade, dar um desenho do seu porte; mas como poderá ela reproduzir a pureza brilhante de sua tez ou a expressão, sempre cambiante dos seus traços, tão móveis, ora velados pela tristeza, quando narra algum acontecimento doloroso da sua vida passada, ora sorridente, com toda a inocência de uma menina, quando reúne os meus filhos ao redor de si, e os diverte contando-lhes episódios das suas aventuras na Índia?

Vi tão bem Kátie, recentemente, quando estava alumiada pela luz elétrica, que me é possível acrescentar alguns traços às diferenças que, em precedente artigo, estabeleci entre ela e a médium.

Tenho a mais absoluta certeza de que a Senhorita Cook e Kátie são duas individualidades distintas, pelo menos no que diz respeito aos seus corpos. Vários pequenos sinais, que se acham no rosto da Srta. Cook, não existem no de Kátie. A cabeleira da Srta. Cook é de um castanho tão forte que parece quase preto; um cacho da cabeleira de Kátie, que tenho à vista, e que ela me permitira cortar de suas tranças luxuriantes, -depois de ter seguido com os meus próprios dedos até ao alto da sua cabeça e de haver convencido de que ali nascera, é de um rico castanho dourado.

Uma noite, contei as pulsações de Kátie; o pulso batia regularmente 75, enquanto o da Srta. Cook, poucos instantes depois atingia a 90, seu número habitual. Auscultando o peito de Kátie, eu ouvia um coração bater no interior, e as suas pulsações eram ainda mais regulares. que as do coração da Senhorita Cook, quando, depois da sessão, ela me permitia igual verificação.

Examinados da mesma forma os pulmões de Kátie mostraram-se mais sãos que os da médium, pois, no momento em que fiz a experiência, a Senhorita Cook seguia tratamento médico por motivo de grave bronquite.

Os leitores acharão, sem dúvida, interessante que, as suas narrações e as do Sr. Ross Church, acerca da aparição de Kátie, venham reunir-se às minhas, pelo menos as que posso publicar.

Quando chegou o momento de Kátie nos deixar, pedi-lhe o obséquio de ser eu o último a vê-la. Chamou ela a si cada pessoa da sociedade e lhes disse algumas palavras em particular, deu instruções gerais sobre nossa direção futura e sobre a proteção a dispensar à Srta. Cook. Dessas instruções, que foram estenografadas, cito o seguinte: ao Sr. Crookes sempre agiu muito bem, e é com a maior confiança que deixo Florence em suas mãos, perfeitamente convicta de que não faltará à confiança que tenho nele. Em todas as circunstâncias imprevistas, o Sr. Crookes poderá agir melhor do que eu mesma, porque tem mais força”.

Tendo terminado suas instruções, Kátie convidou-me a entrar no gabinete com ela, e permitiu-me ficar nele até o fim. Depois de fechada a cortina, conversou comigo durante algum tempo, em seguida atravessou o quarto para ir até a Srta. Cook, que jazia inanimada no soalho; inclinando-se para ela, Kátie tocou-a e disse-lhe: “Acorda, Florence, acorda! É preciso que eu te deixe agora!"

A Srta. Cook acordou e, em lágrimas, suplicou a Kátie que ficasse algum tempo ainda: “Minha cara, não posso; a minha missão está cumprida; Deus te abençoe!” respondeu Kátie, e continuou a falar à Srta. Cook. Durante alguns minutos conversaram juntas, até que enfim as lágrimas da Senhorita Cook a impediram de falar. Seguindo as instruções de Kátie, precipitei-me para suster Cook, que ia cair sobre o soalho e que soluçava convulsivamente. Olhei ao redor de mim, mas Kátie, com o seu vestido branco, tinha desaparecido. Logo que a Senhorita Cook ficou bastantemente calma, trouxeram luz, e a conduzi para fora do gabinete.

As sessões, quase diárias, com que a Srta. Cook me favoreceu ultimamente, muito esgotaram as suas forças, e desejo patentear, o mais possível, os obséquios que lhe devo pelo seu empenho em me ajudar nas experiências.

A qualquer prova que eu propusesse, concordava ela em submeter-se com a maior boa vontade; à sua palavra é franca e viva e vai diretamente ao assunto. Nunca vi a menor coisa que pudesse assemelhar-se à mais ligeira aparência do desejo de enganar. Na verdade, não creio que ela pudesse levar uma fraude a bom fim, porque, se o tentasse, seria prontamente descoberta, por ser completamente estranho à sua natureza tal modo de proceder.

E quanto a imaginar que uma inocente colegial de 15 anos tenha sido capaz de conceber e de pôr em prática durante três anos, com grande êxito, tão gigantesca impostura como esta, e que durante esse tempo se tenha submetido a todas as condições que dela se exigiram, que tenha suportado as pesquisas mais minuciosas, que tenha consentido em ser examinada a cada momento, fosse antes, fosse depois das sessões; que tenha obtido ainda mais êxito na minha própria casa do que na casa de seus pais, sabendo que ia para ali, expressamente com o fim de se submeter a rigorosos ensaios científicos, quanto a imaginar que a Kátie King dos três últimos anos é o resultado de uma impostura, isso faz mais violência à razão e ao bom senso, do que crer que Kátie King é o que ela própria afirma ser.

Não me seria conveniente concluir este artigo sem agradecer igualmente ao Sr. e à Sra. Cook as grandes facilidades que me proporcionaram para poder prosseguir nas minhas observações e experiências. Os meus agradecimentos e os de todos os espiritualistas são também devidos ao Sr. Charles Blackburn, pela. sua generosidade que permitiu à Srta. Cook consagrar todo o seu tempo ao desenvolvimento dessas manifestações, e, em último lugar, ao seu exame científico". (CROOKES, 1983, pp. 67-80).

Aqui é categórica a aceitação de Crookes de que as materializações com a médium Florence Cook, eram reais, que tudo fez para comprovar a realidade do fenômeno da manifestação do espírito Kátie King. Deixamos a você, caro leitor, maiores indagações sobre tudo o que colocamos aqui neste ponto sobre as experiências de Crookes, cujo relato é suficiente para derrubar a fala do nosso crítico.

AÇÃO INTELIGENTE DO INCONSCIENTE

É mais do que simplório o argumento (?!) de Kardec e dos espíritas - e de alguns antigos teólogos - para atribuir aos mortos - ou aos demônios! - os movimentos inteligentes de objetos inanimados (telecinesia, além dos fenômenos de psicografia, paracinesia e locução automática, até agora visados). Já naqueles primeiros anos do espiritismo protestava com muita razão, por exemplo Saintyves:

"Estão sozinhos nessa opinião. Não se vê que a presença dos demônios ou dos espíritos dos mortos seja necessária para explicar as respostas inteligentes fornecidas por uma madeira não inteligente. Chevreul e mais tarde Babinet explicaram os movimentos das mesas por impulsos inconscientes".

Qual opinião deve prevalecer: a de quem acha que uma coisa é assim, ou a de quem prova? Será que o cientista Crookes, por exemplo, que pesquisou por três anos a mediunidade de Florence Cook deve ser desprezada? E a de inúmeros outros pesquisadores, como, por exemplo, esses que retiramos do texto “O sábio e os Idiotas”, disponível no link:

http://www.apologiaespirita.org/objecoes_refutadas/o_sabio_e_os_idiotas.htm:

Na América

Juiz Edmonds (1816-1874) – Primeiro magistrado do Supremo Tribunal do Distrito de Nova York, onde foi eleito membro do legislativo e presidente do Senado. Escreveu “Spirit Manifestations”.

Dr. Mapes – Professor de Química da Academia Nacional dos Estados Unidos, que iniciou as pesquisas tentando provar a existência de fraudes, terminou convencendo-se das realidades não-físicas.

Robert Hare (1781-1858) – Notável químico, professor da Universidade de Pensilvânia, escreveu “Experimental Investigations of the Spiritual Manifestations” onde comprova a existência e manifestação dos espíritos. Iniciou suas pesquisas tentando deter “a onda de demência que se pronunciava com o nome de espiritismo”.

James Hervey Hyslop (1854-1920) Professor da Universidade de Columbia, New York, e autor de várias obras, dentre as quais citamos "A Ciência Psíquica e a Ressurreição" e "A Ciência e a Vida Futura". Foi membro da American Society for Psychical Research, fundada em 1888 e que em 1905 foi incorporada à English Society for Psychical Research. Disse ele: "Foi meu pai, foram meus tios e meus irmãos falecidos, com os quais me entretive em profundo contato, que me provaram que a morte não existe e que a alma é imortal"...

William James (1842-1910) Reitor da Universidade de Harvard e filósofo mundialmente conhecido, nasceu a 11 de janeiro de 1842 em New York e faleceu a 26 de agosto de 1910 em Chocorua. Colou grau de doutor em medicina na Lawrence Scientific School, em Harvard. Acompanhou Agassiz em sua expedição ao Amazonas, seguindo logo depois para a Alemanha, a fim de aperfeiçoar seus conhecimentos médicos. Sua primeira grande obra data de 1890: Princípios de Psicologia. Em 1898, na Universidade da Califórnia, formulou a teoria do pragmatismo. Suas obras principais são: "Imortalidade Humana", "As variedades de Experiência Religiosa", "Universo Pluralístico", "O Significado da Verdade", "Ensaios sobre o Empirismo Radical". Publicou ainda a obra "Etudes et Reflexions d’un Psychiste", na qual afirma que, na Inglaterra, cerca de um adulto sobre dez vê fantasmas. Nessa mesma obra, diz ele: "Quando uma teoria vem, sem cessar, à discussão, todas as vezes que a crítica ortodoxa a enterra, ela reaparece cada vez mais sólida e mais dura de acutilar, e podereis estar certo de que nela há uma parte de verdade..." "Muitas vezes a ciência matou os Espíritos, como uma das muitas superstições populares e, entretanto, nunca nos falaram deles com tanta abundância nem com tão grande aparência de autenticidade."

Roberto Dale Owen (1801-1877) Estadista americano e membro da Convenção Constitucional de Indiana. Dedicou-se ao estudo do Espiritismo visando provar a seu pai o grave erro em que ele incorria ao se interessar pelos fenômenos supranormais. E o resultado de suas investigações foi render-se à evidência dos fatos por ele verificados. Publicou várias obras nas quais declara sua convicção na sobrevivência do Espírito.

Epes Sargent (1813-1880): nasceu no estado americano de Massachusetts. Sua vida apresenta muitos pontos de semelhança com a de Allan Kardec, nascido nove anos antes. Ambos produziram excelentes livros didáticos; defenderam com heróica bravura, até o fim de suas vidas, o Espiritismo nascente; diminuíram todas as atividades da vida para tratarem principalmente do novo ideal; foram casados e não tiveram filhos; escreviam com muita clareza, ao alcance de todas as pessoas; dominavam línguas de importância mundial e foram contemporâneos. Estes e outros pormenores revelam que desempenharam o papel de missionários da mesma obra de transformação do mundo materialista em mundo espiritualista, e deixaram livros que cumpre reimprimir sempre até que realizem seu glorioso destino: a conversão da humanidade. Epes destacou-se como fecundo escritor, sobressaindo-se com marca de genialidade nos inúmeros jornais em que trabalhou, oferecendo ao público milhares de artigos, cujos temas de tão variados, fizeram longas incursões pelos caminhos da filosofia, da moral e da ciência com talentosa fertilidade. Escreveu narrativas, comédias, tragédias, dramas, e obras primas da poesia tais como Canções do Mar e outros poemas que arrancou elogios dos mais famosos críticos literários americanos. No plano educacional, ele contribuiu sobremaneira, escrevendo obras didáticas para estudante e até para professores, o que lhe conferiu o título de educador emérito, sendo o seu nome citado nos mais longínquos rincões da América. Não havia escola nos Estados Unidos onde o seu nome não figurasse como autor a ser lido e comentado, contribuindo assim para a formação intelectual e o enriquecimento moral da juventude de seu país. Homem de conhecimentos diversificados, dotado de polivalência cultural, não lhe faltavam pedidos para a composição de versos apropriados para ocasiões especiais, principalmente para representações teatrais. De 1852 a 1856 editou em numerosos livros as vidas e produções de célebres poetas ingleses entre eles Thomas Hood, Rogers, Collins, Thomas Campbell, Thomas Gray e Goldsmith, além de traduzir para o seu idioma importantes obras literárias.

Na Inglaterra

Alfred Russel Wallace (1823-1913): Foi um dos maiores cientistas que investigaram a sobrevivência e a comunicabilidade dos Espíritos; daí porque Wallace jamais deve ser esquecido. Em 1865, investigou os fenômenos das mesas girantes ainda tão em voga na Europa; a mediunidade de Mr. Marshall, de Mr. Cuppy e outras, estabelecendo, mais tarde, que os fenômenos espíritas "são inteiramente comprovados tão bem como quaisquer fatos que são provados em outras ciências".

Fredrich William Henry Myers (1843-1901): Nasceu em Keswick (Cumberland), Inglaterra. Foi erudito literato inglês, famoso pelos seus escritos notáveis e estudos sobre os fenômenos espíritas. No ano de 1882, após vários ensaios, estudos e discussões, figurou, em primeiro lugar, na lista dos fundadores da "Sociedade de Investigações Psíquicas de Londres", tornando- se o porta- voz da mesma sociedade, dando sua contribuição valiosa na revisão da magistral obra "Fantasma dos Vivos" (1886), cuja introdução escreveu. De sua autoria é ainda a obra "A Ciência e a Vida Futura".

James Hervey Hyslop (1854-1920): Professor da Universidade de Columbia, New York, e autor de várias obras, dentre as quais citamos "A Ciência Psíquica e a Ressurreição" e "A Ciência e a Vida Futura". Foi membro da American Society for Psychical Research, fundada em 1888 e que em 1905 foi incorporada à English Society for Psychical Research.

Sir Joseph Oliver Lodge (1851-1940): Nasceu em Penkhull, Inglaterra. Educado no Grammar School de Newport e no University College de Londres, foi um dos mais reputados físicos da época. Fez importantes investigações sobre a sede da força eletro-motiva na célula voltaica, sobre as ondas eletromagnéticas e a telegrafia sem fio. Ganhou fama mundial como inventor, tendo contribuído grandemente para o desenvolvimento da eletricidade. Realizou experiência sobre diminuição de neblina por meio de dispersão elétrica. Autor de vários tratados científicos e obras entre as quais destacamos: "Manual de Mecânica Elementar", em 1877; "Pioneiros da Ciência",em 1893; "Vida e Matéria", 1905; "Elétrons ou a natureza e propriedades da eletricidade negativa", 1907; Ciência e Mortalidade", 1908; "O éter no Espaço", 1909;"Além da Física ou a idealização do mecanismo",1930.

Rev. William Stainton Moses (1839-1892): Nasceu em Domington, Lincolnshire, Inglaterra. Ao findar- se o ano de 1870, Stainton obteve um lugar de professor de inglês na University College School, cargo que ocupou até 1889.

William Fletcher Barret (1845-1926): Nasceu na ilha da Jamaica. Físico estudioso dos fenômenos psíquicos, foi presidente da Sociedade de Investigações Psíquicas de Londres. Professor de Física do "Royal College of Science for Dublin" e fundador da "Society for Psychical Researches", de Londres.

Cromwell Fleetwood Varley (1828–1883) Engenheiro notável, descobridor do Condensador Elétrico, membro da Sociedade Real de Londres, responsável pela comunicação por meio de cabos submarinos entre os continentes. Responsável pela construção dos aparelhos científicos que serviram a Crookes em suas pesquisas psíquicas.

August de Morgan (1806-1871) – Professor, presidente da Sociedade de Matemática de Londres e secretário da Real Sociedade. Escreveu dois livros.

William Crookes (1832-1919): nasceu em Londres, Inglaterra. Foi o maior químico da Inglaterra. No ano de 1855, Willian Crookes assumiu a cadeira de química na Universidade de Chester. Como conseqüência de prolongados estudos, no ano de 1861 descobriu os raios catódicos e isolou o Tálio, determinando rigorosamente suas propriedades físicas. Após persistentes estudos em torno do espectro solar, descobriu, em 1872, a aparente ação repulsiva dos raios luminosos, o que o levou à construção do Radiômetro, em 1874. No ano seguinte descobriu um novo tratamento para o ouro. No entanto, a coroação do seu trabalho científico foi a descoberta do quarto estado da matéria, o estado radiante, no ano de 1879. Foram-lhe outorgadas várias medalhas pelas relevantes descobertas no campo da física e da química.

Na Alemanha

Johan Carl Friedrich Zöllner (1834-1882): Astrônomo famoso e professor da Universidade de Leipzig, na Alemanha, goza de grande reputação nos meios científicos. Após inúmeras experiências realizadas no campo da fenomenologia espírita, publicou os resultados dessas investigações no livro intitulado "Física Transcendental".

Barão Carl du Prel (1839-1899): Nasceu em Landshut, Baviera (Alemanha). Foi destacado filósofo e um dos maiores pensadores modernos e também um dos mais sutis pesquisadores das coisas do Espírito. Oficial do Exército e doutor em filosofia pela Universidade de Tubingen, participou, juntamente com Lombroso, Schiaparelli, Chiaia, Brofferio, Ermacora, Richet e Aksakof, das famosas experimentações mediúnicas, realizadas em Milão, no ano de 1892.

Na Itália

Cesar Lombroso (1835-1909): foi um professor universitário e criminologista italiano, nasceu em Verona. Cientista universalmente conhecido pelos importantes trabalhos realizados no campo jurídico, desde muito cedo dedicou-se às letras. Aos doze anos de idade, escreveu a obra intitulada "Grandeza e Decadência de Roma", que teve grande repercussão nos meios intelectuais de então. Foi um dos maiores médicos criminalistas do século passado. Graduou-se em Medicina em Pavia, em 1858, onde recebeu grande influência do anatomista Panizza. Um ano depois de graduar-se em medicina obtém o diploma de cirurgia em Gênova. Aprimou seus conhecimentos em Viena com o clínico Skoda, e em Pádua com o médico Paolo Marzolo, cuja formação positivista haveria de exercer uma profunda influência sobre ele.

Ernesto Bozzano (1862-1943): Nasceu em Gênova, Itália. Professor da Universidade de Turim, foi, antes de se converter ao Espiritismo, materialista, céptico, positivista. Pesquisador profundo e meticuloso, escreveu mais de trinta e cinco obras, todas de caráter científico. Organizador de estudo experimental, com o valioso concurso de 76 médiuns. Elaborou nove monografias inconclusas. Essa a folha de serviço de um dos mais eruditos pensadores e cientistas italianos.

Na Rússia

Alexandre Aksakof (1832-1903) - Este gigante da literatura espírita nasceu em Ripievka, Rússia. Foi diplomata e conselheiro privado do Imperador Alexandre III, Czar da Rússia. Para fazer um completo estudo fisiológico e psicológico do homem, matriculou-se em 1855 como estudante da Faculdade de Medicina de Moscou, onde ampliaria os seus conhecimentos de Física, Química e Matemática. Começou a estudar os fenômenos espíritas em 1855, quando se encontrava na Alemanha, em missão diplomática. Foi colaborador de William Crookes nas experiências de materializações do Espírito de Katie King; fez parte da Comissão de Milão para investigação dos fenômenos produzidos por Eusápia Paladino.

Na França

Paul Gibier (1851-1900): doutor em medicina, adjunto do museu de história natural de Paris, aluno favorito de Pasteur e, por último, Diretor do Instituto Anti-Rábico de Nova York. Sobre os fenômenos espíritas, por ele observados, diz em sua obra "Análise das Coisas" que "podemos ter provas materiais da existência da alma. Este fato não deixa dúvida alguma no meu Espírito: a ciência poderá estudar d’ora em diante, quando quiser, o terceiro elemento constitutivo do Macrocosmo, como estuda outros dois elementos, que ela compreende então muito melhor, isto é, a matéria e a energia".

Gabriel Delanne (1857-1926): Nasceu exatamente no ano em que Kardec publicava a 1.ª edição de "O Livro dos Espíritos". Delanne foi um dos maiores propagadores da sobrevivência e comunicabilidade dos Espíritos. Delanne fez ver através de suas obras que a Física moderna, o magnetismo, o hipnotismo, a sugestão verbal ou mental, a clarividência, a telepatia e o Espiritismo, todos esses conhecimentos novos são convergentes para as fronteiras espirituais. Tornou evidente que as provas das comunicações dos espíritos, sendo tão numerosas quão variadas tornariam o Espiritismo uma demonstração científica da imortalidade. Em sua luta incessante iniciada aos 13 anos, publicou aos 68 anos de idade uma obra de incomparável valor intitulada "A Reencarnação", última de seu gênio privilegiado. Pela solidez apresentada, pelo rigor de sua lógica, pelo valor de sua argumentação, pela escolha de suas provas, pela superioridade de sua tese, e pela imparcialidade com que apresenta os fatos, essa obra‚ a primeira da coleção delanneana.

Camille Flammarion (1842-1925): Nasceu em Montigny-Le-Roy, França. Foi um homem cujas obras encheram de luzes o século XIX. Ele era o mais velho de uma família de quatro filhos, entretanto, desde muito jovem se revelaram nele qualidades excepcionais. Queixava-se constantemente que o tempo não lhe deixava fazer um décimo daquilo que planejava. Aos quatro anos de idade já sabia ler, aos quatro e meio sabia escrever e aos cinco já dominava rudimentos de gramática e aritmética. Tornou-se o primeiro aluno da escola onde freqüentava. Aos 16 anos de idade, foi presidente da Academia, a qual, ao ser inaugurada, teve como discurso de abertura o tema "As Maravilhas da Natureza". Nessa mesma época escreveu "Cosmogonia Universal", um livro de quinhentas páginas; o irmão, também muito seu amigo, tomou-se livreiro e publicava-lhe os livros. A primeira obra que escreveu foi "O Mundo antes da Aparição dos Homens", o que fez quando tinha apenas 16 anos de idade. Gostava mais da Astronomia do que da Geologia. Assim era sua vida: passar mal, estudar demais, trabalhar em exagero.

Gustave Geley (1865-1924): Cientista e profundo psiquista, nasceu a 14 de julho de 1865 e faleceu em virtude de um desastre de avião, quando viajava de Varsóvia a Paris. Era médico em Nancy, tendo abandonado a carreira para dedicar-se ao estudo dos fenômenos metapsíquicos. Fundou o Instituto Metapsíquico Internacional de Paris, do qual foi diretor. Fez inúmeras experiências sobre materializações, notadamente na obtenção de moldagens em gesso de mãos ectoplásmaticas.

Charles Richet (1850-1935): Nasceu em Paris; aos 37 anos de idade foi nomeado lente catedrático de Filosofia da Faculdade de Medicina de Paris. No campo científico, foi um verdadeiro gênio: além de fisiologista de renome internacional, foi o descobridor da soroterapia. Depois de se ocupar com os fenômenos chamados supra-normais, porém deixando de lado a parte doutrinária oriunda destes, criou a Metapsíquica, que definiu como sendo uma "ciência que tem por objeto fenômenos mecânicos ou psicológicos, devido a forças que parecem inteligentes, ou a poderes desconhecidos, latentes na inteligência humana". Suas principais obras são: "Tratado de Metapsíquica", "A Grande Esperança", "O Sexto Sentido", "A Porta do Mistério", "O Homem e a Inteligência", além de outras de caráter científico.

Eugène Auguste Albert de Rochas (1883-1947): Foi engenheiro, coronel do Exército e Administrador da Escola Politécnica de Paris. Por meio de passes longitudinais, aplicados em alguns sensitivos, De Rochas conseguia provocar, nesses pacientes, a regressão da memória, fazendo com que eles se lembrassem, com toda precisão, de fatos ocorridos em várias encarnações passadas. Essas experiências são bastante conhecidas. O autor assistiu a um trabalho de hipnose, no qual o operador, através de passes, provocou a regressão da memória de um sensitivo até os primeiros meses de sua existência, progredindo, depois. Quando na idade de dez ou doze anos, aproximadamente, apresentava todas as características próprias dessa idade. De Rochas publicou várias obras, dentre elas "As Vidas Sucessivas", através da qual expõe esses fatos pormenorizados. Membro de várias sociedades sábias, oficial da Legião de Honra, da Instrução Pública, de São Salvador (Grécia), e das Ordens da São Maurício e São Lázaro (Itália); comendador das ordens de Sant'Ana (Rússia), do Mérito Militar (Espanha), de Medjidie (Turquia), de Nicham (Túnis), do Dragão Verde (Anam), o coronel de Rochas foi um dos sábios a quem o Espiritismo e o magnetismo contemporâneo mais devem. Cientista nato e escritor de raro brilhantismo legou para a posteridade obras importantes como: "A Levitação", trabalho que não se subordina apenas ao título geral da obra, posto que traz adicionalmente importante estudo sobre a Física da Magia, apresentado em 1889 ao Congresso Espiritualista de Londres, a memória intitulada "Os Limites da Física", apresentada no Congresso Internacional da História das Ciências em 1900. Outras obras importantes foram: "A Exteriorização da Sensibilidade", "A Exteriorização da Motricidade", “Les Effuves Odiques”, "Os Sentimentos, a Música e o Gesto".

Eugêne Osty (?-?): Foi médico neurologista de fama internacional. Exerceu, por muito tempo, a diretoria do Instituto Metapsíquico da França. Além de notável médico, realizou importantes trabalhos de pesquisas no campo experimental da fenomenologia espírita.

Victor Hugo (1802-1885) – Escritor conhecido mundialmente, na casa do qual realizavam-se experiências psíquicas.

Outros Países

Rabindranath Tagore (1861-1941): Poeta, contista, dramaturgo e crítico de arte hindu; nascido em Calcutá. Seu pensamento abriu novos caminhos para a interpretação do misticismo, procurando atualizar as antigas doutrinas religiosas nacionais; principais obras poéticas : O Jardineiro, O Carteiro do Rei, e Pássaros Perdidos. Tagore nasceu em Calcutá. Ele foi o maior poeta moderno da Índia e o gênio mais criativo da renascença indiana. Além de poesia, Tagore escreveu canções (letras e melodias), contos, novelas, peças de teatro (em prosa e verso), ensaios sobre diversos temas incluindo críticas literárias, textos polêmicos, narrativas de viagens, memórias e histórias infantis. Grande parte de sua obra está escrita em Bengali. Gitanjali (1912), uma tradução e interpretação de uma obra poética em Bengali do original Gitanjali de 1910 fez com que Tagore ganhasse o Prêmio Nobel de Literatura em 1913.

Qualquer um que nos apresentar uma contraprova, para derrubar as pesquisas levadas a efeitos por esses sábios, naturalmente que usando de métodos reconhecidamente científicos e não conceitos dogmáticos, nós estaremos prontos a aceitar, com humildade, a condição de “espíritas simplórios”.

Embora não fosse de nosso interesse entrar no campo religioso, é necessário citar alguma coisa para provar a incoerência desse “parapsicatólico”, que nega, sistematicamente, a possibilidade da comunicação com os mortos.

A mais evidente das contradições que se apresenta entre os católicos é que, mesmo afirmando que os mortos não se comunicam, não deixam de fazer seus petitórios aos santos. O que tem de moça feia e encalhada querendo que Santo Antônio resolva o seu problema não está no gibi. O crente faz um pedido ao santo, ele atende, o crente paga-lhe com uma promessa, se isso não é uma comunicação entre o crente e o santo então devemos ter consultado o dicionário errado.

Por outro lado, é sempre citado, e aqui mais uma vez é flagrante a incoerência, que é proibido evocar os mortos. Ora, como têm que foi o próprio Deus quem determinou isso estamos diante de algo inusitado: Deus proíbe algo que não pode acontecer!

Como provas bíblicas podemos citar: Samuel depois de morto aparece a Saul (1Sm 28); Moisés e Elias conversam com Jesus (Mt 17,3) e o próprio Jesus depois de morto aparece aos discípulos.

Não poderemos também deixar de apresentar provas que os próprios católicos nos apresentam, e, diga-se de passagem, louvável a honestidade deles.

O Pe. François Brune, pesquisador da Transcomunicação Instrumental - comunicação dos mortos através de aparelhos eletrônicos -, após anos de pesquisa publica o livro “Os mortos nos falam”, onde apresenta ao público a conclusão a que chegou. Vejamos alguma coisa do que disse:

Interrogar sobre as origens, no pensamento ocidental, desta recente ideologia do nada, não é o meu propósito. O mais escandaloso é o silêncio, o desdém, até mesmo a censura exercida pela Ciência e pela Igreja, a respeito da descoberta inconteste mais extraordinária de nosso tempo: o após vida existe e nós podemos nos comunicar com aqueles que chamamos de mortos.

Escrevi este livro para tentar derrubar esse espesso muro de silêncio, de incompreensão, de ostracismo, erigido pela maior parte dos meios intelectuais do ocidente. Para eles, dissertar sobre a eternidade é tolerável; dizer que se pode vivê-la torna-se mais discutível; afirmar que se pode entrar em comunicação com ela é considerado insuportável.

O padre e teólogo que sou quis, como se diz, certificar-se completamente da verdade. Por que todos esses testemunhos deveriam ser, a priori, considerados suspeitos? Quando o conteúdo das mensagens e das comunicações gravadas reúne, como eu o demonstro, os maiores textos místicos de diversas tradições, existe nisso mais que uma simples coincidência. Eu acompanhei, pois, e estudei apaixonadamente os resultados das pesquisas mais recentes nesse campo. As conclusões deste trabalho ultrapassam minhas previsões: não somente a credibilidade científica das experiências de comunicação com os mortos encontra-se confirmada e não pode mais ser posta em dúvida, mas a prodigiosa riqueza dessa literatura do além reanimou em mim o que os séculos de intelectualismo teológico haviam extinguido. (BRUNE, 1991, p. 15) (grifo nosso).

Do livro “O Além Existe”, de Lino Sardos Albertini, advogado italiano, transcrevemos essa opinião do autor:

Apesar de ter como objetivo um fenômeno extraordinário (e rigorosamente documentado) de intervenções do Além através do meu filho desaparecido em circunstâncias misteriosas, este livro se diferencia radicalmente de toda a literatura que trata dos fenômenos paranormais.

Julgo também necessário comunicar ao público que renunciei a todos os direitos autorais – tanto nas edições italianas como nas estrangeiras – em favor de uma fundação que criei para colaborar na missão de André, estudando com rigor lógico e científico, documentando e divulgando todos os fatos que possam constituir provas ou sérios indícios da sobrevivência da alma, com exclusão de todos os fatos indicativos de fenômenos provocados por forças físicas ou psíquicas terrestres. (ALBERTINI, 1989, p. 6).

Oportuno, também, incluirmos aqui a opinião de um padre que está colocada no início desse livro do Dr. Albertini:

A IGREJA ANTE OS FENÔMENOS PARANORMAIS

À Igreja, a meu ver, agrada que a verdade anunciada por Jesus Cristo receba hoje, num mundo secularizado, novas confirmações por meio de fatos e provas concretas, aptos a despertar o interesse dos indiferentes e dos agnósticos que, sem ele, dificilmente compreenderiam o valor das motivações mais interiores e profundas da Fé.

Entre os sinais e os indícios, já indicados pelos Santos Padres, de uma vida no Além, em primeiro lugar se apresentam alguns fenômenos paranormais espontâneos, isto é, não-mediúnicos, como as bilocações de viventes e as aparições de mortos (inumeráveis as dos santos). Esses fenômenos, se forem enriquecidos de credibilidade testemunhal e conexos com acontecimentos objetivos (revelações de acontecimentos desconhecidos ou futuros e, em seguida, realizados, curas instantâneas etc.), oferecem um precioso e convincente convite ao homem moderno: aceitar a Fé, como tive oportunidade de ilustrar num livro recente (G. Martinetti, La vita fuori Del corpo, Elle Di Ci, Turim, 1986), do qual estou preparando a segunda edição, com acréscimos de muitos fatos históricos e contemporâneos.

Uma segunda categoria de fenômenos em favor do Além nós é dada pelas comunicações mediúnicas, que constituem um campo delicado e perigoso como a Igreja muitas vezes o declarou, fundando-se na Bíblia.

A Bíblia condena a necromancia (tipo particular de comunicação com presumíveis falecidos, conforme o costume das culturas tribais, mas não ausente nos nossos países), por causa de suas estreitas relações com as religiões mágicas e animistas. Deus, como é apresentado pela Revelação bíblica, quer nos conduzir para uma felicidade supraterrena, por meio do amor e obediência confiante nele e a aceitação de acontecimentos futuros – por nós desconhecidos, mas por ele permitidos para cada um de nós. O homem não pode pretender, servindo-se do poder dos “espíritos” (magia, adivinhação, necromancia), conhecer o próprio futuro, prejudicar, com feitiços, os próprios adversários e construir a seu gosto um destino de sucesso, riqueza e poder. Nas culturas tribais atuais, em que se pratica a magia e a necromancia, o Criador vem sendo esquecido, enquanto todo o culto é orientado, por meio de feiticeiros, para os falecidos. Eles querem, por meio dos mortos, obter “feitiços” para os inimigos e vantagens materiais para os que pedem.

As proibições do Magistério (a última é de 1971) são motivadas pela condenação bíblica à necromancia (que pode apresentar afinidades com certos tipos de espiritismo) e sobretudo pela possibilidade, não remota e teórica, de que nas comunicações mediúnicas se introduzam, sob nome falso, espíritos negativos, com a intenção de desviar os viventes do caminho certo e até provocar em alguém o fenômeno chamado “possessão”.

Com o progresso da parapsicologia científica, os estudiosos e também os que acreditam vêem na maioria das mensagens mediúnicas ordinárias não necessariamente a presença de Satanás, mas reflexos da psique do médium e dos participantes.

Em alguns casos reconhecem somente sérios indícios de contato com seres inteligentes que não vivem neste mundo.

1 – São os casos em que o presumido falecido revela o caráter, a maneira de pensar e de falar que possuía nesta vida aquele que diz ser, os nomes e os costumes de pessoas conhecidas por ele e pelos participantes da sessão, mas, sobretudo, notícias absolutamente desconhecidas dos médiuns e dos participantes, conhecidas somente pelo falecido quando estava nesta vida e verificadas, hoje, como exatas.

2 – Essas revelações possuem notável valor indicial quando se pode constatar a ausência de especiais e extraordinários dotes de clarividência no médium e nos participantes (isto é, nunca mostraram esse dotes em sua atividade ordinária) e, ainda mais, se as revelações acontecem com particularidades paranormais não atribuíveis a eles (como, por exemplo, com uma caneta que escreve sem a guia do médium). As notícias até agora desconhecidas e que se revelaram exatas são, então, um sinal bastante convincente da presença de um espírito que se comunica do além, mas não oferecem ainda fortes probabilidades de que seja verdadeiramente o falecido que diz ser.

Poderiam provir de entes de baixo nível moral que referem notícias exatas e verificáveis para enganar em outros campos que não se podem provar facilmente e assim induzir os viventes para posições que, com o passar do tempo, tornar-se-iam moral e religiosamente desviantes.

3 – Deus pode querer a intervenção de alguns falecidos em nossa vida para nos ajudar a acreditar na Vida eterna e para nos admoestar a que não nos apeguemos às coisas deste mundo (cf. Sto. Tomás, Suma, I, 89,8 ad 2; Supl. 69, 3; e noutros trechos). O Magistério católico, alertando para o perigo do espiritismo, nunca declarou que o mesmo tenha sempre origens diabólicas. A Igreja permite que se tentem experiências neste campo por pessoas competentes (sólida formação religiosa e moral, senso crítico, uma boa cultura em parapsicologia, equilíbrio psíquico), à procura da verdade, com os devidos cuidados (por exemplo: que o médium tenha demonstrado retidão moral e não busque o lucro ou esteja à procura de notoriedade).

Sob tais condições, o Magistério se conforma à opinião que prevalece entre os estudiosos de que os fenômenos mediúnicos são originados, às vezes, por causas infraterrenas (o inconsciente dos participantes ou as fraudes do médium), mas não exclui que, em alguns casos, se manifestem determinados mortos.

Podemos razoavelmente concluir que o presumido morto que se comunica seja exatamente aquele que diz ser somente se apresentar suficientes indícios capazes de convencer que sua comunicação tenha sido autorizada por Deus e realizada em comunhão com ele. Nesse caso, nós, que acreditamos, sabemos que:

a) o morto nunca negará pontos substanciais do Evangelho e do ensino da Igreja;

b) poderia até fornecer deles confirmação e aprofundamento;

c) de sua intervenção hão de surgir efeitos positivos do ponto de vista moral e religioso (aproximação da fé, recuperação da paz e da tranqüilidade, oração, perdão, reconciliação, etc.).

Se se verificarem todas as precedentes condições, a exigência, para acreditar na autenticidade das comunicações, de provas científicas, provas tais que excluam absolutamente qualquer possibilidade de erro, embora mínima, e que apresentem a certeza matemática-física, representaria, a meu ver, um posicionamento de excessiva severidade metodológica, capaz de fechar o caminho a qualquer outro resultado e a qualquer outra pesquisa, quer de parapsicologia, quer de todas as outras disciplinas que não estudam exclusivamente os fenômenos físico-químicos.

De fato, o cientista acredita nas pessoas e nos acontecimentos e toma decisões comprometedoras ou até vitais só à base de certezas morais suficientemente meditadas (as relações humanas, os fatos históricos e os relativos testemunhos, os processos indiciários, os valores humanos não oferecem certezas científicas). O cientista que tem fé pode com razão acreditar, como com efeito acontece, nas aparições de Lourdes, de Fátima etc., apesar de esses fenômenos não serem suscetíveis de provas científicas, mas de certezas morais somente.

Até as aparições contadas pelos Atos dos Apóstolos, os milagres de Jesus, as profecias realizadas e as aparições dos Ressuscitado, que os Evangelhos e a Igreja sempre consideraram sinais qualificados da Fé, não podem ser comprovados cientificamente, mas se baseiam em certezas de ordem moral seriamente fundadas.

A intuição pessoal, além do mais, graças à iluminação divina, chega à certeza absoluta da Fé.

Os inúmeros e significativos reflexos positivos nas consciências, obtidos por meio de O Além existe, demonstram a necessidade que tem o homem de sinais exteriores e de provas objetivas que ajudem a Fé, hoje mais difícil, e o dever para nós que acreditamos, de estudar este caso relevante e todo o imenso e complicado campo do paranormal, deixando a atitude de desinteresse e de estranheza que, no último século, por influência do positivismo dominante, caracterizou boa parte da cultura católica.

Pe. João Martinetti

Estudioso da paranormalidade

(ALBERTINI, 1989, pp. 11-14).

Será que podemos acrescentar esses dois católicos entre os “simplórios” que acreditam na comunicação com os mortos? Poderíamos incluir, também, nessa lista todos os católicos que acreditam na aparição dos santos, já que eles, obviamente, não se encontram mais no mundo dos vivos?

Para apoiar sua tese evoca Saintyves, entretanto, em outra situação sobre ele, foi dito:

Escreve Saintyves, imerecidamente um líder dos mais prestigiados pelos racionalistas antigos, e pelos “modernizados” de hoje: “Falta estabelecer que este livro é verdadeiramente de Daniel, estamos portanto no direito de contestar a história dos três jovens na fornalha (...), não seria menos ridículo que defender a autenticidade dos escritos atribuídos a Orfeu ou às musas. Igualmente como garantir a historicidade das maravilhas do ‘Gênesis’ e os milagres do ‘Êxodo’?”.

Muito cômoda esta atitude dos racionalistas e “modernizados”. E realmente ridícula. Por algum detalhe discutível, periférico e completamente acidental, desprezado pelos autores bíblicos precisamente porque são detalhes acidentais, os racionalistas e seus seguidores passam a negar o fato substancial, impressionante, inesquecível!

Na realidade eles estão negando o fato não por causa dos detalhes; negam por preconceito contra todos e contra qualquer milagre. Sem estudar os fatos! Sem Parapsicologia! Pelo mesmo preconceito para esses teólogos “modernizados”, como para os racionalistas, agnósticos, liberais... seriam também lendas todos os casos análogos posteriores!

(http://www.clap.org.br/artigos/MilagresCiencia/TerceiraClassificacao.htm).

Quando a opinião de Saintyves é uma arma contra o Espiritismo, tudo bem, mas quando é contra os milagres, aí o tomam por um imerecido líder. “Eis o homem!”

Derrubando o inconsciente sabe-tudo

Os espíritos têm buscado insistentemente provar que a vida continua, não fosse pela negação sistemática, não dos materialistas, mas dos que se dizem espiritualistas, isso talvez já poderia ter sido aceito por todos.

Mesmo sabendo da forma com que o “parapsicatólico” tem a pessoa de Chico Xavier, vamos trazer algumas coisas que apuramos desse médium.

Do livro “Nosso amigo Chico Xavier”, transcrevemos:

“O outro caso de xenoglossia ocorreu após visitar, em companhia do Dr. Rômulo Dantas, a fazenda de propriedade do Dr. Louis Ensch, engenheiro luxemburguês, fundador da Usina de Monlevade da Companhia Belgo-Mineira, em Monlevade (MG). Após o regresso, numa das suas preces, recebe uma mensagem em luxemburguês, endereçada ao engenheiro, que ao lê-la foi tomado de grande surpresa e admiração: estava escrita em sua língua nacional, com tamanha perfeição, que somente os intelectuais de sua pátria estariam aptos a compreendê-la”.

“Se faz necessário notar que pouquíssimas pessoas em nosso país falam o luxemburguês. Seria necessário catá-las a dedo, pois esta língua é falada em um país europeu que possui uma população total de 340.000 habitantes, o equivalente à de nossa cidade litorânea, Santos”. (SILVA, 1995, p. 145).

O perito em grafoscopia, Carlos Augusto Perandréa, após analisar uma mensagem recebida em italiano, língua que Chico não conhecia, em comparação com escritos dessa pessoa quando viva, atesta:

“A mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier, em 22 de julho de 1978, atribuída a Ilda Mascaro Saullo, contém, conforme demonstração fotográfica (figs. 13 a 18), em ‘numero’ e em ‘qualidade’, consideráveis e irrefutáveis características de gênese gráfica suficientes para a revelação e identificação de Ilda Mascaro Saullo como autora da mensagem questionada” (PERANDRÉA, 1991, p. 56).

Se, porventura, alguém quiser contestar esse laudo, que, por favor, o faça, mas que saiba que esse perito emitiu cerca de “700 laudos técnicos, sem uma única contestação em 25 anos de atuação, proporcionam ao professor Perandréa, conhecimento, capacidade e alta credibilidade para estudar imparcialmente e cientificamente a psicografia”, segundo Carlos Roberto Appoloni, na contracapa do livro citado logo acima.

A título de esclarecimento, transcrevemos:

PRINCÍPIOS E LEIS DO GRAFISMO

Princípio fundamental

A estrutura básica em que se assenta o exercício da perícia grafoscópica decorre do princípio fundamental do individualismo gráfico.

A evidencia física desse fato, de incontestável veracidade teórica e prática, permitiu à perícia de documentos a sua aceitação em todos os tribunais do mundo, como prova científica da mais alta relevância.

A gesticulação que produz a escrita origina-se do cérebro e se manifesta através dos órgãos musculares, redundando em sinais sensivelmente individualizadores, personalíssimos e inconfundíveis.

A prática tem demonstrado, incansavelmente, a circunstância eventual de dois punhos diferentes produzirem escritas semelhantes, ou até mesmo muito parecidas, sem, entretanto, se confundirem. A análise pericial, levada a efeito com justeza e competência, encarrega-se de distinguir; com absoluta segurança, as origens desta e daquela escrita. Se assim não fosse, a Grafoscopia estaria desacreditada.

No campo das falsificações é onde o perito exerce a sua mais alta capacidade profissional, cabendo-lhe a difícil tarefa de fornecer subsídios técnico-científicos com absoluta precisão, apontando a existência da fraude.

Sendo a escrita constituída de alentado número de elementos genéricos, aliado a particularidades grafocinéticas, a que se deve acrescentar a possibilidade da existência de "mínimos" gráficos inconfundíveis, torna-se fácil compreender o elevado grau de característicos unipessoais competentes de uma escrita, permitindo sua identificação firme e segura.

Solange Pellat, no seu livro Les lois de l´écriture, formulou quatro leis essenciais, de natureza prática, que deram à Grafoscopia um respaldo científico de incontestável valor, pela sua extraordinária objetividade.

Por isso mesmo essas leis se aplicam indistintamente a qualquer alfabeto, constituindo um verdadeiro "princípio inicial", assim enunciado:

"As leis da escrita são independentes dos alfabetos empregados".

Tal circunstância decorre, evidentemente, do princípio fundamental do individualismo gráfico, implícito em todas as manifestações do insigne mestre Solange Pellat, no seu valioso livro.

LEIS DE SOLANGE PELLAT

São as seguintes:

1a. Lei da escrita

"O gesto gráfico está sob a influência imediata do cérebro. Sua forma não é modificada pelo órgão escritor se este funciona normalmente e se encontra suficientemente adaptado à sua função."

O enunciado desta lei deixa claro que sendo o cérebro o gerador do gesto gráfico, desde que o mecanismo muscular esteja convenientemente adaptado à sua função, ele produzirá escrita sempre com as mesmíssimas peculiaridades.

Assim sendo, aquele que escreve, por exemplo, com a mão direita, se passar a fazê-lo com a esquerda, após sucessivos treinamentos apresentará escrita com idênticas características grafocinéticas.

O mesmo ocorrerá com escritas produzidas com a boca, ou com os pés, conforme é farta a literatura a respeito, provada pela casuística pericial. A circunstância de os loucos não escreverem, voltando a fazê-lo nos eventuais momentos de lucidez, é a maior evidência da premissa da 1a. lei de Solange Pellat.

2a Lei da escrita

"Quando se escreve, o 'eu' está em ação, mas o sentimento quase inconsciente de que o 'eu' age passa por alternativas contínuas de intensidade e de enfraquecimento. Ele está no seu máximo de intensidade onde existe um esforço a fazer, isto é, nos inícios, e no seu mínimo de intensidade onde o movimento escritural é secundado pelo impulso adquirido, isto é, nas extremidades."

Esta lei se aplica precisamente aos casos de anonimografia, onde o esforço inicial dos disfarces é muito mais acentuado, perdendo sua intensidade à medida que a escrita vai progredindo. Incidindo no automatismo gráfico, o escritor aproxima-se de sua escrita habitual, deixando elementos que poderão incriminá-lo. O mesmo pode ocorrer nos casos de falsificação, demonstrando a conveniência de um exame mais atento nos finais dos lançamentos, onde os maneirismos gráficos ocorrerão com mais freqüência.

3a Lei da escrita

"Não se pode modificar voluntariamente em um dado momento sua escrita natural senão introduzindo no seu traçado a própria marca do esforço que foi feito para obter a modificação."

Na prática essa lei tem aplicação nos casos de autofalsificação, podendo ocorrer em outras simulações, obviamente. Em qualquer deles o simulador se trairá, através de paradas súbitas, desvios, quebra de direção ou interrupções, cabendo ao técnico interpretar convenientemente essas particularidades.

4a Lei da escrita

"O escritor que age em circunstâncias em que o ato de escrever é particularmente difícil, traça instintivamente ou as formas de letras que lhe são mais costumeiras, ou as formas de letras mais simples, de um esquema fácil de ser construído."

Sempre que se torna penoso escrever, em circunstâncias desfavoráveis, prevalecerá a "lei do mínimo esforço", resultando em simplificações, abreviaturas, letras de forma ou esquemas pouco usuais, buscando abreviar os lançamentos.

Na prática são comuns casos dessa natureza em escritas produzidas em veículos em movimento, em suportes inadequados, em posições desfavoráveis, por pessoas enfermas ou em situações que demandem extrema urgência, de tudo resultando excelente cabedal gráfico para precisas conclusões periciais.

(fonte: http://geocities.yahoo.com.br/marciobasilio/Escrita.html, 17.02.06, às 9:00 hs).

  Hoje os laudos grafotécnicos dos peritos são aceitos, em qualquer processo judicial, como prova incontestável de identificação do autor de uma escrita. Daí, a opinião de Perandréa ser uma prova a favor da psicografia, a contragosto dos críticos. E certamente, como a escrita é um ato inconsciente, o inconsciente de um médium não produzirá o que se encontra no inconsciente de uma outra pessoa. Por isso, deve-se concluir que quem produziu a escrita foi a própria mente que possui os grafismos particulares e inconfundíveis que foram analisados, ou seja, no caso, o espírito, que agora no plano espiritual, ainda mantém a mesma “identidade” de escrita que possuía quando habitava um corpo físico.

Podemos citar Divaldo P. Franco, como outro médium que psicografou em outra língua. Em outubro de 2004, quando do IV Congresso Espírita Mundial, realizado na França, ele recebeu uma mensagem em francês escrita de trás para frente, língua que não conhece. Isso tudo aconteceu diante de um público de 1700 pessoas. Esse detalhe interessante de ter sido escrita de trás para frente, leva a nocaute o inconsciente sabe-tudo. E antes que se levante, vamos dar o golpe de misericórdia. Marcel Souto Maior, em Por trás do véu de Ísis, nos relata uma comunicação recebida por Chico Xavier (pp. 61-62), vejamo-la:

LLEWRUOYEH

LFOSDNEIRF

YNAMEVAHUO

YNEMHTOTE

POHDNAHTUR

TEGRALYREV

YLURTSIESU

OHSREHTAFS

UORENEGRUO

SREHTORBYM

  Não dá para entender nada, não é mesmo? Até parece o passatempo “caça-palavras”, que aparece nos livretos de Palavras-Cruzadas. Mas o que significa isso? Bom, para sabermos o que o espírito Emmanuel disse teremos que seguir sua orientação e enfileirar ao inverso essas letras, feito isso, lemos:

My brothers, our generous Father’s House is truly very large. Truth and hope the men. You have many friends of the your well.

[Meus irmãos, a Casa Generosa do Nosso Pai é, em verdade, muito vasta. Verdade e esperança aos homens. Tendes muitos amigos do vosso Bem].

  Se alguém puder nos provar que o nosso inconsciente age dessa maneira, ou seja, escrever numa língua que não falamos e do fim para o começo, certamente, nos rendermos aos fatos. Entretanto, se esse não for o único caso, certamente estará entre os pouquíssimos acontecidos dessa forma, fato que coloca em xeque ser produto do inconsciente, pois caso fosse, haveria inúmeras outras pessoas cujos inconscientes agiriam dessa forma.

  E para enterrar de vez essa esdrúxula idéia, é bom jogarmos algumas pás de cal sobre ela.

  Primeiro caso:

  James Van Praagh, dá o título de Não é o que você pensa ao caso que iremos transcrever do seu livro Conversando com os Espíritos (pp. 74-78):

Quando estava escrevendo este livro, precisei rever muitos anos de minha atividade, um número incontável de sessões, com o objetivo de apresentar o que considerava como sendo os tipos mais comuns de encontros entre pessoas saudosas e aqueles que haviam atravessado o véu da morte. Nessa minha pesquisa, deparei-me com determinadas sessões que se destacavam das demais. Talvez por serem muito particulares, ou por demonstrarem certos poderes miraculosos dos espíritos, ou porque a comunicação mantida durante essas sessões trouxera fatos ou revelações surpreendentes.

A sessão a seguir exemplifica magnificamente esse último caso. É a história de um casal cuja vida foi despedaçada pela morte de seu filho. Foi uma morte que provocou mais perguntas do que respostas. O espírito de seu filho ficou extremamente agradecido pela oportunidade de esclarecer seus pais a respeito dos incidentes controversos que cercaram sua morte. Ao final da sessão, foi não só apenas capaz de restabelecer a paz de espírito de seus pais como também, o mais importante, sua alma, finalmente, pôde descansar.

Allan e Sandra vieram até mim por recomendação de amigos. Pareciam muitos céticos e muito inseguros quanto a se envolverem em algo tão insólito (para eles) quanto o espiritualismo. Eu fiz a minha introdução de costume, explicando como recebo as informações, o que se pode e o que não se pode esperar. Eles escutaram com atenção e entenderam que deveriam estar preparados para o que quer que fosse acontecer.

A primeira pessoa que captei foi a mãe de Sandra. Eu avisei:

- Sandra, sua mãe está aqui. Ela a acompanha muito de perto e diz para você ter cuidado com aquela faca na cozinha.

- Meu Deus! – exclamou Sandra. – Eu a estava afiando hoje e quase cortei meu dedo. Ela estava me observando?

Eu respondi:

- Só podia ser a sua mãe, porque eu não estava na sua cozinha. Sandra sorriu e sua mãe continuou me enviando mensagens.

- Sua mãe diz que gostou muito dos novos móveis do pátio.

- Sim, isso mesmo. Acabamos de comprar alguns móveis. Minha mãe gostava muito de sentar-se no pátio quando morava conosco.

- Ela tem muito senso de humor. Acabou de dizer que se sentava ali esperando a morte.

Subitamente, fui interrompido pelos pensamentos de outro espírito que insistia em ser ouvido.

- Sim, eu escuto você... – disse ao espírito. – Há alguém com sua mãe, Sandra. É um jovem... alguém que viveu muito pouco. Sua mãe me diz agora que você esteve chamando por ele.

Os olhos do casal encheram-se de lágrimas. Prossegui, perguntando:

- O nome Steven quer dizer alguma coisa para vocês?

Eles ficaram pálidos e começaram a chorar. Steven era o filho do casal e, aliás, a principal razão de terem vindo me ver.

- Steven está muito agitado! – continuei. – Ele não se sente em paz. Tem tentado chegar a vocês há algum tempo. Ele teria falecido há dois anos, aproximadamente?

- Não... faz apenas dez meses, quase um ano.

- Hum... Ele diz que sabe que sua morte destruiu a vida de vocês também e diz que lamenta muito pelo que passaram. Ele tentou corrigir um erro... Não sei do que está falando. Vocês entendem?

- Acho que sim – disse Allan. – O que mais ele está dizendo?

- Nossa... Ele está me enviando uma sensação fortíssima de ardência. Sinto como se minha cabeça fosse estourada... reduzida a pedaços. Sinto muito, mas essa é a sensação que ele está me transmitindo. Ele levou um tiro? Foi isso?

- Sim...

- Steven diz que foi encontrado morto em seu quarto...

- Foi isso mesmo!

Ambos enxugaram os olhos.

- Sinto muito ter que lhes contar isso... Mas creio que seu filho estava envolvido com drogas... ou pelo menos que as vinha experimentando.

- Nós descobrimos isso também! – afirmou Sandra.

- Seu filho é muito forte. Ele está gritando... foi Ronnie! Quem é Ronnie?

- Era um de seus amigos.

Foi então que transmiti a informação que mudou completamente a atmosfera daquela sala, não apenas os sentimentos do casal, mas mesmo os meus.

- Seu relógio. Ele está falando sobre seu relógio de ouro...

- Não conseguimos encontrá-lo, depois que Steven morreu – explicou Allan. – E procuramos em todos os cantos.

- Seu filho o deu a Ronnie, como pagamento. Ronnie estava muito zangado. Sabem se houve alguma briga entre eles?

- Não...

- Steven está gritando para mim: “Eu não me matei. Foi Ronnie. Foi ele que fez isso comigo!”

Baixou um silêncio quase mortal entre nós. Não conseguíamos acreditar no que havia sido dito. É muito raro um espírito vir até nós para revelar o nome de seu assassino. Nesse caso, Steven queria justiça. Recostei-me em minha cadeira e tentei me recompor, antes de continuar.

- Steven está dizendo alguma coisa sobre suicídio. Vocês acreditam que ele cometeu suicídio?

Ambos confessaram que sim...

- Seu filho está tentando dizer que estão enganados. Ele não se mataria. A polícia chegou a questionar a hipótese de suicídio?

- Não – disse Sandra. – Foi o que todos acreditamos. Que Steven se matou porque estava envolvido com drogas. Acharam drogas em suas roupas.

- Estou captando com muita clareza que seu filho e esse garoto chamado Ronnie tiveram uma briga a respeito de drogas e de dinheiro. Allan, você possui uma pistola? Uma arma pequena?

- Sim... foi essa a arma utilizada...

- Ele me disse que a apanhou de uma gaveta do fundo do armário. É isso mesmo?

- Jesus Cristo! Como é que você poderia saber disso? Sim, foi isso mesmo.

- Sabem se esse Ronnie tem antecedentes criminais?

- Acho que não... – falou Sandra.

- Seu filho continua a me mostrar uma briga, por causa de dinheiro. Steven devia dinheiro a Ronnie. Este rapaz estava realmente perturbado, sob efeito de alguma substância, na hora. Seu filho agora está me mostrando uma garagem. É uma garagem de tijolos, com uma porta branca. Tem três janelas pequenas. Ele a abre e vai em direção a uma parede lateral, para a esquerda.

- Mas nós não temos uma garagem. O que quer dizer isso?

- Não sei. Mas guardem isso... Por favor. Pode fazer sentido mais tarde. Seu filho está bem e feliz agora, por ter lhes contado isso. Ele disse que vocês compreenderão tudo, algum dia. Peguem o tal Ronnie. Steven está mencionando um nome... Sharon, ou Sherry...

- É a irmã de Ronnie – informou Allan.

- Ela acabou de ter um bebê, por acaso?

- Não...

- Bem, não sei o que significa. Mas guardem a informação e verifiquem se fará sentido, mais tarde. Sua mãe está entrando de novo. Ela diz que vocês ajudaram muito ao Steven. Ele está bem, agora.

- Obrigada... – murmurou Sandra.

- Está me mostrando agora alguma coisa... que tem a ver com descascar batatas...

- Eu estava fazendo ontem uma sopa de batatas. A receita é da minha mãe. Pensei muito nela.

-Ela me disse que ficou uma delícia.

Ambos sorriram. A sessão prosseguiu por mais um pouco. Steven falou a respeito do seu funeral e quanto desejou que sua mãe não sofresse tanto, à beira do túmulo. Enfim, encerramos e nos despedimos. O casal estava convencido de que fizera contato com seu filho. Garantiram que escutariam a fita outra vez para tentar entender melhor a incrível informação recebida.

Muitos meses mais tarde, recebi um telefonema de Sandra. Ela queria agradecer a ajuda que sua família recebera de mim e me pôr a par de tudo o que acontecera, nesse ínterim. Eles haviam contatado a polícia e conversaram com um detetive que sabia da morte do seu filho. O detetive foi investigar a história de Ronnie. Quando visitou a casa de Ronnie, encontrou a garagem de tijolos com as três janelas. À esquerda, por trás de um painel de parede, havia um quilo de heroína escondida, além de outras drogas, e o relógio de ouro de Steven. O detetive levou Ronnie em custódia e, depois de interrogado, o rapaz finalmente admitiu que Steven lhe devia algum dinheiro, por compra de drogas. Steven ofereceu-lhe seu relógio como pagamento. Ronnie ficou com ele, mas ainda exigia mais – queria dinheiro. Certo dia, Ronnie foi à casa de Steven querendo receber, e Steven pegou o revólver de seu pai para se proteger. Quando Steven disse a Ronnie que não tinha mais dinheiro, Ronnie tomou-lhe a arma e disparou-lhe um tiro na cabeça. Ronnie admitiu também que estava sob efeito de drogas, na ocasião. Ele foi julgado e está cumprindo sentença de prisão perpétua em uma penitenciária estadual.

Considerações sobre o caso:

Um fato interessante é que o casal, Allan e Sandra, buscou o médium para tentar entrar em contato com o filho que já havia morrido, segundo todos pensavam, por suicídio. Entretanto, o primeiro espírito que se apresenta à sessão é o da mãe de Sandra, estranho, pois ela não foi ali para isso.

A questão que podemos colocar é: será que após a morte nós deixaremos de pensar em nossos filhos? Se isso acontecer, devemos pressupor que não seremos mais, no outro lado da vida, a mesma individualidade que se encontrava encarnada ou que então passaremos a ser indiferentes com os que amávamos quando vivos. Assim, perguntamos: de que valeriam as relações de amor que estabelecemos com os nossos familiares e amigos, se depois da morte não nos lembrarmos mais deles? Se for verdade isso, seria muito mais prático nascermos e vivermos como alguns animais, sem qualquer vínculo de um para com o outro, nem mesmo o familiar.

Mas o relato nos diz que a mãe de Sandra, apesar de desencanada, continua a se preocupar com a filha, motivo pelo qual a acompanhava em seus afazeres e que as duas mantinham-se sempre ligadas pelo pensamento, uma vez que, nem mesmo com a morte, os laços de amor se rompem. E, em princípio, ficaremos com essa hipótese até que alguém possa nos provar cientificamente o contrário.

Vejamos agora a manifestação de Steven, filho do casal. Percebemos claramente que o médium passa a sentir as sensações que esse espírito estava vivenciando naquele momento. Observar que a certa altura o médium James relata sobre Steven: “Ele não se sente em paz”, ao final, após o desabafo dele, volta a esse assunto, dizendo aos pais: “Seu filho está bem e feliz agora, por ter lhes contado isso”. Será que o inconsciente produziria uma coisa assim? Será que essa atitude é consciente ou inconsciente?

Em que pese todos acreditarem que Steven tenha se suicidado, ele revela que isso não ocorreu, mas que foi o seu amigo Ronnie quem o havia matado, após brigarem por dinheiro relacionado a pagamento de drogas. Será que isso foi captado do inconsciente de Ronnie? Que, mesmo em condições inexplicáveis ele, o inconsciente de Ronnie, estaria delatando-o aos genitores do seu amigo, tornando-se em um “inconsciente Judas”? Alguém em sã consciência faria uma coisa dessa? Não seria mais provável que o instinto de conservação iria inconscientemente nos defender de qualquer acusação, mesmo que tenhamos praticado um crime?

Como foram passadas as informações da garagem de tijolos e da parede lateral à esquerda? Em que inconsciente teria isso sido captado, senão na informação da própria vítima, Steven? Por que motivo foi citado o relógio de Steven, que os pais achavam perdido e que segundo ele, foi entregue a Ronnie como pagamento de droga, fato depois confirmado por Ronnie a polícia? De que inconsciente essa informação foi tirada? A questão do lugar onde o revólver se encontrava guardado, também foi tirada do inconsciente dos pais de Steven? Se alguém disser que sim, poderá provar isso? Mas por que não do próprio Steven?

Enfim, inúmeras questões não seriam respondidas pela hipótese do inconsciente, entretanto, todas seriam perfeitamente explicáveis se aceitarmos que o próprio Steven veio pessoalmente, em espírito, para dizer-lhes tudo isso, bem como o que mais lhe amargurava o coração. Dizem que fomos criados à imagem e semelhança de Deus, isso nos leva à conclusão que somos espíritos já que “Deus é espírito” (Jo 4, 24). Entretanto quando o Espiritismo vem dizer a todos que é exatamente assim, aparecem os contraditores materialistas, entre eles, por estranho que pareça, vários líderes religiosos, juntamente seguem-lhes a maioria dos seus fiéis.

  Segundo caso:

Volto, porém, ao meu assunto; quero terminar esta rubrica pela narração de um fato que possuo de primeira fonte. Ele não pertence à categoria dos fatos que só são conhecidos pelo morto, mas aos que só podiam ser comunicados pelo morto, pois que se trata de um segredo político a respeito de um vivo, revelado pela amiga falecida desse vivo, no intuito de salvá-lo. Exporei esse caso com todos os pormenores que conheço, pois que o considero não só como um dos mais concludentes em favor da hipótese espirítica, mas ainda como uma prova de identidade absoluta, tão absoluta quanto pode sê-lo uma prova desse gênero.

Meus leitores já conhecem minha parenta, a Sra. A. de W., que tomava parte em minhas sessões íntimas, durante os anos de 1880-1883. A Sra. W. tem uma filha, a jovem Sofia, a qual, na época em que se faziam essas primeiras sessões, ainda estava no colégio; ela nunca assistira nem a essas nem a outras sessões, e nunca tinha lido coisa alguma referente ao Espiritismo; era tão ignorante neste assunto quanto sua própria mãe, que, além das nossas sessões, nunca se tinha ocupado com o assunto.

Em uma noite de Outubro de 1884, por ocasião da visita de um de seus parentes, a conversação veio cair sobre o Espiritismo e, para agradar a seu hóspede, essas senhoras tentaram uma experiência com a mesa. A tentativa foi pouco satisfatória: provou unicamente que as Sras. W. podiam obter um resultado.

No 1º de Janeiro de 1885, uma terça-feira, à noite, a Sra. W., achando-se só com sua filha, e desejando distraí-la das preocupações que a tornavam um pouco nervosa, propôs-lhe renovar a sua tentativa. Improvisou-se um alfabeto sobre uma folha de papel; um prato de pé com um risco preto como indicador serviu de prancheta e, logo após o começo da experiência, o nome «André» foi soletrado. Era muito natural, André era o nome próprio do marido falecido da Sra. W., pai da jovem Sofia.

A comunicação não foi além das banalidades, mas as Srs. W. decidiram, apesar disso, repetir as sessões uma vez por semana, todas as terças-feiras. Durante três semanas, o caráter das comunicações não se modificou; era sempre em nome de André que elas eram recebidas.

Na quarta terça-feira, a 22 de Janeiro, em vez do nome - André - foi o nome Schoura que foi soletrado com grande surpresa da Sra. W. Depois, por movimentos rápidos e precisos do indicador, a comunicação continuou assim:

- Estás no caso de salvar Nicolau!

- Que quer isso dizer? - perguntaram as duas senhoras admiradas.

- Ele está comprometido com Miguel e morrerá como este! um bando de vagabundos arrasta-o!

- E que é preciso fazer?

- Irás ao Instituto Tecnológico antes das 3 horas, mandarás chamar Nicolau e conferenciarás com ele no gabinete de sua casa.

Como todas estas instruções parecia dirigirem-se diretamente à jovem Sofia, ela respondeu que lhe seria difícil proceder de acordo com essas indicações, em vista das relações de simples polidez que tinham sua mãe e ela com a família de Nicolau. Mas a esta observação Schoura respondeu desdenhosamente:

- Absurdas idéias de conveniências!

- Mas de que maneira poderia eu influir sobre ele? - perguntou a jovem Sofia.

- Pela força da palavra; tu lhe falarás em meu nome.

- Quais são esses que te merecem o epíteto de «vagabundos»? - perguntaram as Sras. W.

- O bando a que Nicolau está filiado.

- Não tens mais as mesmas convicções?

- Erro revoltante!...

Antes de continuar, devo explicar o sentido desta misteriosa comunicação. «Schoura» é o diminutivo russo de Alexandrina; é o nome de uma jovem prima de Nicolau e Miguel. Este último, muito moço, teve a desgraça de se deixar arrastar por nossos anarquistas ou niilistas na corrente revolucionária: ele foi preso, julgado e condenado à prisão em uma cidade afastada; tendo tentado evadir-se, foi morto. Schoura, que o estimava muito, partilhava de suas convicções e tendências e proclamava-o francamente. Depois da morte de Miguel, em Setembro de 1884, ela se sentiu muito desiludida em suas esperanças revolucionárias e envenenou-se, na idade de dezessete anos, a 15 de Janeiro de 1884, apenas uma semana antes da sessão de que se está tratando. Nicolau, o irmão mais moço de Miguel, era nessa ocasião estudante no Instituto Tecnológico.

A Sra. W. e sua filha conheciam todas as circunstâncias do drama que acabo de referir resumidamente, pois que tinham relações que datavam de muito tempo com os pais de Schoura e com os de seus primos, que pertencem, todos, à melhor sociedade de São Petersburgo. (Compreender-se-á a que escrúpulos obedeço não dando os nomes dessas famílias, e o motivo pelo qual modifiquei os nomes próprios dos jovens.)

As relações entre as Sras. W. e as duas famílias estavam longe de ser íntimas; essas pessoas encontravam-se, às vezes, raramente. Mais tarde me alongarei sobre outros pormenores, mas por ora continuo em minha narração.

Nem a Sra. W. nem sua filha sabiam coisa alguma, naturalmente, acerca das opiniões secretas e conduta de Nicolau. Por conseguinte, a comunicação era para elas tão inesperada quanto importante: tal comunicação lhes impunha grande responsabilidade, e a posição da jovem Sofia era muito difícil. Executar à letra as instruções de Schoura, em sua situação de moça solteira, era simplesmente impossível, primeiro que tudo no ponto de vista das conveniências mundanas; e, depois, com que direito se teria ela envolvido, não estando intimamente ligada a essa família, em assuntos tão delicados? Além disso, tudo podia não ser exato, ou, ainda que o fosse, o fato seria muito simplesmente e muito provavelmente negado por Nicolau. Em que posição ficaria ela então? A Sra. W. sabia perfeitamente, pelas sessões nas quais tomara parte em minha casa, quão pouco se deve confiar nas comunicações espiríticas. Assim, tomou a resolução de aconselhar à filha que se certificasse antes de tudo da identidade de Schoura, o que foi aceito imediatamente, como um meio de resolver a dificuldade.

Na terça-feira seguinte, Schoura manifestou-se imediatamente, e a jovem Sofia pediu-lhe uma prova de sua personalidade. Schoura respondeu incontinenti:

- Convida Nicolau, prepara uma sessão, e eu irei.

Vê-se, por esta resposta, que Schoura, desprezando enquanto vivia todas as conveniências da sociedade, como é de uso entre os niilistas, exigia de novo uma coisa inadmissível; Nicolau nunca teria ido a casa da Sra. W. À frente dessa nova dificuldade, a jovem Sofia pediu à sua interlocutora uma outra prova de sua personalidade, sem a intervenção de Nicolau, e que esta prova fosse concludente.

- Eu te aparecerei! - respondeu Schoura.

- Como?

- Vê-lo-ás!

Alguns dias depois, a jovem Sofia, ao ir deitar-se - eram cerca de 4 horas da manhã, de volta de uma reunião dançante -, achava-se na porta que comunicava seu quarto de dormir com a sala de jantar, onde não havia mais luz, quando divisou na parede deste último aposento, defronte da porta, à entrada da qual ela se achava, um globo luminoso que parecia descansar em cima de ombros e que se conservou durante dois ou três segundos, e desapareceu em seguida, subindo para o teto. Aquilo não era decerto o reflexo de uma luz qualquer proveniente da rua; e a jovem Sofia convenceu-se disto imediatamente.

Na sessão seguinte, pediu-se a explicação daquela aparição, e Schoura respondeu:

- Eram os contornos de uma cabeça com ombros. Não pude aparecer mais distintamente, ainda estou fraca.

Se bem que muitos outros pormenores, que devo omitir aqui, tendessem a robustecer a convicção da jovem Sofia quanto à identidade de Schoura, ela não podia, entretanto, decidir-se a proceder de acordo com a opinião dessa última, e propôs-lhe - como meio mais conveniente - dar parte de tudo isso aos pais de Nicolau.

Esta proposta provocou por parte de Schoura um descontentamento muito pronunciado que se traduziu por movimentos bruscos do prato de pé (que servia como prancheta) e, depois, por esta declaração:

- Isso não dará resultado algum!...

Esta frase foi seguida por epítetos desdenhosos que é impossível traduzir aqui, aplicando-se todos a pessoas de um caráter fraco e indeciso, e que Schoura - dotada de caráter enérgico e decidido - não podia suportar; todos esses qualificativos, que não se encontram nos dicionários, eram com efeito as expressões características da linguagem de Schoura quando viva, como se verificou depois.

A uma pergunta relativa a seu pai, Schoura respondeu com impaciência:

- Não fales nele, não fales nele...

Como quer que seja, a jovem Sofia hesitava sempre, e, por sua vez, em cada uma das sessões seguintes, Schoura insistia cada vez mais, exigindo que a jovem Sofia agisse imediatamente. Aquela insistência tinha uma significação particular, como se soube mais tarde. A indecisão da jovem Sofia era atribuída por Schoura à influência da Sra. W., para com a qual a interlocutora se mostrava, desde o começo das comunicações, de uma evidente má vontade: ela havia declarado, desde a primeira sessão, que só queria entender-se com a jovem Sofia, não permitindo à Sra. W. nenhuma pergunta, e, desde que esta última tentava intervir, ela a repreendia asperamente, dizendo-lhe:

- Cale-se! Cale-se!

Ela se dirigia à jovem Sofia em termos que revelavam uma viva ternura, cuja razão e origem saberemos mais adiante, e essas expressões eram ainda as que Schoura tinha o hábito de empregar.

Quais não foram a surpresa e a consternação destas senhoras, quando, na sessão de 26 de Fevereiro, a comunicação começou assim:

- É muito tarde; tu te arrependerás disso amargamente, e os remorsos de tua consciência te perseguirão. Conta com o seu juízo.

Foram as últimas palavras de Schoura; em seguida, ela se calou completamente. Tentaram ainda uma sessão na terça-feira seguinte, porém sem resultado. Desde então as sessões da Sra. W. e de sua filha foram definitivamente abandonadas.

Enquanto duravam essas sessões, a Sra. W. meia tornando ciente de tudo quanto se passava, consultando-me acerca do que era preciso fazer em presença das exigências extraordinárias de Schoura. Algum tempo depois de cessarem as comunicações e para tranqüilizar sua filha, a Sra. W. resolveu dar parte desse episódio aos pais de Nicolau.

Estes não tomaram precaução a tal respeito: sendo a conduta do moço irrepreensível, a família estava absolutamente tranqüila nesse ponto. (É importante consignar que essas revelações espíritas foram levadas ao conhecimento dos pais muito antes do desenlace fatal desta história.)

Quanto à jovem Sofia, como durante todo o ano tudo se passasse regularmente, convenceu-se de que as comunicações de Schoura não tinham passado de mentiras, e prometeu a si mesma nunca mais se ocupar de Espiritismo.

Um ano ainda decorreu sem incidente: mas, a 9 de Março de 1887, a polícia secreta fez subitamente uma busca em casa de Nicolau; ele foi preso em seu domicílio e conduzido em 24 horas para longe de São Petersburgo. Conforme se soube mais tarde, seu crime tinha sido ter tomado parte em reuniões niilistas que se tinham feito nos meses de Janeiro e de Fevereiro de 1885, isto é, precisamente durante os dois meses em que Schoura tinha insistido tanto para que se dessem imediatamente as passadas que deviam impedir a co-participação de Nicolau naquelas reuniões.

Foi então que as comunicações de Schoura foram apreciadas em seu justo valor; as notas tomadas pela Sra. W. foram lidas e relidas pelos pais de Schoura e de Nicolau; a identidade de sua personalidade em toda esta manifestação foi reconhecida como incontestável, tanto pelo fato capital que se referia a Nicolau e por outras particularidades da vida íntima, quanto por todo o conjunto dos traços particulares que a caracterizavam. Esse triste acontecimento caiu sobre a família de Nicolau como um raio, e ela agradeceu a Deus, porque as loucuras do moço não tiveram conseqüências mais funestas ainda. (AKSAKOF, 2002, vol. 2, pp. 337-342). (grifo do original)

Considerações sobre o caso:

Seria bom relembrar que o nome de Aksakof foi citado para defender a hipótese do inconsciente, enquanto, que, em todo o seu trabalho, conforme já o dissemos, ele procura fazer justamente o contrário. Esse caso que citamos vem corroborar isso muito bem.

A informação dada pelo espírito não era de conhecimento de ninguém. Assim, duas alternativas se impõem: ou o fato veio da mente de Schoura, o espírito invisível que transmitia a mensagem; ou algum dos presentes captou a informação da mente de Nicolau, configurando-o um inconsciente “Judas”, um verdadeiro traidor. Acredite quem quiser!

  Terceiro caso:

[...] Quero falar do romance de Carlos Dickens: «Edwin Drood», deixado por terminar pelo ilustre autor e completado pelo médium James, um jovem sem instrução. Diversas testemunhas presenciaram o modo de produção da obra, e juízes competentes apreciaram-lhe o valor literário.

Passo a dar alguns pormenores acerca dessa produção única nos anais da literatura.

Quando se espalhou o boato de que o romance de Dickens ia ser terminado por tão extraordinário e insólito processo, o «Springfield Daily Union» expediu um de seus colaboradores a Brattleborough (Vermont), onde habitava o médium, para fazer uma investigação, no local, de todos os pormenores dessa estranha empresa literária. Eis alguns trechos do relatório em oito colunas publicado por esse jornal, a 26 de Julho de 1873, reproduzido a princípio pelo «Banner of Light» e depois parcialmente pelo «The Spiritualist» de 1873, página 322, ao qual os tiramos:

«Ele (o médium) nasceu em Boston; aos catorze anos, foi colocado como aprendiz em casa de um mecânico, ofício que até hoje exerce; de maneira que sua instrução escolar terminou na idade de treze anos. Se bem que não fosse nem destituído de inteligência, nem iletrado, não manifestava gosto alguma pela literatura e nunca se tinha interessado por ela.

«Até então, nunca tinha experimentado publicar, em qualquer jornal, o menor artigo. Tal é o homem de quem Carlos Dickens lançou mão da pena para continuar «The Mistery of Edwin Drood» e que chegou quase a terminar essa obra.

«Fui bastante feliz por ser a primeira pessoa a quem ele próprio participou todos os pormenores, a primeira que examinou o manuscrito e fez extratos.

«Eis como se passaram as coisas. Havia dez meses, um jovem, o médium que, para ser breve, designarei pela inicial A (pois que ele não quis ainda divulgar seu nome), tinha sido convidado por seus amigos a sentar-se perto de uma mesa para fazer parte de uma experiência espírita. Até aquele dia, sempre havia zombado dos «milagres espíritas», considerando-os fraudes, sem suspeitar que ele próprio possuía dons mediúnicos. Apenas começou a sessão, ouviram-se pancadas rápidas e a mesa, depois de movimentos bruscos e desordenados, cai sobre os joelhos do Sr. A. para fazer-lhe ver que é ele o médium. No dia seguinte, à noite, convidaram-no para tomar parte em uma segunda sessão; as manifestações foram ainda mais acentuadas. O Sr. A. caiu subitamente em transe, tomou um lápis e escreveu uma comunicação assinada com o nome do filho de uma das pessoas presentes, de cuja existência o Sr. A. não suspeitava. Mas as particularidades dessas experiências não são de interesse particular neste lugar...

«Em fins do mês de Outubro de 1872, no decurso de uma sessão, o Sr. A. escreveu uma comunicação dirigida a si mesmo e assinada com o nome de Carlos Dickens, com o pedido de organizar para ele uma sessão especial, a 15 de Novembro.

«Entre Outubro e o meado de Novembro novas comunicações lembraram-lhe aquele pedido por muitas vezes. A sessão de 15 de Novembro, que, segundo as indicações recebidas, se realizou às escuras, em presença do Sr. A. somente, deu em resultado uma longa comunicação de Dickens, que externou o desejo de terminar, com o auxílio do médium, seu romance não acabado.

«Essa comunicação informava que Dickens tinha procurado por longo tempo o meio de conseguir esse intento, mas que até aquele dia não tinha encontrado médium apto para realizar semelhante incumbência. Ele desejava que o primeiro ditado fosse feito na véspera do Natal, noite que prezava particularmente, e pedia encarecidamente ao médium que consagrasse àquela obra todo o tempo de que pudesse dispor, sem prejudicar as suas ocupações habituais... Em breve tornou-se evidente que era a mão do mestre que escrevia, e o Sr. A. aceitou com a melhor boa vontade essa estranha situação. Esses trabalhos, executados pelo médium, fora de suas ocupações profissionais, que lhe tomavam dez horas por dia, produziram, até Julho de 1873, duzentas folhas de manuscrito, o que representa um volume in-octavo de quatrocentas páginas.»

Fazendo a crítica dessa nova parte do romance, o correspondente do «Springfield Daily Union» exprime-se assim:

«Achamo-nos aqui em presença de um grupo inteiro de personagens, cada uma dos quais tem seus traços característicos, e os papéis de todas essas personagens devem ser sustentados até o fim, o que constitui um trabalho considerável para quem em sua vida não escreveu três páginas sobre um assunto qualquer; pelo que ficamos surpresos em verificar desde o primeiro capítulo uma semelhança completa com a parte desse romance que estava publicada. A narração é recomeçada no ponto preciso em que a morte do autor a tinha deixado interrompida, e isso com uma concordância tão perfeita que o mais consumado crítico, que não tivesse conhecimento do lugar da interrupção, não poderia dizer em que momento Dickens deixou de escrever o romance por sua própria mão. Cada uma das personagens do livro continua a ser tão viva, tão típica, tão bem caracterizada na segunda parte como na primeira. Não é tudo. Apresentam-se-nos novas personagens (Dickens tinha o hábito de introduzir atores novos até nas últimas cenas de suas obras) que não são absolutamente reproduções dos heróis da primeira parte; não são bonecos, porém caracteres tomados ao vivo, verdadeiras criações. Criadas por quem?..» (Pág. 323.)

O correspondente prossegue:

«Eis uma multidão de pormenores de incontestável interesse. Examinando o manuscrito, notei que a palavra traveller (viajante) era escrita sempre com dois l, como é uso na Inglaterra, ao passo que entre nós, na América, não se usa mais de um I, em geral.

«A palavra coal (carvão) é escrita invariavelmente, coals, com um s, como se usa na Inglaterra. É interessante também notar no emprego das minúsculas as mesmas particularidades que se podem observar nos manuscritos de Dickens; por exemplo, quando ele designa o Sr. Grewgious, como an angular man (um homem anguloso). Também é digno de nota o conhecimento topográfico de Londres, de que dá prova o autor misterioso em muitas passagens do livro. Há também muitos torneios de linguagem usados na Inglaterra, porém desconhecidos na América. Mencionarei também a mudança súbita do tempo passado em tempo presente, principalmente em uma narração animada, transição mui freqüente em Dickens, sobretudo em suas últimas obras. Essas particularidades, e outras ainda que poderiam ser citadas, são de importância secundária, porém é com semelhantes bagatelas que se teria feito malograr qualquer tentativa de fraude.»

E eis a conclusão do artigo citado:

«Cheguei a Brattleborough com a convicção de que essa obra póstuma não passaria de uma bolha de sabão, fácil de rebentar. Depois de dois dias de exame atento, parti de novo, e devo confessá-lo, estava indeciso. Neguei em primeiro lugar como coisa impossível -, como qualquer um tê-lo-ia feito depois de um exame – que esse manuscrito tivesse sido escrito pela mão do jovem médium Sr. A.; ele me disse que nunca tinha lido o primeiro volume; particularidade insignificante, a meu ver, pois que estou perfeitamente convencido de que ele não era capaz de escrever uma só página do segundo volume. Isso não é para ofender o médium, pois que não há muitas pessoas no caso de continuar uma obra não acabada de Dickens!

«Vejo-me, por conseguinte, colocado nesta alternativa: ou um homem qualquer de gênio se utilizou do Sr. A. como instrumento para apresentar ao público uma obra extraordinária, de maneira igualmente extraordinária; ou antes esse livro, como o pretende seu autor invisível, foi escrito, efetivamente, sob o ditado de Dickens. A segunda suposição não é mais maravilhosa que a primeira. Se existe em Vermont um homem, desconhecido até o presente, capaz de escrever como Dickens, certamente ele não tem motivo algum para ter recorrido a semelhante subterfúgio. Se, por outro lado, é o próprio Dickens «quem fala, se bem que tenha morrido», para que surpresas não devemos preparar-nos? Atesto, sob palavra de honra, que, tendo tido tempo suficiente de examinar com liberdade todas as coisas, não pude descobrir o mínimo indício de embuste, e, se eu tivesse a autorização de publicar o nome do médium-autor, era o suficiente para dissipar todas as suspeitas aos olhos das pessoas que o conhecem, por pouco que seja.» (Página 326.)

Eis ainda algumas informações hauridas da mesma fonte:

«No começo, o médium só escrevia três vezes por semana, e nunca mais de três ou quatro páginas de cada vez; depois, porém, as sessões se tornaram bi-quotidianas, e ele escrevia finalmente dez ou doze páginas, às vezes mesmo vinte. Não escrevia com a sua caligrafia normal, e, feito o confronto, havia nela alguma semelhança com a de Dickens. No começo de cada sessão, a escrita era bela, elegante, quase feminina, mas, à proporção que o trabalho progredia, a escrita tornava-se cada vez mais grossa, e, nas últimas páginas, as letras eram cinco vezes maiores, pelo menos, do que no começo. Essas mesmas gradações se reproduziram em cada sessão, permitindo assim classificar por séries as quinhentas folhas do manuscrito. Algumas das páginas começam por sinais estenográficos, dos quais o médium não tinha o mínimo conhecimento. A escrita é tão rápida, às vezes, que se leva tempo para decifrá-la.

«A maneira de proceder nas sessões é muito simples: preparam-se dois lápis bem aparados e grande quantidade de papel cortado em tiras; o Sr. A. retira-se só para seu aposento. A hora habitual era às seis horas da manhã ou às sete e meia da noite, horas em que ainda havia claridade durante aquela estação; entretanto, as sessões da noite prolongavam-se freqüentemente além das oito horas e meia e mesmo mais tarde, e, então a escrita continuava, apesar da escuridão, com a mesma nitidez. Durante o inverno todas as sessões se realizaram às escuras.

«O «secretário» de Dickens coloca o papel e os lápis ao seu alcance, põe as mãos em cima da mesa, com a palma para baixo, e espera tranqüilamente. Tranqüilidade relativa, entretanto, pois que, não obstante os fenômenos terem perdido sua novidade, e ele já se ter habituado a eles, o médium confessa não poder eximir-se a um sentimento de terror durante essas sessões, no decurso das quais ele evoca, por assim dizer, um fantasma.

«Ele espera assim - algumas vezes fumando seu cigarro - durante dois, três, cinco minutos, às vezes dez, mesmo durante uma meia hora; mas, de ordinário, se as «condições são favoráveis», não mais de dois minutos. As condições dependem principalmente do estado do tempo. Se o dia é claro, sereno, ele trabalha sem interrupção: tal seria uma máquina elétrica que funcionasse melhor com um tempo favorável; um tempo tempestuoso produz perturbação, e, quanto mais violenta é a tempestade, tanto mais se acentua a perturbação. Quando o tempo é inteiramente mau, a sessão fica adiada.

«Depois de se ter conservado à mesa durante o tempo preciso, segundo as circunstâncias, o Sr. A. perde gradualmente os sentidos, e é nesse estado que escreve durante uma meia hora ou uma hora. Aconteceu-lhe certo dia escrever durante uma hora e meia. O fato único de que o médium se recorda, passado o estado de transe, é a visão de Dickens que volta de cada vez; o escritor - diz ele -está sentado a seu lado, com a cabeça apoiada nas mãos, imerso em profunda meditação, com expressão séria, um pouco melancólica, no rosto; não diz uma palavra, mas lança às vezes sobre o médium um olhar penetrante e sugestivo. «Oh! que olhar!»

«Essas recordações ocorrem ao médium da mesma maneira que um sonho que se acaba de ter, como uma coisa real, mas ao mesmo tempo intangível. Para indicar que a sessão está terminada, Dickens pousa de cada vez sua mão fria e pesada sobre a do médium.

«Nas primeiras sessões, esse contacto provocava da parte do Sr. A. exclamações de terror, e, ainda nesse momento, ele não pode falar nisso sem estremecer; esse contacto fazia-o sair de seu estado de transe, porém de ordinário lhe era preciso o auxílio de uma terceira pessoa para levantar suas mãos da mesa, à qual elas estavam por assim dizer aderentes por uma força magnética. (19). Readquirindo os sentidos, ele vê, esparsas pelo soalho, as tiras escritas durante essa sessão.

«Essas tiras não são numeradas, de maneira que o Sr. A. é obrigado a classificá-las segundo o texto. Durante algum tempo, depois dessas sessões, o médium sentia uma dor mui intensa no peito, mas não era de longa duração, e são as únicas conseqüências desagradáveis que ficavam das sessões. O nervosismo extremo de que ele sofria, antes do desenvolvimento de suas faculdades mediúnicas, deixou-o completamente; jamais foi ele tão robusto.»

Podem-se ler outros pormenores na página 315 do «Spiritualist» de 1873 e página 26 de 1874, onde o Sr. Harrison, pessoa mui competente nessas matérias, assim se exprime: «É difícil admitir que o gênio é o senso artístico com que esse escrito está marcado e que têm tanta semelhança com o gênio e com o senso artístico de Carlos Dickens tenham induzido o seu autor, qualquer que ele seja, a só se apresentar ao mundo como hábil falsificador.»

(19) É menos uma atração do que um estado cataléptico, como observei freqüentemente com minha mulher depois de uma sessão de escrita. A. A. (AKSAKOF, 2002. pp. 72-79).

  Considerações sobre o caso:

Esse é um bom exemplo do médium inconsciente, segundo a classificação espírita. Tomado pelo espírito escreve compulsivamente, inclusive, com caligrafia diferente da sua, sem ter o menor conhecimento daquilo que o espírito faz com que escreva. A crítica viu na seqüência da obra, escrita pelas mãos do médium, uma perfeita identidade com o estilo e características do autor Carlos Dickens.

Vale aqui relembrar uma afirmativa de Richet: “Um único fato bem observado, religiosamente constatado, em condições irrepreensíveis, é suficiente para estabelecer por si só a telecinesia, o sexto sentido, premonição ou a realidade de um fantasma”. (RICHET, 1999, p. 161).

Por outro lado, se partirmos do princípio de que somente o autor pode ter em sua mente o desenrolar do romance, podendo, até mesmo, nem ter todo ele pronto, mas o desenvolve à medida que escreve, de duas uma: ou o médium captava, por telepatia, da mente do autor ou era o próprio autor quem escrevia. Na primeira hipótese como o autor não estava mais vivo, ela nos remete, então, à conclusão que essa captação mental ocorreu mesmo estando o autor na condição de desencarnado. Ora, isso nos leva a uma situação bem próxima à da segunda hipótese, onde se atribui ao próprio autor o complemento da obra. Ótimo, só que, como ele já estava desencarnado, estamos provando categoricamente a sobrevivência do espírito e a realidade da comunicação com os mortos.

E sobre a questão da sobrevivência, leiamos, a opinião de Rhine, considerado o pai da Parapsicologia, conforme citação de Loeffler:

Em obras posteriores, o criador da parapsicologia parece mais convencido do potencial da hipótese da sobrevivência da alma. Embora nunca enunciasse isso claramente em público, Rhine confessou, em trechos esparsos de sua obra, sua crença na sobrevivência da alma. As passagens seguintes foram retiradas de um livro seu, traduzido para o português sob o título de O novo mundo do espírito, pela editora Bestseller:

A investigação da sobrevivência do espírito tomou principalmente a forma do estudo das comunicações pretensamente provenientes do espírito dos mortos, por meio de pessoas conhecidas como médiuns. As comunicações e manifestações correlatas estendem-se por série tão lata de expressões e realizações mentais e físicas, que seria impossível descrevê-las todas aqui (...) (p. 264).

Pode-se descrever melhor o resultado da investigação científica da mediunidade como um empate. Dificilmente alguém seria capaz de afirmar que as investigações de setenta e cinco anos ou mais tiveram o efeito de refutar alegação que o morto pode de um ou outro modo "viver novamente". Por outro lado, ninguém que estuda seriamente o campo de investigação diria ter-se atingido confirmação clara, defensável, científica da hipótese. (p. 265).

A teoria espírita não era a única explicação possível para os resultados. Havia maior necessidade de exame aprofundado das hipóteses contrárias de telepatia, clarividência e precognição, visto como estas também constituíam processos extra-sensoriais de adquirir conhecimento como aquele em que implicava o médium, tendo melhor fundamento para prova do que os próprios estudos mediúnicos. (p. 266).

A questão da sobrevivência ainda não recebeu resposta aceitável como cientificamente idônea. E qualquer conclusão, a favor ou contra, que se baseie nas provas atuais implicará grande elemento de crença não-crítica. (p. 267).

Existe, pelo menos na opinião de alguns de nós, bom fundamento para permitir se mantenha de pé a questão da sobrevivência. Esse fundamento nada tem que ver com a mediunidade ou com qualquer culto ou credo, prática ou filosofia. (...) É provável, contudo, que a questão da sobrevivência tenha surgido devido ao material que tenho em mira (...) Da coleção de Duke de mais de três mil experiências espontâneas de psi (que é simplesmente uma dentre muitas em que seria possível realizar tal estudo), escolheram-se uns cem casos capazes de sugerir a atuação e certo órgão espiritual como explicação, mais fortemente do que qualquer outra. (...) O tipo que mais prende a atenção é aquele em que o propósito manifesto por trás do efeito produzido é tão especialmente o de personalidade falecida, que não é razoável atribuí-lo à atuação de qualquer outra fonte. Prende ainda mais a atenção quando a manifestação ou expressão do objetivo transmite-se por meio de médium inocente como uma criança ou pessoa inteiramente estranha, que, presumivelmente, seria destituída de qualquer filosofia espiritualista ou qualquer outra motivação ostensiva ulterior. (p. 269-270).

Tudo quanto se descobriu mostrando que existe algo no Homem gozando de propriedades inteiramente diferentes das do corpo físico é fundamental para a hipótese da sobrevivência. (...) A hipótese do espírito parece integrar-se tão inteiramente com todo o programa organizado da parapsicologia, formulado através dos anos, que não há qualquer motivo, ante esse grau de concordância, de torná-lo questão distinta. (p. 274-275).

O fato é que Rhine, juntamente com o auxílio de sua esposa, ao mesmo tempo que realizava seus estudos experimentais, colecionava casos parapsicológicos interessantes, onde a explicação meramente telepática não tinha sustentação científica. Era preciso incluir a ação de um desencarnado como agente. Em diversas partes de sua obra, percebe-se que Rhine incita seus leitores a remeter-lhe casos interessantes de fenômenos paranormais. Isto o municiou de farto material de pesquisa. Curiosamente, essa técnica funciona bem, pois uma iniciativa similar ocorreu no início do século XX, na França, quando Flammarion exortou seus compatriotas a remeter-lhe casos psíquicos incomuns, o que resultou na sua volumosa obra O desconhecido e os problemas psíquicos. No caso da exortação promovida por Rhine, esse material veio a compor a maior parte do livro de sua esposa, sra. Louisa Rhine, traduzido para o português sob o título de Os canais ocultos do espírito.

Nesta obra a autora reconhece que uma parte significativa dos fenômenos psíquicos somente pode ser explicada através da hipótese espirítica. Dizem informalmente alguns articulistas que Rhine não quis comprometer sua carreira acadêmica aparecendo como co-responsável pelo referido livro e, por essa razão, cedeu a completa autoria a sua esposa, que sempre acompanhou de perto as pesquisas do marido. De qualquer modo, essa obra é bem diferente das anteriores, pois é composta de narrativas de casos, muito bem analisados e organizados em categorias. Parece um livro de Bozzano! Na realidade, Rhine nunca ignorou a importância da casuística paranormal que ocorre no cotidiano dos indivíduos. Apenas acreditava que não tinham o valor científico devido e eram de confiabilidade difícil de corroborar. Era, portanto, uma questão de critério pessoal. Hoje, com o prosseguimento das pesquisas e o melhor entendimento do papel dos resultados das pesquisas laboratoriais na concepção da natureza, as dúvidas sobre a sobrevivência após a morte são insignificantes.

Voltando-se os olhos sobre a obra da sra. Louise Rhine, encontra-se, primeiramente, essa valorização da experiência paranormal espontânea, que ocupou o interesse de inúmeros investigadores e cuja importância não pode ser desprezada:

A experiência tem de ser, de certa maneira, distorção da natureza (...) Impõe-se assim, observar a maneira da natureza, mesmo quando experimentando. (p. 17)

Também é verdade que se impõe a observação dos dados experimentais brutos contra o fundo de situações naturais em que ocorrem. Embora na Parapsicologia, como em qualquer outra ciência, nada se possa provar pelo estudo de casos sem experiências controladas, consegue-se certo resultado observando a maneira pela qual a lei estabelecida ou o fato se ajusta ao processo do mundo natural. Se se descobrissem no laboratório um efeito desprovido de contra partida na natureza, seria anomalia, difícil de justificar-se realmente. (p. 18)

Nas passagens que se seguem, é enfatizado o modo como a hipótese da sobrevivência é avaliada pela sra. Rhine:

Viverá depois da morte alguma parte do Homem? Certas experiências de psi sugerem resposta afirmativa. Realmente, a idéia de vida post mortem viu-se reforçada pelas ocorrências psíquicas que sugerem atuação de pessoas desaparecidas. (p. 233)

É razoável supor que, se existem personalidades desencarnadas capazes de influir sobre os vivos e com eles manter comunicação, assim o farão com certo grau de freqüência. É possível que a prova esteja à mão, sendo necessário tão somente abrir os olhos para vê-la. (p. 254)

À proporção que compreendemos ser o mundo mais vasto do que parece, e que somos mais do que mortais acorrentados aos sentidos que o estádio mecanicista da ciência pretende nos convencer de que somos, apreciaremos o universo expandido. Veremos que, se dispomos desse potencial, o universo será maior do que se afigura. Compreendemos que, pelo menos logicamente há espaço bastante para a continuação de parte da personalidade depois de terem cessados de funcionar os sentidos”. (p. 258) (LOEFFLER, 2003, pp. 311-314)

Outro autor que cita Rhine é escritor Nazareno Tourinho, leiamos:

Eis o que escreveu o eminente dr. J. B. Rhine no volume New Frontiers the Mind (página 176 na tradução de Leônidas Gontijo de Carvalho, publicada pela Editora Ibrasa, de São Paulo, em 1965):

“O que, até então, descobrimos nas pesquisas atinentes à percepção extra-sensória seria, pelo menos, favorável à possibilidade da sobrevivência do indivíduo depois da morte, isto é, tal sobrevivência importaria, naturalmente, numa existência sem os órgãos dos sentidos, sem sistema nervoso e sem cérebro”. (TOURINHO, 2001, p. 40)

Seguindo em frente, vejamos o próximo tópico, com o qual se encerra a nossa análise das citações do crítico.

NÃO TINHAM NEM RUDIMENTOS DE PSICOLOGIA

Anos mais tarde, o grande pioneiro da Parapsicologia, Prêmio Nobel em Fisiologia, Charles Richet, haverá de lembrar delicadamente a estes líderes do espiritismo que tal pretensão é desconhecer inclusive o abc da psicologia, não só da parapsicologia:

"Em muitos médiuns a consciência fica intacta. Continuam a falar, discutir com as pessoas presentes, enquanto o inconsciente elabora outras conversas, outros atos que se traduzem (...) pela psicografia, pela mesinha (...) Às vezes esta dissociação entre a personalidade consciente, normal, e as novas personificações que afloram é ainda mais complicada. Porque em certos casos, com a mão direita o médium escreve umas frases (...), outras completamente diferentes com a mão esquerda (...). Mas esta dissociação da personalidade (...) não tem nada de metapsíquica (parapsicológica). É ainda da psicologia clássica (...), fato banal freqüentemente constatado".

O "argumento" espírita hoje é de um simplismo e de uma ignorância assombrosos. Quer dizer que qualquer ação inconsciente, da qual a pessoa "não tem a menor consciência", é "sem a menor dúvida" ação dos espíritos dos mortos?

Insistimos no fato antes aludido: Caminhamos, corremos... São inumeráveis músculos agindo sincronicamente. Se pretendêssemos conscientemente movimentar cada um desses músculos ao correr, por exemplo, imediatamente cairíamos. Respiramos: poucas pessoas sabem com exatidão quais músculos externos e internos deveriam mover. Quem é capaz de movimentar conscientemente cada músculo da língua, dos lábios, do pescoço, dos pulmões, do peito... que intervém na fala?

Até o mais ignorante sabe que nenhum espírito de morto tem algo a ver com esses movimentos automáticos. Só a ignorância dos primeiros mestres espíritas e o fanatismo (ou má vontade?) dos modernos podem agarrar-se ao "irrefutável argumento" de que tem de ser do além porque "o médium não tem consciência". Estes automatismos habituais já sugerem certa "divisão da personalidade", simultaneidade de duas ou muitas idéias, ações etc., umas conscientes outras inconscientes.

Isto é, que os espíritas não saibam (ou, hoje, alguns não queiram) explicar o "não têm consciência", não prova que o fato seja do além, só prova ignorância. Hoje é absolutamente inadmissível o falso pressuposto do "argumento" espírita: só haveria consciência, não haveria inconsciente!!!

Que os médiuns não tenham consciência do que escrevem, falam, fazem... só prova que é inconsciente.

Comparando o ser humano a um carro, ao cérebro chamaríamos motor. Nas manifestações inconscientes dos médiuns, se fossem os espíritos dos mortos a empurrar, o cérebro -o motor- do médium teria que estar parado, mas o caso é que em todas essas manifestações inconscientes, o eletroencefalograma mostra a atividade cerebral correspondente ao modo com que o médium escreve ou fala ou mexe. As ondas do consciente são diferentes das ondas em estado de inconsciência, isto é, as ondas cerebrais em estado de vigília são diferentes das ondas no sono e na hipnose, e diferentes com olhos abertos das que se produzem quando os olhos se fecham etc. Nas chamadas manifestações mediúnicas o cérebro está agindo da mesma maneira que agem nos estados similares de inconsciência, sono, hipnose, automatismos...

Luciano da Costa e Silva, em Nosso Amigo Chico Xavier, citando Dr. Alberto Lyra, diz:

A hipótese do inconsciente é válida e eficaz, de grande utilidade heurística, mas dar-lhe características de onipotência e onisciência é anticientífico. Se o fenômeno se dá, é o inconsciente que está agindo; se o fenômeno não se produz, o inconsciente não entrou em casa. (SILVA, 1995, p. 191).

Loeffler, por sua vez, diz:

No entanto, alguns estudiosos precipitados concluem que a mente subconsciente é extremamente poderosa, capaz de atuar à distância com enorme poder energético, ter ciência do passado, presente e futuro e passar-se, propositadamente, pela identidade de um morto sem o ser, apenas por brincadeira. Essa hipótese, a já discutida super-PES, é incompatível e anticientífica. O fato do pensamento apresentar alguns atributos surpreendentes não o credencia a ser a impura expressão da divindade, oculta dentro de cada um de nós. (LOEFFLER, 2003, p. 303).

Então não somos tão “simplórios e ignorantes” quanto pensa o nosso crítico, aliás, o que afirma cabe-lhe como uma luva em relação a ele e o Espiritismo. Mas já que cita Richet, vejamos o que ele disse do “simplório” Kardec:

Charles Richet, prêmio Nobel de Fisiologia e fundador da Metapsíquica, discordante de Kardec, declarou no seu próprio Tratado de Metapsíquica, que Kardec era quem mais havia contribuído para o aparecimento das novas ciências, e lembrou que Kardec jamais fizera uma afirmativa que não estivesse provada em suas pesquisas. (PIRES, 1988, p. 55).

E Carlos A. Guimarães, citando Richet, in: Traité de Métapsychique, diz:

É preciso admirar sem reservas a energia intelectual de Allan Kardec. Apesar de sua credulidade um pouco exagerada, ele tem fé na experimentação. É sempre sobre a experimentação que ele se apóia, de tal forma que sua obra não é somente uma teoria grandiosa e homogênea, mas ainda um imponente feixe de fatos. (RICHET, 1923, p. 33, destaques meus). (GUIMARÃES, 2004, p. 45)

Não sabemos de qual livro de Richet foi retirado o texto citado, já que o “parapsicatólico” não citou a fonte, escapando, dessa forma, de que alguém queira confirmar se é isso mesmo a idéia de Richet. Mas no desenrolar dessa análise, demonstramos que o crítico é especialista em distorcer as palavras dos outros, isolando-as do contexto. Essa dificuldade foi superada, pois encontramos no livro A Grande Esperança, o pensamento de Richet, vejamos:

Em primeiro lugar falarei dos sábios.

É facílimo dizer que se enganaram e que foram enganados. É uma objeção que está à altura do primeiro sabichão que aparece. Quando o grande William Crookes relata ter visto, em seu laboratório, Katie King, fantasma capaz de se mover, de respirar ao lado de sua médium, Florence Cook, o dito sabichão, pode erguer os ombros e dizer: “É impossível. O bom senso faz-me afirmar que Crookes foi vítima de uma ilusão, Crookes é um imbecil”. Mas esse pobre sabichão não descobriu nem a matéria radiante, nem o tálio, nem as ampolas que transmitem a luz elétrica. E assim, minha escolha está feita. Se o sabichão disser que Crookes é um farsante ou um louco, serei eu quem sacudirá os ombros. E pouco importa que rebocados pelo sabichão, uma multidão de jornalistas – que nada viram, nem nada aprofundaram, nem nada estudaram – diga que a opinião de Crookes de nada vale. Não me admirarei.

Se Crookes ainda estivesse só! Mas não! Há uma nobre plêiade de sábios (grandes sábios) que presenciaram esses fenômenos extraordinários. Em lugar de fazer essa simples suposição que eles presenciaram do inabitual, poderei considerá-los cretinos ou mentirosos?

Stainton Moses, um homem de uma piedade rara, de elevada moralidade, com seu amigo Speer e Srs. Speer, anotou diariamente, durante dez anos fenômenos que ele observava consigo próprio. E isso apesar dos riscos que sua audácia o fazia correr.

Os fenômenos produzidos por Eusapia Paladino foram afirmados e confirmados por toda uma série de ilustres experimentadores, por Enrico Morselli, um dos mais sábios psiquiatras da Itália, por Filippo Bottazzi, Foá Herlitzka, professores de Fisiologia nas Universidades italianas, pelo célebre Lombroso, por sir Oliver Lodge, por Ochorowicz, por Fr. Meyers, por Camille Flammarion, por Schrenck-Notzing, por Albert de Rochas. O testemunho de um só desses grandes homens seria suficiente. Então, quando eles se reúnem numa mesma afirmação, irei eu dar ouvidos às criticas infantis que se resumem quase todas nesta pequena frase ingênua: "Não é possível".

E por que não é possível?

Unicamente porque não é habitual.

Na Alemanha, o grande matemático Zõllner presenciou, com Slade, fenômenos realmente estranhos.

Meu distinto amigo, Dr. Gibier, Diretor do Instituto Pasteur de Nova York, constatou fenômenos semelhantes com a Sra. Salmon.

Geley obteve com Kluski surpreendentes modelagens que toda a habilidade mecânica dos modeladores não poderiam reproduzir e que só se explicam pela desmaterialização de formas moldadas.

Quanto aos fenômenos mentais de adivinhação, de leitura de pensamento, de premonição, citarei os nomes de William James, de Sir Oliver Lodge, da Sra. Sidgwick, de Schrenck-Notzing, de Frederic Myers, de Osty, de Flammarion. No decurso deste livro farei referências de algumas de suas constatações, mas desde já afirmo que a autoridade desses sábios é suficiente para a priori, fazer-nos admitir que eles não se enganaram completamente.

Repito: trata-se de homens versados em ciências experimentais, tendo o espírito constantemente alerta para com a série de todas as fraudes possíveis.

As objeções dos jornalistas de pasquins que negam a realidade dos fatos são da mesma espécie que as objeções feitas à realidade dos meteoritos. O grande Lavoisier ousou dizer: Não há pedras que caem do céu, porque no céu não existem pedras. Boucher de Perthes chamou a atenção sobre o sílex, que ele dizia ter sido talhado por homens primitivos. Durante dez anos ele foi ridicularizado, como ridicularizaram aqueles que julgavam possível o vôo de máquinas mais pesadas que o ar. Denis Papin construiu um barco a vapor. Foram necessários mais de cem anos para que essa invenção fosse adaptada a prática náutica.

As novas verdades, estabelecidas pelos grandes sábios, custam a ser aceitas pelo público. É necessário muito tempo para que uma descoberta científica seja aceita. Que será então quando se tratar de fatos inabituais? Toda constatação de um fato novo, a princípio, parece inverossímil. Então, quando é inabitual, não podendo ser repetido à vontade, é negado, apesar das provas que se apresentam. Sim! É negado obstinadamente, porque nada é tão fácil quanto uma negativa.

Voltemos à metapsíquica.

Um primeiro fato é evidente; é que todas as vezes que um sábio assentiu em estudar de maneira aprofundada esses fenômenos, chamados outrora ocultos, adquiriu a convicção da existência desses fenômenos. Na história da metapsíquica, não conheço somente um caso, não somente um, de um observador consciencioso que, após dois anos de estudos, tenha concluído por uma negativa.

Dois anos de estudos, não é realmente muito, porque não é suficiente para fazer (com idéias preconcebidas e a intenção determinada de negar) duas ou três experiências prematuras e incompletas.

Portanto, dou uma importância primordial a esta constatação que jamais, até o momento presente, um experimentador perseverante, tendo feito pacientemente uma trintena de experiências (pelo menos) com dois ou três médiuns julgados autênticos por observadores competentes, tenha finalizado por uma negativa.

Uma objeção ridícula freqüentemente nos é apresentada. Os negadores, quando consentem com outra coisa que motejos, pretendem que nós, metapsiquistas, empreguemos todos os nossos esforços para provar não que esses fatos existem, mas que eles não existem. Nossa constante preocupação é procurar a fraude possível, o erro sistemático. Pensar que queremos encontrar fenômenos sobrenaturais ou paranormais, é loucamente absurdo. Não temos mais que uma preocupação: é a de descobrir os embustes. Qualquer que seja o fantasma que se nos apresente, não temos outro receio que o de ser ludibriado por um indivíduo real, um odioso impostor.

Todos aqueles que publicaram as suas experiências sabiam que por essa publicação comprometiam seu renome científico, expondo-se às zombarias de seus colegas e aos sarcasmos do povo. Não é, pois, com satisfação que se entra nessa batalha, onde não há mais que golpes a receber. É porque nos limitamos à honra de defender a verdade, por mais arriscada que ela possa ser.

Não imaginam as angústias interiores por que passa um sábio assim que se lhe apresenta um fenômeno extraordinário, anormal, cruelmente inverossímil, que parece estar em contradição evidente com tudo quanto ele conhece, com tudo que seus mestres lhe ensinaram, com tudo que ele próprio ensinou. Poderá um jornalista adivinhar o que pensa um fisiologista quando presencia (como eu presenciei), uma expansão sair do corpo do médium, prolongar-se formando duas pernas estranhas que se fixam no solo, emitindo depois mais alguns prolongamentos que tomam aos poucos a forma de mão, da qual se distinguem vagamente os ossos, sentindo a sua pressão nos joelhos. É necessário coragem para crer nisso! E é necessário muito mais coragem para relatar.

Pensais por exemplo que Crookes, Oliver Lodge, Schrenck-Notzing, de Rochas, Flammarion, Lombroso ignoravam que seriam olhados com desprezo por ousarem dizer que o inverossímil e o absurdo são muitas vezes verdadeiros?

Se tivemos a audácia de falar é porque estávamos absolutamente certos de nossa experimentação, muito mais certos que inúmeros sábios estão freqüentemente quando sustentam um fato verdadeiro, mas novo.

Vitam impendere vero. Essa é a nossa divisa. Faço um resumo:

1º - Os fatos metapsíquicos foram afirmados por uma trintena de sábios de honorabilidade absoluta, após provas anteriormente adquiridas por uma irrepreensível competência experimental.

2º - Empregaram todos os esforços para não admitir o extraordinário.

3º - Não receiam comprometer-se, perder-se, ao publicarem o resultado de suas experimentações.

...

Eis o que se pode dizer dos sábios que fizeram experimentações. Mas não há somente os sábios, há também um numeroso público, de cultura intelectual não descuidada, público cujo número e atividade crescem cada dia. Estarei longe da verdade, dizendo que há tanto na Europa, como nas duas Américas, duzentas sociedades psíquicas, sejam espíritas, sejam metapsíquicas, particulares ou não, e pelo menos cinqüenta jornais de pesquisas psíquicas. Sei bem que esses jornais se entregam muitas vezes a lucubrações teóricas e místicas sem valor, enfadonhamente embaraçantes, cruelmente indigestas. Do mesmo modo, fatos curiosos são relatados, cuja documentação é muitas vezes nula ou medíocre. Mas para que se decidam a publicá-los é mister que se tenham solidamente convencido de sua realidade.

Cada um dos membros de cada uma dessas sociedades está absolutamente certo de que o paranormal existe. É pois qualquer coisa que deve ser levada em consideração, em vista da convicção raciocinada de trinta mil pessoas judiciosas.

Elas estão convictas, não como se está de uma crença religiosa. Não é uma fé mais ou menos cega, como a dos católicos, dos protestantes, dos muçulmanos, é uma fé científica, pessoal, apoiando-se em observações, porque realmente, posto que essas observações sejam freqüentemente bem imperfeitas, essas pessoas observaram, viram, tocaram, controlaram, ouviram, ou pelo menos pensaram ver, tocar, ouvir, controlar.

Ao lado dos jornais há livros dos quais alguns são notáveis. Somente a bibliografia desses livros e os artigos de espiritismo ou de metapsiquismo seria de duzentas páginas, talvez ainda mais. É uma biblioteca muito volumosa, mesmo só tomando os trabalhos escritos desde há meio século (ver por exemplo o último catálogo de Rider, em Londres).

Recuso-me absolutamente a crer que todos esses livros, todos esses jornais, são uma coleção de mentiras e de equívocos. Que haja algumas mentiras, muitos equívocos, e mais ainda, ilusões, é absolutamente positivo. Mas Jeová teria perdoado a Gomorra se lá houvesse um único justo e há certamente mais de um escrito verídico nas relações que nos são dadas em abundância.

A todos esses escritos, a todos esses fatos confirmados por sábios ilustres, expostos por pessoas de boa fé, fazem sempre a mesma objeção: "É contrária ao bom senso, é absurdo!" Não sei que sábio ousou dizer: Não quero assistir à experiência que me propõe, porque já estou certo de que, se eu cresse, ela me induziria em um erro formidável. Oh! que terrível cegueira recusar com antecedência uma experimentação nova. É necessária uma fé inabalável, injustificável, entretanto, nos miseráveis dados atuais de nossos sentidos e de nossas ciências para negar qualquer coisa a priori.

Tanto mais que nada é contraditório, os fenômenos são novos e inabituais, eles nada destroem. Não é o absurdo, é o desconhecido ainda.

O bom senso de 1933 não é o mesmo de 1833.

Em 1833 quem poderia supor que se colocariam todas as doenças em pequenos frascos, que se poderia fazer as mais graves operações sem que o operado sentisse a menor dor, que máquinas carregando cinco mil quilos iriam, em menos de duas horas, pelos ares de Londres a Paris, que se ouviria em Paris, em Berlim ou em Roma, um discurso pronunciado, ou um concerto, realizado em Nova York, que se reproduziria a imagem, não somente das pessoas, mais ainda de seus movimentos etc...

É todo um mundo que os Acadêmicos de 1833 teriam considerado farsa ou feitiçaria, e teriam, em nome do mais elementar bom senso (de 1833), repudiado essas extravagâncias.

Abordaremos portanto, com risco de ofender o bom senso dos Acadêmicos de 1933, o inacreditável, o inabitual e absurdo. (RICHET, 1999, pp. 77-82).

Aqui, ao contrário, podemos encarar, certamente não como provável, mas com todo o rigor possível, a intervenção de um espírito que se materializa, dando-se a conhecer ao percipiente. (RICHET, 1999, p. 121). (grifo nosso).

  A fala de Richet dispensar-nos-ia qualquer tipo de comentário. Entretanto, apesar de tudo quanto coloca aqui e muitas outras coisas que lemos no seu livro, ele balança entre os fatos e o preconceito, pois noutras circunstâncias, nesse mesmo livro, ele admite a intervenção dos espíritos outras não, jogando por terra todos os argumentos aqui utilizados, que, infelizmente, não os aplicou a si mesmo.

  Citaremos, ainda, essa outra informação que encontramos na Internet [[1]]:

RICHET E KARDEC (NOBEL DE FISIOLOGIA)

“A acusação mais comum que se faz ao Espiritismo, nos meios cultos, é a da simplicidade e da ingenuidade. Richet reconheceu, no seu “Tratado de Metapsíquica”, os méritos de Allan Kardec, mas não deixou de taxar as suas convicções de “crença ingênua”. Numa carta de Ernesto Bozzano, chegou a declarar: “... não creio no Espiritismo, segundo as fórmulas infantis de Allan Kardec ou Conan Doyle.” Depois de ter lido, entretanto, as monografias de Bozzano sobre os casos espíritas, confessou, humilde e confidencialmente, ao grande mestre italiano: “Elas contrastam, estranhamente, com as teorias obscuras que atravancam a nossa ciência.” E logo mais, numa carta a Cairbar Schutel, abriu-se definitivamente: “A morte é a porta da vida”. O Infinito e o Finito – H. Pires – pg. 106 – Ed. Correio Fraterno – Jul/89.

Conclusão

  Já no desenrolar desse trabalho, deixamos claro ao leitor qual é a nossa opinião, assim para dá-lo por encerrado, citaremos vários autores, que, de uma forma ou de outra, falam do assunto:

“O que nos parece mal é a opinião axiomática; o que não compreendemos é que alguém se julgue o soberano detentor das verdades, quando ninguém sabe por que lhe coube tal privilégio; o que procuramos fazer ver é o erro dos que se fecham em determinados limites, e não só não saem mais dali, como acham que toda gente deve ficar ali também; o que procuramos salientar é a imensidade dos nossos horizontes, é o infinito que temos diante de nós; e diante de tal imensidade, seria ridículo traçarmos um círculo e achar que todo o conhecimento cabe dentro dele”. (IMBASSAHY, 1981, p. 60).

O grande equívoco dos adversários da sobrevivência após a morte é justamente esse, de confundir a verdade Espírita com as fabulações teológicas e os lamentáveis enganos das religiões dogmáticas na formulação de seus dogmas inteligíveis. (PIRES, 2005, p. 60).

A TOLICE DOS VIVOS

Estabelecida, de forma irreprochável, a realidade do fenômeno espírita, resta decidir se as múltiplas teorias materialistas que tentam explicá-lo possuem substância lógica.

Todas elas percorrem caminhos convergentes - como rios sinuosos, fazendo curva em várias direções, acabam desaguando em um único escoadouro, o mar sem fundo do Inconsciente...

O INCONSCIENTE, portanto, é a palavra mágica do dicionário de nossos opositores.

Uma pessoa, tida e havida como normal, na família, no emprego, na sociedade, de repente entra em transe, altera totalmente seu padrão de comportamento e, contrariando hábitos; cultura, temperamento, princípios morais, passa a agir como se estivesse investida de outra personalidade, reproduzindo fielmente a conduta costumeira de algum conhecido já morto. Ante a estupefação geral a dita pessoa nega solenemente a sua identidade, afirmando durante o transe que é um parente falecido, ou amigo, ou um vizinho... Haveria aí uma prova da existência e comunicação dos Espíritos?

- Qual nada! Simplesmente uma auto-hipnose: mera sugestão do inconsciente!

Mas, por acaso, a personalidade intrusa é de alguém completamente desconhecido...

- Dupla personalidade? Então o inconsciente se partiu em dois, pressionado por compulsões de forças contraditórias.

Mas não é só isso. Em cada novo transe surge uma individualidade diferente daquelas que se manifestaram antes...

- Bem, se é assim temos um caso patológico de esquizofrenia: o inconsciente, que começou se dividindo, fragmentou-se de modo irremediável.

Mas, para complicar, a infeliz pessoa ultimamente quando entra em transe fica de plena posse de suas faculdades mentais e apenas se queixa de enxergar vultos e ouvir vozes...

- Banalidade: as energias do inconsciente, impactadas por agitações sensoriais, produzem alucinações visuais e auditivas.

Mas ela concebe idéias que jamais poderia elaborar por si mesma...

- Telepatia: o inconsciente, às vezes, capta o pensamento de outra pessoa.

Mas ela consegue encontrar objetos perdidos, concebendo a idéia do lugar onde ninguém pensou que estivessem...

- Criptestesia: o inconsciente tem esse poder, conforme ensina a Metapsíquica.

Mas ela recebe intuitivamente a informação de coisas que logo depois acontecem...

- Precognição: o inconsciente é capaz de façanhas muito maiores, consoante ensina a Parapsicologia.

Mas ela lembra-se claramente de ter tido uma outra vida...

- Memória genética: transmitida dos ancestrais pela lei biológica da hereditariedade, através de um ácido cujo código é guardado nas células que fazem o inconsciente funcionar.

Mas ela é loura de olhos azuis e está convencida de ter sido um negro que existiu, comprovadamente, no século passado, do qual mostra todas as características intelectuais e todos os traços de caráter.

- Pantomnésia: o inconsciente dessa excêntrica criatura assimilou lembranças retiradas do inconsciente coletivo que, como ensinou Jung, conserva em arquivo vivo toda a História da Humanidade.

Mas ela até ostenta no corpo uma cicatriz idêntica a do sujeito do século passado... Seria o cúmulo da coincidência...

- Não há nada de mais nisso: o inconsciente, atuando no organismo, plasma em marcas dermográficas as suas impressões.

Mas em qualquer casa onde ela vai morar aparecem sinais assombrosos: louças são quebradas misteriosamente, panos se queimam sem o menor contato com calor, utensílios voam, barulhos não deixam dormir...

- "Poltergeist": as emoções do inconsciente, potencializadas pelo acúmulo de ressentimentos, quando se liberam fazem isso: por perto deve andar uma criança como epicentro do fenômeno.

Mas aconteceu que, em um transe, ela falou em diversas línguas estrangeiras, inclusive algumas da antiguidade...

- Xilolalia: o inconsciente penetra na memória cósmica, seleciona os conhecimentos que lhe interessam e depois é só verbalizar. Simplicíssimo!

Mas ela se desdobra e certa vez, dormindo, foi vista em lugar muito distante...

- Autotelediplosia: o inconsciente, em estado de bordelandismo, pode facilmente projetar sua imagem em qualquer parte.

Mas ela foi a uma sessão mediúnica e todos viram sair do seu corpo uma energia branca que, a princípio vaporosa, foi-se aos poucos condensando e formou direitinho uma figura humana...

- Ideoplastia: o sistema nervoso irradiou tal energia e o inconsciente deu-lhe forma, animando-a temporariamente...

Mas a figura moveu-se, conversou com os presentes, revelou coisas por todos ignoradas e, ainda, foi reconhecida pelos parentes que tempos atrás fizeram o seu enterro...

- Fantasmogenias: além de possuir as incomensuráveis forças catalíricasa a que já nos referimos, o inconsciente tem formidável capacidade de dramatização!

Aí está, preclaro leitor, o posicionamento teórico dos nossos adversários. Agora diga-nos: é razoável? O nosso pelos menos tem o mérito de explicar os fatos com a linguagem dos próprios fatos.

Sabemos que o inconsciente desempenha relevante papel no psiquismo e seríamos uns néscios se não considerássemos isso no campo experimental da mediunidade, menosprezando o mecanismo funcional da mente proposto pela Psicologia freudiana, que o divide em três zonas distintas e interpenetrantes (ego, superego e infra-ego, ou id). E tanto sabemos que não deixamos de fazer, em termos fenomenológicos, distinção entre animismo e mediunidade. Alguns de nossos autores, como Aksakof e Bozzano, citados precedentemente, estudaram a fundo o problema. Este último demonstrou sobejamente que "os poderes supranormais da subconsciência podem circunscrever-se dentro de limites definidos", não sendo verdade que inutilizam as provas em favor do Espiritismo (capítulos II e V do livro ANIMISMO OU ESPIRITISMO?, edição FEB, Rio). O primeiro, Aksakof, esgotou o assunto em um alentado ensaio crítico de mais de setecentas páginas, ANIMISMO E ESPIRITISMO (mesma Editora), no qual distingue

os fenômenos que podem ser explicados por uma ação que o homem vivo exerce além dos limites do corpo

dos fenômenos que

oferecem bases sérias para a admissão da hipótese de uma comunicação com os mortos.

Não há dúvida de que o inconsciente é responsável por uma enorme gama de ocorrências paranormais, atribuídas à interferência dos Espíritos não por nós e sim pelos tolos. Jayme Cerniño, na obra Além do Inconsciente (edição da Federação Espírita Brasileira, RIO), classifica o insconsciente no plano cortical, ligando-o aos automatismos, e no plano subcortical, vinculando-o aos instintos, para, depois de evidenciar que as correlações entre a mediunidade sadia e o histerismo são análogas as da respiração normal e a dispnéia, concluir apoiando a tese que afirma a origem espiritual de alguns fenômenos.

De nossa parte, para ir ou não ir mais longe com a discussão gostaríamos que os negativistas definissem o que é o inconsciente. Eles já o fizeram??? Nunca!!! Explicam tudo falando nas virtualidades do inconsciente mas, quando se lhes pergunta o que é, afinal, o inconsciente, emudecem.

O diálogo, conseqüentemente, com tais sábios tem que ser na base daquele recomendado para pôr fim na obstinação dos ateus:

- "Você acredita que no firmamento existem milhões de estrelas portentosas, todas girando em suas órbitas gigantescas com precisão infalível?

- "Acredito.

- "E quem você acha que criou toda essa obra maravilhosa da Natureza?

- "Foi o acaso.

- "Pois bem, é esse acaso que eu chamo de DEUS!"...

Considere-se o inconsciente como algo essencial no ser humano, sobrevivente à desintegração molecular do organismo físico, e cinqüenta por cento da questão estará resolvido.

Considere-se que, livre da estrutura somática perecível, o tal inconsciente não perde a sua individualidade e os seus fabulosos poderes, e mais cinqüenta por cento estará resolvido.

Nada então restará do problema, a não ser o aspecto da terminologia gramatical. Concordaremos em que o nosso ESPÍRITO seja chamado de INCONSCIENTE e os adversários, em contrapartida, concordarão em que chamemos o seu INCONSCIENTE de ESPÍRITO.

E fim de briga...

Como se vê, este livro bem poderia não ter sido escrito, e muito menos o outro que lhe deu causa.

Infelizmente, ao lado de tanto trabalho dos mortos, campeia tamanha tolice dos vivos!... (TOURINHO, 1993, pp. 109-113).

E para finalizar as citações, não podemos deixar de mencionar Kardec, quando dá as seguintes recomendações:

"Abstraiamos, por instante, dos fatos que, a nosso ver, tornam incontestável a realidade dessa comunicação; admitamo-la apenas como hipótese. Pedimos aos incrédulos que nos provem, não por simples negativas, visto que suas opiniões pessoais não podem constituir lei, mas expendendo razões peremptórias, que tal coisa não pode dar-se. Colocando-nos no terreno em que eles se colocam, uma vez que entendem de apreciar os fatos espíritas com o auxílio das leis da matéria, que tirem desse arsenal qualquer demonstração matemática, física, química, mecânica, fisiológica e provem por a mais b, partindo sempre do princípio da existência e da sobrevivência da alma:

1º que o ser pensante, que existe em nós durante a vida, não mais pensa depois da morte;

2º que, se continua a pensar, está inibido de pensar naqueles a quem amou;

3º que, se pensa nestes, não cogita de se comunicar com eles;

4º que, podendo estar em toda parte, não pode estar ao nosso lado;

5º que, podendo estar ao nosso lado, não pode comunicar-se conosco;

6º que não pode, por meio do seu envoltório fluídico, atuar sobre a matéria inerte;

7º que, sendo-lhe possível atuar sobre a matéria inerte, não pode atuar sobre um ser animado;

8º que, tendo a possibilidade de atuar sobre um ser animado, não lhe pode dirigir a mão para fazê-lo escrever;

9º que, podendo fazê-lo escrever, não lhe pode responder às perguntas, nem lhe transmitir seus pensamentos.

Quando os adversários do Espiritismo nos provarem que isto é impossível, aduzindo razões tão patentes quais as com que Galileu demonstrou que o Sol não é que gira em torno da Terra, então poderemos considerar-lhes fundadas as dúvidas. Infelizmente, até hoje, toda a argumentação a que recorrem se resume nestas palavras: Não creio, logo isto é impossível. Dir-nos-ão, com certeza, que nos cabe a nós provar a realidade das manifestações. Ora, nós lhes damos, pelos fatos e pelo raciocínio, a prova de que elas são reais. Mas, se não admitem nem uma, nem outra coisa, se chegam mesmo a negar o que vêem, toca-lhes a eles provar que o nosso raciocínio é falso e que os fatos são impossíveis". (KARDEC, 1996, pp. 25-26).

 

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Fev/2006.

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas

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BRUNE, F. Os mortos nos falam, Sobradinho, DF: Edicel, 1991.

CROOKES, W. Fatos Espíritas, Rio de Janeiro: FEB, 1983.

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KARDEC, A. O Livro dos Médiuns, Rio de Janeiro: FEB, 1996.

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TOURINHO, N. O trabalho dos Mortos e a Tolice dos Vivos, São Paulo: FEESP, 1993.

TOURINHO, N. Padre Quevedo: de acusador anti-espírita a culpado, São Paulo: DPL, 2001.



[1] http://geocities.yahoo.com.br/meutrabalho2005/#CI%CANCIAS,%20OUTRAS%20CI%CANCIAS%20E%20PSIQUISMO