João Batista é mesmo Elias?

“Não se deve aceitar qualquer idéia que nos vem dos livros, da tradição, da autoridade da Igreja, nenhuma deve ser aceita a não ser que resista a um exame rigoroso” (DESCARTES)

“A verdade não conhece mistérios, nem dogmas, nem milagres. A necessidade de enganar, de iludir faz parte sempre dos mesmos mistérios, dogmas e milagres”. (MELO, M. C.)

“O que é preciso, ao homem que reflete, é alguma coisa que fale à sua inteligência”. (KARDEC, A.)

1.- Introdução

Pelo fato de não aceitarem a reencarnação, muitas pessoas têm defendido a tese de que João Batista não teria sido Elias em nova encarnação. Evidentemente, partem de uma interpretação pessoal, completamente associada ao dogmatismo religioso em que vivem, resultando em algo que pouco ou nada tem a ver com os textos bíblicos.

Faremos um estudo para ver qual é a realidade, esperando responder à pergunta inicial, mas, como sempre, em relação a esses, de quem falamos, não alimentamos a mínima pretensão de demovê-los de suas idéias com o que resultar desse estudo. A única coisa que irá modificar-lhes o pensamento é, por ironia do próprio destino, só mesmo a reencarnação, já que ela é uma lei natural que não pergunta a ninguém se nela crê ou não, para que lhe sujeite e se cumpra o “é necessário nascer de novo”.

2.- Passagens bíblicas para análise

O povo hebreu esperava a volta de Elias confiante numa profecia do Antigo Testamento, que afirma sobre o seu retorno. Leiamo-la:

“Vejam! Estou mandando o meu mensageiro para preparar o caminho à minha frente. De repente, vai chegar ao seu Templo o Senhor que vocês procuram, o mensageiro da Aliança que vocês desejam. Olhem! Ele vem! - diz Javé dos exércitos” (Ml 3,1).

Mais à frente esse mensageiro é identificado pelo profeta Malaquias, que, segundo pudemos levantar, viveu cerca de 400 anos a.C. (Bíblia Sagrada, Barsa, Dicionário Prático, p. 165):

“Lembrem-se da Lei do meu servo Moisés, que eu mesmo lhe dei no monte Horeb, estatutos e normas para todo o Israel. Vejam! Eu mandarei a vocês o profeta Elias, antes que venha o grandioso e terrível Dia de Javé. Ele há de fazer que o coração dos pais voltem para os filhos e o coração dos filhos para os pais; e assim, quando eu vier, não condenarei o país à destruição total” (Ml 3,22-24 [[1]]).

O passo seguinte é quando, no tempo de Herodes, rei da Judéia, um sacerdote chamado Zacarias recebe a visita de um anjo, que lhe anuncia que sua mulher Izabel, apesar de estéril, daria a luz a uma criança, cujo nome deveria ser João (Lc 1,5-13). Descrevendo essa criança, o anjo Gabriel declara a Zacarias:

“... ele vai ser grande diante do Senhor. Ele não beberá vinho, nem bebida fermentada e, desde o ventre materno, ficará cheio do Espírito Santo. Ele reconduzirá muitos do povo de Israel ao Senhor seu Deus. Caminhará à frente deles, com o espírito e o poder de Elias, a fim de converter os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, preparando para o Senhor um povo bem disposto” (Lc 1, 14-18).

Afirmando que a criança virá “com o espírito e o poder de Elias”, se usa da linguagem de época, para confirmar que aquela criança seria o espírito de Elias reencarnado. Isso se confirma quando, na seqüência, é dito “a fim de converter os corações dos pais aos filhos”, exatamente como disse Malaquias na profecia que anteriormente citamos (Ml 3,22-24), na qual também afirma categoricamente que Elias haveria de voltar: “eu mandarei a vocês o profeta Elias”

No dia em que o menino foi levado para ser circuncidado, Zacarias, mudo por castigo imposto pelo anjo, escreve, numa tábua, o nome que deveria ser dado a seu filho: João, uma vez que queriam dar-lhe o mesmo nome do pai ou de algum parente. Logo após, Zacarias profetiza dizendo várias coisas (Lc 1,67-79), e dentre elas destacamos:

“... E a você, menino, chamarão profeta do Altíssimo, porque irá à frente do Senhor, para preparar-lhe os caminhos, anunciando ao seu povo a salvação e perdão dos pecados” (v.76-77).

Isso confirma, primeiro a profecia anterior de Malaquias e segundo o que o anjo Gabriel havia dito a Zacarias, como para não pairar dúvidas de quem era aquele menino, embora, nos dias de hoje, há os que, por puro dogmatismo, não enxergam isso.

Na narrativa, em que se relata o início da pregação de João Batista, lemos:

“... E João percorria toda a região do rio Jordão, pregando o batismo de conversão para o perdão dos pecados, conforme está escrito no livro do profeta Isaías: ‘Esta é voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas. Todo vale será aterrado, toda a montanha e colina serão aplainadas; as estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados. E todo homem verá a salvação de Deus’” (Lc 3,1-6).

Relaciona-se, portanto, João a mais uma passagem aceita como sendo uma profecia a respeito da vinda do mensageiro.

Mais à frente, João Batista é preso por Herodes, que da prisão envia seus discípulos a Jesus. Logo após esse encontro de Jesus com os discípulos de João, ele, o Mestre, em se referindo à “voz que clama no deserto” diz:

“O que é que vocês foram ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que vocês foram ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas aqueles que vestem roupas finas moram em palácios de reis. Então, o que é que vocês foram ver? Um profeta? Eu lhes afirmo que sim: alguém que é mais do que um profeta. É de João que a Escritura diz: 'Eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti'. Eu garanto a vocês: de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino do Céu é maior do que ele. Desde os dias de João Batista até agora, o Reino do Céu sofre violência, e são os violentos que procuram tomá-lo. De fato, todos os Profetas e a Lei profetizaram até João. E se vocês o quiserem aceitar, João é Elias que devia vir. Quem tem ouvidos, ouça” (Mt 11,7-14).

Na afirmação de que “é de João que a Escritura diz”, Jesus está relacionando João Batista exatamente à profecia de Malaquias a respeito do envio do mensageiro (Ml 3,1), identificado pelo próprio profeta como sendo Elias (Ml 3,22-24).

Há aqui uma frase que nunca vimos ninguém comentar; entretanto, ela é muito singular. Estamos falando da frase: “Desde os dias de João Batista até agora”, expressão que, por lógica, só faria sentido se João Batista não fosse contemporâneo de Jesus. Mas acreditamos que é realmente isso que Jesus, de forma indireta, está afirmando o que, em outras palavras, poderia ser dito assim: “Desde os dias de Elias até agora”, já que, na seqüência, ele arremata claramente que João é Elias, aquele mesmo que havia de vir. Na certeza de que muitos não acreditariam, completa: “quem tem ouvidos, ouça”, ou seja, quem quiser acreditar que acredite: João Batista é mesmo o Elias reencarnado. Vale observar que Jesus nunca impôs sua maneira de pensar a ninguém, exemplo que muitos não se preocupam e nem fazem questão de seguir, principalmente, aqueles que tentam incutir na cabeça dos outros suas interpretações pessoais dos textos bíblicos; seriam eles os falsos profetas de quem Jesus sempre falava? Em Mt 7,21-23 ele nos dá algumas pistas sobre quem seriam estes falsos profetas: usariam o nome dele para: (1) profetizar; (2) expulsar demônios e (3) fazer muitos milagres. Será que é deles que estamos falando? Fica a resposta por sua conta caro leitor.

Como explicar que João Batista seja o maior de todos os homens, mas que no Reino do Céu ele é o menor, senão na possibilidade de evolução individual de cada um de nós? Se isso não for verdade, haveremos de, forçosamente, acreditar que Deus age com parcialidade, contrariando a afirmação de que “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10,34), o que faria de Sua justiça uma justiça por demais humana, privilegiando algumas pessoas em detrimento de outras.

Em outra passagem Jesus volta, novamente, a afirmar sobre João ser Elias. Ei-la:

“Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, os irmãos Tiago e João, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E se transfigurou diante deles: o seu rosto brilhou como o sol, e as suas roupas ficaram brancas como a luz. Nisso lhes apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus. Então Pedro tomou a palavra, e disse a Jesus: ‘Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias’. Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra, e da nuvem saiu uma voz que dizia: ‘Este é o meu Filho amado, que muito me agrada. Escutem o que ele diz’. Quando ouviram isso, os discípulos ficaram muito assustados, e caíram com o rosto por terra. Jesus se aproximou, tocou neles e disse: ‘Levantem-se, e não tenham medo’. Os discípulos ergueram os olhos, e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. Ao descerem da montanha, Jesus ordenou-lhes: ‘Não contem a ninguém essa visão, até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos’. Os discípulos de Jesus lhe perguntaram: ‘O que querem dizer os doutores da Lei, quando falam que Elias deve vir antes?’ Jesus respondeu: ‘Elias vem para colocar tudo em ordem. Mas eu digo a vocês: Elias já veio, e eles não o reconheceram. Fizeram com ele tudo o que quiseram. E o Filho do Homem será maltratado por eles do mesmo modo’. Então os discípulos compreenderam que Jesus falava de João Batista (Mt 17,1-13).

Transcrevemos a passagem por completo para podermos melhor explicá-la. Os espíritos Moisés e Elias aparecem no monte Tabor e conversam com Jesus, fato que Pedro, Tiago e João testemunham (e ainda dizem que os mortos não se comunicam). Os discípulos, lembrando-se das profecias a respeito da volta de Elias, ficam intrigados, daí pensaram: se Elias está aqui, então como nas Escrituras se diz que ele voltaria? Em conseqüência pedem uma explicação a Jesus: “O que querem dizer os doutores da Lei, quando falam que Elias deve vir antes?”. A resposta de Jesus sobre isso é categórica: “Elias já veio, e eles não o reconheceram”. Fato que se explica porque o espírito que animou Elias estava reencarnado como João Batista, razão pela qual nem todos o reconheceram. É por isso que no texto consta “eles”, os doutores da Lei, e não “ninguém”, que abrangeria o desconhecimento por parte de todo mundo, inclusive, dos apóstolos, de que João era Elias. Quanto aos apóstolos, pelos menos quanto a Pedro, Tiago e João, podemos dizer que apenas queriam essa confirmação por parte de Jesus, pois já supunham que João era mesmo Elias.

Será interessante vermos essa passagem pela narrativa de Marcos, leiamo-la:

E Jesus dizia: "Eu garanto a vocês: alguns dos que estão aqui, não morrerão sem ter visto o Reino de Deus chegar com poder". Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e os levou sozinhos a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E se transfigurou diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas, como nenhuma lavadeira no mundo as poderia alvejar. Apareceram-lhes Elias e Moisés, que conversavam com Jesus. Então Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: "Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias." Pedro não sabia o que dizer, pois eles estavam com muito medo. Então desceu uma nuvem e os cobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: "Este é o meu Filho amado. Escutem o que ele diz!" E, de repente, eles olharam em volta e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles. Ao descerem da montanha, Jesus recomendou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. Eles observaram a recomendação e se perguntavam o que queria dizer "ressuscitar dos mortos". Os discípulos perguntaram a Jesus: "Por que os doutores da Lei dizem que antes deve vir Elias?" Jesus respondeu: "Antes vem Elias para colocar tudo em ordem. Mas, como dizem as Escrituras, o Filho do Homem deve sofrer muito e ser rejeitado. Eu, porém, digo a vocês: Elias já veio e fizeram com ele tudo o que queriam, exatamente como as Escrituras falaram a respeito dele" (Mc 9,1-13).

         Será que o “ressuscitar dos mortos” aí equivale a reencarnar? Os discípulos discutiam sobre o que queria dizer “ressuscitar dos mortos” e, ao que parece, não chegaram a um denominador comum, assim, querendo um esclarecimento, perguntam a Jesus sobre a volta de Elias. Obviamente se estavam conversando sobre ressurreição dos mortos e nessa conversa sai o nome de Elias, é porque, certamente, tinham Elias como morto e não como um arrebatado.

Embora tudo isso quanto colocamos até aqui, seja claro aos que não estão encabrestados por sua liderança religiosa, ainda vão continuar aparecendo dogmáticos com argumentos contrários a essa verdade bíblica, colocando Jesus como mentiroso, já que foi Ele quem disse que João era Elias, e não nós, os Espíritas, fato que não há como contestar.

         Falta-nos ainda fazer uma análise da passagem que relata a morte de João Batista; é o que faremos agora, mas primeiro leiamo-la:

Então Herodes prometeu com juramento que lhe daria tudo o que ela pedisse. Pressionada pela mãe, ela disse: "Dê-me aqui, num prato, a cabeça de João Batista." O rei ficou triste, mas por causa do juramento na frente dos convidados, ordenou que atendessem o pedido dela, e mandou cortar a cabeça de João na prisão. Depois a cabeça foi levada num prato, foi entregue à moça, e esta a levou para a sua mãe (Mt 14,7-11).

Considerando que a reencarnação está diretamente associada à lei de causa e efeito, a morte de João Batista é mais um fato que se ajusta ao nosso conjunto de provas, pois ele morreu exatamente da mesma forma que, quando estava encarnado como Elias, fez perecer os sacerdotes de Baal: teve a cabeça cortada. Vejamos o relato:

“Então Elias disse a eles: ‘Agarrem os profetas de Baal. Não deixem escapar nenhum’. E eles os agarraram. Elias fez os profetas de Baal descer até o riacho Quison, e aí os degolou (1Rs 18,40).

Acab contou a Jezabel o que Elias tinha feito e como tinha matado a fio de espada todos os profetas” (1Rs 19,1).

E para que ninguém diga que a lei de causa e efeito não é bíblica, como ao gosto dos dogmáticos, apresentamos para sustentação do nosso entendimento as seguintes passagens:

“Pelo que eu sei, os que cultivam injustiça e semeiam miséria, são esses que as colhem” (Jó 4,8).

Jesus respondeu: ‘Eu garanto a vocês: quem comete o pecado, é escravo do pecado’” (Jo 8,34).

“Jesus, porém, lhe disse: ‘Guarde a espada na bainha. Pois todos os que usam a espada, pela espada morrerão’” (Mt 26,52).

Não se iludam,pois com Deus não se brinca: cada um colherá aquilo que tiver semeado” (Gl 6,7).

Há uma passagem em que Jesus ressalta a lei de causa e efeito ao estabelecer uma correlação entre a doença de uma pessoa como conseqüência de, anteriormente, ter “pecado”. É o caso de um paralítico, que assim se encontrava há dezoito anos, que foi curado num dia de sábado. Pouco tempo depois Jesus o encontra no templo e lhe diz: “Olha que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior” (Jo 5,14). Não resta dúvida que perante essa fala de Jesus podemos concluir que a paralisia desse homem estava diretamente relacionada a um “pecado” cometido por ele, embora pelo texto não dá para sabermos se foi ou não de uma outra vida. Jesus ainda lhe adverte que se pecar outra vez a doença poderá ser pior, reafirmando essa lei.

3.- Refutando Objeções

            Vamos agora analisar as principais objeções que se levantam contra João Batista ser Elias reencarnado. A dividiremos em dois grupos, um específico quanto a essa questão e o outro mais genérico, onde argumentam contra a reencarnação, dizendo que não é bíblica e que Jesus nunca pregou tal coisa. Convém ressaltar que as genéricas, não raro, têm sido usadas como rota de fuga e de compensação, perante a inocuidade das objeções específicas.

3.1 - Objeções Específicas

3.1.1 - Elias não poderia ter reencarnado porque não morreu, mas foi arrebatado.

Se João, o Batista, fosse mesmo Elias reencarnado, Elias teria de ter morrido para reencarnar. Ora, sabemos que Elias nunca morreu, pois foi arrebatado vivo ao céu (2Rs 2,11). Perguntamos aos espíritas qual o texto da Bíblia que confirma a morte de Elias? A resposta é: nenhum. Elias não morreu. Será que os espíritas aceitariam a Bíblia como um livro inspirado, ou vão torcer o significado do texto?

         O grande problema é que muitas pessoas acreditam piamente em tudo que consta da Bíblia, como se, realmente, ela fosse, “capa a capa”, de inspiração divina. Certamente, o seria se não houvesse nela a mínima contradição, e no entanto podemos ver que elas existem, mas só percebem isso os que estão livres das “viseiras dogmáticas”. No presente caso, acontecem várias. Vejamo-las:

         a) “... tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3,19).

         Elias, caso tivesse sido arrebatado, não teria voltado ao pó conforme o que determina essa passagem.

         b) “Isto afirmo, irmãos, que carne e sangue não podem herdar o reino de Deus...” (1Cor 15,50).

         Se Elias foi arrebatado, certamente que foi para o reino dos céus no corpo físico, ou seja, com sua carne e seu sangue, fato que vem contrariar o que está aqui dito nesse passo.

         c) “Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do homem” (Jo 3,13).

         Se o arrebatamento de Elias for verdadeiro, então ele subiu ao céu, o que contradiz essa fala de Jesus, que foi a única pessoa que havia subido ao céu, e ninguém mais, conforme suas próprias palavras.

         d) “... aos homens está ordenado morrerem uma só vez...” (Hb 9,27).

         Se Elias não morreu - nem uma única vez - , fica evidente que essa passagem não se cumpriu.

         e) “... Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas;...” (At 10,34).

         Explica-nos o Houaiss que acepção é: escolha, predileção por alguém; inclinação, tendência em favor de pessoa(s) por sua classe social, privilégios, títulos etc. Conseqüentemente, se tal fato do arrebatamento aconteceu a Elias, há evidente contradição com o texto aqui citado. E, por outro lado, considerando que Tiago disse que “Elias é homem fraco como nós” (Tg 5,17), qual seria então, a razão desse suposto privilégio de Elias, já que ele é igual a nós?

         f) “O espírito é que vivifica; a carne para nada aproveita;...” (Jo 6,63).

         Na possibilidade de Elias ter sido arrebatado, ele foi “em carne” para o mundo espiritual; mas isso é estranho para algo que “para nada se aproveita”, porquanto, nessa passagem, fica claro que o Espírito é que é o mais importante.

         g) “Deus é Espírito” (Jo 4,24).

         Agora sim é que as coisas se tornaram mais incoerentes, uma vez que Deus sendo espírito - essa é a nossa semelhança para com Ele -, certamente vive em seu reino nessa condição. Entretanto, Elias teria que viver em corpo físico, caso fosse arrebatado. Se for verdade o que disse Jesus de que o “reino dos céus está dentro de vós” (Lc 17,21), então ele não é um lugar, mas um estado de consciência, ficando, portanto, sem qualquer sentido alguém ser arrebatado fisicamente.

         h) “Então lhe chegou às mãos uma carta do profeta Elias” (2Cr 21,12).

         Nesse livro, o de Crônicas, está se afirmando que Elias envia uma carta a Jorão, fato que comprova que ele não foi arrebatado coisíssima nenhuma, uma vez que o envio dessa carta aconteceu cerca de dez anos depois do seu suposto arrebatamento, o que comprovamos com: “De acordo com a cronologia de 2Rs, Elias tinha desaparecido antes do reinado de Jorão de Israel (2Rs 2; 3,1) e, portanto, antes de Jorão de Judá (2Rs 8,16; cf. no entanto 2Rs 1,17)” (Bíblia de Jerusalém, p. 607). A não ser que o correio daquela época não tenha sido tão eficiente quanto o atual e tenha atrasado a entrega dessa carta.

         É em 2Rs 2,11 que se narra o suposto arrebatamento de Elias, fato que causa divergência mesmo entre os teólogos, vejam a opinião de uma equipe de tradutores católicos e protestantes:

“O texto não diz que Elias não morreu, mas facilmente se pôde chegar a essa conclusão” (Bíblia de Jerusalém, p. 509).

3.1.2 No monte da transfiguração, quem apareceu foi Elias e não João Batista, como era de se esperar se João fosse a última encarnação de Elias.

Se João Batista fosse a reencarnação de Elias, aquele que teria aparecido no monte da transfiguração, deveria ser João Batista e não Elias (Mt 17,1-6). Pois de acordo com a doutrina espírita: a última pessoa reencarnada é que deve aparecer.

         Obviamente que, como um princípio geral, isso está certo. Entretanto, há casos em que o espírito pode se manifestar com a aparência de qualquer outra encarnação, desde que tenha evolução espiritual para isso. O perispírito, como sendo o corpo espiritual, pode ser moldado à vontade do espírito, uma vez que ele possui entre suas propriedades a da elasticidade, que, com o poder do pensamento, permite ao espírito assumir uma outra aparência. Quanto mais evoluído for um espírito, mais facilmente conseguirá dirigir sua vontade para moldar o perispírito na aparência que desejar. No caso de João Batista, Jesus disse que entre os nascidos de mulher ele era o maior, assegurando, portanto, sua condição de espírito evoluído, embora Tiago tenha dito o contrário, fato que já citamos.

3.1.3 - A Bíblia fala que João Batista teve um ministério parecido com o de Elias (Lc 1,17). Este versículo será completamente esclarecido se comparado com a história de Elias e Eliseu (2Rs 2,9-15).

João Batista cumpriu funcional e profeticamente o ministério de Elias, pois entendemos o texto da seguinte maneira: João Batista, deveria fazer o seu ministério dentro do espírito ministerial de Elias (Ml 4,5-6; Lc 1,17).

Em relação ao versículo que diz que João Batista ia no espírito de Elias (Lc 1,17), a Bíblia não diz que João Batista ia com o espírito de Elias. Existe uma grande diferença entre ir no espírito e ir com o espírito de Elias. A palavra no significa no mesmo ímpeto, semelhante. Para provar essa colocação, vamos ver como João Batista e Elias eram semelhantes.

JOÃO BATISTA

ELIAS

Perseguido por uma mulher (Herodias) e por um rei (Herodes). (Mt 14,3-5 e Mc 6,18-20)

Foi perseguido por uma mulher (Jezabel) e por um rei (Acabe). (1Rs 19,1-3 e 1Rs 21,20)

Usava uma capa de pelos. (Mt 3,4)

Usava também uma capa. (1Rs 19,19)

Era intrépido. (Lc 3,7)

Também era intrépido. (1Rs 18,27)

Foi o último profeta. (Lc 16,16)

Simboliza os profetas.

            De doze livros bíblicos consultados [[1]], apenas quatro deles usam o “no”, o que, em termos percentuais, representa apenas 33% do total. Conseqüentemente, na maioria consta o termo “com”, e se nisto prevalecer a voz da maioria, então o argumento aqui enfocado cai por terra.

Quanto à questão de ministério semelhante, é apenas uma tentativa inepta para que não fique evidenciada a idéia da reencarnação, uma vez que não é isso o que consta da Bíblia e nem mesmo poder-se-ia interpretar a passagem dessa maneira, uma vez que Jesus não deixou dúvidas ao dizer que “João é Elias que devia vir”. Se a intenção da profecia fosse mesmo indicar um “profeta semelhante”, bastaria a Malaquias usar a mesma expressão empregada em Dt 18,15.18, onde se diz: “Suscitarei um profeta semelhante a ti”.

Vejamos agora a mencionada história de Elias e Elizeu:

“Depois que passaram o rio, Elias disse a Eliseu: ‘Peça o que você quiser, antes que eu seja arrebatado da sua presença’. Eliseu pediu: ‘Deixe-me como herança dupla porção do seu espírito’. Elias disse: ‘Você está pedindo uma coisa difícil. Em todo caso, se você me enxergar quando eu for arrebatado da sua presença, isso que pede lhe será concedido; caso contrário, não será concedido’. E, enquanto estavam andando e conversando, apareceu um carro de fogo com cavalos de fogo, que os separou um do outro. E Elias subiu ao céu no redemoinho. Eliseu olhava e gritava: ‘Meu pai! Meu pai! Carro e cavalaria de Israel!’ Depois não o viu mais. Então Eliseu pegou sua própria túnica e a rasgou em duas partes. Pegou o manto de Elias, que havia caído, e voltou para a margem do Jordão. Segurando o manto de Elias, bateu com ele na água, dizendo: ‘Onde está Javé, o Deus de Elias?’ Bateu na água, que se dividiu em duas partes. E ele atravessou o rio. Ao vê-lo, os irmãos profetas, que estavam a certa distância, comentaram: ‘O espírito de Elias repousa sobre Eliseu’. Então foram ao seu encontro, se prostraram diante dele”. (2Rs 2,9-15).

Para o espírito de Elias repousar sobre Eliseu, há de ter havido a morte do tesbita. De igual modo vemos, nos dias de hoje, ocorrendo com inúmeras pessoas, esse fenômeno de espírito repousar, o que para nós não é outra coisa senão a influência de um espírito desencarnado sobre um encarnado. Mas exigir que àquela época entendessem dessa forma é pedir muito, com certeza.

A relação das semelhanças entre os dois profetas está mais para se confirmar que João Batista é mesmo Elias do que para qualquer outra coisa.

Por outro lado, a profecia de Malaquias é clara quanto à promessa do envio de Elias, não de alguém semelhante a ele como mostramos, e nem Jesus disse que João era semelhante a Elias, como querem os dogmáticos, justamente para fugir sorrateiramente da idéia da reencarnação.

3.1.4 - João Batista disse claramente que não era Elias.

Em alguns passos parece haver uma idéia de reencarnação, mas combatemos tal idéia com a passagem bíblica: “Então, lhe perguntaram: Quem és, pois? És tu Elias? Ele disse: Não sou. És tu o profeta? Respondeu: Não”. (Jo 1,21). Assim, é o próprio João Batista que nega tal fato.

         O que ocorre é que, quando o espírito passa a habitar um corpo físico, ele perde temporariamente a lembrança de suas outras vidas; daí ser perfeitamente normal a resposta negativa de João Batista à pergunta se ele era Elias. Por outro lado, aí ficaremos num dilema, pois em quem devemos acreditar: em Jesus que afirmou categoricamente que João Batista era Elias; ou no próprio João que disse não ser? De nossa parte estamos com Jesus e pronto!

Mas a lembrança de outras vidas pode surgir de uma hora para outra, o que, facilmente, poder-se-á confirmar lendo a obra do Dr. Ian Stevenson, Reincarnation and Biology: A Contribution to the Etiology of Birth Marks and Birth Defects, (Vol. I: Birthmarks, 1200 páginas e vol. II: Birth Defects and Other Anomalies, 1100 páginas) e a sinopse desse livro, Where Reincarnation and Biology Intersects: A Synops. Nessa obra o autor relata 225 casos de crianças que se lembraram de uma outra vida dos, nada menos de, 2600 investigados por ele. A pesquisa do Dr. Stevenson, na opinião do pesquisador brasileiro, Dr. Hernani de Guimarães Andrade (1913-2003):

(...) não-só representa a evidência definitiva da reencarnação, como ‘deita uma pá de cal’, em cima de qualquer argumentação negativista contra a ‘Lei da Reencarnação’. Não há mais lugar para dúvidas. De agora em diante, restará apenas a sofisticada e inútil controvérsia acerca da natureza ‘daquilo’ que passa de uma encarnação para outra... (ANDRADE, 2002, p. 107).

Os que se apegam demais à negação, não se dão conta que, se naquele tempo não acreditassem que uma pessoa que havia vivido pudesse viver novamente num outro corpo, não haveria sentido nessa pergunta feita a João Batista, fato que comprova que, àquela época, se acreditava na reencarnação, um dos significados para a palavra ressurreição. No Velho Testamento, temos um texto que nos mostra a existência de nossas vidas passadas, e que nós não nos lembramos delas: “Somos de ontem, e nada sabemos” (Jó 8,9). E é óbvio que esse ontem não se refere a um tempo anterior de 24 horas, mas a um passado remoto.

Se João Batista não for mesmo Elias, então os cristãos que assim acreditam deveriam mudar de religião, já que é exatamente por esse motivo, ou seja, falta de cumprimento das profecias, que, para os judeus, Jesus não é o Messias e, por conseguinte, o judaísmo é que deveria ser a religião própria para abrigá-los.

3.1.5 – A alegação de que Elias seja João Batista não procede, tanto pelo contexto das Escrituras quanto pela pregação dele.

Quando o "Elias reencarnado" viu a Jesus, exclamou: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Para ele, que viria restaurar todas as coisas, é Jesus, e não nós através de sucessivas vidas, que pagamos o preço pelos nossos pecados. A revelação completa que hoje está na Bíblia confere com o que João Batista trouxe, hoje não precisamos mais oferecer cordeiros em expiação, Cristo, o Cordeiro de Deus, hoje, é a nossa páscoa (1Cor 5,7). Como os cordeiros do Velho Testamento expiavam os pecados?? Como eles deveriam ser?? Pedro responde em sua carta: "Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa

vã maneira de viver, que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, o sangue de Cristo" (1Pe 18,19).

Apesar de João Batista ter dito “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29), o fato é que ele também disse que “Eu vos batizo com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar...” (Mt 3,11). Portanto, em se considerando que o próprio João disse que Jesus é mais poderoso que ele, não pode prevalecer sua opinião à de Jesus. Reputamos ao Mestre a autoridade suprema para a qual devem convergir nossas atenções e prioridades. Neste caso como ele identifica claramente e sem rodeios a identidade espiritual de João Batista, torna-se de importância secundária o que possa advir de seus discípulos, que venha a contradizer a qualquer de seus ensinos, uma vez que: “O discípulo não está acima do seu mestre...”. Portanto, preferimos crer que a palavra final cabe a Jesus e não a Pedro, Paulo, João Batista ou a qualquer outro, no sentido de que João Batista ser mesmo Elias, tanto pelo contexto das escrituras quanto pela pregação dele a seus discípulos, para os quais ensinava claramente sobre os “mistérios do Reino de Deus”. Os mesmos que, por fim, “compreenderam que Jesus lhes tinha falado a respeito de João Batista” (Mt 17,13).

         Quanto à questão de que “o sangue de Jesus lavou nossos pecados”, trata-se de mais uma opinião pessoal de autores bíblicos, contrária ao que Ele pregou. “A cada um segundo suas obras” (Mt 16,27), a parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37) e a do juízo final (Mt 25,31-46), são passagens que asseguram que realmente nós mesmos é que nos salvamos. Os discípulos apenas transferiam a Jesus o papel da vítima do holocausto das práticas ritualísticas dos judeus, quando se matava um novilho, sem defeito, para a expiação dos pecados do povo. Diremos como Paulo de Tarso: “se Jesus morreu pelos nossos pecados: comamos e bebamos”, pois já estamos salvos. Entretanto, essa absurda idéia contém uma contradição, uma vez que, pelo costume da época, os pecados perdoados eram os anteriormente cometidos em relação ao momento do ritual. Não havia, portanto, nenhuma relação para com os pecados futuros. Podemos confirmar isso em “... Sua morte aconteceu para o resgate das transgressões cometidas no regime da primeira aliança; ...” (Hb 9,15) Por conseguinte, a crer nessa expiação dos pecados por Jesus, haveremos de arrumar outro Cristo para pagar pelos nossos, tomando-se como ponto de partida os ocorridos da sua morte até os dias de hoje. Outra opção é, quem sabe, ficar aguardando a vinda de um próximo “cordeiro”? E como fica o “não peques mais”? (Jo 5,14; 8,11).

3.1.6 – João não era Elias, mas “o” Elias, ou seja, alguém com as qualidades de Elias.

Ainda em nossos dias usamos esse estilo de expressão: "Nunca mais surgirá um Rui Barbosa". "O Ronaldinho é um verdadeiro Pelé". São termos comparativos. [Se acreditais na vinda de um Elias], "e, se quiserdes dar crédito, ele é o Elias que havia de vir" (Mt 11.14).

Por suas mensagens vibrantes e seu corajoso desempenho diante de situações difíceis, Elias tornou-se símbolo dos profetas. Moisés, por exemplo, era símbolo da Lei (Lc 16.31). As profecias sobre a vinda de Elias não se contradizem. Muito pelo contrário. Vejam: Malaquias 4.5: "Eis que eu vos envio o profeta Elias, antes que venha o dia grande e terrível do Senhor; e converterei o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha e fira a terra com maldição". Lucas 1.15-17: "Porque será grande diante do Senhor, e não beberá vinho, nem bebida forte, e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre de sua mãe. E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. E irá adiante dele no espírito e virtude de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos e os rebeldes, à prudência dos justos, com o fim de preparar ao Senhor um povo bem disposto". Logo, as profecias da vinda de Elias se cumpriram em João Batista. Portanto, Elias veio na pessoa de João Batista. É esta a real interpretação de Mateus 11.14 e 17.10-13.

Os que assim argumentam se esquecem de mencionar que a frase "nunca mais surgirá um Rui Barbosa" não é sinônima de "nunca mais surgirá o Rui Barbosa", da mesma forma que correto é "Ronaldinho é um verdadeiro Pelé" e não "Ronaldinho é o verdadeiro Pelé". Por este motivo não consideramos que seja de uma boa lógica concluir que a expressão "ele é o Elias", seja o mesmo que dizer "ele é um Elias". Basta, para isso, observar atentamente como Jesus se expressa, de modo a não deixar sobre isso a menor sombra de dúvida:

É de João que a Escritura diz: 'Eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti' (Mt 11,10).

Mas eu digo a vocês Elias já veio, e eles não o reconheceram. (Mt 17,12).

E não adianta se apegar demais a esse pormenor, tendo em vista que a expressão “é o Elias” não consta de todas as traduções bíblicas como, por exemplo: Bíblia Pastoral - Paulus, Bíblia Anotada – Mundo Cristão e Escrituras Sagradas – Novo Mundo. Por outro lado, colocar Elias como corajoso é no mínimo falta de conhecimento bíblico, pois após ele degolar os profetas de Baal, foge, como se diz popularmente, com “o rabo entre as pernas”, de Jezabel, mulher de Acab, sétimo rei de Israel (875-853), que promete matá-lo por conta disso (1Rs 19,1-3).

3.2 – Objeções Genéricas

3.2.1 - Os judeus não criam em reencarnação, e sim na ressurreição dos mortos (Mc 6,14-16 e Lc 9,7-8).

Será que é isso mesmo a verdade? Analisemos para constatar. Tomemos as passagens citadas:

1ª) “O rei Herodes ouviu falar de Jesus, cujo nome tinha-se tornado famoso. Alguns diziam: ‘João Batista ressuscitou dos mortos. É por isso que os poderes agem nesse homem’. Outros diziam: ‘É Elias’. Outros diziam ainda: ‘É um profeta como os profetas antigos’. Ouvindo essas coisas, Herodes disse: ‘Ele é João Batista. Eu mandei cortar a cabeça dele, mas ele ressuscitou!’" (Mc 6,14-16).

Interessante a argumentação de que Jesus fazia milagres pelos poderes de João Batista que agia sobre Ele. Isso é ressurreição do corpo físico? Não! Mas o que é? É o que conhecemos por influência espiritual. Uma pessoa morre e, ressuscitada em espírito, passa a influenciar uma pessoa encarnada. Portanto, a idéia de ressurreição, nesta passagem, nada tem a ver com aquela ressurreição do final dos tempos aceita pelos dogmáticos. Ressuscitar, nesse passo, é voltar à condição espiritual.

2ª) “O governador Herodes ouviu falar de tudo o que estava acontecendo, e ficou sem saber o que pensar, porque alguns diziam que João Batista tinha ressuscitado dos mortos; outros diziam que Elias tinha aparecido; outros ainda, que um dos antigos profetas tinha ressuscitado. Então Herodes disse: ‘Eu mandei degolar João. Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?’ E queria ver Jesus” (Lc 9,7-9).

Nessa passagem é flagrante o uso da palavra ressurreição com o significado de reencarnação. Se as pessoas acreditavam que Jesus poderia ser Elias, Jeremias (Mt 16,13) ou um dos antigos profetas ressuscitado isso não é ressurreição, mas sim reencarnação, já que se fosse Jesus um deles, estaria num novo corpo, o de Jesus, obviamente. Quem pensa assim, acredita que alguém já morto poderia voltar num novo corpo como outra pessoa. É exatamente isso o que definimos como reencarnação; portanto, provamos que na época se acreditava em reencarnação sim; só que para designá-la usavam a palavra ressurreição, que também possuía, àquela época, outros significados.

Em uma certa oportunidade, Jesus pergunta aos discípulos: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?" Eles responderam: "Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias, ou algum dos profetas" (Mt 16,13-14). Isso confirma que o povo acreditava na ressurreição em outro corpo, reencarnação para nós, só que há algo importante nessa passagem: é que Jesus não protestou contra essa crença popular, o que significa que tacitamente a confirma. É como diz um velho provérbio: “quem cala consente”.

Mas ainda vamos trazer outra fonte para comprovar essa questão. Nós buscaremos esta informação no historiador daquela época chamado Flávio Josefo, que viveu entre 37 a 103 d.C. Suas obras históricas são: “Antiguidades Judaicas”, “Guerra dos Judeus” e “Resposta de Flávio Josefo a Ápio”, que, em nosso caso, fazem parte do livro História dos Hebreus.

         Josefo, descrevendo a maneira de viver dos fariseus, coloca:

(...) Eles julgam que as almas são imortais, que são julgadas em um outro mundo e recompensadas ou castigadas segundo foram neste, viciosas ou virtuosas; que umas são eternamente retidas prisioneiras nessa outra vida e que outras voltam a esta. (...) (p. 416).

         E, quando alguns soldados, derrotados na guerra contra os romanos, pensavam em suicidarem-se, alerta-os dizendo:

(...) Não sabeis que Ele difunde suas bênçãos sobre a posteridade daqueles, que depois de ter chamado para junto de si, entregam em suas mãos, a vida, que, segundo as leis da natureza. Ele lhes deu e que suas almas voam puras para o céu, para lá viverem felizes e voltar, no correr dos 

séculos, animar corpos que sejam puros como elas e que ao invés, as almas dos ímpios, que por loucura criminosa dão a morte a si mesmos são precipitados nas trevas do inferno; (...) (pg. 600).

         Assim, podemos dizer que os fariseus, grupo religioso que existia à época de Jesus, acreditavam numa ressurreição em outro corpo. Ora, isso não é nada mais nada menos do que aquilo que entendemos por reencarnação.

3.2.2 - Fica claro que Jesus nunca ensinou a reencarnação.

         Dizer que Jesus nunca ensinou a reencarnação é forçar a barra, ignorando que ele não disse, em momento algum, que estavam em erro os que o supunham ser Elias, Jeremias, ou algum dos antigos profetas. É recusar a ver o que disse a Nicodemos “é necessário nascer de novo” (Jo 3,3). Certo é que em algumas Bíblias não diz “nascer de novo”, mas “nascer do alto”. Entretanto, podemos ponderar que a tradução da palavra grega anóthem, segundo alguns estudiosos, tanto pode ser uma quanto a outra; daí, para não realçar a idéia da reencarnação, foi melhor colocar aquela que não levasse as pessoas a acreditarem nela. Mas, pela dúvida de Nicodemos, fica claro que o sentido era nascer de novo mesmo: “Como é que um homem pode nascer de novo, se já é velho? Poderá entrar outra vez no ventre de sua mãe e nascer?” (Jo 3,4). Na seqüência, Jesus não nega que seja sobre isso que está dizendo, mas reforça com outras palavras: “Eu garanto a você: ninguém pode entrar no reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito”, donde devemos tomar a água como símbolo da origem da matéria.

         Por outro lado, mesmo que Jesus não tivesse ensinado, isso não significa que ela não exista, pois convém lembrar que ele disse: “Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar” (Jo 16,12).

3.2.3 - A Bíblia combate tal ensinamento

         Curioso que a Bíblia não fala em momento algum em reencarnação, conforme não se cansam de nos afirmar, mas quando o assunto é combater, aí sim, ela diz algo. Parece brincadeira! Só que, quando apresentam as passagens para comprovar o que alegam, verificamos que é pura interpretação equivocada, já que sempre as usam fora do seu contexto. Vejamos algumas, normalmente citadas.

         “... aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disto o Juízo” (Hb 9,27).

         Essa é uma das mais interessantes, já que nem mesmo se sabe quem é o autor; daí é singular que usem um autor completamente desconhecido para contestar o que Jesus afirmou: “João é Elias que devia vir”. Poderia ser um argumento forte contra a reencarnação se o autor tivesse dito: “... aos  homens está ordenado viverem uma só vez”.

         Lázaro, o filho da viúva de Naim e a filha de Jairo, entre outros que ressuscitaram, morreram duas vezes, provando que a “ordem” contida na passagem é inconsistente. Mas, de qualquer forma, esse autor não está completamente errado, pois fisicamente em cada vida só morremos uma vez mesmo e em definitivo, por sinal.

         Ainda em relação a essa passagem: até o presente ninguém conseguiu nos esclarecer se haverá dois julgamentos ou não. Se “depois disto o Juízo”, e em algumas Bíblias, está “logo depois”, qual será a utilidade de mais um juízo no final dos tempos? Quem for condenado no primeiro, poderá se salvar no segundo? Mas, se ficarmos no que se diz nessa frase, então ninguém ficará esperando a ressurreição no último dia para ser julgado.

3.2.4 – O homem não pode se salvar por si mesmo

A Palavra de Deus, nos diz que é em Jesus que o homem consegue a expiação dos seus pecados (Jo 8,24; 1Jo 1,7-9). O homem só é salvo pela graça de Deus, sem nenhum esforço meritório (Ef 2,8-9; At 4,12; Rm 4,4-5).

            Se isso for verdadeiro então o “Sede perfeitos como é perfeito o vosso pai celestial” (Mt 5,48) torna-se um ensinamento inoperante que Jesus nos passou, pois, certamente, numa vida só, espírito algum conseguirá ser perfeito como o Pai o é. Mas ninguém disse que não conseguimos a salvação a não ser por Jesus; entretanto, ela não será pela graça e nem será pelo seu sangue derramado na cruz, porém unicamente seguindo os seus ensinamentos: “É pelo evangelho que vocês serão salvos” (1Cor 15,2) ou “Em Cristo, também vocês ouviram a Palavra da verdade, o Evangelho que os salva” (Ef 1,13).

         Certamente que, não fosse a graça de Deus em nos dar outra oportunidade, estaríamos fritos; portanto, é pela graça de Deus mesmo que somos salvos. Entretanto, não é salvação “de graça” como muitos pensam, pois haverá de ser “segundo a suas obras” a crermos no que Jesus disse.

         Por outro lado, se a nossa salvação não estivesse em nossas mãos, então, Deus certamente salvaria a todos, já que isso só dependeria da vontade dele.

         Uma crença que se opõe à reencarnação é a do inferno eterno, mas não há como explicá-lo diante disso: “O Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno. Não repreende perpetuamente, nem conserva para sempre a sua ira. Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniqüidades (Sl 103,8-10).

         Uma coisa que ainda estamos esperando é alguém nos provar que Deus tenha criado o inferno, lugar destinado ao suplício eterno dos contraventores de Suas leis. Que nos mostrem que a pena para os que não cumprissem os Dez Mandamentos seja ir para o inferno, já que é nesse momento que Deus deveria tê-lo, certamente, criado.

3.2.5 - A proposta de uma vida feliz através da reencarnação não é atestada pela Bíblia.

         E nem poderia ser de outra forma, já que “Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar” (Jo 16,12). Como, naquela época, não tinham uma noção clara quanto a isso, não adiantaria explicar o que não eram capazes de entender.

         O que assegura uma vida feliz é a vivência do Evangelho em toda a sua plenitude, e a reencarnação é a oportunidade oferecida para todos aqueles que viveram e morreram, sem haverem tido a chance de ouvir o Evangelho. A reencarnação pode até não garantir uma vida feliz, mas garante a oportunidade de vivê-la. Em contrapartida, nossos críticos evitam dizer que a proposta contrária, a de vida única, não dá essa mesma garantia para todos. Aliás, nem mesmo os que se acham merecedores de uma vida futura feliz apenas por pregarem o Evangelho, sem o praticar, têm essa garantia.

Conclusão

         Procuramos desenvolver esse estudo de forma a provar que essa questão de João Batista ser Elias é muito clara no Evangelho, tão clara como a luz do Sol ao meio-dia, num céu de brigadeiro. Entretanto, percebemos que por interesses, que não nos cabe aqui citá-los, as lideranças religiosas procuram esconder isso de seus fiéis, mantendo-os na ignorância. Qualquer pessoa de bom senso ou que não se encontra atrelada a dogmas, verá que isso é ponto irrefutável. Só não vê quem não quer; ou usando as palavras de Jesus: “Quem tem ouvidos, ouça”.

 Paulo da Silva Neto Sobrinho

Out/2005. (revisado jan/2007)

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___________, A Face Oculta das Religiões. São Paulo: Martin Claret, 2001.

Leituras complementares:

Conversa de Jesus com Nicodemos

O que efetivamente nos salva

Reencarnação e o Concílio de Constantinopla

A carta comprometedora de Elias

O Arrebatamento de Elias

O Castigo será eterno?

Perdão, punição, redenção ou reencarnação

Quando foi criado o inferno?

Reencarnação na Bíblia

Reencarnação e o significado bíblico


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