A FAMÍLIA, COMO TRANSFORMÁ-LA?

                                                                                                                                           “Não há instituição mais importante do que a família, já que o caráter da sociedade é determinado mais pelo caráter de suas famílias do que por qualquer outra coisa: a família, na verdade, é a única ins tituição que produz gente.” Kenneth Boulding, economista britânico, nos anos 70.

                O texto no destaque foi citado pelo Prof. Eduardo Giannetti, da Universidade de São Paulo (USP),  no artigo “A Família como instituição econômica”,  publicado em 16 e 23.10.94, no jornal Folha de São Paulo.

                Nesse artigo, ele se refere a estatísticas americanas que comparam a participação  de filhos de asiáticos e de latinos na Universidade da Califórnia (EUA). Dizem  que 9,5% da população daquele Estado é constituída de asiáticos; seus descendentes  ocupam 36% das vagas da Universidade. Os latinos, com 26% da população, só preenchem 13% das vagas. Atribuem o fato ao “(...) impacto de diferentes tipos de ESTRUTURA e ARRANJO FAMILIAR sobre o desempenho escolar de seus membros mais jovens.”

                E diz ele:

“Diante do surpreendente sucesso educacional de países como a Coréia do Sul e grupos sociais como os asiáticos na Califórnia, a hipótese que vem se fortalecendo é a de que nada substitui a família.

                Mais do que a escola, a família é a principal responsável pela transmissão social de um sentido de valores que induza os mais jovens a desenvolver suas capacidades morais e cognitivas.

                A família é a primeira, a menor e a mais importante escola.”  (Grifei).

                Ora, se para aprender a Ciência do mundo (educação do intelecto), buscando-se fins econômicos, já se percebe o valor da atuação da família na formação do caráter de seus filhos, o que não dizer, então, da  educação moral (do sentimento, do coração), que ensina valores não mensuráveis, mas indispensáveis à condução de suas vidas? E, mais importante, a formação moral refletirá na sociedade como um todo, com bons efeitos não só nos aspectos econômicos, mas nas Leis, nas Artes, na Política, na Ciência, enfim, na vida de todos os cidadãos. Com ela educa-se o espírito eterno.

                Quando analisamos a sociedade nos dias que correm, em países ricos ou pobres, vemos que ela está enferma. O que falta às comunidades?

                A atriz americana Shirley MacLaine, em entrevista a Débora Dines, do jornal ‘O Estado de São Paulo’, edição de 28.03.94, Caderno 2, afirma:

                “Leitura, escrita e matemática todos aprendemos na escola, mas quem somos nós como seres humanos, não. O ponto vital está faltando.”1 (Grifei).

                Nos Estados Unidos da América, o Partido Republicano (de oposição) busca entendimentos com o Partido Democrata, para reinstituir a prática obrigatória de orações diárias nas escolas públicas do país, suprimida por decisão da Suprema Corte, em 1962.2

                A nosso ver, o todo está enfermo porque boa parte das famílias está enferma. E o desequilíbrio, nelas, manifesta-se no conjunto. Harmonizando-se os lares, a comunidade, naturalmente, refletirá essa harmonia em seu conjunto, tal como agora manifesta, escandalosamente, o desequilíbrio generalizado.

                A questão, pois, não é só econômica ou de regimes políticos, eis que existe em países e/ou em famílias afortunados e de variadas ideologias. O que lhes falta?

                Entendemos que é a consciência de que, Espíritos eternos, recebemos da vida o que a ela oferecemos (Lei de Causa e Efeito, ou de Ação e Reação), de que devemos buscar o auto-conhecimento, de que somos seres em evolução para Deus.

                Como realizar essa conscientização?

                Vimos que certos valores não se aprendem no colégio. Quando não os recebemos no berço, na idade e tempo próprios, pela vivência e exemplo de nossos pais, dificilmente serão aprendidos na vida. Ou esta nos cobrará muito caro, para ensiná-los, ou a eles chegaremos após enormes danos a nós mesmos e à comunidade. E o quadro se agrava quando vemos o baixo nível do ensino nas escolas. Ou seja: má formação no lar e na escola... e se admira que a situação esteja no ponto em que está...

                É a família a célula de formação do caráter. Deve-se conscientizá-la dessa responsabilidade.

                A prática de orações em família deve ser universalizada. O Culto do Evangelho no Lar é o meio ideal para realizar essa tarefa. Estudá-lo não por hábito, mas para viver suas lições. Aos cristãos, e a nós espíritas em especial, cabe essa nobre e urgente tarefa de divulgar esse estudo, realizando-o por nossa vez semanalmente em nossas casas. O Culto, no dizer de Scheilla3 é “...um curso de longo alcance, onde repetir lições significa dar ênfase ao aprendizado eficaz.”, pois “O coração reclama tempo e esforço para disciplinar-se no aprendizado do amor.”

                André Luiz4, no livro “Os Mensageiros”, Capítulos 35 a 37, relata a visão de como se desenvolve um Culto do Evangelho, no lar de Dona Isabel, com seus desdobramentos nos dois planos da vida e a proteção que se cria no lar onde há o salutar hábito da oração em família. Entre outras coisas, diz:

                “O Evangelho dá equilíbrio ao coração.”

                “Nunca poderemos enumerar todos os benefícios da prece. Toda vez que se ora num lar, prepara-se a melhoria do ambiente doméstico....O lar que cultiva a prece transforma-se em fortaleza,... As entidades da sombra experimentam choques de vulto, em contacto com as vibrações luminosas deste santuário doméstico, e é por isso que se mantêm à distância, procurando outros rumos...” (Grifei).

                Como realizar o Culto em família?

a) - escolhe-se dia da semana e hora, nos quais os familiares estejam presentes.   Ser pontuais e constantes;

b) - uma pessoa dirige, e todos devem participar: com prece, leitura e comentários (no momento de palavra livre), revezando-se nas tarefas, para  melhor aproveitamento;

c) - não se deve impor a participação, mas estimulá-la, fraternalmente;

d) - criar ambiente amistoso, de respeito, favorecendo a alegria e a participação;

e) - colocar água pura sobre a mesa, para receber os benefícios espirituais. Se houver alguém enfermo, preparar vasilha só para ele;

f) - alguém faz a prece inicial em voz alta e os demais a acompanham em pensamento. Deve-se pedir, agradecer e louvar a Deus. Não pedir só para si: lembrar dos enfermos, dos governantes, dos amigos e inimigos, dos antepassados, dos vizinhos, etc.;

g) - estudar o Evangelho em seqüência, item por item. Ao concluí-lo, recomeçar;

h) - ler outras mensagens. Sugestão de livros: “Pão Nosso”; “Vinha de Luz”; “Fonte Viva”; “Caminho, Verdade e Vida”; “Coragem” e outros. Para as crianças: “Alvorada Cristã”; “Jesus no Lar”; “...E Para o Resto da Vida”.

i) - prece de agradecimento.

                Duração: cerca de 30 minutos, não indo além de uma hora, excepcionalmente.. Não deve haver manifestações mediúnicas. Sua finalidade básica é o estudo do Evangelho, para aprendizado, à luz da Doutrina Espírita. Não suspender o culto, com a chegada de visita, mas, convidá-la à participação. No dia escolhido, dar prioridade ao Culto, adiando-se passeios e festas. Só situações graves justificam a não realização do Culto do Evangelho.5

                Como ensina Guillon Ribeiro:

                “Sem que os lares respirem o clima ideal do amor, a Terra jamais experimentará a pacificação almejada, carpindo, entre guerras e morticínio, o reflexo da desagregação na célula primeira de seu reabastecimento moral - o lar.” Guillon Ribeiro.6  

Gebaldo José de Souza

 

Referências Bibliográficas:

1. Transcrito do Anuário Espírita 1995, pág. 134, IDE.

2. Folha de São Paulo, edição de 17.11.94.

3. “Jornada de Amor”, Scheilla/Júlio Cezar Grandi Ribeiro e Maria de Lourdes Cordeiro Silva, pág. 146, 2ª ed., 

      Edições Cordis.

4. “Os Mensageiros”, André Luiz/Francisco Cândido Xavier, págs. 184 a 198, 12ª ed., FEB.

5. “Culto do Evangelho no Lar”, 11ª ed., USEERJ.

6. Reformador de nov/77, pág. 349.

Publicado no Reformador de mar/95 - lº Artigo remetido à FEB e lº a ser por ela publicado.


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