A FEB ANTE O ELEVADO ESCOPO UNIFICACIONISTA

 

 

"– Quando a verdadeira união se fizer espontânea, entre todos os homens no caminho redentor do trabalho santificante do bem natural, então o Reino do Céu resplandecerá na Terra, à maneira da árvore divina das flores de luz e dos frutos de ouro”.[1](Neio Lucio)

 

O Espiritismo precisa da FEB? Como você vê o papel da FEB no Movimento Espírita? Devemos continuar defendendo-a? Essas perguntas nos foram endereçadas por uma confreira espírita de Brasília, motivo pela qual resolvemos escrever o presente texto.

Antes qualquer comentário acerca da Federação Espírita Brasileira, recordamos aqui que a sua  Missão é: “Promover o estudo, a prática e a difusão do Espiritismo, com base nas obras da Codificação de Allan Kardec e no Evangelho de Jesus; a prática da caridade espiritual, moral e material, dentro dos princípios espíritas; e a união solidária e a Unificação do Movimento Espírita, colocando o Espiritismo ao alcance e a serviço de todos”.[2] (grifamos) Portanto, quando refletimos sobre a Casa-Máter somos remetidos ao conceito de Unificação. Para a FEB, o trabalho unificacionista é uma atividade-meio objetivando fortalecer e facilitar a ação do Movimento Espírita na sua atividade-fim de promover o estudo a difusão e a prática da Doutrina.

A proposta da Unificação legítima, aquela que de fato transcende aos limites que os homens insistem em estabelecer, está firme e vigorosa na Codificação e para administrar o ideário unificador, a FEB criou (via Pacto Áureo) o Conselho Federativo Nacional em 1949, que por sua relevância, propõe reunir e congregar representantes do Movimento Espírita brasileiro para bem estruturá-lo. Por decorrência a FEB encaminha seu projeto por uma Unificação sem uniformização, por saber que a padronização dos comportamentos humanos, em qualquer nível, é ruinosa, por obstar a liberdade não só de ação, mas, sobretudo de pensamento. Desta forma, a idéia febiana é unir para irmanar; unir esforços para construir, unificar para fortalecer e para convergir, lembrando que Jesus e Kardec são um todo, por conseguinte unos e afluem para um só escopo. A propósito, o eminente Codificador assinala que o maior obstáculo à divulgação da Doutrina é a falta de unidade. Recorda Bezerra de Menezes, que “o serviço da Unificação em nossas fileiras é urgente, mas não apressado. Uma afirmativa parece destruir a outra. Mas não é assim. É urgente porque define objetivo a que devamos todos visar; mas não apressado, porquanto não nos compete violentar consciência alguma”[3] (grifamos)

Um dos mais antigos textos específicos [mediúnicos] sobre Unificação foi psicografado por Chico Xavier em 1948. Mensagem essa dirigida aos participantes do 1o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, realizado em São Paulo, de 31 de outubro a 05 de novembro de 1948, e coordenado pela então nascente USE-União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. Nessa página, intitulada "Em nome do Evangelho", Emmanuel se fundamenta na expressão "Para que todos sejam um"[4] . Em verdade, a Unificação é um processo lento, de amadurecimento, que caminha no sentido de estimular a vivência de participação, de intercâmbio e de respeito entre as instituições espíritas, considerando suas diversidades de condições, respeitando-se a autonomia administrativa que dispõem. [5]

  Para alguns confrades a FEB difunde demasiadamente o aspecto religioso da doutrina, motivo pelo qual, nutrem certa ojeriza bastante estranha frente a tudo que tenha laços com a religião. Várias instituições laicas[6] vêm tentando ingerir-se no Movimento Espírita brasileiro. Companheiros que afirmam não ser o Espiritismo o Consolador Prometido, pois Espiritismo e Cristianismo seriam duas doutrinas distintas. (sic) Negam a adjetivação cristã ao Espiritismo. Nesse vórtice alienante não admitem submissão a qualquer poder constituído, as regras, para o espírito anarquista são atropelos para o livre-pensar, por isso, usando a liberdade como bandeira de suas teses extravagantes, são convictos de suas “sapiências” e julgam que suas idéias são a expressão da verdade.

Durante um período esses confrades defendiam essa laicidade da Doutrina no bojo de uma campanha informal, denominada de "espiritização" do movimento que, dentre outras coisas, combatiam: a transformação do Espiritismo em apêndice do Cristianismo, a crença de que o Espiritismo possui um aspecto religioso, a excessiva pregação de cunho evangélico, o uso de expressões estranhas ao corpo semântico do Espiritismo, como evangelização, mediunidade com Jesus e culto evangélico no lar, a "igrejificação" do movimento, com a adoção de uma estrutura hierárquica formal, a supervalorização da culpa e da dor.

O que fica evidente nesses grupos é uma ação de intelectuais afins (normalmente adornados pela “autoridade” das titulações acadêmicas) com a intenção de criar um novo movimento de idéias, utilizando o Espiritismo como ponte para teorias insertas nas ciências sociais e políticas. Confrades esses que estão inequivocamente exercitando seu livre-arbítrio, porém, que o façam sem acrescentar mais cisões ao Movimento Espírita brasileiro.

No que tange à tarefa institucional da FEB é interessante examinar as instruções de Allan Kardec, quando trata da organização do Movimento Espírita. O mestre lionês demonstra não só a necessidade do órgão diretivo, mas como deveria funcionar.[7] Por forte razão, deixar a Doutrina Espírita solta à volúpia insofreável das interpretações pessoais pode transformar o Movimento Espírita[8] numa confusão sem precedentes. Quem não entende a necessidade de uma instituição unificadora torna-se partidário do que se chama movimento "anárquico-libertário"(?!). E não são poucos os remanescentes de tais arroubos progressistas formando escolas de um "Espiritismo à moda" sob os frágeis pilares das “meias verdades”.

A unidade doutrinária foi a única e derradeira divisa de Allan Kardec, por ser a fortaleza inexpugnável do Espiritismo. Nesse sentido, o papel das federativas estaduais [sintonizadas com a FEB] além da necessidade de harmonioso relacionamento com as casas espíritas adesas, precisa programar-se contra a dispersão sistemática e generalizada, em caminho de desintegração, por força de interferências estranhas. Manter vigília contra os movimentos paralelos que disseminam práticas exóticas, mistas de magia e de superstição, com a introdução de ritos de outros credos e cerimônias religiosas de estranho aspecto e significação. Munir-se contra a infiltração nas fileiras espíritas de ideologias discutíveis, ligadas a movimentos políticos-revolucionários e tentativas reiteradas de dominação político-partidária, tudo incompatível com os sãos princípios e com as finalidades essenciais da Doutrina. Por essa razão e por não ser tarefa das mais fáceis, as federativas estaduais ainda encontram extremas dificuldades de realizarem o ideal da Unificação sonhada por Kardec e Bezerra de Menezes.

  É importante lembrar que, na lógica unificacionista, as Entidades integrantes do Conselho Federativo Nacional[9] mantêm a sua autonomia, independência e liberdade de ação. Os vínculos com o CFN têm por fundamento a solidariedade e a união fraterna, livre, responsável e conscientemente praticada à luz da Doutrina Espírita, com vistas à sua difusão. Nesse sentido, obviamente,  as Instituições Espíritas, sediadas no território nacional, que desenvolvem suas atividades dentro dos princípios básicos da Doutrina Espírita contidos nas obras da Codificação Kardequiana estão, naturalmente, aptas a participar do esforço de Unificação do Movimento Espírita, em trabalho de apoio recíproco e solidário, para uma mais eficiente difusão do Espiritismo.

  Porém, o Movimento Espírita é campo fértil à fascinação e à gênese de idéias advindas da pseudo-sabedoria, por isso, cremos que a indulgência é necessária, mas a conivência, jamais. Respeitar idéias diferentes é obrigação cristã, contudo, acatá-las, não obrigatoriamente. Sobre isso Kardec nos chama a atenção: “A tática ora em ação pelos inimigos dos Espíritas, mas que vai ser empregada com novo ardor, é a de tentar dividi-los, criando sistemas divergentes e suscitando entre eles a desconfiança e a inveja. Não vos deixeis cair na armadilha; e tende certeza de que quem quer que procure, seja por que meio for, romper a boa harmonia, não pode ter boas intenções”.[10] Deste modo, mister a entronização de Allan Kardec “nos estudos, nas cogitações, nas atividades, nas obras, a fim de que a nossa fé não faça hipnose, pela qual o domínio da sombra se estabelece sobre as mentes mais fracas acorrentando-as a séculos de ilusão e sofrimento”.[11]

  Para se arrostar o desafio de união na diversidade ante a conquista do desiderato unificacionista é imperioso que “seja Allan Kardec, não apenas crido ou sentido, apregoado ou manifestado, a nossa bandeira, mas suficientemente vivido, sofrido, chorado e realizado em nossas próprias vidas. Sem essa base é difícil forjar o caráter espírita-cristão que o mundo conturbado espera de nós pela unificação.” [12]



[1]Xavier, Francisco Cândido. Jesus no Lar, Ditado pelo Espírito Néio Lúcio, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, cap. 46.

[2] Disponível em< http://www.febnet.org.br/apresentacao/content,0,0,265,0,0.html> acesso em 18/08/2005

[3] (Mensagem recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier, em reunião da Comunhão Espírita Cristã, em 20-4-1963, em Uberaba, MG.) publicada no Reformador edição de dez/1975.

[4] (João, 17:22).

[5] “O Espiritismo é uma questão de fundo; prender-se à forma seria puerilidade indigna da grandeza do assunto. Daí vem que os centros que se acharem penetrados do verdadeiro espírito do Espiritismo deverão estender as mãos uns aos outros, fraternalmente, e unir-se para combater os inimigos comuns: a incredulidade e o fanatismo”.(In Obras Póstumas – Constituição do Espiritismo – Item VI)

[6] Provêm de laicismo, doutrina que proclama a laicidade absoluta das instituições sociopolíticas e da cultura, ou que pelo menos reclama para estas autonomias em face da religião.

[7] A rigor não há sistema científico, social, filosófico ou religioso (sério), que funcione, ou que se sustente sem princípios normativos.

[8] Na verdade há grande confusão entre movimento espírita e Espiritismo. O primeiro, é o conjunto de ações perpetrado pelos seguidores de Allan Kardec ao longo da história espírita. O segundo, o conjunto de ensinamentos legados à humanidade pelos Espíritos superiores, através do trabalho missionário de Allan Kardec...

[9] Entidades Federativas Estaduais, Entidades Especializadas de Âmbito Nacional, Centros e demais Sociedades Espíritas

[10] Kardec, Allan, Revista Espírita Ano V fevereiro 1862, Vol 2.

[11] (Mensagem recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier, em reunião da Comunhão Espírita Cristã, em 20-4-1963, em Uberaba, MG.) publicada no Reformador edição de dez/1975.

[12] (Mensagem recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier, em reunião da Comunhão Espírita Cristã, em 20-4-1963, em Uberaba, MG.) publicada no Reformador edição de dez/1975.