ESPIRITISMO E -

Resposta ao bispo D. Boaventura Kloppenburg

"Deixemos nossas diferenças de lado e tentemos construir uma melhor relação para o futuro com as convicções que temos em comum". (João Paulo II)

“É tempo para tirarmos o Cristo e seu Evangelho da penumbra das igrejas e seitas, do meio das controvérsias teológicas, e lançá-las à luz meridiana do mundo e do universo. O Cristo não é telúrico, muito menos eclesiástico – ele é cósmico, universal”. (ROHDEN, H.)

Se a pobreza dos argumentos contra o Espiritismo é manifesta nas obras sérias, sua nulidade é absoluta nas diatribes e artigos difamatórios onde a raiva impotente se trai pela grosseria, pela injúria e pela calúnia”. (KARDEC).

Introdução

Temos em nossas mãos um livreto - livreto mesmo, pequeno no tamanho e pobre em conteúdo -, intitulado “Espiritismo e Fé”, de autoria de Frei Boaventura Kloppenburg, O.F.M, bispo emérito da Diocese de Nova Hamburgo, RS, cujo teor iremos comentar no decorrer deste estudo, pois a nós Espíritas a única coisa proibida é proibir, ou seja, podemos ler até o que nos é contrário. Sabemos pelas Escrituras que “... onde se acha o Espírito do Senhor aí existe a liberdade” (2Cor 3,17), o que justifica proporcionar plena liberdade a todos. Diante disso, lemos tudo quanto acharmos conveniente sem qualquer tipo de "Index Librorum Proibitorum", já que é direito inalienável de cada um ler o que desejar, como é o nosso o de defender o Espiritismo.

Por outro lado, na mesma proporção, cada um de nós tem o dever de respeitar a opinião alheia sobre qualquer assunto, principalmente no campo religioso, cuja liberdade é consagrada pela Constituição Brasileira. Fôssemos um advogado a primeira coisa que faríamos seria escolher uma pessoa de destaque, como se diz popularmente, um peixe bem graúdo, que tenha desrespeitado esse direito de nós, os Espíritas, e entraríamos na Justiça só para vê-lo responder por seu erro.

Ficamos realmente indignados com atitudes como essa, e por esse motivo, já antecipadamente pediremos desculpas se nos tornarmos eventualmente ácidos em nossas considerações. Confessamos que nossa evolução espiritual não nos permite alcançar vôo mais alto, de modo a agir com tolerância e mansidão em todos os momentos.

Quando vemos líderes religiosos ou qualquer pessoa que tenha a coragem de se dizer cristã cometendo fatos lamentáveis como esses, ficamos querendo descobrir de quem é o exemplo que seguem. Temos nos esforçado para estudar o Evangelho a fim de encontrar ali alguma coisa em que essas pessoas possam tomar como base para o que fazem. Felizmente não encontramos, pois se encontrássemos colocaríamos Jesus agindo de igual modo, coisa incompatível com sua evolução espiritual.

Passemos agora às nossas argumentações e considerações sobre o livreto em questão.

Análise do texto

A PERPLEXIDADE DOS CATÓLICOS

Mil vezes me pediram para explicar por que a Igreja Católica não aceita o espiritismo.

É a mãe católica, aflita porque o filho ou a filha freqüentam sessões espíritas e que deseja saber como deve comportar-se.

É a esposa atribulada com o marido simpatizante da umbanda.

É o viúvo com saudades da falecida, que estaria baixando no centro.

É o doente que indaga se pode aceitar os passes do médium.

É a catequista desarmada diante das perguntas dos alunos.

É o agente de pastoral com um amigo espírita, homem excelente.

É o iludido, alegando que o terreiro tem até nome de santo.

É o tolerante que não se incomoda com a transgressão da lei divina que proíbe a evocação dos mortos.

É o simpatizante que não percebe incompatibilidade alguma entre a doutrina espírita e a fé cristã.

É o curioso que quer conhecer o espiritismo. É o crítico que quer saber melhor como são as coisas depois da morte.

É o cético para quem todas as religiões são boas. É o liberal achando que as questões religiosas não se discutem.

É o entusiasmado, encantado com um livro de Chico Xavier.

É o caridoso em visita à creche mantida pelo centro.

  É o folclorista para quem o candomblé é uma beleza.

É o neurótico que se deixou persuadir de que deve desenvolver a sua mediunidade.

É o médium que pretende continuar católico e se sente realizado no exercício da caridade mediante o além.

É o oficial da cruzada dos militares espíritas, que se diz guiado por São Maurício.

É o chofer de táxi a meu lado, comentando que Allan Kardec é formidável.

É o sacristão que me explica com entusiasmo a cura de seu amigo que foi ao terreiro.

É a criança a reclamar contra papai que não a deixa ir ao centro.

É o telespectador diante da comovente novela espírita.

  É o radiouvinte que escutou a mensagem mediúnica.

É o amigo a acreditar que o espiritismo é só ciência e filosofia, e não religião.

Foi pensando em todos estes meus consulentes que escrevi o presente opúsculo. É apenas um resumo. Informações mais amplas ou críticas mais aprofundadas se encontram na obra maior com o título Espiritismo. Orientação para os católicos, publicada pelas Edições Loyola.

Peço ao Divino Espírito Santo que ilumine os que lerem estas páginas, para que vejam e entendam as razões por que o católico não aceita o espiritismo. Redigi-as movido pela caridade pastoral, pela urgência do esclarecimento solicitado por tantos fiéis católicos e pelo desejo de ser ao mesmo tempo claro na exposição, rigoroso na argumentação, lógico na dedução e fiel à doutrina cristã. Seu gênero literário não é de diálogo com os espíritas, que merecem o meu respeito embora deles divirja, mas de orientação para os católicos.

É raro encontrar alguém que vá falar mal de alguma coisa sem buscar uma boa justificativa para isso, exatamente como acontece aqui com esse líder religioso. Vamos provar, no decorrer desse estudo, que infelizmente pelo nível de conhecimento, que acreditamos possuir, deveria ter estudado muito o Espiritismo, pois é inadmissível alguém de alta posição falar daquilo que não conhece. Justamente, por isso, é que percebemos sua má-fé. Para iniciar observem os termos usados no texto: “umbanda”, “baixando no centro”, “terreiro”, “candomblé”. Quem estuda o Espiritismo sabe perfeitamente que isso não tem nada a ver com suas práticas, como também sabe que isso é apenas argumento falacioso dos detratores que vêem nisso uma boa forma de “espantar” seus fiéis da busca do conhecimento Espírita. Dizemos busca do conhecimento, pois não ficamos atrás de ninguém para que se torne adepto do Espiritismo, já que, conforme já o dissemos, respeitamos o direito de cada um seguir aquilo que melhor lhe conviver. E quem se deu a trabalho de ler Kardec, mesmo que somente para combater o Espiritismo, fatalmente deve de lido também que:

O Espiritismo tem por fim combater a incredulidade e suas funestas conseqüências, fornecendo provas patentes da existência da alma e da vida futura; ele se dirige, pois àqueles que em nada crêem ou que de tudo dividam, e o número desses não é pequeno, como muito bem sabeis; os que têm fé religiosa e a quem esta fé satisfaz, dele não têm necessidade.

Àquele que diz: “Eu creio na autoridade da Igreja e não me afasto dos seus ensinos, sem nada buscar além dos seus limites”, o Espiritismo responde que não se impõe a pessoa alguma e que não vem forçar nenhuma convicção. (KARDEC, A. O que é o Espiritismo, p. 123).

Interessante é que cada vez mais nos convencemos que o Espiritismo é o caminho verdadeiro, caso contrário não se gastaria tanto tempo e dinheiro para combatê-lo, e só o combatem por medo de que venha a mostrar o povo a verdade que eles não pregam. Ninguém, em sã consciência, combate àquilo que acha insignificante, isso é certo.

Mas são hábeis na forma de agir, pois dificilmente um leigo irá perceber as suas verdadeiras intenções, a esse lhes parecerá que estão inclusive fazendo um bem, querendo esclarecer os outros, quando no fundo é um ataque proposital mesmo, embora sutilmente disfarçado como prédicas evangélicas, que se parecem doces como mel, mas no fundo são amargas como fel.

CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS

Há muitas coisas em comum entre catolicismo e espiritismo. Católicos e espíritas concordam em professar que o mundo não é só matéria; que Deus existe e é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom; que 'Deus criou o universo, que abrange todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais; que os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo e os seres imateriais o mundo invisível dos espíritos; que os valores do espírito são superiores aos da matéria; que o ser humano não é só matéria; que temos uma alma de natureza espiritual; que esta alma não morre quando se separa do corpo no momento do desenlace; que depois da morte a nossa alma continua viva e consciente; que a vida depois da morte depende do modo como aproveitamos a vida agora no corpo.

Católicos e espíritas estão de acordo também em afirmar que os falecidos não rompem seus laços com os que ainda vivem nesta terra; que no mundo do além nem todos são iguais; que há espíritos perfeitos que vivem com Deus; que estes espíritos nos podem socorrer e ajudar; que há espíritos imperfeitos e até maus que assim se fizeram por próprio arbítrio; que estes nos podem perturbar e prejudicar.

Católicos e espíritas proclamam e reconhecem a extraordinária figura de Jesus Cristo; que Jesus nos ensinou o caminho do bem e da salvação; que as leis morais do Evangelho são excelentes; que Jesus insistiu principalmente na caridade; que fora da caridade não há salvação; que devemos fazer o bem e fugir do mal; que há pecados e vícios que devem ser evitados; que os pecados devem ser expiados; que a virtude será premiada depois da morte.

Católicos e espíritas aceitam outrossim que os espíritos do além podem manifestar-se ou comunicar-se perceptivelmente conosco. Ambos admitem dois tipos de manifestação dos espíritos: as espontâneas e as provocadas. Por manifestações espontâneas entendem as que têm a sua origem ou iniciativa no além, como foi, por exemplo, o caso que nos é narrado pelo Evangelho de São Lucas (1, 26-38): o anjo Gabriel foi enviado por Deus a Maria de Nazaré para comunicar-lhe que ela seria a mãe de Jesus. Por manifestações provocadas entendem as que têm a sua iniciativa no aquém, como foi, por exemplo, o caso que nos é relatado pelo primeiro livro de Samuel (28, 3-25): a pedido do rei Saul, a necromante de Endor evoca a alma do falecido Samuel, que então comunica ao rei os castigos divinos.

Mas é neste ponto que começa uma primeira divergência fundamental entre católicos e espíritas: os católicos admitem de bom grado as manifestações espontâneas que nos são oferecidas por iniciativa da bondade de Deus, mas consideram divinamente proibidas as manifestações provocadas pelo homem mediante o processo da evocação; e os espíritas transformam precisamente esta evocação dos falecidos em meio principal para as suas novas revelações do além.

O espiritismo se especifica, caracteriza e define por sua prática das manifestações provocadas das almas ou espíritos dos falecidos, para deles receber mensagens ou algum tipo de ajuda. A evocação dos falecidos constitui a essência do espiritismo. Sem a evocação não há espiritismo. E a evocação é a fonte principal de seus conhecimentos específicos ou da sua doutrina.

Há ainda uma segunda discordância fundamental entre católicos e espíritas: a questão da reencarnação. Os católicos crêem na unicidade da vida terrestre; e os espíritas anunciam a pluralidade das reencarnações. Este desacordo tem em si tantas conseqüências lógicas, sobretudo no modo de conceber a salvação eterna, que conduz de fato a dois corpos. doutrinários frontalmente discrepantes e opostos entre si de modo irreconciliável.

Em resumo: apesar das numerosas convergências entre católicos e espíritas, há duas palavras que marcam a separação e caracterizam o espiritismo: evocação e reencarnação.

Se parássemos por aqui, seria até digno de elogio essa parte da fala desse líder religioso, pois “apesar das numerosas convergências” e apenas duas divergências, pelo menos é o que está dizendo nesse ponto, não deixará de realçar como “fundamental” somente essas divergências em detrimento do maior número de convergências. Mais à frente cair-lhe-se-á a máscara, pois essas duas divergências passarão a ser, não duas, mas uma enorme lista delas. Todavia, no início não lhe convinha mostrar a que veio. Era melhor se cobrir de pele de ovelha.

É comum, e esse não será diferente, aos que vão combater o Espiritismo afirmarem que seus argumentos são lógicos, como se os que Kardec desenvolveu fossem balelas sem consistência. Inclusive alguns vêem no Codificador essa característica de homem racional e de argumentação exemplar, entretanto, as deles são superiores a de Kardec. Puro orgulho, de pseudo-sábios que não entendem mesmo daquilo a que se propõem a combater. Pois, após quase um século e meio do Espiritismo, ainda não apareceu alguém com capacidade de derrubar seus princípios, o que estamos vendo é o contrário, que a ciência pouco a pouco, embora tímida, vem confirmando aquilo que defendemos.

Agora se querem mesmo saber porque um católico não aceita o Espiritismo, diremos que é por puro interesse de seus líderes, pois temem à verdade, que lhes contraria os interesses, e daí é preciso proibir ou desanimar seus adeptos de ler, ir ou conhecer o Espiritismo, na fonte. Disse o apóstolo Paulo: “onde há liberdade aí existe o Espírito do Senhor” (2Cor 3,17), conseqüentemente o contrário também vale, ou seja, onde não existe liberdade não existe o Espírito do Senhor, o que não é o nosso caso, com certeza.

Em certo ponto, querendo ressaltar a discordância entre católicos e espíritas, cita a reencarnação, para ele uma heresia. Se assim for, então existem mais hereges no mundo do que católicos. Segundo os dados atuais, a crença na reencarnação estaria por volta de 70 a 80% da humanidade, bem se vê que os contrários são minoria.

COMO SURGIU O ESPIRITISMO

A prática da evocação dos falecidos para deles receber conhecimentos, chamada também "necromancia" (do grego nekrós=falecido e manteia=adivinhação), é antiga. Mas o seu aproveitamento sistemático, denominado "espiritismo", vem do século passado.

Surgiu primeiro nos Estados Unidos, em torno dos estranhos acontecimentos de Hydesville com as irmãs Margarida e Catarina Fox, a partir de 1848. Mas já um ano antes, em 1847, aparecia nos Estados Unidos uma obra mediúnica de Andrew Jackson Davis e outra na França, de Louis Alphonse Cahagnet, do grupo dos "magnetizadores" de Paris, que se serviam de "sonâmbulos" (assim eram então denominados os médiuns) para receber revelações do além-túmulo.Em 1856, o mesmo Cahagnet publicava em Paris Révélations d'outre-tombe, com mensagens ditadas, segundo pretendia, pelos falecidos Galileu, Hipócrates, Franklin e outros.

Foi neste ambiente interessado no "magnetismo animal" imaginado pelo médico austríaco Franz Anton Mesmer (1733-1815), instalado em Paris desde 1778, que nasceu o "espiritismo". Esta palavra foi proposta por Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), mais conhecido pelo seu pseudônimo de Allan Kardec, o codificador sistemático de um tipo especial de espiritismo conhecido também como "kardecismo".

Este é o espiritismo dominante no Brasil.

Allan Kardec (isto é, Denizard Rivail) era de família católica. Com a idade de 10 anos foi enviado a Yverdun, Suíça, ao Instituto de Educação dirigido pelo conhecido pedagogo Pestalozzi, protestante calvinista e liberal, que identificava religião com moralidade. Lá esteve o jovem Rivail até 1822, quando .foi a Paris, onde se dedicou então ao ensino e publicou vários livros pedagógicos e didáticos. De boa formação geral e cultural, era metódico, lógico e claro na exposição das suas idéias. Conhecia também o alemão e o inglês e trabalhava como tradutor. Bom matemático, atuou ainda como contabilista. Casou-se em 1826 com Amélie Gabrielle Boudet, nove anos mais velha do que ele e de boa situação financeira. Não teve filhos.

Mas Alan Kardec não era particularmente versado em religião e muito menos em teologia. Em maio de 1855, começou a interessar-se pelo fenômeno das "mesas girantes e falantes", nascido nos Estados Unidos, e aceitou a teoria da presença e atuação de "espíritos" ou almas dos falecidos nos movimentos de mesas, cestas e outros objetos usados pelos "sonâmbulos" dos "magnetizadores". E já dois anos depois, no dia 18 de abril de 1857, publicou O Livro dos Espíritos. Este dia 18 de abril de 1857 é considerado pelos espíritas como o dia da fundação do espiritismo.

O Livro dos Espíritos é a obra fundamental da codificação da doutrina espiritista, com o seguinte subtítulo: "Princípios da doutrina espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da Humanidade - segundo os ensinos dados por espíritos superiores com o concurso de diversos médiuns - recebidos e coordenados por Allan Kardec".

Outra obra básica de Allan Kardec para a prática do espiritismo foi publica da em 1861: O Livro dos Médiuns, com o subtítulo "Guia dos médiuns e dos evocadores". Note-se aqui a palavra "evocadores", indicando assim a função determinante da "evocação" para o espiritismo.

Além destes dois livros básicos, Allan Kardec ainda escreveu e publicou O Evangelho segundo o Espiritismo (em 1864), que é a sua obra mais difundida no Brasil, já com cerca de dois milhões de exemplares. Publicou também O Céu e o Inferno (em 1865) e A Gênese (em 1868). Depois da sua morte, em 1869, mais alguns textos inéditos foram publicados como Obras Póstumas. Em 1858, Allan Kardec começou a publicar a sua Revue Spirite ("revista espírita"), que deixou de aparecer com este título em 1976.

O espiritismo codificado por Allan Kardec foi introduzido no Brasil ainda em vida do codificador, a partir de 1865. Em 1884, foi fundada a Federação Espírita Brasileira (FEB), tendo desde então como órgão oficial a revista Reformador, palavra que revela um programa.

Leiamos as considerações preliminares de Kardec, na Introdução do arcabouço filosófico e doutrinário do Espiritismo, O Livro dos Espíritos;

Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras. Os vocábulos espiritual, espiritualista, espiritualismo têm acepção bem definida. Dar-lhes outra, para aplicá-los à doutrina dos Espíritos, fora multiplicar as causas já numerosas de anfibologia. Com efeito, o espiritismo é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria. Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas.

Por aí deveria ter ficado claro que o Espiritismo é coisa nova e não coisa antiga como quer o articulista. Espiritismo não tem nada a ver com necromancia, isto é puro “conto do vigário”. Necromancia é a evocação dos mortos para fins de adivinhação, que fique bem clara essa definição, pela qual qualquer pessoa de bom senso perceberá a grande diferença entre as práticas Espíritas e as de adivinhação.

Querendo criar uma imagem distorcida da origem do Espiritismo o prelado diz que ele veio num ambiente interessado no “magnetismo animal”. Ora, como bom estudioso, deveria saber que o Espiritismo tem como fato de seu nascedouro os fenômenos de Hydesville, nos E.U., fato, inclusive, que cita. Entretanto, como se diz “não contou da missa a metade”, pois esses acontecimentos são importantes demais para provar que tais fenômenos não são proibidos por Deus, como a todo o momento quer destacar o sacerdote.

Resumindo: A família Fox, morando em Hydesville, estado de New York, numa casa de madeira, passou a ser incomodada por estranhas batidas, os “raps”. Ninguém mais conseguia dormir, os pais com suas duas filhas passaram dias difíceis com esses acontecimentos. Na noite de 31 de março de 1848, uma das crianças resolveu desafiar o que provocava tais fatos, bateu palmas pedindo para que se repetisse, o que de fato aconteceu.

Assim, muito rudemente, começa o intercâmbio com o causador dos fenômenos, que disse ser um espírito, que havia sido assassinado naquela casa por conta de 500 dólares, que seu cadáver estava escondido na adega. Passados 56 anos, foi descoberto um esqueleto no porão da casa onde residira a família Fox, comprovando a realidade daquilo que falou o espírito.

O que queremos chamar a atenção de você, leitor, é que aqui ninguém evocou espírito algum, fato que os detratores nem tocam. Foi o dito “de cujos” que veio, do além túmulo, donde vivem os “mortos”, incomodar aquela família. A pergunta crucial é: ele veio com ou sem a permissão de Deus? Se veio sem permissão, ele teria algum poder maior que Deus para contrariar sua vontade? Cremos que não, daí só pode ter vindo mesmo com a permissão de Deus, e assim cai por terra a decantada proibição divina de evocar os mortos, segundo algumas discutíveis traduções. Tal proibição visava combater o fim a que se destinavam as consultas, e não a comunicação em si. Mas sob o outro ponto de vista, mesmo que seja verdadeira essa proibição, a de nos comunicarmos, veremos que se por um lado ela não permite que os evoquemos, por outro não proíbe que eles venham até nós de iniciativa própria, já que foi exatamente isso que aconteceu e anda acontecendo até os dias de hoje.

Devemos, ainda, ressaltar que a família Fox era da Igreja Metodista. Que ironia! O Espiritismo tem origem no meio protestante e sua codificação aconteceu no meio católico, provando que Deus não faz mesmo acepção de pessoas.

Interessante que citando as qualidades de Kardec tenha dito “de boa formação geral e cultural, era metódico, lógico e claro na exposição das suas idéias”, mas apesar disso o articulista pressupõe aos seus argumentos mais lógica, conforme disse no início.

A sutileza da afirmação “Allan Kardec não era particularmente versado em religião e muito menos em teologia” é fantástica, pois só faltou acrescentar: somente aos padres da Igreja Católica se podem atribuir tais qualidades. Não são eles os escolhidos de Deus?

Há um fato não verdadeiro, Kardec não aceitou a teoria da presença e atuação dos “espíritos” ele deduziu dos fatos que se lhe apresentaram. “Todo efeito inteligente há de ter uma causa inteligente”, daí, por essa sua afirmativa, deduziu que como as mesas não possuíam cérebro para pensar, devia haver uma causa inteligente que produzia tais fenômenos. Essa causa inteligente é quem disse ser espírito.

A razão de publicar “Guia dos médiuns e dos evocadores”, diante dos estudos dos fenômenos mediúnicos que fizera, foi melhor prevenir aos médiuns ou evocadores dos inconvenientes e perigos da prática generalizada, feita por quem não possui o mínimo conhecimento do assunto. Kardec coloca tais fenômenos como de ordem natural, ou seja, dentro das leis da natureza, portanto, divinas.

A prática mediúnica, e não o Espiritismo, existiu desde quando houve espíritos para se comunicarem uns com os outros, ou será que não sabem que os encarnados são também espíritos? A Bíblia está repleta de fatos mediúnicos tomados à conta de poderes que somente pessoas especiais, os profetas, poderiam ter. Kardec demonstra que é uma faculdade inerente à criatura humana, nós todos a possuímos, o que varia é apenas o seu grau e moralidade. Paulo inclusive fala dela aos coríntios, na primeira carta aos coríntios nos capítulos 12 e 14, quando o apóstolo dos gentios regulamenta o uso dos dons, que é exatamente o que hoje denominamos de mediunidade.

Ela se processa sempre dentro do âmbito das leis naturais, e em se retirando o caráter sobrenatural da mediunidade, ele fere a interesses seculares da Igreja de Roma, que também aí busca manter o seu domínio. Ou seja, evocar santos pode, espíritos não. Parece brincadeira, pois o que são os santos senão espíritos?

O QUE PRETENDE O ESPIRITISMO

Nas Obras Póstumas de Allan Kardec encontramos também as suas Previsões concernentes ao Espiritismo (pp. 263-336 da 29ª edição da FEB, que é aqui citada). Nela, Allan Kardec descreve com simplicidade a sua própria iniciação no espiritismo e as "revelações" que foi recebendo, sempre "do além", acerca da sua missão pessoal e dos principais objetivos do movimento por ele suscitado.

No dia 15 de março de 1856, Allan Kardec recebeu a comunicação de ter como "guia espiritual" o próprio Espírito da Verdade, já prometido por Jesus aos Apóstolos no Evangelho segundo São João (16, 12-13): "Tenho ainda muito a vos dizer, mas não podeis agora compreender. Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena". Tal condução à verdade plena estaria começando então, em 1856, com Allan Kardec [1]. E no dia 12 de junho de 1856 o Espírito da Verdade lhe teria revelado a sua missão de reformador:

"Previno-te de que é rude a tua missão, porquanto se trata de abalar e transformar o mundo inteiro" (p. 282).

No dia 15 de abril de 1860, Allan Kardec julga ter recebido (sempre do além) esta mensagem, que define a própria missão do espiritismo como "a verdadeira religião, a religião natural":

"O Espiritismo é chamado a desempenhar imenso papel na Terra. Ele reformará a legislação ainda tão freqüentemente contrária às leis divinas; retificará os erros da História; restaurará a religião de Cristo, que se tomou nas mãos dos padres, objeto de comércio e de tráfico vil; instituirá a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai diretamente a Deus, sem se deter nas franjas de uma sotaina, ou nos degraus de um altar" (p. 299).

E pouco depois, no dia 30 de setembro de 1863, a comunicação do além pronuncia um veredito sobre a Igreja Católica:

"É chegada a hora em que a Igreja tem de prestar contas do depósito que lhe foi confiado, da maneira por que pratica os ensinos de Cristo, do uso que fez da sua autoridade, enfim, do estado de incredulidade a que levou os espíritos. A hora é vinda em que ela tem de dar a César o que é de César e de assumir a responsabilidade. de todos os seus atos. Deus /á julgou, e a reconheceu inapta, daqui por diante, para a missão de progresso que incumbe a toda autoridade espiritual. Somente por meio de uma transformação absoluta lhe será possível viver; mas resignar-se-á ela a essa transformação? Não, pois que então já não seria a Igreja; para assimilar as verdades e as descobertas da Ciência [2], teria de renunciar aos dogmas que lhe servem de fundamentos; para volver à prática rigorosa dos preceitos do Evangelho, teria de renunciar ao poder, à dominação, de trocar o fausto e a púrpura pela simplicidade e a humildade apostólicas. Ela se acha nesta alternativa: ou se suicida, transformando-se; ou sucumbe nas garras do progresso, se permanecer estacionária" (p. 310 s.).

E assim o espiritismo se considera como sendo a "terceira revelação". A primeira, assim dizem, veio por Moisés; a segunda, por Jesus Cristo; e a terceira, através dos "espíritos", principalmente do Espírito da Verdade, o Consolador prometido por Jesus. Allan Kardec descreve tudo isso amplamente no capítulo primeiro de A Gênese, concluindo no n.º 42:

"O Espiritismo realiza todas as promessas de Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa da sua vinda se acha por essa forma cumprida, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador".

No discurso pronunciado em 1.0 de novembro de 1863, Allan Kardec apresentou um resumo da doutrina espírita, terminando com estas palavras:

"Eis o Credo, a religião do espiritismo, religião que pode conciliar-se com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar a Deus. Esse é o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, enquanto se espera que ele ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal".

Tal é também a convicção que anima o espiritismo no Brasil. A Federação Espírita Brasileira, por seu Conselho Nacional, em sua reunião de 5 de julho de 1952, declarou oficialmente e por unanimidade: "O Espiritismo é Religião sem ritos, sem liturgia e sem sacramentos". E em outra oportunidade fez saber:

"Os espíritas do Brasil, reunidos no II Congresso Espírita Internacional Panamericano, com expressões de maior respeito à liberdade de pensamento e de consciência, afirmam que, no Brasil, a Doutrina Espírita, sem prejuízo de seus aspectos científicos e filosóficos, é fundamentada no Evangelho de Cristo, certo de ser o Consolador Prometido de que nos falam aqueles mesmos Evangelhos. Por isso é que nós outros, que vivemos no Brasil, ligados à Doutrina Espírita, consideramo-la a Religião".

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[1] A verdade, porém, é que a promessa de Jesus acerca do Espírito da Verdade não foi tão vaga, para um futuro tão incerto e distante. Jesus se dirigia diretamente aos Apóstolos que estavam com Ele na última Ceia: Rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre, o Espírito da verdade... O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, é que vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos disse (Jo 14, 16-17.26). E pouco antes de' sua ascensão mandou aos Apóstolos: Eis que eu vos enviarei o que meu Pai prometeu. Por isso permanecei na cidade até serdes revestidos da força do Alto (Lc 24, 49). E lhes disse ainda: O Espírito Santo descerá sobre vós e dele recebereis força (At 1, 8). Alguns dias depois, na festa de Pentecostes, quando estavam reunidos na sala de Jerusalém, de repente veio do céu um ruído semelhante ao de vento impetuoso e encheu toda a casa onde se achavam. E apareceram umas como línguas de fogo, que se distribuíram e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo (At 2, 1-4). Era a vinda do Espírito da Verdade, bem antes de Allan Kardec. Começou então a vida da Igreja. Ela terá a árdua tarefa de conservar e anunciar a todos os homens, até o fim dos tempos, o que Jesus ensinara em nome do Pai. Realiza-se assim a promessa de Jesus: Eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt 28, 20). A Igreja cumprirá a sua missão, confortada certamente pela força do Alto e sempre assistida pelo Espírito da Verdade, o Consolador, mas em todo tempo mediante seres humanos, frágeis e limitados por sua natureza. A já bimilenar história da Igreja é rica na descrição destas vicissitudes humanas, de maior ou menor fidelidade, com aflições e dificuldades internas e externas, entre sombras porém com fidelidade substancial.

[2] O espiritismo nasceu, em meados do século passado, num ambiente de mentalidade cientificista que pretendia explicar todos os fenômenos espirituais por meio de "fluidos", "éter", "eletricidade", "magnetismo" etc. Considera-se, portanto, uma doutrina "científica". Tanto essa mentalidade, porém, quanto a terminologia estão hoje totalmente superadas, não encontrando mais aplicação nem na biologia nem na psicologia modernas.

Se o Espiritismo não for uma revelação não há com o que se preocupar. Caso contrário, repetimos a fala de Gamaliel, em defesa de Pedro e dos que o acompanhavam, perante o Sinédrio:

... um fariseu chamado Gamaliel... doutor da Lei,... disse: “Homens de Israel, vejam bem o que estão para fazer contra esses homens... Quanto ao que está acontecendo agora, dou-lhes um conselho: não se preocupem com esses homens, e os soltem. Porque, se o projeto ou atividade deles é de origem humana, será destruído; mas, se vem de Deus, vocês não conseguirão aniquilá-los. Cuidado para não se meterem contra Deus" (At 5,34-39)

Se o bispo tem o direito de achar que o papa é o representante de Cristo aqui na Terra, também temos o de achar que o Espírito da Verdade liderou toda a plêiade de Espíritos que trouxeram essa nova revelação aos homens. Como da vez anterior, por quem Jesus foi rejeitado? Pelo povo? Não! Não? Infelizmente foi rejeitado justamente por aqueles que tinham tudo para aceitá-lo, os líderes religiosos de sua época, que, entretanto, ao invés de vê-lo como o Messias, o enxergaram como alguém que estava contrariando seus interesses, daí tramaram sua morte de forma vergonhosa. E aí está o motivo da morte de Jesus, o que nada tem a ver, como apregoam por aí, que tenha morrido para nos salvar.

Mutatis mutandis, de igual modo acontece com o Espiritismo, ao ser perseguido por aqueles que tudo tinham para aceitá-lo, porquanto, vem justamente comprovar, de forma categórica, que a alma sobrevive à morte física,  que sofremos as conseqüências de nossos atos, por isso é melhor “amar ao próximo como a si mesmo” já que o amor é a base fundamental dos ensinamentos de Cristo, sendo esta a pedra de toque do verdadeiro cristão. Disse ele: “... amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros. Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (Jo 13,34-35)

Se o Espírito Santo baixou nos discípulos, por que a discriminação já é o que dizem acontecer em nosso meio? Não vemos nenhuma diferença, já que ambos são Espíritos, e os estudiosos sabem que esse Santo que aparece várias vezes na Bíblia é acréscimo, quando há essa ocorrência o significado é espírito puro ou espírito bom. Por outro lado, estamos diante de um grave problema: ele baixou duas vezes. A primeira vez no domingo seguinte à morte de Jesus (Jo 20,22) e a segunda na suposto dia do Pentecostes (At 2,2). Por que dissemos supostamente? Por que católicos disseram isso. Quando? Leiamos, em se referindo a Atos 2,1-13, temos:

O relato é simbólico. De fato, quanto o autor escreveu, as comunidades cristãs já se haviam espalhado por todas as regiões aqui mencionadas. Lucas quer mostrar o que está na base de qualquer comunidade cristã: o Espirito Santo faz lembrar, compreender e continuar o testemunho de Jesus (cf. Jo 14,26; 16,12-15). Pentecostes, celebrado cinqüenta dias depois da páscoa, comemorava a Aliança e o dom da Lei....” (Bíblia Sagrada Edição Pastoral, p. 1391).

Assim, o tal Pentecostes, segundo os próprios católicos, de fato não aconteceu, é apenas simbólico.

Por outro lado, se Jesus disse que não poderia dizer tudo aos discípulos, haja vista eles ainda não terem capacidade de entender (Jo 16,12), por que cinqüenta e poucos dias depois a teriam, sem que nenhum fato extraordinário tivesse acontecido, passaram a ter maior capacidade para receber esses novos ensinamentos?

Mas, observando detidamente a passagem, veremos que na própria Bíblia o fenômeno de Pentecostes é relacionado não ao comprimento do envio do Consolador, como afirma o bispo, mas a uma profecia de Joel (3,1-5), conforme poderá ser comprovado pela afirmação de Pedro em Atos 2,14-20. Ele teve oportunidade para dizer que se tratava do Consolador, mas não o fez. Assim, a tentativa de se relacionar a vinda do Espírito de Verdade para aquela época ficou frustrada pela apostasia predita que já se iniciava nos dias apostólicos, e por isso, essa promessa só pode mesmo ser concretizada, na íntegra, em tempo futuro.

Ao lermos as pinceladas que o bispo retirou de livros Espíritas para compor esse item, percebemos que realmente pode haver um medo tremendo por detrás de tudo isso. Pois se o Espiritismo vem resgatar os verdadeiros ensinos de Jesus, já que o que a Igreja prega é deturpação pura, virá a ser o elo que ligará todos os homens numa fraternidade universal, irá ferir o status de poder que a Igreja e sua liderança quer manter, e daí tremem pela hora em que sua Igreja irá prestar contas do depósito que lhe foi confiado, e como sabem que não foram bem guardados, pressentem as inevitáveis conseqüências.

Quanto à objeção de ser o Espiritismo considerado uma ciência ultrapassada, deixaremos Kardec falar:

A ciência espírita compreende duas partes: experimental uma, relativa às manifestações em geral, filosófica, outra, relativa às manifestações inteligentes. Aquele que apenas haja observado a primeira se acha na posição de quem não conhecesse a Física senão por experiências recreativas, sem haver penetrado no âmago da ciência. A verdadeira Doutrina Espírita está no ensino que os Espíritos deram, e os conhecimentos que esse ensino comporta são por demais profundos e extensos para serem adquiridos de qualquer modo, que não por um estudo perseverante, feito no silêncio e no recolhimento. Porque, só dentro desta condição se pode observar um número infinito de fatos e particularidades que passam despercebidos ao observador superficial, e firmar opinião. Não produzisse este livro outro resultado além do de mostrar o lado sério da questão e de provocar estudos neste sentido e rejubilaríamos por haver sido eleito para executar uma obra em que, aliás, nenhum mérito pessoal pretendemos ter, pois que os princípios nela exarados não são de criação nossa. O mérito que apresenta cabe todo aos Espíritos que a ditaram. Esperamos que dará outro resultado, o de guiar os homens que desejem esclarecer-se, mostrando-lhes, nestes estudos, um fim grande e sublime: o do progresso individual e social e o de lhes indicar o caminho que conduz a esse fim.

Concluamos, fazendo uma última consideração. Alguns astrônomos, sondando o espaço, encontraram, na distribuição dos corpos celestes, lacunas não justificadas e em desacordo com as leis do conjunto. Suspeitaram que essas lacunas deviam estar preenchidas por globos que lhes tinham escapado à observação. De outro lado, observaram certos efeitos, cuja causa lhes era desconhecida e disseram: Deve haver ali um mundo, porquanto esta lacuna não pode existir e estes efeitos hão de ter uma causa. Julgando então da causa pelo efeito, conseguiram calcular-lhe os elementos e mais tarde os fatos lhes vieram confirmar as previsões. Apliquemos este raciocínio a outra ordem de idéias. Se se observa a série dos seres, descobre-se que eles formam uma cadeia sem solução de continuidade, desde a matéria bruta até o homem mais inteligente. Porém, entre o homem e Deus, alfa e ômega de todas as coisas, que imensa lacuna! Será racional pensar-se que no homem terminam os anéis dessa cadeia e que ele transponha sem transição a distância que o separa do infinito? A razão nos diz que entre o homem e Deus outros elos necessariamente haverá, como disse aos astrônomos que, entre os mundos conhecidos, outros haveria, desconhecidos. Que filosofia já preencheu esta lacuna? O Espiritismo no-la mostra preenchida pelos seres de todas as ordens do mundo invisível e estes seres não são mais do que os Espíritos dos homens, nos diferentes graus que levam à perfeição. Tudo então se liga, tudo se encadeia, desde o alfa até o ômega. Vós, que negais a existência dos Espíritos, preenchei o vácuo que eles ocupam. E vós, que rides deles, ousai rir das obras de Deus e da Sua onipotência! (KARDEC, A, O Livro dos Espíritos, pp. 46-47).

Que faz a moderna ciência espírita? Reúne em corpo de doutrina o que estava esparso: explica, com os termos próprios, o que só era dito em linguagem alegórica; poda o que a superstição e a ignorância engendraram, para só deixar o que é real e positivo. Esse o seu papel! O de fundadora não lhe pertence. Mostra o que existe, coordena, porém não cria, por isso que suas bases são de todos os tempos e de todos os lugares. Quem, pois, ousaria considerar-se bastante forte para abafá-la com sarcasmos, ou, ainda, com perseguições? Se a proscreverem de um lado, renascerá noutras partes, no próprio terreno donde a tenham banido, porque ela está em a Natureza e ao homem não é dado aniquilar uma força da Natureza, nem opor veto aos decretos de Deus.

Que interesse, aos demais, haveria em obstar-se a propagação das idéias espíritas? É exato que elas se erguem contra os abusos que nascem do orgulho e do egoísmo. Mas, se é certo que desses abusos há quem aproveite, à coletividade humana eles prejudicam. A coletividade, portanto, será favorável a tais idéias, contando-se-lhes por adversários sérios apenas os interessados em manter aqueles abusos. As idéias espíritas, ao contrário, são um penhor de ordem e tranqüilidade, porque, pela sua influência, os homens se tornam melhores uns para com os outros, menos ávidos das coisas materiais e mais resignados aos decretos da Providência. (KARDEC, A. O Livro dos Espíritos, p. 486).

Talvez nos contestem a qualificação de ciência que damos ao Espiritismo. Ele não poderia, sem dúvida, em alguns casos, ter os caracteres de uma ciência exata, e está precisamente aí o erro daqueles que pretendem julgá-lo e experimentá-lo como uma análise química, como um problema matemático: já é muito que tenha o de uma ciência filosófica. Toda ciência deve estar baseada sobre fatos; mas só os fatos não constituem a ciência; a ciência nasce da coordenação e da dedução lógica dos fatos: é o conjunto de leis que os regem. O Espiritismo chegou ao estado de ciência? Se se trata de uma ciência perfeita, sem dúvida, seria prematuro responder afirmativamente; mas as observações são, desde hoje, bastante numerosas para se poder, pelo menos, deduzir os princípios gerais, e aí que começa a ciência. (KARDEC, A. Revista Espírita 1858, Araras-SP: IDE, 2001, p. 3).

Assim, o Espiritismo não deixará se ser ciência só porque o sr. bispo, em sua opinião, diz que não. Quem tem o direito de definir aquilo que é ou não foi quem o criou, ninguém mais. Ademais, reconhecemos ser esta uma necessidade capital dos religiosos, pois reconhecer no Espiritismo uma Ciência Verdadeira é o mesmo que admitir a própria derrocada, ou a falência de seus próprios dogmas.

A DOUTRINA ESPÍRITA E A MENSAGEM CRISTÃ

No Brasil, o movimento criado por Allan Kardec é mantido e divulgado pela Federação Espírita Brasileira, que o propõe sistematicamente não apenas como "a religião", mas também como "espiritismo cristão". Seu órgão oficial, Reformador, que começou em 1883, então como "órgão evolucionista", apresenta-se agora no subtítulo como "Revista do Espiritismo Cristão". No fascículo de março de 1981, em artigo sobre a missão do Consolador, chega a esta conclusão:

"É missão, pois, do Espiritismo devolver ao Cristianismo a sua pureza original, libertando-o dos dogmas e das idéias humanas nele introduzidos" (p. 85).

Para entender tão radical operação libertadora, é necessário comparar a doutrina espírita com a mensagem cristã: aos menos em seus elementos fundamentais.

Vejamos então as justificativas do sr. Bispo, cuja preocupação é trazer o Espiritismo como sendo algo contra a doutrina cristã. Obviamente lhe daremos um desconto por tão ardorosamente advogar em causa própria, pois até onde sabemos vivem ele e toda a liderança religiosa de sua Igreja às custas do dízimo dos fiéis. Não vivem, portanto, para a sua religião, mas de sua religião.

A prepotência que vemos nos líderes religiosos dos dias atuais é que julgam de sua exclusividade definir quem é e quem não é cristão. Entretanto, quem define se segue a doutrina cristã ou não será a própria pessoa, bem disse Paulo: “Se alguém está convencido de pertencer a Cristo, tome consciência, de uma vez por todas, de que assim como ele pertence a Cristo, também nós pertencemos a Cristo” (2Cor 10,7), fulminando de vez esse idéia exclusivista desses líderes.

Sobre estes, Jesus já advertia que “são cegos guiando cegos”, caso contrário teriam visto que o Mestre afirmou “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles”. (Mt 18,20) e mais claro ainda que isso, podemos ler: “João disse a Jesus: ‘Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lhe proibimos, porque ele não nos segue’. Jesus disse: ‘Não lhe proíbam, pois ninguém faz um milagre em meu nome e depois pode falar mal de mim. Quem não está contra nós, está a nosso favor. Eu garanto a vocês: quem der para vocês um copo de água porque vocês são de Cristo, não ficará sem receber sua recompensa’”. (Mc 9,38-41). Daí, se nós dissermos que seguimos a Jesus é o suficiente. No entanto, o que muitos não suportam é termos os nossos próprios pensamentos sobre seus ensinamentos, pois acham que somos obrigados a vê-los com a mesma viseira com que os enxergam, fora as interpretações de conveniências, cujo objetivo é apenas manter domínio sobre seus fiéis.

A Revelação divina

Para a generalidade dos cristãos de todos os tempos, sejam eles católicos, ortodoxos ou protestantes, os livros da Sagrada Escritura são divinamente inspirados. É um princípio inconcusso ("dogma") dos cristãos.

No credo espírita de Allan Kardec não entra este ponto fundamental. Jamais o afirma em nenhuma de suas obras. Mas com freqüência se compraz em mostrar o que ele considera absurdos e contradições da Bíblia. No Reformador, janeiro de 1953, p. 23, encontramos bem definida a posição dos nossos espíritas perante a Bíblia:

"Do Velho Testamento já nos é recomendado somente o Decálogo e do Novo Testamento apenas a moral de Jesus; já consideramos de valor secundário, ou revogado e sem valor algum, mais de 90% do texto da Bíblia. Só vemos na Bíblia toda um livro respeitável pelo seu valor cultural, pela força que teve na formação cultural dos povos do Ocidente".

Aqui é batida a velha tecla, o mesmo surrado argumento, de que a Bíblia é a palavra de Deus, infalível, insuspeita, mas assim se diz apenas por puro interesse, pois caso contrário quem lhe seguiria cegamente? O povo, não dado ao questionamento, acredita piamente naquilo que lhe fala a sua liderança religiosa, daí, a mantê-la nesse status, dificilmente se encontrará um fiel que lhe venha contestar, mesmo que o que fale seja absurdo, como é o caso que estamos analisando, neste momento. É por isso que o bispo denomina de “precioso” dogma cristão, muito embora para prová-lo, deixe de ser tão “precioso”. Mas o que é o um dogma senão aquilo que a razão e a lógica não aceitam dada a sua aberração, no entanto, por ele, o dogma, se abre campo para o “creio ainda que absurdo”.

O que nunca falam é que Jesus sintetizou tudo todo quanto existe no Velho Testamento a apenas dois princípios, fundamentais à nossa evolução: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” (Mt 22,37-40). Por várias vezes disse “aprendeste o que foi dito, eu porém vos digo” (Mt 5), colocando seus ensinamentos como superiores aos de Moisés. A parábola da bodas de Caná tem exatamente esse sentido, ou seja, Jesus é o vinho melhor que foi servido depois. Numa outra passagem deixa-nos diante dessa verdade inexorável: “A Lei e os profetas chegaram até João; daí para a frente o Reino de Deus é anunciado, e cada um se esforça para nele entrar, com violência” (Lc 16,16), o que em outras palavras que dizer que o Antigo Testamento vigorou até João Batista, limitando, dessa forma, a sua aplicação até esse tempo, porque depois, conforme disse, deverão prevalecer os seus ensinamentos. Daí sua indisposição com os líderes de sua época, até que num dado momento disse-lhes: “não se coloca remendo de pano novo em pano velho ou vinho novo em odres velhos” (Mt 9,16-17), o que não entenderam, mas que significa deixe os ensinamentos de Moisés e observem o que lhes digo, entretanto a liderança de hoje finge não entender já que isso não lhe convém.

Existem inclusive passagens que deixam clara essa questão, quem quiser confirmar que leia: Rm 7,4-6, Hb 7,18; 10,9; 8,6-7.13 e 2Cor 3,6-14.

A doutrina sobre Deus

Alguns conceitos de Allan Kardec sobre a existência de Deus e seus atributos coincidem com a doutrina cristã. Várias vezes se refere em seus livros ao panteísmo [1] para rejeitá-lo. Outras vezes, porém, usa expressões de sabor panteísta. Assim quando diz que ignoramos se a inteligência é uma "emanação da Divindade"; quando descreve o "fluido universal" em termos panteístas; ou quando esclarece que os espíritos "se acham mergulhados no fluido divino", etc.

Já Leão Denis, outro patriarca do espiritismo, resvala para um evidente monismo panteísta. Segundo o seu modo de falar, "Deus é a grande alma universal, de que toda alma humana é uma centelha, uma irradiação. Cada um de nós possui, em estado latente, forças emanadas do divino Foco" (Cristianismo e Espiritismo, 5ª ed., p. 246). Fala com freqüência de Deus como "divino Foco", "supremo Foco do Bem e do Belo", "o grande Foco divino", etc.

Também em outra obra sua, Depois da Morte, 6ª ed., voltam expressões panteísticas: "Deus é infinito e não pode ser individualizado, isto é, separado do mundo, nem subsistir à parte" (p. 114); ou: "O Ser supremo não existe fora do mundo, porque este é a sua parte integrante e essencial" (p. 124). Em vez do "Deus fantástico da Bíblia", ele quer o "Deus imanente, sempre presente no seio das coisas" (p. 213): "O Universo não é mais essa criação, essa obra tirada do nada de que falam as religiões. É um organismo imenso animado de vida eterna" (p. 123); e em seguida explica que Deus está para o Universo como a alma para o corpo: "O eu do Universo é Deus" (p. 349).

[1] Sistema filosófico que nega a distinção entre o Criador e a criatura e afirma que "tudo é Deus" ou "Deus é tudo".

Não é a primeira vez, e acreditamos não será a última, em que sutilmente querem relacionar o Espiritismo com doutrina panteísta, quando Kardec nunca disse isso. Entretanto, podemos com segurança afirmar que até na Bíblia se encontra esse idéia panteísta, vejamos:

Sb 1,7: O espírito do Senhor enche o universo e ele, que mantém unidas todas as coisas, não ignora nenhum som”.

Sb 12,1: “O teu espírito incorruptível está em todas as coisas”.

Sl 139,7-10: “Para onde irei, longe do teu sopro? Para onde fugirei, longe de tua presença? Se subo ao céu, tu aí estas. Se me deito no abismo, aí te encontro. Se levanto vôo para as margens da aurora, se emigro para os confins do mar, aí me alcançará tua esquerda, e tua direita me sustentará”.

Jr 23,24: Pode alguém esconder-se em algum lugar onde eu não possa vê-lo? - oráculo de Javé. Será que eu não ocupo o céu e a terra? - oráculo de Javé.

Jo 14,3: “Se alguém me ama, guarda a minha palavra, e meu Pai o amará. Eu e meu Pai viremos e faremos nele a nossa morada”.

At 17,27-28: Assim fez, para que buscassem a Deus e para ver se o descobririam, ainda que fosse às apalpadelas. Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dentre os poetas de vocês disseram: 'Somos da raça do próprio Deus'.

Ef 4,6: Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, que age por meio de todos e está presente em todos”.

Esse relacionamento do Espiritismo com o panteísmo só assusta aos néscios e aos que, encabrestados pela liderança religiosa, não ousam questionar o que lhes falam.

É deveras engraçado como certas pessoas não se dão conta do ridículo que cometem, infelizmente vamos ter que “ensinar o pai-nosso ao seu vigário”. Nomes próprios não se traduzem, assim o nome correto do autor citado pelo bispo é Léon Denis, Léon continuará sendo em qualquer língua, aí a insensatez, pois não podemos dizer ignorância, nessa atitude do prelado.

A Santíssima Trindade

Todos os cristãos - católicos, ortodoxos e protestantes - professam a sua fé na Santíssima Trindade. É o mistério central da fé e mensagem cristã, desde os primórdios do cristianismo. Mas o credo espírita proposto por Allan Kardec desconhece totalmente a Santíssima Trindade. A posição de Allan Kardec, no conjunto de suas obras, é de absoluto e sistemático silêncio com relação a esta doutrina cristã.

Seu silêncio era apenas oportunista. Na realidade, no seu sistema de pensamento não cabia este mistério cristão, não só porque para ele "absolutamente não há mistérios", mas porque não há lugar para uma intensa vida divina intratrinitária, dado que, segundo ele, um Deus que não criasse incessantemente, desde toda a eternidade, seria um Deus solitário e ocioso.

Já Leão Denis, em Cristianismo e Espiritismo, p. 74, abre a sua crítica aos nossos principais dogmas com estas palavras: "Começa com a estranha concepção do Ser divino, que se resolve no mistério da Trindade". Depois explica: "A noção da Trindade, colhida numa lenda hindu que era a expressão de um símbolo, veio obscurecer e desnaturar essa alta idéia de Deus. .. Essa concepção trinitária, tão incompreensível, oferecia, entretanto, grande vantagem às pretensões da Igreja. Permitia-lhe fazer de Jesus Cristo um Deus" (p. 75).

No Brasil, o espiritismo em peso ou desconhece ou nega a Santíssima Trindade.

E continuaremos irremediavelmente desse jeito, pois não é ensinamento de Jesus, e sim uma corruptela de conceitos pagãos que tinham três deuses. Também essa não era a idéia no cristianismo primitivo, essa questão motivou inúmeras controvérsias, após ser rejeitada por três concílios, dos quais o mais importante cita-se o de Antioquia (269) foi, em 325, proclamado pelo de Nicéia. Após a declaração de que Jesus era Deus, vem para encaixá-lo nada mais do que essa cópia da base fundamental de outras religiões, bem mais antigas que o Cristianismo. Podemos citar:

Brahma, Siva e Vischnu – dos hindus

Osíris, Isis e Orus – dos egípcios

Ea, Istar e Tamus – dos babilônios

Zeus, Demétrio e Dionísio – dos gregos

Orzmud, Arimam e Mitra – dos persas

Voltan, Friga e Dinas – dos celtas

Apesar de se afirmar peremptoriamente que Deus é um só (Rm 3,30: De fato, há um só Deus...; Gl 3,20: ...Deus é um só.; Tg 2,19: Você acredita que existe um só Deus? Muito bem! Só que os demônios também acreditam, e tremem!) vêem para sustentar essa idéia da trindade afirmar no tal de três em um, e como é difícil de aceitar um absurdo desse e de justificar esse tal de três em um, então esse absurdo passou a fazer parte dos dogmas da Igreja. Assim, podemos dizer que isso não é ensinamento de Jesus, é adulteração dele, isso sim, por parte daqueles que se dizem seu representante aqui na Terra.

O escritor Aderbal Pacheco, numa referência à trindade, cita-nos a opinião do Bispo James A. Pike, da Igreja Episcopal, Cal. U.S.A:

E que dizer daquela doutrina popular da Cristandade – a trindade? Já não nos deve surpreender agora que ela é também de origem pagã. A doutrina, além de implausível e irracional, é antibíblica. Nenhum texto ensina a trindade. Usa-se o texto de I Jo. 5:7, na versão Almeida, para apoiar a doutrina, mas essas palavras não aparecem nos manuscritos mais antigos e mais fidedignos das Escrituras gregas; por isso, a maioria das versões modernas deixa estas palavras inteiramente de fora. (PACHECO, A. Verdades e Mentiras sobre o homem chamado Jesus, São Paulo: DPL, 2003, p.77).

Isso vem corroborar o que dissemos sobre a origem da trindade estar no paganismo.

A doutrina sobre Jesus

Professam os cristãos que Jesus era verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. A afirmação da divindade de Jesus é fundamental para a fé cristã. Mas este Jesus não entra no credo espírita formulado por Allan Kardec. Ele nos deixou nas suas Obras Póstumas um estudo sobre a natureza de Jesus, de 41 páginas, todo ele orientado para provar que Jesus não era Deus.

Nos dias de Allan Kardec, surgiu um advogado de Bordéus chamado João Batista Roustaing, que teve o seu primeiro contacto com o espiritismo em 1861 e em 1865 publicou a sua obra: Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação, em três volumes. Sua tese central: o corpo de Jesus não era real, de carne e osso, mas aparente e meramente fluídico.

No Brasil, a Federação Espírita, desde a sua fundação, propaga a obra de Roustaing. Guillon Ribeiro, que foi presidente da Federação e tradutor das obras de Allan Kardec, compendiou a cristologia espírita no título que deu ao livro: Jesus nem Deus nem homem.

Os cristãos professavam que a Terra era o centro do Universo nem por isso tornou-se tal pensamento uma verdade. Da mesma forma podemos aplicar a essa questão da divindade de Jesus.

Jesus nasceu, viveu e morreu como judeu, e para um judeu até a pronuncia de nome de Deus era proibido, quanto mais falar que era o próprio Deus, seria apedrejamento na certa. Ninguém ainda conseguiu provar que Jesus tenha dito isso, o que encontramos nos relatos do evangelho é uma falsa acusação dos líderes religiosos de sua época, que colocaram palavras na boca de Jesus para terem um bom motivo de o matar, plano funesto que acabou por se realizar.

O sr. Bispo explora isso, o que nos convence de que realmente estudou o Espiritismo, por isso as suas colocações ficam mais graves. Só que mais uma vez “da missa não contou a metade”.

Em janeiro de 1868, data posterior ao lançamento da obra de Roustaing intitulada “Os Quatro Evangelhos”, quando Kardec publica o livro “A Gênese”, nele podemos ver que, num certo ponto, ele defende, sem nenhuma sombra de dúvida, que Jesus teve um corpo físico comum a todos nós. No capítulo XV – Os milagres do Evangelho, encontramos o seguinte parágrafo (item 2):

“Como homem, tinha a organização dos seres carnais; mas como Espírito puro, desligado da matéria, deveria viver a vida espiritual mais do que a vida corpórea, da qual não tinha as fraquezas. A superioridade de Jesus sobre os homens não se prendia às particularidades de seu corpo, mas às de seu Espírito, que dominava a matéria de maneira absoluta, e à de seu perispírito, haurida na parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres. (Cap. XIV, nº 9). Sua alma não devia prender-se ao corpo senão pelos laços estritamente indispensáveis; constantemente desligado, devia dar-lhe uma dupla vista não somente permanente, mas de uma penetração excepcional e bem de outro modo superior àquela que se vê entre os homens comuns. (...)” (Grifo do original)

Kardec não usa de meias palavras para expor seu pensamento de que Jesus, “como homem, tinha a organização dos seres carnais”. Ora, a tese levantada por Roustaing é que Jesus possuía não um corpo carnal, mas um corpo fluídico, o que fica inevitavelmente contra o que diz a Bíblia e o codificador do Espiritismo.

Mais à frente é que veremos Kardec detalhar melhor seu pensamento, conforme podemos constatar quando ele diz sobre o desaparecimento do corpo de Jesus.

Coloca Kardec (item 65 em diante), e tudo nos leva a crer que, pelo teor, essa colocação tem um destinatário certo, qual seja, a obra de Roustaing:

“Segundo uma outra opinião, Jesus não teria revestido um corpo carnal, mas somente um corpo fluídico; não fora, durante a sua vida, senão uma aparição tangível, em uma palavra, uma espécie de agênere. Seu nascimento, sua morte e todos os atos materiais de sua vida, não seria senão uma aparência. Foi assim, diz-se, que seu corpo, retornado ao estado fluídico, pôde desaparecer do sepulcro, e foi com esse mesmo corpo que ele se mostrou depois de sua morte”.

“Sem dúvida, semelhante fato não é radicalmente impossível, segundo o que se sabe hoje sobre as propriedades dos fluidos; mas seria ao menos inteiramente excepcional e em oposição formal ao caráter dos agêneres. (Cap. XIV, nº 36). A questão é, pois, saber se uma tal hipótese é admissível, se é confirmada ou contradita pelos fatos.

“A permanência de Jesus sobre a Terra apresenta dois períodos: a que a precede e aquela que se segue à sua morte. Na primeira, desde o momento da concepção até o nascimento, tudo se passa, na mãe, como nas condições comuns da vida[1]. Desde o seu nascimento até a morte, tudo, em seus atos, em sua linguagem e nas diversas circunstâncias de sua vida, apresenta os caracteres inequívocos da corporeidade. Os fenômenos de ordem física que se produzem nele são acidentais, e nada têm de anormal, uma vez que se explicam pelas propriedades do perispírito, e se encontram em diferentes graus entre alguns indivíduos. Depois de sua morte, ao contrário, tudo nele revela o ser fluídico. A diferença entre os dois estados é de tal modo marcante que não é possível assimilá-los”.

“O corpo carnal tem as propriedades inerente à matéria propriamente dita, e que diferem essencialmente daquelas dos fluidos etéreos; a desorganização nela se opera pela ruptura da coesão molecular. Um instrumento cortante, penetrando no corpo material, divide-lhe os tecidos; se os órgãos essenciais à vida são atacados, seu funcionamento se detém, e a morte se segue, quer dizer, a morte do corpo. Essa coesão não existe nos corpos fluídicos, a vida não repousa mais sobre o funcionamento de órgãos especais, e neles não podem se produzir desordens análogas; um instrumento cortante, ou qualquer outro, aí penetra como num vapor, sem lhe ocasionar nenhuma lesão. Eis porque essas espécies de corpos não podem morrer, e porque os seres fluídicos designados sob o nome de agêneres não podem ser mortos”.

“Depois do suplício de Jesus, seu corpo ali, inerte e sem vida, foi enterrado como os corpos comuns, e cada um podia vê-lo e tocá-lo. Depois de sua ressurreição, quando quer deixar a Terra, não morre mais; seu corpo se eleva, se desvanece e desaparece, sem deixar nenhum traço, prova evidente de que o seu corpo era de outra natureza daquele que pereceu sobre a cruz; de onde é preciso concluir que se Jesus pôde morrer, foi porque tinha um corpo carnal”.

“Em conseqüência de suas propriedades materiais, o corpo carnal é a sede das sensações e das dores físicas que repercutem no centro sensitivo ou Espírito. Não é o corpo que sofre, é o Espírito que recebe o contragolpe das lesões ou alterações dos tecidos orgânicos. Num corpo privado do Espírito, a sensação é absolutamente nula; pela mesma razão, o Espírito, que não tem corpo material, não pode sentir os sofrimentos que são o resultado da alteração da matéria, de onde é igualmente necessário concluir que se Jesus sofreu materialmente, como disso não se poderia duvidar, foi porque tinha um corpo material, de uma natureza semelhante àqueles de todo o mundo”.

_________

[1] Não falamos do mistério da encarnação, do qual não temos que nos ocupar aqui, e que será examinado ulteriormente

Continua, Kardec:

“Aos fatos materiais vêm se acrescentar considerações morais poderosíssimas”.

“Se Jesus estivesse, durante a sua vida, nas condições de seres fluídicos, não teria sentido nem a dor, nem nenhuma das necessidades do corpo; supor que assim não haja sido, é tirar-lhe todo o mérito da vida de privações e de sofrimentos que escolheu como exemplo de resignação. Se tudo nele não era senão aparência, todos os atos de sua vida, o anúncio reiterado de sua morte, a cena dolorosa do jardim das Oliveiras, sua prece a Deus para afastar o cálice de seus lábios, sua paixão, sua agonia, tudo, até a sua última exclamação no momento de entregar o seu Espírito, não teria sido senão um vão simulacro, para enganar sobre a sua natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida, uma comédia indigna de um simples homem honesto, com mais forte razão de um ser tão superior; em uma palavra, ele teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e posteridade. Tais são as conseqüências lógicas desse sistema, conseqüências que não são admissíveis, porque o abaixam moralmente, em lugar de elevá-lo”.

E arremata categórico:

“Jesus teve, pois, como todos, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que atestam os fenômenos materiais e os fenômenos psíquicos que assinalaram a sua vida”.

Não dá, pois para conciliar a obra “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing, com o que Kardec desenvolve na codificação da Doutrina Espírita. E chamamos a atenção para o fato de que o Livro “A Gênese”, ter sido lançado depois da obra de Roustaing.

Entretanto, talvez a maioria dos espíritas nem saibam, mas Kardec fez uma análise dessa obra. Vamos encontrá-la na Revista Espírita, Jornal de Estudos Psicológicos, relativa ao mês de junho de 1866, que vale a pena colocarmos neste estudo, para que tenhamos um esclarecimento mais aprofundado do assunto.

Passaremos, então, a palavra a Kardec, no texto intitulado “Os Evangelhos Explicados” – Pelo Sr. Roustaing, onde ele comenta, ao que tudo indica, os recém lançados livros:

“Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerado, e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, sobre nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada por O Livro dos Espíritos e o dos Médiuns. As partes correspondentes àquelas que tratamos em O Evangelho Segundo o Espiritismo  o são num sentido análogo. De resto, como nos limitamos às máximas morais que, quase sem exceção, são geralmente claras, elas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras; também foram o assunto de controvérsias religiosas. Foi por esta razão que começamos por ali a fim de ser aceito sem contestação, esperando para o resto que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a idéia espírita”.

“O autor desta nova obra acreditou dever seguir um outro caminho; em lugar de proceder por graduação, quis alcançar o objetivo de um golpe. Tratou, por certas questões que não julgamos oportuno abordar ainda, e das quais, conseqüentemente, lhe deixamos a responsabilidade, assim como aos Espíritos que os comentaram. Conseqüente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa caminhada sobre o desenvolvimento da opinião, não daremos, até nova ordem, às suas teorias, nem aprovação, nem desaprovação, deixando ao tempo o cuidado de sancioná-las ou de contradizê-las. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais aos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, e que, em todos os casos, têm necessidade da sanção do controle universal, e até mais ampla confirmação não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita”.

“Quando tratarmos essas questões, o faremos sem cerimônia; mas é que, então, teremos recolhido os documentos bastante numerosos, nos ensinos dados de todos os lados pelos Espíritos, para poder falar afirmativamente e ter a certeza de estar de acordo com a maioria; é assim que fazemos todas as vezes que se trata de formular um princípio capital. Nós os dissemos cem vezes, para nós a opinião de um Espírito, qualquer que seja o nome que traga, não tem senão o valor de uma opinião individual; nosso critério está na concordância universal, corroborada por uma rigorosa lógica, para as coisas que não podemos controlar por nossos próprios olhos. De que nos serviria dar prematuramente uma doutrina como uma verdade absoluta, se, mais tarde, ela devesse ser combatida pela generalidade dos Espíritos?”.

“Dissemos que o livro do Sr. Roustaing não se afasta dos princípios de O Livro dos Espíritos e o dos Médiuns; nossas observações levam, pois, sobre aplicação desses mesmos princípios à interpretação de certos fatos. É assim, por exemplo, que dá ao Cristo, em lugar de um corpo carnal, um corpo fluídico concretizado, tendo todas as aparências da materialidade, e dele faz uma agênere. Aos olhos dos homens que não teriam podido compreender, então, sua natureza espiritual, teve que passar EM APARÊNCIA, essa palavra é incessantemente repetida em todo o curso da obra, para todas as vicissitudes da Humanidade. Assim se explicaria o mistério de seu nascimento: Maria não teria tido senão as aparências da gravidez. Este ponto, colocado por premissa e pedra angular, é a base sobre a qual se apóia para explicação de todos os fatos extraordinários ou miraculosos da vida de Jesus”.

“Sem dúvida, não há aí nada de materialmente impossível para quem conhece as propriedades do envoltório perispiritual; sem nos pronunciar pró ou contra essa teoria diremos que ela é ao menos hipotética, e que, se um dia ela fosse reconhecida errada, a base sendo falsa, o edifício desmoronaria. Esperamos, pois os numerosos comentários que ela não deixará de provocar da parte dos Espíritos, e que contribuirão para elucidar a questão. Sem prejulgá-la, diremos que já foram feitas objeções sérias a essa teoria, e que, na nossa opinião, os fatos podem perfeitamente se explicar sem sair das condições da Humanidade corpórea”.

“Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, não diminui nada a importância dessa obra que, ao lado das coisas duvidosas do nosso ponto de vista, delas encerra, incontestavelmente, boas e verdadeiras, e será consultada proveitosamente pelos Espíritas sérios”.

“Se o fundo de um livro é o principal, a forma não é de se desdenhar, e entra também por alguma coisa no sucesso. Achamos que certas partes são desenvolvidas muito longamente, sem proveito para a clareza. Na nossa opinião, se, limitando-se ao estrito necessário, ter-se-ia podido reduzir a obra em dois, ou mesmo em um único volume, teria ganhado em popularidade”. (os grifos em negrito são nossos).

Podemos muito bem perceber que Kardec, embora não condene de toda a obra, deixa aberto para o futuro seu julgamento, uma vez que ele nunca pousou de “o dono da verdade”. Mas, quanto à questão do corpo fluídico, não deixa de dar sua opinião de que não sanciona essa hipótese. Não deixa também de falar que falta clareza e objetividade a essa obra.

Diz, de forma bastante clara, que a obra de Roustaing, por falta de uma confirmação mais ampla, não poderia ser considerada como parte integrante da Doutrina Espírita.

Daí, fica frustrada a tentativa do sr. bispo em levantar essa questão como ponto negativo contra a Doutrina, cuja intenção não vemos outra alternativa senão em vê-la como produto de má-fé.

A doutrina sobre a redenção

E pelo sangue de Jesus Cristo que temos a redenção, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça que ele derramou profusamente sobre nós, explicava o Apóstolo aos Efésios (1,7). A nossa redenção pela paixão, morte e ressurreição de Jesus é outra verdade fundamental da fé cristã. Nisso consiste propriamente a "boa nova" ou o "evangelho" .

Mas nem esta verdade tão central entra no credo espírita de Allan Kardec. Segundo ele, cada um deve ser o seu próprio redentor através do sistema das reencarnações. Por isso, no espiritismo a soteriologia (ou doutrina sobre a redenção ou salvação do homem) é deslocada da cristologia para a antropologia.

Leão Denis o enuncia cruamente quando escreve: "Não, a missão de Cristo não era resgatar com o seu sangue os crimes da Humanidade. O sangue, mesmo de um Deus, não seria capaz de resgatar ninguém. Cada qual deve resgatar-se a si mesmo, resgatar-se da ignorância e do mal. É o que os espíritos, aos milhares, afirmam em todos os pontos do mundo" (Cristianismo e Espiritismo, p. 88).

Isso nunca foi doutrina do Cristo, pois ele deixou bem claro “a cada um segundo suas obras” (Mt 16,27). A ignorância dos homens transferiu para Jesus o que os judeus tinham como práticas ritualísticas de expiação do pecado. Matava-se um boi, que era oferecido em holocausto como vítima dos pecados do povo. Essa de se arrumar um bode expiatório para nos nossos pecados é muito fácil, difícil é domar nossas fraquezas, nossos vícios para nos tornamos homens de bem. A manter essa idéia de que o sangue de Jesus redimiu nossos pecados teremos que resolver o seguinte impasse; ou todos estamos salvos ou então teremos que arrumar outro Cristo para pagar pelos nossos pecados. Entretanto, para a Igreja Católica Jesus não pagou nem o pecado de Adão e Eva já que todos nascem com eles, como pagaria pelos da humanidade toda? E, pior ainda, o sangue de Jesus, por lógica, só poderia ter redimido os pecados de sua morte para trás, daí, conforme já o dissemos, teremos que arrumar outro Cristo, para pagar pelos pecados cometidos pela humanidade daí para frente.

Será que esse pessoal nunca vai acordar para ver que absurdo é essa história da remissão dos pecados pelo sangue de Jesus.

O sacrifício de Jesus pela humanidade foi ter que se encarnar num planeta tão mesquinho igual ao nosso para levar uma mensagem que ninguém segue, ter consciência que seria morto pela liderança religiosa, enfim passar tudo que passou para, dois mil e poucos anos depois, a humanidade não seguir os seus ensinamentos. Também pudera, tão desvirtuados que foram seus ensinos pela liderança religiosa que a essência se perdeu em meio aos rituais e ao interesse financeiro.

Deixaremos para reflexão: “Eu digo: ‘Meu projeto se cumprirá; eu realizarei tudo o que desejo’" (Is 46,10) e “Ele quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4), alguém poderá contrariar essa vontade de Deus de que todos sejam salvos? Mas pela interpretação religiosa que encontramos só os adeptos de determinada corrente é que serão salvos, em flagrante contradição com: “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10,34).

A verdade do evangelho é uma só: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, fora disso é pura deturpação.

A doutrina sobre a Igreja

"Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica". E a profissão cristã. Nem esta profissão entra no credo espírita.

Com a negação da doutrina cristã sobre a redenção e santificação dos homens, contestam-se conseqüentemente também todos os meios instituídos por Jesus Cristo para a salvação e santificação.

A começar pelo Batismo. Jesus mandou aos Apóstolos ir pelo mundo inteiro, ensinar a todos tudo quanto Ele lhes ordenara, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (Mt 28, 19-20), esclarecendo: Aquele que crer e for batizado será salvo; o que não crer será condenado (Mc 16, 16). No Brasil, os espíritas, fiéis à doutrina codificada por Allan Kardec, já não batizam nem fazem batizar os seus filhos. Nem teria sentido. Pois é pelas reencarnações que os homens devem alcançar a perfeição.

Na última Ceia, Jesus instituiu a Eucaristia e ordenou aos Apóstolos: Fazei isto em minha memória (Lc 22, 19). Mas os espíritas não o fazem. Nem teria sentido. Pois, segundo eles, o mistério pascal não tem valor de sacrifício pelos pecados dos homens.

Jesus disse aos Apóstolos: Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados 00 20, 23). Mas os espíritas não procuram receber o perdão divino que lhes é generosamente oferecido. Nem teria sentido. Pois somente mediante as reencarnações se alcança o perdão.

Jesus disse a Pedro: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus e o que ligares na terra será ligado nos céus e o que desligares na terra será desligado nos céus (Mt 16, 18-19). Mas os espíritas não dão nenhuma importância nem a Pedro e seus sucessores, nem à Igreja que Jesus dizia ser "sua", nem ao poder das chaves que o Senhor Jesus entregou ao chefe do Colégio apostólico.

Jesus declarou aos Apóstolos: Quem vos ouve a mim me ouve, quem vos despreza a mim me despreza, e quem me despreza, despreza aquele que me enviou (Lc 10, 16). Para os espíritas, tudo isso já está superado. Pois eles vão receber as orientações dos espíritos que baixam em seus centros ou terreiros.

Proclamando a nulidade dos Sacramentos, quer Allan Kardec que o espiritismo não tenha "nem culto, nem rito, nem templos". E a Federação Espírita Brasileira declarou por unanimidade, como vimos, que o espiritismo é religião "sem ritos, sem liturgia e sem sacramentos". Proclama-se assim a total inutilidade da Igreja, que será substituída pelo espiritismo.

E não seria difícil continuar a lista das negações. Assim, para dar apenas mais alguns exemplos,o espiritismo:

- nega a criação da alma humana;

- recusa a união substancial de corpo e alma;

- afirma que não há anjos nem demônios;

- repudia os privilégios de Maria Santíssima;

- não admite o pecado original;

- contesta a graça divina;

- rejeita a unicidade da vida humana terrena;

- ignora o juízo particular depois da morte;

- não concede a existência do purgatório;

- ridiculariza o inferno;

- reprova a ressurreição da carne;

- e desdenha o Juízo Final.

Em uma palavra: renuncia a todo o Credo cristão.

Razão tinha a Conferência dos Bispos do Brasil quando, em 1953, declarava que o espiritismo é no Brasil o desvio doutrinário "mais perigoso", já que "nega não apenas uma ou outra verdade da nossa santa Fé, mas todas elas, tendo, no entanto, a cautela de dizer-se cristão, de modo a deixar em católicos menos avisados a impressão erradíssima de ser possível conciliar catolicismo com espiritismo".

Abundantes são, pois, os motivos por que o católico não aceita o espiritismo. Pode-se mesmo afirmar que o espiritismo não é cristão.

Sabia sr. bispo que essa profissão de fé também não consta do credo protestante, do budista, do hinduísta e de inúmeras outras religiões que existem no planeta? Aliás, segundo estatísticas, os católicos representam cerca de 1/3 da população mundial, o que os coloca como minoria, mas mesmo assim, deve acreditar o bispo que eles estão certos.

A santificação dos homens se dá pela evolução espiritual, não foi Jesus quem disse para sermos perfeitos como o Pai Celestial (Mt 5,48)? Pela doutrina da reencarnação todos os seres humanos estarão um dia junto ao Pai, enquanto que pela doutrina da Igreja, só os católicos. Qual das duas opções tem caráter de universalidade? Por qual delas fica evidente a misericórdia e o amor de Deus para com todas as criaturas? Onde fica: “O mundo inteiro diante de ti é como grão de areia na balança, como gota de orvalho matutino caindo sobre a terra. Todavia, tu tens compaixão de todos, porque podes tudo, e não levas em conta os pecados dos homens, para que eles se arrependam. Tu amas tudo o que existe, e não desprezas nada do que criaste. Se odiasses alguma coisa, não a terias Criado” (Sb 11,22-24)?

A questão do batismo é deveras interessante, pois Jesus não batizou ninguém, nasceu, viveu e morreu como um judeu, pratica que não era usada entre esse povo. Aliás, na época de Jesus, somente João Batista batizava, e ele disse; alguém vem depois de mim que “vos batizará no Espirito Santo e no fogo” (deve ser por isso que na Inquisição se queimou tanta gente). O batismo ritualístico da Igreja de Roma é com água, portanto, não tem nada a ver com o batismo de Jesus.

Voltando à questão do batismo de João, leiamos o que diz o escritor Celso Martins:

Batizando as criaturas nas águas do Rio Jordão como símbolo da renovação espiritual de cada seguidor seu, João estava apenas lançando mão de um rito que remontava à Grécia antiga, pois o batismo é uma prática pagã que nos veio dos sacerdotes da deusa Cotito. Eles se banhavam antes de dedicar suas oferendas á referida deusa da mitologia dos gregos. Como tais sacerdotes se chamavam baptas, daí surgiu a etimologia da palavra batismo, banho em água, no ritualismo de muitas seitas cristãs e também orientais. (grifo do original) (MARTINS, C. Nas Fronteiras da Ciência, São Paulo: DPL, 2001, p. 30)

Por outro lado, no cristianismo primitivo, parece-nos não ser esse o batismo que era praticado, leiamos:

Paulo perguntou: "Que batismo vocês receberam?" Eles responderam: "O batismo de João." Então Paulo explicou: "João batizava como sinal de arrependimento e pedia que o povo acreditasse naquele que devia vir depois dele, isto é, em Jesus." Ao ouvir isso, eles se fizeram batizar em nome do Senhor Jesus. Logo que Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo desceu sobre eles, e começaram a falar em línguas e a profetizar. Eram, ao todo, doze homens. (At 19,3-7)

Observar que os homens afirmaram que haviam recebido o batismo de João – o da água -, entretanto, Paulo recomenda que se fizessem batizar em nome de Jesus, imediatamente impôs as mãos sobre eles. Essa passagem deixa bem claro que o batismo de João não tinha valor e que o batismo na época era a imposição das mãos, ritual pelo qual eram abertas as portas da mediunidade, de forma que todos que se submetiam a ele, passavam a falar em línguas ou a profetizar, que nada mais são que variações da mediunidade.

Evidentemente, não iremos acreditar que Jesus tenha mesmo recomendado a pratica do batismo nas águas. Em Atos é que iremos ver que o batismo recomendado por Jesus era a imposição de mãos (At 6,6; 8,14-16). Mas parece-nos que acomodações dos textos foram feitas para justificar esse dogma é só ler At 10,47 e comparar com At 11,16.

Vejamos as duas passagens citadas:

Mt 28,16-20: Os onze discípulos foram para a Galiléia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. Quando viram Jesus, ajoelharam-se diante dele. Ainda assim, alguns duvidaram. Então Jesus se aproximou, e falou: "Toda a autoridade foi dada a mim no céu e sobre a terra. Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês. Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo."

Mc 16,14-16: Por fim, Jesus apareceu aos onze discípulos enquanto estavam comendo. Jesus os repreendeu por causa da falta de fé e pela dureza de coração, porque não tinham acreditado naqueles que o tinham visto ressuscitado. Então Jesus disse-lhes: "Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Notícia para toda a humanidade. Quem acreditar e for batizado, será salvo. Quem não acreditar, será condenado”.

Francisco Cajazeiras, autor do livro Elementos da Teologia Espírita, trás interessante argumento sobre o batismo, leiamos (pp. 109-110):

A IGREJA E O BATISMO

Alguns dos discípulos de Jesus, especialmente aqueles mais influenciados por João Batista (de vez que sabemos que parte dos seus seguidores passou a acompanhá-lo), parece, continuaram a utilizar o batismo como formalidade iniciática. Não há, porém, maiores indícios de ser prática comum à sua época, somente tomando um caráter rotineiro, após a morte de Jesus e notadamente após a estruturação da Igreja Romana (depois da aliança do Movimento Cristão com César).

Encontraremos, certamente, os que a firmarão que, apesar de Jesus não haver batizado, exortou seus discípulos a assim procederem, baseados no texto evangélico abaixo:

“Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulas, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo...” (Mt 28,19) (grifo do autor).

E agora, então!?... Jesus não manda batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo? Qual a dúvida?

Ora, não há dúvida! Pois é notória a interpolação desse trecho, com certeza na tentativa de dar autoridade ao batismo, como aliás foi feito com outros dogmas.

A essa época, simplesmente não se havia discutido nem instituído, entre os cristãos, o dogma da “Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo”. Além do que, Jesus, em nenhum outro momento, proclamou a referida Trindade. Lembremos que tal dogma somente veio à tona na pauta do I Concílio de Nicéia, no ano de 325 d.C., permanecendo grande dúvida e divisão no seio do Movimento Cristão, e que sua reafirmação, à força imperial romana, veio dar-se no ano de 553 d.C., no II Concílio de Constantinopla.

Logo – é fácil concluir – tais palavras não pertenceram a Jesus, não passando de inserção efetuada a posteriori, em manobra dogmatizante.

No Espiritismo não se batiza nas águas, pelo simples fato que isso é apenas um ritual e não temos rituais em nossas práticas. Não nascemos, melhor dizendo, renascemos, com pecado de outrem a não ser o nosso próprio, por isso essa mítica estória do pecado original é apenas original, nada mais. O que advogamos é que todos os seres humanos que se esforçarem no bem conquistarão o reino dos céus, fazendo justiça às obras praticadas, conforme as passagens do bom samaritano e da parábola do juízo final. Preferimos ficar com Jesus a ficar com Paulo, Pedro, ou qualquer outro. Entre o discípulo e o mestre, preferimos este (Mt 10,24). No Espiritismo todos os seres humanos um dia chegarão ao reino dos céus, no catolicismo somente os católicos, por qual dessas opções podemos constatar que Deus é mesmo Pai, conforme os dizeres de Jesus?

Leiamos as passagens tidas como instituição da eucaristia:

Mt 26,26-29: Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu, distribuiu aos discípulos, e disse: "Tomem e comam, isto é o meu corpo." Em seguida, tomou um cálice, agradeceu, e deu a eles dizendo: "Bebam dele todos, pois isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados. Eu lhes digo: de hoje em diante não beberei desse fruto da videira, até o dia em que, com vocês, beberei o vinho novo no reino do meu Pai."

Mc 14,22-25:Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu, distribuiu a eles, e disse: "Tomem, isto é o meu corpo." Em seguida, tomou um cálice, agradeceu e deu a eles. E todos eles beberam. E Jesus lhes disse: "Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos. Eu garanto a vocês: nunca mais beberei do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus."

Lc 22,14-20: Quando chegou a hora, Jesus se pôs à mesa com os apóstolos. E disse: "Desejei muito comer com vocês esta ceia pascal, antes de sofrer. Pois eu lhes digo: nunca mais a comerei, até que ela se realize no Reino de Deus." Então Jesus pegou o cálice, agradeceu a Deus, e disse: "Tomem isto, e repartam entre vocês; pois eu lhes digo que nunca mais beberei do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus." A seguir, Jesus tomou um pão, agradeceu a Deus, o partiu e distribuiu a eles, dizendo: "Isto é o meu corpo, que é dado por vocês. Façam isto em memória de mim." Depois da ceia, Jesus fez o mesmo com o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança do meu sangue, que é derramado por vocês”.

Se compararmos Mateus e Marcos veremos que há um acréscimo da expressão “para remissão dos pecados”, o que poderá ser muito bem uma interpolação para manter essa idéia do sangue como remissão dos pecados, embora já fora dito que só por crer e por ser batizado é que seremos salvos. Mas nenhum dos dois evangelistas fala em “façam isto em memória de mim”, coisa só dita por Lucas, ai é a questão de se perguntar qual deles falou a verdade? Ou entendemos essa passagem como uma metáfora ou estaremos pregando o canibalismo. Se na eucaristia está presente o corpo e o sangue de Jesus, não há alternativa a não ser entender isso como um ato, mesmo simbólico, de pratica canibal. Cruz!!!

Mas devemos isso sim, sair do nosso egoísmo para distribuir com os necessitados o pão nosso de cada dia. Entre fazer isso e comer o corpo e beber do sangue de Cristo, quem está agindo no amor ao próximo?

Deviam resolver para que lado devemos ir: teremos que receber o perdão de Deus, já estamos perdoados com o sangue de Jesus ou salvos pelo crer e ser batizado?

Um outro problema sério é que tudo quanto se têm escrito na Bíblia pegam como verdade, obviamente só aquelas que lhes interessam, não passa pela cabeça de um dogmático que tudo pode ter sido arranjado justamente para sustentação bíblica dos dogmas de sua igreja.

Mas não somos só nós que não damos importância a Pedro, e ao que sabemos os protestantes, por exemplo, não o têm com o primeiro papa não é mesmo? Mas ouçamos o teólogo Huberto Hohden, em Lampejos Evangélicos, São Paulo: Martin Claret, 1995:

“Tu És Pedro...”

O que Pedro, Paulo e Agostinho sabiam da autoridade pontifícia de Pedro.

Há diversos séculos que as palavras que Jesus dirigiu a Simão Pedro, em Cesaréia de Felipe, formam cabeça de ponte para acalorados discussões e polêmicas, sobretudo entre católicos romanos e protestantes. São elas um dos princípios tópicos para afirmar a doutrina romana tangente à supremacia do pescador da Galiléia sobre os demais apóstolos e da Igreja em Geral.

Não é intenção nossa descer à liça e terçar armas a favor deste ou daquele partido – tanto mais que da solução desse problema ou da supremacia, real ou imaginária, do apóstolo Pedro nada depende para a verdade e existência perene do cristianismo. Queremos tão-somente ministrar aos interessados uns fatos históricos chamando-lhes a atenção para a opinião de três exímios expoentes do cristianismo primevo, sendo dois do primeiro século – São Pedro e São Paulo – e um dos séculos quarto e quinto – Santo Agostinho, apelidado “o doutor da Igreja Ocidental”. Que é que esses três corifeus do cristianismo – ainda dividido em Igreja Romana, Ortodoxa e protestante – sabiam da autoridade pontifícia de São Pedro?

1 – A Atitude de São Pedro

Quando alguém é eleito presidente da República, é de supor que ele tenha conhecimento desse fato. Se o apóstolo Pedro foi de fato nomeado por Jesus chefe supremo da Igreja, é de crer que ele tenha tido ciência disso. Vejamos se isso acontece. Temos dos apóstolos Pedro duas cartas que fazem parte do Novo Testamento. Peço aos meus leitores que examinem cuidadosamente essas cartas do “primeiro papa”, escritas cerca de vinte anos após sua pretensa nomeação. Não há nesses documentos o mais ligeiro vestígio que denote supremacia pontifícia. O autor considera-se cristão entre cristãos, fala como irmão a irmãos, igual a iguais. Não dá ordens, preceitos, mandamentos de superior para inferiores. Pedro ignora evidentemente a dignidade que, a partir do século quarto, lhe foi atribuída por alguns historiadores eclesiásticos interessados em centralizar o governo da Igreja na capital do Império Romano. Numa dessas cartas, diz o autor que a escreveu em “Babilônia”.

Pelo ano 50 da era cristã reuniu-se em Jerusalém o Concílio Apostólico de harmonizar pontos controversos da Igreja primitiva. Quem presidiu essa assembléia e deu a decisão final, como lemos nos Atos dos Apóstolos, foi São Tiago, “irmão do Senhor” e então bispo de Jerusalém. Se Pedro era chefe da Igreja, por que não decidiu as questões com sua suprema autoridade?

Mais ou menos ao mesmo tempo, visitou Pedro a importante cidade de Antioquia da Síria, então um dos mais florescentes centros do cristianismo. A princípio aceitava o ex-pescador Galileu convites da parte de étnico-cristãos, sentando-se à mesa com eles e comendo do que eles comiam, sem fazer distinção entre manjares ritualmente puros ou impuros, como existiam entre os judeus e judeu-cristãos. Incriminado pelos cristãos palestinenses, Pedro volta atrás, separando-se dos cristãos convertidos do gentilismo e evitando comer “manjares impuros”, subordinando assim o espírito de Cristo à lei mosaica e pondo a Igreja nascente em perigo de cisma. Paulo, o pioneiro da catolicidade cristã, não tolera semelhante atitude parcialista e herética. E, como o escândalo de Pedro tinha sido público e em público era comentado pela Igreja de Antioquia, em público, como ele nos conta na Epístola aos Gálatas, Paulo interpelou seu colega de apostolado, porque ele não andava “conforme a verdade do Evangelho”. Pedro, com admirável humildade e sinceridade, reconhece que Paulo tem razão, retrata o seu erro e volta à pureza do Evangelho, não fazendo distinção entre judeu-cristãos e étnico-cristãos.

Ora, se Pedro tivesse pretendido infalibilidade em matéria de fé e moral, certamente não teria “aberrado da verdade do Evangelho”, nem teria renunciado à sua opinião própria e aceito a de seu colega. Entretanto, Pedro viveu no primeiro século, e a infalibilidade pontifícia foi definida apenas no século XIX.

2 – Atitude de São Paulo

Pelo ano 58 escreve São Paulo o seu grande tratado cristológico chamado Epístola aos Romanos, dando aos cristãos da capital do Império Romano detalhadas instruções sobre Jesus Cristo, o Redentor, e sobre o processo de justificação. Por que tudo isso? Não teria sido mais simples mandar esses cristãos ter com o seu chefe espiritual, o bispo de Roma, Pedro, que, segundo a opinião dos teólogos romanos de hoje, foi o primeiro papa, com sede nessa metrópole?

No capítulo final da dita epístola encontramos avultado número de nomes de cristãos conspícuos de Roma aos quais São Paulo manda lembranças dos cristãos de Corinto, onde esta carta foi escrita. Entre esses cristãos conspícuos de Roma não figura o nome de Pedro, o pretenso bispo e papa daquele tempo; nem encontramos em parte alguma dessa carta a mais ligeira referência a Pedro. Seria crível que Paulo mandasse saudações a todos os notáveis cristãos de Roma, silenciando a mais representativa figura da Igreja, o centro e chefe espiritual do cristianismo romano? Quem pode crer coisa tão incrível?... Prova de que Roma não conhecia Pedro.

No ano 60 ou 61 chega São Paulo a Roma como prisioneiro, e passa dois anos na capital do Império, com permissão da polícia romana de receber visitas. De fato, numerosos cristãos o visitam. Estabelece-se vivo intercâmbio de correspondência entre o “prisioneiro de Cristo” em Roma e as numerosas Igrejas cristãs da Ásia Menor e do sul da Europa por ele fundadas. Paulo, na prisão, escreve diversas cartas, aos cristãos de Filipos, de Éfeso, de Colossos, a seu amigo Filêmon, mencionando os nomes de seus colaboradores e amigos em Roma – e mais uma vez, nenhuma referência a Pedro, que, por esse tempo, já devia ser bispo de Roma há quase vinte anos, segundo a teoria dos teólogos romanos de hoje. Por que não visita Pedro o grande confessor de Cristo na prisão? A resposta é simples, embora nada “romana”: porque Pedro não estava em Roma, nem era conhecido dos cristãos da capital do Império.

No ano 62 ou 63 é São Paulo absolvido e posto em liberdade. Volta para o Oriente e prossegue, infatigável, a sua obra evangelizadora.

Em 64 Roma está em chamas. Das catorze zonas da capital, apenas quatro ficaram intactas, dez foram reduzidas a cinzas e escombros. Nero, o autor desse grande incêndio, como afirmam cinco historiadores contemporâneos pagãos, para se inocentar do monstruoso crime, lança a culpa aos cristãos – e desencadeia-se a primeira perseguição cruel contra os discípulos do Nazareno. Dos cristãos residentes em Roma poucos escaparam à morte. Pedro não morreu nesta perseguição – porque não estava em Roma, nem jamais lá estivera. Do contrário, como líder do movimento cristão, teria sido o primeiro a ser trucidado pelos satélites de Nero.

Em 67 Paulo reaparece em Roma, certamente para visitar e confortar os cristãos, que continuavam a ser vítimas de cruel perseguição. É preso pelos esbirros de Nero e lançado à cadeia, onde esteve pouco tempo, desta vez. Já condenado à morte, escreve a sua última carta, a que figura no Novo Testamento como a Segundo a Timóteo. Dá a esse seu grande discípulo instruções e pede que venha, com urgência, vê-lo em Roma antes da hora final; “apenas Lucas está contigo”, diz o solitário herói. Onde estava Pedro, o bispo, o papa, o chefe supremo da Igreja? Por que não visita o laureado campeão do cristianismo, nem mesmo agora, em vésperas de seu martírio? Não o visitou pela simples razão de que não estava em Roma.

Possivelmente, por esse mesmo tempo, também Pedro se dirigiu a Roma, talvez com o mesmo fim de visitar e consolar os cristãos perseguidos. A darmos fé a uma tradição antiga, foi também ele preso e morto no ano 67, ano da morte de São Paulo.

No século quarto escreve o historiador cristão Euzébio, citando autores mais antigos, que o apóstolo Pedro pregou o Evangelho e foi morto em Roma. Não diz, todavia, que foi chefe da Igreja Romana.

Resumindo, podemos dizer que: 1) segundo fontes históricas do primeiro século – Atos dos Apostos, epístolas de São Pedro e de São Paulo -, o apóstolo Pedro não fundou a Igreja de Roma; 2) não foi bispo dessa Igreja; 3) não residiu em Roma. Segundo documentos do século IV, podemos admitir que tenha visitado Roma pelo fim da sua vida, pregado o Evangelho e sofrido morte de mártir na capital do Império Romano. Nada mais sabemos. O resto é lenda e tradição sem caráter de certeza histórica.

Felizmente, a existência e o triunfo do cristianismo nada têm a ver com a verdade ou a falsidade da estadia do apóstolo Pedro em Roma. Seria ridículo supor que a obra divina de Cristo dependesse de fatores tão precários.

3 – Atitude de Santo Agostinho

Ainda nos séculos IV e V, podia um cristão ser católico sem ser romano, podia abertamente rejeitar as palavras de Cristo “Tu és Pedro” como conferidoras de supremacia pontifícia a Pedro, e apesar disso ser considerado exímio doutor da Igreja, como acontece com Santo Agostinho.

Tenho diante de mim as obras completas do insigne gênio africano, editadas por Migne, em Paris, 1877, sob os auspícios – favor não esquecer – dos monges da Ordem Beneditina. No Volume V, na página 476, sermão 76, lê-se o seguinte:

Quia tu dixisti mihi: Tue es Christus, Filius Dei vivi, et ego dico tibi: Tu és Petrus. Simon quippe antea vocabatur. Hoc autem ei nomem, ut Petrus appellaretur, a Domino impositum est. Et hoc in eo figura, ut significaret Ecclesiam. Quia idem Christus petra, Petrus autem populus christianus. Petra enim principale nomem est. Ideo Petrus a petra, non petra a Petro – quomodo non a christiano Christus, sed a Christo christianus vocatur. Tu es, ego, inquit, Petrus; et super hanc petram, quam cognovisti, dicens: Tu es Chistus, Filius Dei vivi, aedificabo Ecclesiam meam (Mat. 16: 13-18) – id est: Super me ipsum, Filium Dei vivi, aedificabo te, nom me super te.

É este o texto original latino de Santo Agostinho, que, em vernáculo, diz o seguinte:

“Porque tu me disseste: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo; também eu te digo: Tu és Pedro... Pois, antes se chamava Simão. Ora, este nome Pedro lhe foi imposto pelo Senhor. E vai nisto uma figura, para que significasse a Igreja. Porquanto a pedra é Cristo; Pedro é o povo cristão, pois, pedra é o nome principal. Tanto assim que Pedro vem de pedra, e não pedra de Pedro – assim como Cristo não vem de cristão, mas cristão vem de Cristo. Diz, portanto: Tu és Pedro, e sobre esta pedra, que acabas de confessar, sobre esta pedra que conheceste, dizendo: Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo – edificarei a minha Igreja. Quer dizer: sobre mim mesmo, o Filho de Deus vivo, edificarei a minha Igreja. Sobre mim é que te edificarei, e não a mim sobre ti”.

Como se vê, o maior doutor da Igreja latina não considera a pessoa de Pedro como sendo a pedra, o fundamento da Igreja. A pedra, o fundamento da Igreja, é Cristo, o Filho de Deus vivo.

Quando muito, a confissão de Pedro, mas nunca a pessoa de Pedro, pode ser considerada como a pedra, o alicerce. A confissão da divindade de Cristo é, de fato, o alicerce da Igreja cristã; enquanto essa confissão permanecer inabalável, a Igreja continua invicta, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. A pessoa, porém, é fraca e falível, não podendo, em hipótese alguma, figurar como alicerce do reino de Deus sobre a face da Terra. Santo Agostinho, graças à extraordinária perspicácia do seu gênio, percebe esta incongruência, e por isso rejeitou de antemão a teoria que, mais tarde, viria a ser defendia com tanto ardor pela teologia romana.

Convém não esquecer que a teoria – de ser Pedro o fundamento da Igreja e ter sido o primeiro bispo de Roma – começou a ser propagada por alguns escritores eclesiásticos depois que, no século IV, o imperador Constantino Magno proclamou a religião cristã como a religião oficial do Império Romano, e cumulou de privilégios a hierarquia eclesiástica. Era natural que os chefes da Igreja procurassem estabelecer um regime central, a exemplo do governo político do Império, com sede em Roma. Nada mais conducente a esse fim do que proclamar Simão Pedro como sendo sido nomeado pelo próprio Cristo chefe supremo e exclusivo da Igreja.

Sobre esta base cresceu, através dos séculos, a pretensão do bispo de Roma.

É sabido que, desde o princípio, o patriarca de Constantinopla, a Igreja cristã do Oriente em geral, protestaram contra essa pretensão do bispo de Roma, acabando, no século XI, por separar-se definitivamente de Roma.

O bispo romano, porém, continuou na sua pretensão de ser o chefe supremo da Igreja- até que, no século XVI, quase metade da Europa cristã se separou de Roma.

É profundamente deplorável que uma ambição político-hierárquica, sem fundamento algum na Bíblia ou na história, tenha cindido o cristianismo em três ramos, sem esperança alguma de reconciliação – enquanto essa ambição de hierarquia romana continuar a prevalecer contra os supremos interesses espirituais da cristandade universal.

Que diria Pedro se, hoje em dia, lesse algum tratado “De Ecclesia” e chegasse a saber repentinamente da sua dignidade pontifícia, que ignorava?

Que diria Paulo se chegasse a saber que em Roma, onde ele esteve preso por diversos anos, residia o chefe da Igreja cristã, sem que ele, Paulo, o soubesse? Sem que dele recebesse ao menos uma visita?...

Que diria Agostinho se encontrasse o seu nome entre os “santos” de uma Igreja que considera “hereges” a todos os que não identificam a Pedro como a pedra da Igreja – e Agostinho era um desses hereges – ele, o “santo”, o “doutor da Igreja”?...

Não acham os meus leitores que já é tempo de esclarecermos o povo brasileiro sobre a verdadeira catolicidade?... (pp. 96-104).

Obviamente devemos entender o sr. bispo, já que com certeza advoga em causa própria, pois se formos dar ouvidos aos padres o poder deles se mantém, e assim não correm o risco de perder o emprego e moradia.

A única pessoa a quem nós seguimos é a Jesus. Todos os espíritos que se apresentam para orientar vêm em nome Dele, esses sim, são realmente discípulos de Jesus, não mais apegados às convenções e interesses humanos, pois participando do plano espiritual superior, não vivem mais essas fraquezas, a missão que abraçaram com amor é ajudar os que ficaram na retaguarda, dando-lhes uma mãozinha para que evoluam mais rapidamente.

Interessante é que atualmente uma corrente dentro da Igreja católica resolveu copiar o que nos fazemos, ficam evocando os espíritos, mas dizem que por lá só aparece o Espírito Santo, fora que sempre evocaram os santos e santas da igreja.

Não que seja de total inutilidade, mas que os rituais dela isso sim são de total inutilidade e a maioria foi copiada de rituais pagãos, só que o povo não sabe disso. Coitado do povo, quanta coisa não sabe. O Espiritismo não tem a pretensão de ser a única religião do mundo, mas com certeza os seus princípios serão, mais cedo ou mais tarde, adotados por todas as religiões, já que terá o respaldo da ciência, e contra a ciência não adianta protestar nem negar, para não ocorrer o que aconteceu no caso Galileu.

Anteriormente o sr. bispo havia dito que entre o Espiritismo e o Catolicismo só havia duas divergências. Entretanto, agora, caindo-lhe a máscara, conforme já havíamos previsto, irá listar cerca de uma dúzia delas.

O Espiritismo, em momento algum nega a criação da alma humana, apenas não sabemos quando isso ocorre, já que não acreditamos na lenda de Adão e Eva. Pode ser que o sr. bispo tenha feito confusão entre alma e espírito, achando que por acreditarmos em espíritos não acreditamos em almas, quando para nós é tudo a mesma coisa.

Só pode ser delírio do sr. bispo, dizer que recusamos a união substancial do corpo e a alma, já que defendemos a necessidade da união de ambos para que o espírito possa evoluir.

Leiamos Kardec, em O Livro dos Espíritos:

134. Que é a alma?

“Um Espírito encarnado.”

a) - Que era a alma antes de se unir ao corpo?

“Espírito.”

b) - As almas e os Espíritos são, portanto, idênticos, a mesma coisa?

“Sim, as almas não são senão os Espíritos. Antes de se unir ao corpo, a alma é um dos seres inteligentes que povoam o mundo invisível, os quais temporariamente revestem um invólucro carnal para se purificarem e esclarecerem.”

Isso responde a essas duas questões anteriores.

Quanto a anjos e demônios, como querem acreditar os doutos padres da igreja, de jeito nenhum, mas Kardec expõe as razões:

Os anjos segundo o Espiritismo

12. - Que haja seres dotados de todas as qualidades atribuídas aos anjos, não restam dúvidas. A revelação espírita neste ponto confirma a crença de todos os povos, fazendo-nos conhecer ao mesmo tempo a origem e natureza de tais seres.

As almas ou Espíritos são criados simples e ignorantes, isto é, sem conhecimentos nem consciência do bem e do mal, porém, aptos para adquirir o que lhes falta. O trabalho é o meio de aquisição, e o fim - que é a perfeição - é para todos o mesmo. Conseguem-no mais ou menos prontamente em virtude do livre-arbítrio e na razão direta dos seus esforços; todos têm os mesmos degraus a franquear, o mesmo trabalho a concluir. Deus não aquinhoa melhor a uns do que a outros, porquanto é justo, e, visto serem todos seus filhos, não tem predileções. Ele lhes diz: Eis a lei que deve constituir a vossa norma de conduta; ela só pode levar-vos ao fim; tudo que lhe for conforme é o bem; tudo que lhe for contrário é o mal. Tendes inteira liberdade de observar ou infringir esta lei, e assim sereis os árbitros da vossa própria sorte. Conseguintemente, Deus não criou o mal; todas as suas leis são para o bem, e foi o homem que criou esse mal, divorciando-se dessas leis; se ele as observasse escrupulosamente, jamais se desviaria do bom caminho.

13. - Entretanto, a alma, qual criança, é inexperiente nas primeiras fases da existência, e daí o ser falível. Não lhe dá Deus essa experiência, mas dá-lhe meios de adquiri-la. Assim, um passo em falso na senda do mal é um atraso para a alma, que, sofrendo-lhe as conseqüências, aprende à sua custa o que importa evitar. Deste modo, pouco a pouco, se desenvolve, aperfeiçoa e adianta na hierarquia espiritual até ao estado de puro Espírito ou anjo. Os anjos são, pois, as almas dos homens chegados ao grau de perfeição que a criatura comporta, fruindo em sua plenitude a prometida felicidade. Antes, porém, de atingir o grau supremo, gozam de felicidade relativa ao seu  adiantamento, felicidade que consiste, não na ociosidade, mas nas funções que a Deus apraz confiar-lhes, e por cujo desempenho se sentem ditosas, tendo ainda nele um meio de progresso. (Vede 1ª Parte, cap. III, "O céu".)

14. A Humanidade não se limita à Terra; habita inúmeros mundos que no Espaço circulam; já habitou os desaparecidos, e habitará os que se formarem. Tendo-a criado de toda a eternidade, Deus jamais cessa de criá-la. Muito antes que a Terra existisse e por mais remota que a suponhamos, outros mundos havia, nos quais Espíritos encarnados percorreram as mesmas fases que ora percorrem os de mais recente formação, atingindo seu fim antes mesmo que houvéramos saído das mãos do Criador.

De toda a eternidade tem havido, pois, puros Espíritos ou anjos; mas, como a sua existência humana se passou num infinito passado, eis que os supomos como se tivessem sido sempre anjos de todos os tempos.

15. Realiza-se assim a grande lei de unidade da Criação; Deus nunca esteve inativo e sempre teve puros Espíritos, experimentados e esclarecidos, para transmissão de suas ordens e direção do Universo, desde o governo dos mundos até os mais ínfimos detalhes. Tampouco teve Deus necessidade de criar seres privilegiados, isentos de obrigações; todos, antigos e novos, adquiriram suas posições na luta e por mérito próprio; todos, enfim, são filhos de suas obras.

E, desse modo, completa-se com igualdade a soberana justiça do Criador.

E quanto aos demônios, leiamos Kardec:

Os demônios segundo o Espiritismo

20. Segundo o Espiritismo, nem anjos nem demônios são entidades distintas, por isso que a criação de seres inteligentes é uma só. Unidos a corpos materiais, esses seres constituem a Humanidade que povoa a Terra e as outras esferas habitadas; uma vez libertos do corpo material, constituem o mundo espiritual ou dos Espíritos, que povoam os Espaços. Deus criou-os perfectíveis e deu-lhes por escopo a perfeição, com a felicidade que dela decorre. Não lhes deu, contudo, a perfeição, pois quis que a obtivessem por seu próprio esforço, a fim de que também e realmente lhes pertencesse o mérito. Desde o momento da sua criação que os seres progridem, quer encarnados, quer no estado espiritual. Atingido o apogeu, tornam-se puros espíritos ou anjos segundo a expressão vulgar, de sorte que, a partir do embrião do ser inteligente até ao anjo, há uma cadeia na qual cada um dos elos assinala um grau de progresso.

Do expresso resulta que há Espíritos em todos os graus de adiantamento, moral e intelectual, conforme a posição em que se acham, na imensa escala do progresso.

Em todos os graus existe, portanto, ignorância e saber, bondade e maldade. Nas classes inferiores destacam-se Espíritos ainda profundamente propensos ao mal e comprazendo-se com o mal. A estes pode-se denominar demônios, pois são capazes de todos os malefícios aos ditos atribuídos. O Espiritismo não lhes dá tal nome por se prender ele à idéia de uma criação distinta do gênero humano, como seres de natureza essencialmente perversa, votados ao mal eternamente e incapazes de qualquer progresso para o bem.

21. - Segundo a doutrina da Igreja os demônios foram criados bons e tornaram-se maus por sua desobediência: são anjos colocados primitivamente por Deus no ápice da escala, tendo dela decaído. Segundo o Espiritismo os demônios são Espíritos imperfeitos, suscetíveis de regeneração e que, colocados na base da escala, hão de nela graduar-se. Os que por apatia, negligência, obstinação ou má-vontade persistem em ficar, por mais tempo, nas classes inferiores, sofrem as conseqüências dessa atitude, e o hábito do mal dificulta-lhes a regeneração. Chega-lhes, porém, um dia a fadiga dessa vida penosa e das suas respectivas conseqüências; eles comparam a sua situação à dos bons Espíritos e compreendem que o seu interesse está no bem, procurando então melhorarem-se, mas por ato de espontânea vontade, sem que haja nisso o mínimo constrangimento. "Submetidos à lei geral do progresso, em virtude da sua aptidão para o mesmo, não progridem, ainda assim, contra a vontade." Deus fornece-lhes constantemente os meios, porém, com a faculdade de aceitá-los ou recusá-los. Se o progresso fosse obrigatório não haveria mérito, e Deus quer que todos tenhamos o mérito de nossas obras. Ninguém é colocado em primeiro lugar por privilégio; mas o primeiro lugar a todos é franqueado à custa do esforço próprio.

Os anjos mais elevados conquistaram a sua graduação, passando, como os demais, pela rota comum.

22. - Chegados a certo grau de pureza, os Espíritos têm missões adequadas ao seu progresso; preenchem assim todas as funções atribuídas aos anjos de diferentes categorias.

E como Deus criou de toda a eternidade, segue-se que de toda a eternidade houve número suficiente para satisfazer às necessidades do governo universal. Deste modo uma só espécie de seres inteligentes, submetida à lei de progresso, satisfaz todos os fins da Criação.

Por fim, a unidade da Criação, aliada à idéia de uma origem comum, tendo o mesmo ponto de partida e trajetória, elevando-se pelo próprio mérito, corresponde melhor à justiça de Deus do que a criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas de dotes naturais, que seriam outros tantos privilégios.

23. - A doutrina vulgar sobre a natureza dos anjos, dos demônios e das almas, não admitindo a lei do progresso, mas vendo todavia seres de diversos graus, concluiu que seriam produto de outras tantas criações especiais. E assim foi que chegou a fazer de Deus um pai parcial, tudo concedendo a alguns de seus filhos, e a outros impondo o mais rude trabalho. Não admira que por muito tempo os homens achassem justificação para tais preferências, quando eles próprios delas usavam em relação aos filhos, estabelecendo direitos de primogenitura e outros privilégios de nascimento. Podiam tais homens acreditar que andavam mais errados que Deus?

Hoje, porém, alargou-se o circulo das idéias: o homem vê mais claro e tem noções mais precisas de justiça; desejando-a para si e nem sempre encontrando-a na Terra, ele quer pelo menos encontrá-la mais perfeita no Céu.

E aqui está por que lhe repugna à razão toda e qualquer doutrina, na qual não resplenda a Justiça Divina na plenitude integral da sua pureza.

Dentro da perspectiva Espírita, portanto, não há privilégios na criação de Deus, por isso não dá para acreditar nos anjos, segundo a concepção católica, mas que eles existem, existem. São os espíritos que passaram pela fieira da evolução chegando ao estágio de espírito puro, como todos nós um dia chegaremos. Demônio mantido pelos católicos nada mais é que uma adaptação do deus do mal em que os persas acreditavam. Para justificar sua existência disseram ser anjos caídos, ora se anjos são seres perfeitos não há como cair. Se caíram, é porque não eram perfeitos. A passagem bíblica que buscam para apoio dessas idéias é Is 14,12, cujo contexto se refere ao rei da Babilônia e não a um ser maléfico.

Privilégio é uma palavra que não existe no dicionário divino, já que “Deus não faz distinção entre pessoas”, entretanto, podemos aceitar que Maria seja um espírito de evolução que recebeu a nobre missão de conceber a Jesus. E essa de virgindade antes, durante e depois só mesmo na cabeça de um ingênuo carola.

Mas como admitir que a mulher cometeu pecado por ter comido um fruto proibido. A única coisa que podemos afirmar é que se trata mesmo de um “pecado original”, pois nenhum outro se iguala a ele. E o pior é que apesar de que “os pais não morrerão pelos erros dos filhos nem os filhos pelos erros dos pais, cada um morrerá pelo seu próprio pecado” (Dt 24,16), morremos em virtude de Adão e Eva ter pecado, e ainda nascemos com o pecado deles: é original, mesmo! A morte dos animais será também uma conseqüência do pecado desse casal “comedor do fruto”, ou por que a morte faz parte das leis da natureza? Tudo que existe na Terra obedece ao ciclo nascer-crescer-norrer-renascer, incluindo, sem qualquer privilégio, o homem.

Dependendo do que se entende por graça divina, nós contestamos. Porém, se entendermos por graça divina a oportunidade que Ele dá a todos nós de evoluir para um dia estarmos junto Dele, não há objeções.

A vida do Espírito é única, isso é um conceito plenamente aceito por nós, quanto à vida no corpo aí as coisas se complicam. Para nós é clara a questão da reencarnação contida nos ensinamentos de Jesus; quando disse que João Batista era o Elias, quando não retrucou ao saber que o povo pensava que ele poderia ser Jeremias, Elias ou algum dos antigos profetas, e, finalmente, quando responde peremptoriamente a Nicodemos: “é-vos necessário nascer de novo” (Jo 3). Mas entendemos perfeitamente o porquê de tanto atacarem essa idéia, já que com ela a salvação está na mão da própria pessoa e não do padre, isso faz que seu poder fique diminuído ou até mesmo seja dispensável a sua intermediação entre Deus e os homens, pois que os homens poderão falar diretamente a Deus.

O juízo particular depois da morte não negamos, pois “a cada um segundo suas obras”, assim todos os atos de nossa vida serão pesados neste dia da prestação de contas. A única diferença é que ao invés de Deus mandar a alma para assar eternamente no inferno, já que a misericórdia supera a justiça, ele a enviará novamente a um corpo físico para que tenha oportunidade de pagar pelo mal feito.

Mas já que foi falado em juízo particular até hoje não entendemos a teologia católica quanto ao juízo. Se há um juízo particular depois da morte, como julgar nos fins dos tempos os vivos e os mortos, se estes já foram julgados?

A questão do inferno poderíamos simplesmente pedir provas bíblicas dele, para que o bispo fique numa situação de estar no mato sem cachorro.

Mas de uma certa maneira o purgatório sim, pois podemos chamar de purgatório o tempo entre uma encarnação e outra. Mas deixemos Kardec falar:

O PURGATÓRIO

1. - O Evangelho não faz menção alguma do purgatório, que só foi admitido pela Igreja no ano de 593. É incontestavelmente um dogma mais racional e mais conforme com a justiça de Deus que o inferno, porque estabelece penas menos rigorosas e resgatáveis para as faltas de gravidade mediana.

O princípio do purgatório é, pois, fundado na eqüidade, porque, comparado à justiça humana, é a detenção temporária a par da condenação perpétua. Que julgar de um país que só tivesse a pena de morte para os crimes e os simples delitos?

Sem o purgatório, só há para as almas duas alternativas extremas: a suprema felicidade ou o eterno suplício. E nessa hipótese, que seria das almas somente culpadas de ligeiras faltas? Ou compartilhariam da felicidade dos eleitos, ainda quando imperfeitas, ou sofreriam o castigo dos maiores criminosos, ainda quando não houvessem feito muito mal, o que não seria nem justo, nem racional.

2. - Mas, necessariamente, a noção do purgatório deveria ser incompleta, porque apenas conhecendo a penalidade do fogo fizeram dele um inferno menos tenebroso, visto que as almas aí também ardem, embora em fogo mais brando. Sendo o dogma das penas eternas incompatível com o progresso, as almas do purgatório não se livram dele por efeito do seu adiantamento, mas em virtude das preces que se dizem ou que se mandam dizer em sua intenção. E se foi bom o primeiro pensamento, outro tanto não acontece quanto às conseqüências dele decorrentes, pelos abusos que originaram. As preces pagas transformaram o purgatório em mina mais rendosa que o inferno. (1)

3. Jamais foram determinados e definidos claramente o lugar do purgatório e a natureza das penas aí sofridas. A Nova Revelação estava reservado o preenchimento dessa lacuna, explicando-nos a causa das terrenas misérias da vida, das quais só a pluralidade das existências poderia mostrar-nos a justiça.

Essas misérias decorrem necessariamente das imperfeições da alma, pois se esta fosse perfeita não cometeria faltas nem teria de sofrer-lhe as conseqüências. O homem que na Terra fosse em absoluto sóbrio e moderado, por exemplo, não padeceria enfermidades oriundas de excessos.

O mais das vezes ele é desgraçado por sua própria culpa, porém, se é imperfeito, é porque já o era antes de vir à Terra, expiando não somente faltas atuais, mas faltas anteriores não resgatadas. Repara em uma vida de provações o que a outrem fez sofrer em anterior existência. As vicissitudes que experimenta são, por sua vez, uma correção temporária e uma advertência quanto às imperfeições que lhe cumpre eliminar de si, a fim de evitar males e progredir para o bem. São para a alma lições da experiência, rudes às vezes, mas tanto mais proveitosas para o futuro, quanto profundas as impressões que deixam. Essas vicissitudes ocasionam incessantes lutas que lhe desenvolvem as forças e as faculdades intelectivas e morais. Por essas lutas a alma se retempera no bem, triunfando sempre que tiver denodo para mantê-las até ao fim.

O prêmio da vitória está na vida espiritual, onde a alma entra radiante e triunfadora como soldado que se destaca da refrega para receber a palma gloriosa.

4. - Em cada existência, uma ocasião se depara à alma para dar um passo avante; de sua vontade depende a maior ou menor extensão desse passo: franquear muitos degraus ou ficar no mesmo ponto. Neste último caso, e porque cedo ou tarde se impõe sempre o pagamento de suas dívidas, terá de recomeçar nova existência em condições ainda mais penosas, porque a uma nódoa não apagada ajunta outra nódoa.

É, pois, nas sucessivas encarnações que a alma se despoja das suas imperfeições, que se purga, em uma palavra, até que esteja bastante pura para deixar os mundos de expiação como a Terra, onde os homens expiam o passado e o presente, em proveito do futuro. Contrariamente, porém, à idéia que deles se faz, depende de cada um prolongar ou abreviar a sua permanência, segundo o grau de adiantamento e pureza atingido pelo próprio esforço sobre si mesmo. O livramento se dá, não por conclusão de tempo nem por alheios méritos, mas pelo próprio mérito de cada um, consoante estas palavras do Cristo: - A cada um, segundo as suas obras, palavras que resumem integralmente a justiça de Deus.

5. - Aquele, pois, que sofre nesta vida pode dizer-se que é porque não se purificou suficientemente em sua existência anterior, devendo, se o não fizer nesta, sofrer ainda na seguinte. Isto é ao mesmo tempo eqüitativo e lógico. Sendo o sofrimento inerente à imperfeição, tanto mais tempo se sofre quanto mais imperfeito se for, da mesma forma por que tanto mais tempo persistirá uma enfermidade quanto maior a demora em tratá-la. Assim é que, enquanto o homem for orgulhoso, sofrerá as conseqüências do orgulho; enquanto egoísta, as do egoísmo.

6. - Devido às suas imperfeições, o Espírito culpado sofre primeiro na vida espiritual, sendo-lhe depois facultada a vida corporal como meio de reparação. É por isso que ele se acha nessa nova existência, quer com as pessoas a quem ofendeu, quer em meios análogos àqueles em que praticou o mal, quer ainda em situações opostas à sua vida precedente, como, por exemplo, na miséria, se foi mau rico, ou humilhado, se orgulhoso.

A expiação no mundo dos Espíritos e na Terra não constitui duplo castigo para eles, porém um complemento, um desdobramento do trabalho efetivo a facilitar o progresso. Do Espírito depende aproveitá-lo. E não lhe será preferível voltar à Terra, com probabilidades de alcançar o céu, a ser condenado sem remissão, deixando-a definitivamente? A concessão dessa liberdade é uma prova da sabedoria, da bondade e da justiça de Deus, que quer que o homem tudo deva aos seus esforços e seja o obreiro do seu futuro; que, infeliz por mais ou menos tempo, não se queixe senão de si mesmo, pois que a rota do progresso lhe está sempre franca.

7. - Considerando-se quão grande é o sofrimento de certos Espíritos culpados no mundo invisível, quanto é terrível a situação de outros, tanto mais penosa pela impotência de preverem o termo desses sofrimentos, poder-se-ia dizer que se acham no inferno, se tal vocábulo não implicasse a idéia de um castigo eterno e material.

Mercê, porém, da revelação dos Espíritos e dos exemplos que nos oferecem, sabemos que o prazo da expiação esta subordinado ao melhoramento do culpado.

8. - O Espiritismo não nega, pois, antes confirma, a penalidade futura. O que ele destrói é o inferno localizado com suas fornalhas e penas irremissíveis. Não nega, outrossim, o purgatório, pois prova que nele nos achamos, e definindo-o precisamente, e explicando a causa das misérias terrestres, conduz à crença aqueles mesmos que o negam. Repele as preces pelos mortos? Ao contrário, visto que os Espíritos sofredores as solicitam; eleva-as a um dever de caridade e demonstra a sua eficácia para os conduzir ao bem e, por esse meio, abreviar-lhes os tormentos (2). Falando à inteligência, tem levado a fé a muito incrédulo, incutindo a prece no ânimo dos que a escarneciam. O que o Espiritismo afirma é que o valor da prece está no pensamento e não nas palavras, que as melhores preces são as do coração e não dos lábios, e, finalmente, as que cada qual murmura de si mesmo e não as que se mandam dizer por dinheiro. Quem, pois, ousaria censurá-lo?

9. - Seja qual for a duração do castigo, na vida espiritual ou na Terra, onde quer que se verifique, tem sempre um termo, próximo ou remoto. Na realidade não há para o Espírito mais que duas alternativas, a saber: - punição temporária e proporcional à culpa, e recompensa graduada segundo o mérito. Repele o Espiritismo a terceira alternativa, da eterna condenação. O inferno reduz-se a figura simbólica dos maiores sofrimentos cujo termo é desconhecido. O purgatório, sim, é a realidade.

A palavra purgatório sugere a idéia de um lugar circunscrito: eis por que mais naturalmente se aplica à Terra do que ao Espaço infinito onde erram os Espíritos sofredores, e tanto mais quanto a natureza da expiação terrena tem os caracteres da verdadeira expiação.

Melhorados os homens, não fornecerão ao mundo invisível senão bons Espíritos; e estes, encarnando-se, por sua vez só fornecerão à Humanidade corporal elementos aperfeiçoados. A Terra deixará, então, de ser um mundo expiatório e os homens não sofrerão mais as misérias decorrentes das suas imperfeições.

Aliás, por esta transformação, que neste momento se opera, a Terra se elevará na hierarquia dos mundos. (3)

10. - Mas, por que não teria o Cristo falado do purgatório? É que, não existindo a idéia, não havia palavra que a representasse.

O Cristo serviu-se da palavra inferno, a única usada, como termo genérico, para designar as penas futuras, sem distinção. Colocasse ele, ao lado da palavra inferno, uma equivalente a purgatório e não poderia precisar-lhe o verdadeiro sentido sem ferir uma questão reservada ao futuro; teria, enfim, de consagrar a existência de dois lugares especiais de castigo. O inferno em sua concepção genérica, revelando a idéia de punição, encerrava, implicitamente, a do purgatório, que não é senão um modo de penalidade.

Reservado ao futuro o esclarecimento sobre a natureza das penas, competia-lhe igualmente reduzir o inferno ao seu justo valor. Uma vez que a Igreja, após seis séculos, houve por bem suprir o silêncio de Jesus quanto ao purgatório, decretando-lhe a existência, é porque ela julgou que ele não havia dito tudo. E por que não havia de dar-se sobre outros pontos o que com este se deu?

__________

(1) O purgatório originou o comércio escandaloso das indulgências, por intermédio das quais se vende a entrada no céu. Este abuso foi a causa primaria da Reforma, levando Lutero a rejeitar o purgatório.

(2) Vede O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVII - "Ação da prece".

(3) Idem, cap. III - "Progressão dos mundos".

Sempre estamos falando que quem acredita no inferno não pode ter sido pai um dia, literalmente isso se aplica aos padres, pois é impossível imaginar um pai normal que vá querer aplicar a um filho um castigo eterno. Só que, apesar do absurdo, dizem que Deus o fará, contrariando a Jesus que disse: “Se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas a seus filhos, quanto mais o Pai de vocês que está no céu dará coisas boas aos que lhe pedirem" (Mt 7,11).

Temos lançado um desafio aos detratores do Espiritismo para que nos provem que Deus tenha criado o inferno. O momento ideal para criá-lo seria, obviamente, quando instituiu os Dez Mandamentos. Só que gostaríamos de ver alguém nos provando que lá tem algo assim: quem não cumprir qualquer um desses mandamentos irá para o inferno. Não há essa pena, daí se ele a aplicou aos que infringiram foi injusto, pois nem a falha legislação humana aplica uma penalidade não prevista em lei, e nem ao menos um juízo sem defesa. Da mesma forma que os demônios foram absorvidos da cultura persa aconteceu com o inferno. Mas é útil manter esse conceito, pois é também com ele que amedrontam seus fiéis, para depois lhes tirar o dízimo como pagamento por lhes tirar do fogo do inferno pelo poder que Deus os investiu, é o que lhes dizem.

A questão da ressurreição da carne é fruto da interpretação equivocada da teologia dogmática. É só ler Paulo em 1Cor 15,35-58, de onde retirarmos somente o versículo 50: “Eu lhes digo, irmãos, que a carne e o sangue não podem receber em herança o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade”. Isso fulmina de vez com essa idéia dogmática e totalmente anticientífica mantida por “cegos que guiam cegos”.

E não sei de onde o sr. bispo retirou que não acreditamos no Juízo final, acreditamos que, de tempos em tempos, há um juízo sobre toda a humanidade, de tal sorte que os espíritos pertinazes no erro serão banidos da Terra para planetas inferiores onde haverá prantos e ranger de dentes. Dessa forma, os que aqui ficarem serão os propensos ao bem, esse juízo fará que um dia os mansos herdarão a Terra (Mt 5,5). Mas se ele estiver falando no juízo final aquele que acreditam que irá acontecer quando a Terra acabar, não. Antes dessa inevitável ocorrência, todos os espíritos que porventura estejam habitando a terra serão levados a outros mundos, se não for o caso de já não mais ser a Terra um planeta destinado a habitação de espíritos.

Retificando o sr. bispo, não renunciados ao Credo Cristão, renunciamos sim, e não há como ser de outra forma, ao credo CATÓLICO, o que é bem diferente. Sutilmente o sr. bispo faz seus fiéis confundir credo do catolicismo com credo cristão, para que lhes sigam fielmente já que não têm coragem e conhecimento para contestar o que a sua liderança diz.

Se o “muito perigoso” foi a conclusão que os bispos chegaram, com certeza, não é porque o Espiritismo seja algo de ruim, mas porque representa um grave perigo à hegemonia católica no Brasil, pois a única coisa que a Igreja se preocupou até hoje foi em se manter no poder, caso contrário teríamos um povo menos violento e mais cumpridor de seus deveres cristãos. Só que por razões de justiça deveria também estender a todas as outras correntes religiosas o que aplica a nós, pois sua justificativa é que não seguimos a verdade da santa Fé, coisa que muitas outras correntes também não o fazem.

Sim sr. bispo, o católico tem muitos motivos para não seguir o Espiritismo, mas o primeiro e o mais forte é que seguindo deixará de freqüentar a sua Igreja. Agora não se preocupe, já o dissemos, não andamos atrás de adeptos. Quanto à questão do Espiritismo não ser cristão, debitamos isso novamente da má-fé de sua parte, pois pelo que você deve ter lido de Espiritismo, sabe que isso não é verdade. O máximo que poderia falar, para ser honesto consigo mesmo, é dizer que os Espíritas não interpretam os ensinamentos de Jesus como a Igreja Católica interpreta, isso é um fato incontestável. Temos plena liberdade de interpretá-los da forma que acharmos melhor, de acordo com o nosso nível de conhecimento e sem a mínima preocupação em lotar as casas espíritas, já que não cobramos dízimo, só vai lá quem quer.

A PROIBIÇÃO DIVINA DA EVOCAÇÃO

Vimos que a evocação ou a manifestação provocada das almas dos falecidos, que são os "espíritos" do espiritismo, especifica, caracteriza e define o movimento suscitado por Allan Kardec. Sem evocação não há espiritismo. A evocação é a base da doutrina codificada por Allan Kardec.

Entretanto, a evocação não foi inventada por Allan Kardec. A sua prática já era conhecida nos tempos do Antigo Testamento. As gentes no meio das quais vivia o povo judeu a conheciam e praticavam abundamentemente. Mas o próprio Deus proibiu então severamente a evocação. Os textos são abundantes. Basta ler: Êxodo 22, 17; Levítico 19, 31; Levítico 20, 6; Levítico 20, 27; Deuteronômio 18,10-14; 2 Reis 17,17; 2 Reis 21,6; Isaías 8, 19-20 e, de maneira particular, 1 Samuel 28, 3-25.

Vejamos Deuteronômio 18, 10-14: Que em teu meio não se encontre alguém que' faça presságios, oráculos, adivinhações ou magia, ou que pratique encantamentos, interrogue espíritos ou adivinhos, ou evoque os mortos; pois quem pratica essas coisas é abominável a lahweh, e é por causa dessas abominações que lahweh teu Deus os desalojará em teu favor. Tu serás íntegro para com lahweh teu Deus. Eis que as nações que vais conquistar ouvem os oráculos e adivinhos. Quanto a ti, isso não te é permitido por lahweh teu Deus.

A proibição divina é clara, repetida, enérgica e severíssima.

Este mandamento divino não foi revogado na Nova Aliança. Basta ler Atos dos Apóstolos 13, 6-12; 16, 16-18; 19, 11-20. Neste último texto, descreve-se a atividade e. a pregação de Paulo em meso, com um resultado surpreendente: Muitos daqueles que haviam crido vinham-se confessar e revelar as suas práticas. Grande número dos que se haviam dado à magia amontoavam os seus livros e os queimavam na presença de todos. E estimaram o valor deles em cinqüenta mil peças de prata. Deviam ser muitos os livros de magia! O fato de eles terem queimado esses livros só se explica se admitirmos que o Apóstolo falou fortemente contra tais práticas.

Na carta aos Gálatas (5, 20-21), declara o mesmo Apóstolo que os que se entregam à magia não herdarão o Reino de Deus. E São João, no Apocalipse, revela que a parte dos magos se encontra no lago de fogo e enxofre (21, 8); e que, na hora do julgamento, eles ficarão de fora da Cidade eterna (22, 15).

Posteriormente, a Igreja sempre se manteve fiel a esta rigorosa interdição divina de evocar os falecidos. No último Concílio, o Vaticano II, na Constituição Lumen Gentium (1964), temendo que a doutrina sobre a nossa comunicação espiritual com os falecidos pudesse dar azo a interpretações do tipo espiritista, acrescentou ao texto a nota n.O 2 "contra qualquer forma de evocação dos espíritos", coisa que, segundo esclareceu a Comissão teológica responsável pela redação do texto, nada tem a ver com a "sobrenatural comunhão dos santos".

A Comissão definia então mais claramente o que se proíbe: "A evocação pela qual se pretende provocar, por meios humanos, uma comunicação perceptível com os espíritos ou almas separadas, com o fim de obter mensagens ou outros tipos de auxílio".

É exatamente isso o que o espiritismo pretende fazer.

O Concílio Vaticano II remete-nos então a vários documentos anteriores da Santa Sé, principalmente à declaração de 4 de setembro de 1856 e à resposta de 24 de abril de 1917. Na declaração de 4 de agosto de 1856, precisamente quando o católico Allan Kardec se iniciava na arte da evocação, era repetida a interdição de "evocar as almas dos mortos e pretender receber as suas respostas".

No documento de 24 de abril de 1917 também se declarava ilícito" assistir É sessões ou manifestações espiritistas, sejam elas realizadas ou não com o auxílio de um médium, com ou sem hipnotismo, sejam quais forem estas sessões ou manifestações, mesmo que aparentemente simulem honestidade ou piedade; quer interrogando almas ou espíritos, ou ouvindo-lhes as respostas, quer assistindo a elas com o protesto tácito ou expresso de não querer ter qualquer relação com espíritos malignos".

Esta é a orientação oficial da Igreja.

Mas a Igreja, por seu magistério oficial, nunca se pronunciou nem sobre a verdade histórica ou autenticidade, nem sobre a natureza, nem sobre a causa dos fenômenos mediúnicos ou próprios do espiritismo. Por isso:

a) nenhuma das várias interpretações propostas sobre a natureza ou a causa dos fenômenos mediúnicos - nem mesmo a interpretação espírita - foi censurada, rejeitada ou condenada oficialmente pela Igreja;

b) não corresponde à verdade dizer que a Igreja endossa oficialmente a interpretação que vê nos fenômenos mediúnicos uma intervenção preternatural do diabo;

c) jamais a Igreja proibiu o estudo ou a investigação científica dos fenômenos mediúnicos. O católico não está absolutamente proibido de estudar a metapsíquica ou a parapsicologia.

O que a Igreja faz, fez e continuará a fazer, por ser esta a sua missão específica, é recordar o mandamento divino que proíbe evocar os falecidos ou outros espíritos quaisquer. Esta proibição vem de Deus, não da Igreja, que não tem nem autoridade nem competência para modificar ou revogar uma lei, determinação ou proibição divina.

Para resolver a questão moral da prática do Espiritismo, pouco importa saber se os espíritas de fato conseguem ou não evocar espíritos em suas sessões; pois se o conseguem, não há dúvida a respeito da evocação e, por conseguinte, da desobediência; se não o conseguem, é certo que eles têm ao menos a intenção, o propósito ou a vontade deliberada de evocar e, portanto, de transgredir um mandamento divino. E isto basta para um pecado formal.

É necessário observar também a diferença fundamental entre invocação e evocação: esta sempre pretende uma comunicação perceptível provocada por iniciativa do homem; aquela é apenas uma forma de prece ou súplica. E é evidente que a invocação é um ato bom e cristão, expressão da comunhão dos santos.

Kardec, deixou bem claro que:

No Espiritismo, a questão dos Espíritos é secundária e consecutiva; não constitui o ponto de partida. Este precisamente o erro em que caem muitos adeptos e que, amiúde, os leva a insucesso com certas pessoas. Não sendo os Espíritos senão as almas dos homens, o verdadeiro ponto de partida é a existência da alma. Ora, como pode o materialista admitir que, fora do mundo material, vivam seres, estando crente de que, em si próprio, tudo é matéria? Como pode crer que, exteriormente à sua pessoa, há Espíritos, quando não acredita ter um dentro de si? Será inútil acumular-lhe diante dos olhos as provas mais palpáveis. Contesta-las-á todas, porque não admite o princípio. (KARDEC, A. O Livro dos Médiuns, Brasília: FEB, 1996, p.40)

Então a proposta do Espiritismo é provar que a alma é imortal, entretanto, isso ao invés de causar espécie aos materialistas, está deixando irritados os espiritualistas que deveriam buscar apoio às suas idéias justamente nisso.

Estamos plenamente de acordo com o sr. bispo, a evocação não foi inventada por Kardec. A possibilidade da comunicação dos mortos com os vivos existe desde que apareceu o homem sob a Terra, assim, é que em todas as culturas iremos encontrar vestígios dessa prática. Isso é um bom argumento para se juntar às provas dessa realidade, negada por uns e contradita por outros.

A própria Bíblia está recheada de fenômenos de comunicação de seres espirituais com os homens, a ponto de se admitir que o próprio Deus tenha se manifestado a algumas pessoas. O que ainda não conseguimos entender é porque Deus criou a realidade do intercâmbio entre os habitantes do plano físico e espiritual, ao invés de simplesmente não ter criado essa possibilidade, que lhe seria extremamente fácil. Será que a criou somente para ter o prazer de punir os infratores? Tem algum sentido isso?

Vamos analisar todas as passagens citadas pelo sr. bispo, como “severas proibições de evocar os mortos”.

Ex 22,17: Não deixarás viver aquela que pratica a magia.

Lv 19,1: Não se dirijam aos necromantes, nem consultem adivinhos, porque eles tornariam vocês impuros. Eu sou Javé, o Deus de vocês.

Lv 20,6: Quem recorrer aos necromantes e adivinhos, para se prostituir com eles, eu me voltarei contra esse homem e o eliminarei do seu povo.

Lv 20,27: O homem ou mulher que pratica a necromancia ou adivinhação, é réu de morte. Será apedrejado, e o seu sangue cairá sobre ele.

2Rs 17,17: Sacrificaram no fogo seus filhos e filhas, praticaram a adivinhação e a magia, e se venderam para praticar o mal diante de Javé, provocando a ira dele.

2R 21,6: sacrificou seu filho no fogo; praticou adivinhação e magia, estabelecendo necromantes e adivinhos. E multiplicando as ações que Javé reprova, ele provocou a sua ira.

Nas quatro primeiras passagens o que se está proibindo é a pratica da magia, a da necromancia e a da adivinhação, coisas que nada tem a ver com o Espiritismo, a não ser pela má-fé daqueles que querem relacioná-las às nossas práticas. As duas últimas relatam pessoas usando dessas práticas. Mas deixemos o próprio Kardec argumentar:

9. - "Por meio das operações da moderna magia vemos reproduzirem-se no presente as evocações, as consultas, as curas e os sortilégios que ilustraram os templos dos ídolos e os antros das sibilas."

Nós perguntamos: que há de comum entre as operações da magia e as evocações espíritas?

Houve tempo em que tais operações faziam fé e acreditava-se na sua eficácia, mas hoje são simplesmente ridículas. Ninguém as toma a sério, e o Espiritismo condena-as. Na época em que florescera a magia, era imperfeita a noção sobre a natureza dos Espíritos, geralmente havidos por seres dotados de poder sobre-humano.

A troco da própria alma, ninguém os evocava que não fosse para obter favores da sorte e da fortuna, achar tesouros, revelar o futuro ou obter filtros. A magia com seus sinais, fórmulas e práticas cabalísticas era increpada de fornecer segredos para operar prodígios, constranger Espíritos a ficarem às ordens dos homens e satisfazerem-lhes os desejos. Hoje sabemos que os Espíritos são as almas dos mortos e não os evocamos senão para receber conselhos dos bons, moralizar os maus e continuar relações com seres que nos são caros. Eis o que diz o Espiritismo a tal respeito:

10. Não podereis obrigar nunca a presença de um Espírito vosso igual ou superior em moralidade, por vos faltar autoridade sobre ele; mas, do vosso inferior, e sendo para seu beneficio, consegui-lo-eis, visto como outros Espíritos vos secundam. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. XXV.)

- A mais essencial de todas as disposições para evocar é o recolhimento, quando desejarmos tratar com Espíritos sérios. Com a fé e o desejo do bem, mais aptos nos tornamos para evocar Espíritos superiores. Elevando nossa alma por alguns instantes de concentração no momento de evocá-los, identificamo-nos com os bons Espíritos, predispondo a sua vinda. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. XXV.)

- Nenhum objeto, medalha ou talismã tem a propriedade de atrair ou repelir Espíritos, pois a matéria ação alguma exerce sobre eles. Nunca um bom Espírito aconselha tais absurdos. A virtude dos talismãs só pode existir na imaginação de pessoas simplórias. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. XXV.)

- Não há fórmulas sacramentais para evocar Espíritos. Quem quer que pretendesse estabelecer uma fórmula, poderia ser tachado de usar de charlatanismo, visto que para os Espíritos puros a fórmula nada vale. A evocação deve, porém, ser feita sempre em nome de Deus. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. XVII.)

- Os Espíritos que prefixam entrevistas em lugares lúgubres, e a horas indevidas, são os que se divertem a custa de quem os ouve. É sempre inútil e muitas vezes perigoso ceder a tais sugestões; inútil, porque nada se ganha além de uma mistificação, e perigoso, não pelo mal que possam fazer os Espíritos, mas pela influência que tais fatos podem exercer sobre cérebros fracos. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. XXV.)

- Não há dias nem horas mais especialmente propícios às evocações: isso, como tudo que é material, é completamente indiferente aos Espíritos, além de ser supersticiosa a crença em tais influências. Os momentos mais favoráveis são aqueles em que o evocador pode abstrair-se melhor das suas preocupações habituais, calmo de corpo e de espírito. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. XXV.)

- A crítica malévola apraz-se em representar as comunicações espíritas revestidas das práticas ridículas e supersticiosas da magia e da nigromancia. Entretanto, se os que falam do Espiritismo, sem conhecê-lo, procurassem estudá-lo, poupariam trabalhos de imaginação e alegações que só servem para demonstrar a sua ignorância e má-vontade.

Para conhecimento das pessoas estranhas à ciência, diremos que não há horas mais propícias, umas que outras, como não há dias nem lugares, para comunicar com os Espíritos. Diremos mais: que não há fórmulas nem palavras sacramentais ou cabalísticas para evocá-los; que não há necessidade alguma de preparo ou iniciação; que é nulo o emprego de quaisquer sinais ou objetos materiais para atraí-los ou repeli-los, bastando para tanto o pensamento; e, finalmente, que os médiuns recebem deles as comunicações sem sair do estado normal, tão simples e naturalmente como se tais comunicações fossem ditadas por uma pessoa vivente. Só o charlatanismo poderia emprestar às comunicações formas excêntricas, enxertando-lhes ridículos acessórios. (O que é o Espiritismo, cap. II, nº 49.)

- O futuro é vedado ao homem por princípio, e só em casos raríssimos e excepcionais é que Deus faculta a sua revelação. Se o homem conhecesse o futuro, por certo que negligenciaria o presente e não agiria com a mesma liberdade. Absorvidos pela idéia da fatalidade de um acontecimento, ou procuramos conjurá-lo ou não nos preocupamos dele. Deus não permitiu que assim fosse, a fim de que cada qual concorresse para a realização dos acontecimentos mesmos, que porventura desejaria evitar. Ele permite, no entanto, a revelação do futuro, quando o conhecimento prévio de uma coisa não estorva, mas facilita a sua realização, induzindo a procedimento diverso do que se teria sem tal circunstância. (O Livro dos Espíritos, Parte 3ª, cap. X.)

- Os Espíritos não podem guiar descobertas nem investigações científicas. A Ciência é obra do gênio e só deve ser adquirida pelo trabalho, pois é por este que o homem progride. Que mérito teríamos nós se, para tudo saber, apenas bastasse interrogar os Espíritos? Por esse preço, todo imbecil poderia tornar-se sábio. O mesmo se dá relativamente aos inventos e descobertas da indústria. Chegado que seja o tempo de uma descoberta, os Espíritos encarregados da sua marcha procuram o homem capaz de levá-la a bom termo e inspiram-lhe as idéias necessárias, isto de molde a não lhe tirar o respectivo mérito, que está na elaboração e execução dessas idéias. Assim tem sido com todos os grandes trabalhos da inteligência humana. Os Espíritos deixam cada indivíduo na sua esfera: do homem apenas apto para lavrar a terra não fazem depositários dos segredos de Deus, mas sabem arrancar da obscuridade aquele que se mostra capaz de secundar-lhes os desígnios. Não vos deixeis, por conseguinte, dominar pela ambição e pela curiosidade, em terreno alheio ao do Espiritismo, que tais fitos não tem, pois com eles só conseguireis as mais ridículas mistificações. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. XXVI.)

- Os Espíritos não podem concorrer para a descoberta de tesouros ocultos. Os superiores não se ocupam de tais coisas e só os zombeteiros podem entreter-se com elas, já indicando tesouros que o mais das vezes não existem, já apontando sítios diametralmente opostos àqueles em que realmente existem. Esta circunstância tem, contudo, uma utilidade, qual a de mostrar que a verdadeira fortuna reside no trabalho. Quando a Providência tem destinado a alguém quaisquer riquezas ocultas, esse alguém as encontrará naturalmente; do contrário não, nunca. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. XXVI.)

- Esclarecendo-nos sobre as propriedades dos fluidos - agentes e meios de ação do mundo invisível constituindo uma das forças e potências da Natureza – o Espiritismo nos dá a chave de inúmeros fatos e coisas inexplicadas e inexplicáveis de outro modo, fatos e coisas que passaram por prodígios, em outras eras. Do mesmo modo que o magnetismo, ele nos revela uma lei, senão desconhecida, pelo menos incompreendida, ou então, para melhor dizer, efeitos de todos os tempos conhecidos, pois que de todos os tempos se produziram, mas cuja lei se ignorava e de cuja ignorância brotava a superstição. Conhecida essa lei, desaparece o maravilhoso e os fenômenos entram para a ordem das coisas naturais. Eis por que os Espíritos não produzem milagres, fazendo girar as mesas ou escrever os mortos, como milagre não faz o médico em restituir à vida o moribundo, e o físico provocando a queda do raio. Quem pretendesse fazer milagres pelo Espiritismo não passaria de ignorante, ou então de mero prestidigitador. (O Livro dos Médiuns, 1ª Parte, cap. II.)

Pessoas há que fazem das evocações uma idéia muito falsa: há mesmo quem acredite que os mortos evocados se apresentam com todo o aparelho lúgubre do túmulo. Tais suposições podem ser atribuídas ao que vemos nos teatros ou lemos nos romances e contos fantásticos, onde os mortos aparecem amortalhados com o chocalhar dos ossos.

O Espiritismo, que nunca fez milagres, também não faz esse, pois que jamais fez reviver um corpo morto. O Espírito, fluídico, inteligente, esse não baixa à campa com o grosseiro invólucro, que lá fica definitivamente. Separa-se dele no momento da morte, e nada mais têm de comum entre si. (O que é o Espiritismo, cap. II, n.º 48.) (KARDEC, A. O Céu e o Inferno, Brasília: FEB, 1995, pp. 141-146)

15. - As acusações formuladas pela Igreja, contra as evocações, não atingem, portanto, o Espiritismo, porém as práticas da magia, com a qual este nada tem de comum. O Espiritismo condena tanto quanto a Igreja as referidas práticas, ao mesmo tempo que não confere aos Espíritos superiores um papel indigno deles, nem algo pergunta ou pretende obter sem a permissão de Deus.

Certo, pode haver quem abuse das evocações, quem delas faça um jogo, quem lhes desnature o caráter providencial em proveito de interesses pessoais, ou ainda quem por ignorância, leviandade, orgulho ou ambição se afaste dos verdadeiros princípios da Doutrina; o verdadeiro Espiritismo, o Espiritismo sério os condena porém, tanto quanto a verdadeira religião condena os crentes hipócritas e os fanáticos. Portanto, não é lógico nem razoável imputar ao Espiritismo abusos que ele é o primeiro a condenar, e os erros daqueles que o não compreendem. Antes de formular qualquer acusação, convém saber se é justa. Assim, diremos: A censura da Igreja recai nos charlatães, nos especuladores, nos praticantes de magia e sortilégio, e com razão. Quando a crítica religiosa ou céptica, dissecando abusos, profliga o charlatanismo, não faz mais que realçar a pureza da sã doutrina, auxiliando-a no expurgo de maus elementos e facilitando-nos a tarefa. O erro da critica está no confundir o bom e o mau, o que muitas vezes sucede pela má-fé de alguns e pela ignorância do maior número. Mas a distinção que uma tal crítica não faz, outros a fazem. Finalmente, a censura aplicada ao mal e à qual todo espírita sincero e reto se associa, essa nem prejudica nem afeta a Doutrina. (KARDEC, A. O Céu e o Inferno, Brasília: FEB, 1995, p. 160)

Só a malevolência e uma rematada má-fé puderam confundir o Espiritismo com a magia e a feitiçaria, quando aquele repudia o fim, as práticas, as fórmulas e as palavras místicas destas. Alguns chegaram mesmo a comparar as reuniões espíritas às assembléias do sabbat, nas quais se espera o soar da meia-noite, para que os fantasmas apareçam. (KARDEC, A. O que é o Espiritismo, Brasília: FEB, 2001, pp. 70-71)

Os médiuns e os feiticeiros

V. - Desde que a mediunidade não é mais que um meio de entrar em relação com as potências ocultas, médiuns e feiticeiros são mais ou menos a mesma coisa.

A.K. . Em todos os tempos houve médiuns naturais e inconscientes que, pelo simples fato de produzirem fenômenos insólitos e incompreendidos, foram qualificados de feiticeiros e acusados de pactuarem com o diabo; foi o mesmo que se deu com a maioria dos sábios que dispunham de conhecimentos acima do vulgar. A ignorância exagerou seu poder e, muitas vezes, eles mesmos abusaram da credulidade pública, explorando-a; daí a justa reprovação que os feriu.

Basta-nos comprar o poder atribuído aos feiticeiros com a faculdade dos verdadeiros médiuns, para conhecermos a diferença, mas a maioria dos críticos não se quer dar a esse trabalho.

Longe de fazer reviver a feitiçaria, o Espiritismo a aniquila, despojando-a do seu pretenso poder sobrenatural, das suas fórmulas, engrimanços, amuletos e talismãs, e reduzindo a seu justo valor os fenômenos possíveis, sem sair das leis naturais.

A semelhança que certas pessoas pretendem estabelecer, provém do erro em que estão, julgando que os Espíritos estão às ordens dos médiuns; repugna à sua razão crer que um indivíduo qualquer possa, à vontade, fazer comparecer o Espirito tal ou tal personagem, mais ou menos ilustre; nisto eles estão perfeitamente com a verdade, e, se antes de apedrejarem o Espiritismo, se tivessem dado ao trabalho de estudá-lo, veriam que ele diz positivamente que os Espíritos não estão sujeitos aos caprichos de ninguém, que ninguém pode, à vontade, constrangê-los a responder ao seu chamado; do que se conclui que os médiuns não são feiticeiros: (KARDEC, A. O que é o espiritismo, Brasília: FEB, 2001, pp. 103-104).

Quem tivesse o cuidado de ler, e o sr. bispo prova que leu, não falaria isso, a única coisa que justifica é “Só a malevolência e uma rematada má-fé puderam confundir o Espiritismo com a magia e a feitiçaria”, conforme diz o próprio Kardec.

Lv 20,27: O homem ou mulher que pratica a necromancia ou adivinhação, é réu de morte. Será apedrejado, e o seu sangue cairá sobre ele.

Voltamos a essa passagem, pois ela é a prova inequívoca que todas essas proibições não são provenientes de Deus, uma vez que não poderia se contradizer, já que não há como conciliar a pena aqui imposta com o “não matarás”. Moisés, necessitando manter no povo hebreu a idéia de um Deus único, procurou proibir qualquer coisa que pudesse dificultar esse objetivo. É por isso que proibiu a evocação dos mortos, da forma como o faziam as nações vizinhas, uma vez que consideram os espíritos como se fossem deuses. Na passagem de 1Sm 28, iremos provar o que aqui estamos dizendo. Assim, para dar maior respaldo ao que tinha em mente, Moisés disse provinham de Deus. Outras passagens para corroborar essa afirmativa:

Ex 21,12: Quem ferir a outro de modo que este morra, também será morto.

Ex 21,15: Quem ferir a seu pai ou a sua mãe, será morto.

Ex 21,16: O que raptar a alguém, e o vender, ou for achado na sua mão, será morto.

Ex 21,17: Quem amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, será morto.

Ex 22,19: Quem tiver coito com animal, será morto.

Ex 22,20: Quem sacrificar aos deuses, e não somente ao Senhor, será destruído.

Ex 31,14: Portanto guardareis o sábado, porque santo é para vós outros; aquele que o profanar morrerá; pois qualquer que nele fizer alguma obra será eliminado do meio do seu povo.

Lv 20,9: Se um homem amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, será morto: amaldiçoou a seu pai ou a sua mãe; o seu sangue cairá sobre ele.

Lv 20,10: Se um homem adulterar com a mulher do seu próximo, será morto o adúltero e a adúltera.

Lv 20,13: Se também um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram cousa abominável; serão mortos; o seu sangue cairá sobre eles.

Dt 21,18-21: Se alguém tiver um filho contumaz e rebelde, que não obedece à voz de seu pai e à de sua mãe, e, ainda castigado, não lhes dá ouvidos, pegarão nele seu pai e sua mãe e o levarão aos anciãos da cidade, à sua porta, e lhes dirão: Este nosso filho é rebelde e contumaz, não dá ouvidos à nossa voz: é dissoluto e beberrão. Então todos os homens da sua cidade o apedrejarão, até que morra; assim eliminarás o mal do meio de ti: todo o Israel ouvirá e temerá.

Tanto é verdade que essas passagens não possuem como origem a vontade divina é que não vemos a Igreja defender a sua aplicação para os casos ali mencionados. Entretanto, a incoerência do sr. bispo é flagrante, pois não cumpre nenhuma dessas, mas nos exige cumprir as que se relacionam à evocação dos mortos, mesmo sabendo não ser isso o que fazemos. Ou será que teremos que cumprir as que sr. bispo escolheu a dedo para serem aplicada a nós?

Para uma melhor evidência de como age a liderança da Igreja de Roma, vamos separar Dt 18,10-14 e Is 8,18-20, por Bíblia de publicação católica:

Ave Maria

Dt 18,10-11: Não se ache no meio de ti quem faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, nem quem se dê à adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feiticismo, à magia, ao espiritismo, à adivinhação ou à evocação dos mortos.

Is 8,19: Se vos disserem: Consultai os espíritos dos mortos, os adivinhos, os que conhecem segredos e dizem em voz baixa: Porventura um povo não deve consultar os seus deuses? Consultar os mortos a favor dos vivos? Em nota: seus deuses: os espíritos dos antepassados.

Barsa

Dt 18,10-11: nem se ache entre vós quem pretenda purificar seu filho, ou filha, fazendo-os passar pelo fogo: nem quem consulte adivinhos, ou observe sonhos e agouros, nem quem seja feiticeiro, ou encantador, nem quem consulte Píton ou adivinhos, nem quem indague dos mortos a verdade.

Is 8,19: E quando vos disserem: Consultai os pitões, e os adivinhos, que murmuram em segredo em seus encantamentos: Acaso não consultará o povo ao seu Deus, há de ir falar com os mortos acerca dos vivos?

Bíblia de Jerusalém

Dt 18,10-11: Que em teu meio não se encontre alguém que queime seu filho ou sua filha, nem faça presságio, oráculo, adivinhação ou magia, ou que pratique encantamentos, que interrogue espíritos ou adivinhos, ou ainda que invoque os mortos;

Is 8,19: Se vos disserem: “Ide consultar os espíritos e os adivinhos, cochichadores e balbuciadores”, não consultará o povo os seus deuses, e os mortos a favor dos vivos?

Bíblia do Peregrino

Dt 18,10-11: Não haja entre os teus quem queime seus filhos ou filhas, nem adivinhos, nem astrólogos, nem agoureiros, nem feiticeiros, nem encantadores, nem espiritistas, nem adivinhos, nem necromantes.

Is 8,19: Certamente vos dirão: Consultai os espíritos e adivinhos, que sussurram e cochicham: um povo não consulta seus deuses e os mortos a respeito dos vivos, em busca de instruções seguras?

Pastoral

Dt 18,10-11: Não haja em teu meio alguém que queime seu filho ou filha, nem que faça presságio, pratique astrologia, adivinhação ou magia, nem que pratique encantamentos, consulte espíritos ou adivinhos, ou também que invoque os mortos.

Is 8,19: Quando disserem a vocês: “Consultem os espíritos e adivinhos, que sussurram e murmuram fórmulas; por acaso, um povo não deve consultar seus deuses e consultar os mortos em favor dos vivos?”

Paulinas

Dt 18,10-11: Não se ache entre vós quem purifique seu filho ou sua filha, fazendo-os passar pelo fogo, nem quem consulte adivinhos ou observe sonhos e agouros, nem quem use malefícios, nem quem seja encantador, nem quem consulte aos nigromantes, ou adivinhos, ou indague dos mortos a verdade.

Is 8,19: E, quando vos disserem: Consultai os magos e os adivinhos, que murmuram em segredo nos seus encantamentos, (respondei): Porventura o povo não há de consultar o seu Deus? Há de ir falar com os mortos acerca dos vivos?

Santuário

Dt 18,10-11: Não haja ninguém no meio de ti que faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha; ou se dê à pratica de encantamento, ou se entregue à augúrios, à adivinhação ou à magia, ao feiticismo, ao espiritismo, aos sortilégios ou à evocação dos mortos.

Is 8,19: Hão de dizer-vos: consultai os espíritos e os adivinhos que murmuram e segredam. Porventura o povo não deve consultar os seus deuses e consultar os mortos acerca dos vivos para obter uma revelação e um testemunho?

Vozes

Dt 18,10-11: Não haja em teu meio quem faça passar pelo fogo o filho ou a filha, nem quem se dê à adivinhação, nem haja astrólogo nem macumbeiro nem feiticeiro; nem quem se dê à magia, consulte médiuns, interrogue espíritos ou evoque os mortos.

Is 8,19: Se vos disserem: “Consultai os necromantes e os adivinhos que sussurram e murmuram”; acaso não consultará um povo os seus deuses, os mortos em favor dos vivos?

Colocaremos agora, para comparação, a tradução feita por Severino Celestino, autor do livro Analisando as Traduções Bíblicas:

Dt 18,9-11: Não se achará em ti quem faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo, nem adivinhador, nem feiticeiro, nem agoureiro, nem cartomante, nem bruxo, nem mago, nem quem consulte o necromante e o adivinho, nem quem exija a presença dos “mortos”.

Is 8,19: E se vos disserem consulte ou exija a presença dos antepassados ou dos patriarcas e dos adivinhos, cochichadores e balbuciadores. Por acaso o povo não poderá exigir a presença dos seus deuses? Consultar os mortos a em favor dos vivos?

Embora todos os tradutores católicos digam que seus textos guardam fidelidade aos textos originais, percebemos claramente que só se for naquilo que lhes interessam, pois, como provamos acima, existem passagens que contêm termos que são colocados propositalmente para atingir uma outra corrente filosófico-religiosa, qual seja o Espiritismo, que, por questão de ética, não segue o mesmo comportamento utilizado por eles.

Quem sabe que se esses tradutores se esqueceram que os termos médium, espirita, espiritista e Espiritismo foram neologismos criados por Kardec em 18 de abril de 1857, quando da publicação de O Livro dos Espíritos, conforme ele mesmo diz em sua introdução. Assim, se encontramos tais termos em trechos bíblicos só há uma explicação para esse fato: vergonhosa adulteração para combater o Espiritismo, qualquer pessoa sensata verá isso, comportamento que não esperamos do sr. bispo.

Observar que, a bem da verdade, qualquer palavra que fosse usada deveriam estar relacionada à necromancia, que é a evocação dos mortos para fins de adivinhação, coisa que nada tem a ver com o Espiritismo, eles sabem muito bem disso, e entretanto, no combate onde os fins justificam os meios, usam de armas sutis, pois que dificilmente o crente deixará de acreditar no que “está escrito” ou na palavra deles, para perceber que a verdade é bem diversa daquilo que lhes colocam.

Analisando, por fim, a última citação:

1 Samuel 28, 3-25: Samuel tinha morrido. Todo o Israel participara dos funerais, e o enterraram em Ramá, sua cidade. De outro lado, Saul tinha expulsado do país os necromantes e adivinhos. Os filisteus se concentraram e acamparam em Sunam. Saul reuniu todo o Israel e acamparam em Gelboé. Quando viu o acampamento dos filisteus, Saul teve medo e começou a tremer. Consultou a Javé, porém Javé não lhe respondeu, nem por sonhos, nem pela sorte, nem pelos profetas. Então Saul disse a seus servos: "Procurem uma necromante, para que eu faça uma consulta". Os servos responderam: "Há uma necromante em Endor". Saul se disfarçou, vestiu roupa de outro, e à noite, acompanhado de dois homens, foi encontrar-se com a mulher. Saul disse a ela: "Quero que você me adivinhe o futuro, evocando os mortos. Faça aparecer a pessoa que eu lhe disser". A mulher, porém, respondeu: "Você sabe o que fez Saul, expulsando do país os necromantes e adivinhos. Por que está armando uma cilada, para eu ser morta?" Então Saul jurou por Javé: "Pela vida de Javé, nenhum mal vai lhe acontecer por causa disso". A mulher perguntou: "Quem você quer que eu chame?" Saul respondeu: "Chame Samuel". Quando a mulher viu Samuel aparecer, deu um grito e falou para Saul: "Por que você me enganou? Você é Saul!" O rei a tranqüilizou: "Não tenha medo. O que você está vendo?" A mulher respondeu: "Vejo um espírito subindo da terra". Saul perguntou: "Qual é a aparência dele?" A mulher respondeu: "É a de um ancião que sobe, vestido com um manto". Então Saul compreendeu que era Samuel, e se prostrou com o rosto por terra. Samuel perguntou a Saul: "Por que você me chamou, perturbando o meu descanso?" Saul respondeu: "É que estou em situação desesperadora: os filisteus estão guerreando contra mim. Deus se afastou de mim e não me responde mais, nem pelos profetas, nem por sonhos. Por isso, eu vim chamar você, para que me diga o que devo fazer". Samuel respondeu: "Por que você veio me consultar, se Javé se afastou de você e se tornou seu inimigo? Javé fez com você o que já lhe foi anunciado por mim: tirou de você a realeza e a entregou para Davi. Porque você não obedeceu a Javé e não executou o ardor da ira dele contra Amalec. É por isso que Javé hoje trata você desse modo. E Javé vai entregar aos filisteus tanto você, como seu povo Israel. Amanhã mesmo, você e seus filhos estarão comigo, e o acampamento de Israel também: Javé o entregará nas mãos dos filisteus". Saul caiu imediatamente no chão, apavorado com as palavras de Samuel. Estava enfraquecido, porque ficara o dia todo e toda a noite sem comer. A mulher chegou perto de Saul e, vendo que ele estava apavorado, disse: "Sua serva obedeceu. Arrisquei minha vida para fazer o que o senhor estava pedindo. Agora, também o senhor deve obedecer à sua serva. Vou lhe trazer um pedaço de pão. Coma e recupere as forças para ir embora". Saul, porém, recusou: "Não vou comer nada". Mas seus servos e a mulher insistiram tanto, que ele acabou cedendo: levantou-se do chão e sentou-se na cama. A mulher tinha um bezerro cevado. Abateu o bezerro, pegou farinha, amassou-a e cozinhou uns pães sem fermento. Depois serviu Saul e seus servos. Eles comeram e se puseram a caminho na mesma noite.

Interessante que nesse texto não há nada a respeito de qualquer proibição, apenas que Saul havia expulsado do país as necromantes. Essa é uma passagem que prova biblicamente a possibilidade da comunicação entre os mortos e os vivos, apesar de negarem tal fato.

O versículo 13, na versão de outras Bíblias, coloca ao invés de um espírito a expressão um deus, exatamente conforme já falamos anteriormente, sobre o fato de que os hebreus consideravam os espíritos como deuses. Observar a atitude de Saul, quando ficou sabendo que o espírito de Samuel já estava ali “se prostrou com o rosto por terra” atitude compatível a de uma adoração a um deus.

Assim provamos que a proibição não é divina, como pretende o sr. bispo. Mas fora a incoerência de não cumprir tudo da bíblia, uma coisa ainda teríamos a perguntar: há algum santo vivo? Essa é a mais uma incoerência dos católicos, pois os santos que enchem com seus petitórios estão todos mortos, daí são espíritos, obviamente. E o mais curioso disso tudo é que a maioria deles foram mortos pela própria Igreja que, séculos após, os canonizou.

Vejamos agora o argumento de que este mandamento, o da proibição de evocar os mortos, não foi revogado na Nova Aliança.

At 13,6-12: Atravessaram toda a ilha até Pafos e aí encontraram um judeu, mago e falso profeta, que se chamava Bar-Jesus. Este se encontrava na casa do procônsul Sérgio Paulo, homem de bom critério, que mandou chamar Barnabé e Saulo, pois desejava escutar a Palavra de Deus. Porém, o mago Elimas - assim se traduz o seu nome - se opôs, procurando afastar da fé o procônsul. Então Saulo, também chamado Paulo, cheio de Espírito Santo, fixou os olhos em Elimas, e disse: "Filho do diabo, cheio de falsidade e malícia, inimigo de toda justiça, quando é que você vai parar de torcer os caminhos do Senhor, que são retos? Eis que a mão do Senhor vai cair agora sobre você. Você ficará cego e, por algum tempo, não verá mais o sol." No mesmo instante escuridão e trevas envolveram Elimas, e ele começou a andar às cegas, procurando alguém que lhe desse a mão. Ao ver o que acontecera, o procônsul abraçou a fé, pois ficara impressionado com a doutrina do Senhor.

Parece que a cegueira de Elimas atingiu ao bispo, da mesma forma que cego só vê escuridão, o nosso bispo só vê mago como espírita. Lamentável para a posição de liderança que ocupa.

At 16,16-18: Estávamos indo para a oração, quando veio ao nosso encontro uma jovem escrava, que estava possuída por um espírito de adivinhação; fazia oráculos e obtinha muito lucro para seus patrões. Ela começou a seguir Paulo e a nós, gritando: "Esses homens são servos do Deus Altíssimo e anunciam o caminho da salvação para vocês." Isso aconteceu durante muitos dias. Por fim, não suportando mais a situação, Paulo voltou-se e disse ao espírito: "Eu lhe ordeno em nome de Jesus Cristo: saia dessa mulher!" E o espírito saiu no mesmo instante.

Até onde nos permite a lógica quem está possuído por um espírito o está contra a sua vontade, embora com o tempo possa até a vir a gostar dessa situação, mas o que isso tem a ver com condenação de evocar os mortos, sr. bispo? O que Paulo fez nós fazemos no nosso dia-a-dia, libertando as pessoas das obsessões, subjugações e possessões de espíritos, então onde está o nosso erro se estamos fazendo igual? Só católicos podem fazer isso? Será que o cúmulo do egoísmo chegou a esse ponto? E o que Jesus disse não vale nada? Veja sr. bispo: João disse a Jesus: "Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lhe proibimos, porque ele não nos segue." Jesus disse: "Não lhe proíbam, pois ninguém faz um milagre em meu nome e depois pode falar mal de mim. Quem não está contra nós, está a nosso favor. (Mc 9, 38-40). Como o discípulo não pode ser superior ao Mestre, seguimos a Jesus.

At 19, 11-20: Deus realizava milagres extraordinários pelas mãos de Paulo, a tal ponto que pegavam lenços e aventais usados por Paulo para colocá-los sobre os doentes, e estes eram libertados de suas doenças e os espíritos maus eram afastados. Alguns exorcistas judeus itinerantes começaram a invocar o nome do Senhor Jesus sobre aqueles que tinham espíritos maus. E diziam: "Eu esconjuro vocês por este Jesus que Paulo está pregando." Os que faziam isso eram os sete filhos de Ceva, um sumo sacerdote judeu. Mas o espírito mau reagiu, dizendo: "Eu conheço Jesus e sei quem é Paulo; mas quem são vocês?" E o homem que estava possesso do espírito mau pulou sobre eles com tanta violência, que tiveram de fugir daquela casa, sem roupas e cobertos de ferimentos. E toda a população de Éfeso, judeus e gregos, ficou sabendo do fato. O temor se apossou de todos. E a grandeza do nome de Jesus era exaltada. Muitos fiéis acorriam para acusar-se em voz alta de suas práticas mágicas, e um bom número dos que praticavam magia amontoaram seus livros e os queimaram em praça pública. O valor desses livros foi calculado em cinqüenta mil moedas de prata. Assim, a Palavra do Senhor crescia e se firmava com grande poder.

Aqui se repete exatamente o que aconteceu na passagem anterior. Se com o fato dos espíritos maus terem agredidos os que não tinham competência para expulsá-los, evidentemente por questões de ordem moral, os magos ficaram morrendo de medo e por isso resolveram deixar suas práticas, é problema deles, mas isso também não tem nada a ver com o que quer passar sr. bispo. Seja ele coerente, e não extrapole o texto, Paulo não fez absolutamente nada mais do que expulsar os espíritos, o texto não leva a conclusão que ele tenha condenado alguém por qualquer coisa.

A citação da carta de Paulo aos gálatas vem a propósito, leiamos, mas se nos permite iremos colocá-la um pouco antes e um pouco depois dos versículos citados:

Gl 5,19-23: Além disso, as obras dos instintos egoístas são bem conhecidas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, discórdia, ciúme, ira, rivalidade, divisão, sectarismo, inveja, bebedeira, orgias e outras coisas semelhantes. Repito o que já disse: os que fazem tais coisas não herdarão o Reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si. Contra essas coisas não existe lei.

Sr. bispo deveria observar que outras coisas citadas por Paulo merecem a sua reflexão, como por exemplo: idolatria, ódio, discórdia, ira, rivalidade, divisão, sectarismo, que parece ser o seu caso, não é mesmo? Mas quanto à proibição de magia, não nos atinge em nada, conforme já explicamos anteriormente.

Ap 21,8: Quanto aos covardes, infiéis, corruptos, assassinos, imorais, feiticeiros, idólatras, e todos os mentirosos, o lugar deles é o lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte.

Ap 22,15: Vão ficar de fora os cães, os feiticeiros, os imorais, os assassinos, os idólatras, e todos os que amam ou praticam a mentira.

Em relação ao que listamos anteriormente, favor acrescentar: os que praticam a mentira.

Mas talvez pensando que os seus fiéis irão seguir cegamente suas orientações, e como a maioria deles além de não ter coragem de contestar um bispo, não possuem conhecimento bíblico para refutar-lhe, deixou de colocar uma passagem que é importantíssima para resolver de vez essa suposta proibição de evocar os mortos. Vamos lá, sr. bispo, mas pode se segurar para não cair de boca aberta ao chão.

Mt 17,1-9: Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, os irmãos Tiago e João, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E se transfigurou diante deles: o seu rosto brilhou como o sol, e as suas roupas ficaram brancas como a luz. Nisso lhes apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus. Então Pedro tomou a palavra, e disse a Jesus: "Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias." Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra, e da nuvem saiu uma voz que dizia: "Este é o meu Filho amado, que muito me agrada. Escutem o que ele diz." Quando ouviram isso, os discípulos ficaram muito assustados, e caíram com o rosto por terra. Jesus se aproximou, tocou neles e disse: "Levantem-se, e não tenham medo." Os discípulos ergueram os olhos, e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. Ao descerem da montanha, Jesus ordenou-lhes: "Não contem a ninguém essa visão, até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos."

Vamos explicar para não haver dúvidas. Aqui, nessa passagem, Jesus conversa com os espíritos Moisés e Elias, fato que tem como testemunhas Pedro, Tiago e João. Numa verdadeira sessão espírita, para o desgosto do sr. bispo, já que Moisés e Elias estavam mortos. Favor observar que Jesus não disse não façam isso, mas apenas “não contem a ninguém o que presenciaram, até que eu ressuscite dos mortos”. Como Jesus o tempo todo se igualou a nós, não há motivo algum para que não façamos o que ele fez, até ao contrário, pois nos disse algo assim: “tudo o que eu fiz vós podeis fazer e muito mais” (Jo 14,12).

Assim, como a história prova vários erros da Igreja, inclusive, com o seu representante pedindo perdão a humanidade por alguns deles, esse é mais um que, mais cedo ou mais tarde, terá que pedir perdão.

Se o Concílio Vaticano II, proibiu qualquer forma de evocação dos espíritos, deveriam então deixar de evocar os santos, pois eles são espíritos e estão mortos. Será que se esqueceram disso?

Daqui para frente, por várias vezes, será citado esse concílio, sobre ele transcrevemos a opinião de Paulo VI:

”Como se pôde chegar a essa situação?”

“Pensava-se que, depois do Concílio, o sol brilharia sobre a história da Igreja. Mas, em vez do sol, apareceram as nuvens, a tempestade, as trevas, a incerteza”.

“Nós cremos que um ser preternatural veio ao mundo precisamente para perturbar a paz, para afogar os frutos do Concílio ecumênico e para impedir a Igreja de cantar a sua alegria por ter retomado plena consciência de si própria”. (HUBER, G. O diabo, hoje. São Paulo: Quadrante, 1999, p. 8)

Os frutos não foram o que queriam, pois ainda os líderes da igreja são sectários, e como nunca se instalou em seus corações o amor ao semelhante, daí culpam o pobre do diabo.

Agora sr. bispo, como não seguimos a orientação da Igreja, o que ela estabelece, obviamente, não tem aplicação em nosso meio, assim como a recíproca é verdadeira.

Temos pena da Igreja com tantos líderes sectários em seu meio, assim vai se recuperar nunca.

Afirma o sr. bispo que “... a Igreja, por seu magistério oficial, nunca se pronunciou nem sobre a verdade histórica ou autenticidade, nem sobre a natureza, nem sobre a causa dos fenômenos mediúnicos ou próprios do espiritismo”, então a questão é mais grave, pois se a Igreja não se pronunciou, por que então da condenação? Não estaria aí o discípulo sendo maior que o mestre?

Dizer que quem proíbe é a Bíblia, ou seja, Deus, não dá, é a famosa “saída pela esquerda”, pois conforme provamos a proibição é mosaica, coisa que o sr. bispo deve muito bem saber, dado ao seu conhecimento.

Um fato que não é notado por todos os detratores, e o sr. bispo também passou batido, é que os espíritos estão vindo mesmo sem serem evocados. Foi exatamente isso que ocorreu com a família Fox, inclusive era da igreja metodista, o que vem provar para nós que se eles manifestam sem no nosso chamado é porque se interessam na comunicação e mais importante ainda é permitido que façam isso.

Da mesma forma, quando da ocorrência da primeira comunicação de espíritos usando os aparelhos eletrônicos – Transcomunicação Instrumental – foram os espíritos que se apresentaram ao russo Friedrich Juergenson, em 14 de junho de 1959, ocasião em que tinha como única preocupação gravar as vozes dos pássaros. Entre as gravações apareceram as “vozes do além”, sem que ele tivesse feito alguma coisa para que isso ocorresse.

Quanto à questão moral da prática do Espiritismo, sr. bispo, siga a Jesus: “conhece-se se a árvore é boa ou má pelos seus frutos” (Mt 7,17-20), mas antes deve também aplicar o “não julgueis para não serdes julgados, pois com a mesma medida que medirdes sereis medidos” (Mt 7,1-2). Mas também não se esqueça de que o Mestre não julgou nem mesmo a uma prostituta. Mas poderíamos lhe perguntar: esconder abusos e violências sexuais dos padres com crianças é uma atitude moral?

Vejamos os significados das palavras invocar e evocar, já que o sr. bispo quer fazer distinção entre elas, querem com isso justificar a “invocação dos mortos” feita por ele e os adeptos da Igreja de Roma. O Dicionário Houaiss, define (o grifo é nosso):

Invocar: v. (sXV cf. FichIVPM) 1 t.d. chamar em auxílio, pedir a proteção de (falando ger. de seres ou forças divinas, sobrenaturais); suplicar <i. os santos>  2 t.d. pedir auxílio, assistência; recorrer <i. a ajuda dos amigos> 3 t.d. evocar (quaisquer forças sobrenaturais, ocultas) <i. os espíritos de antepassados>

Evocar: v. (1789 cf. MS1) 1 t.d. chamar (algo, ger. sobrenatural), fazendo com que apareça <evocou todos os santos que conhecia para ajudá-lo naquela hora>

Onde está a diferença? O que o sr. bispo quer na verdade é dizer que o que sua Igreja faz é autorizado por Deus, e o que fazemos não. Tenha santa paciência! Aliás, o que vemos fazer por aí de pedido aos santos é de se estarrecer, pois até casamento para solteiras encalhadas é exigido deles. Sem falar nas pessoas que não sabem controlar as suas finanças, cheio de dívidas, mandam essa bomba para o santo resolver, fora os que solicitam coisas impossíveis para determinado santo, que deve ficar em sérios apuros diante de tanto petitório.

Essa de que os católicos fazem é em forma de prece ou súplica não colocou não é sr. bispo? O que ocorre na prática é o “toma-lá-dá-cá”, numa vergonhosa barganha com os espíritos, aos quais vocês denominam de santos.

JESUS REJEITA A REVELAÇÃO MEDIANTE FALECIDOS

Por que tão rigorosa interdição? Não poderíamos ser positivamente ajudados pela instrução dos falecidos? Ou quererá Deus deixar-nos na ignorância acerca dos acontecimentos depois da morte?

O próprio Jesus nos deu a resposta na parábola do pobre Lázaro e do rico epulão (cf. Lc 16, 19-31). Ambos morrem e são julgados, cada um de acordo com a vida que levou nesta terra. Lázaro foi levado pelos anjos ao seio de Abraão, isto é, ao céu. O rico avarento é condenado ao inferno.

A diferença entre os dois após a morte é grande. O falecido rico gozador implora: Pai Abraão, tem piedade de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo para me refrescar a língua, pois estou torturado nesta chama.

Mas a separação entre ambos é definitiva e a comunicação impossível. A resposta do céu é clara e dura: Entre vós e nós existe um grande abismo, de modo que aqueles que quiserem passar daqui para junto de vós não o podem, nem tampouco atravessarem os de lá até nós (v. 26).

O falecido epulão insiste no seu pedido com uma proposta filantrópica: Pai, eu te suplico, envia então Lázaro até a casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; que ele os advirta, para que não venham eles também para este lugar de tormento.

Era uma sugestão que parecia muito boa. Estabelecer-se-ia um útil intercâmbio entre os do além, com seus novos conhecimentos, e os da terra, sempre necessitados de esclarecimento e orientação. No entanto, a resposta do céu é seca: Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam! (v. 29).

Mas o proponente insiste, com uma justificação: Não, pai Abraão, se alguém dentre os mortos for procurá-los, eles se converterão. A razão parece óbvia. :e a solução proposta também pelos atuais movimentos espiritistas. Se é verdade que as almas dos falecidos sobrevivem conscientemente e que elas continuam solidárias conosco, afirmações que são corroboradas pela Bíblia e ensinadas pela Igreja católica, por que não poderia o Criador escolher esta via para trazer revelações úteis do além? A resposta do céu, entretanto, segundo Jesus, é sem rodeios: Se não escutam nem Moisés nem os Profetas, mesmo que alguém ressuscite dos mortos não se convencerão (v. 31).

É a rejeição pura e simples da via espiritista.

Deus certamente quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (1 Tim 2, 4). Ele não quer deixar-nos na ignorância. Mas o Criador dos homens escolheu outra via para instruir-nos sobre o sentido da vida e o destino eterno. Na Constituição dogmática Dei Verbum, de 1965, o Concílio Vaticano 11 resume assim, no n.O 2, o plano divino da revelação:

"Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério de sua vontade (cf. Ef 1, 9), pelo qual os homens, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, e no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina. Mediante esta revelação, portanto, o Deus invisível, levado por seu grande amor, fala aos homens como a amigos (cf. E:x 33, 11; Jo 15, 14-15), e com eles se entretém para os convidar à comunhão consigo e nela os receber. Este plano de revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras intimamente conexas entre si, de forma que as obras realizadas por Deus na história da salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras. Estas, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido. No entanto, o conteúdo profundo da verdade, seja a respeito de Deus seja da salvação do homem, se nos manifesta por meio dessa revelação em Cristo, que é ao mesmo tempo mediador e plenitude de toda a revelação".

Deste plano de revelação estão excluídos os falecidos. Depois de Moisés e dos Profetas, Deus nos enviou o seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os homens, para que habitasse entre os homens e lhes expusesse os segredos de Deus (cf. Jo 1, 1-18). Com Jesus recebemos a plenitude da revelação necessária para a nossa salvação.

Ele se apresenta a si mesmo com uma declaração solene: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6).

Ele está cheio de verdade (Jo 1, 14).

Nele se acham escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Col 2, 3).

Ele é pessoalmente o anunciado e prometido Emanuel, Deus-com-os-homens.

Ele é para nós como a Nuvem luminosa do Êxodo: Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida (Jo 8, 12).

Ele é a luz das gentes (Lc 2, 32), o Sol nascente que ilumina os que estão nas trevas (Lc 1, 78-79).

Eu, a luz, vim ao mundo para que aquele que crê em mim não permaneça nas trevas (Jo 12, 46).

Não necessitamos perturbar o repouso dos falecidos (cf. 1 Sm 28, 15). O Concílio Vaticano II, na citada Constituição Dei Verbum (n. 4b), garante-nos que "a economia cristã, como aliança nova e definitiva, jamais passará, e já não há que esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1 Tim 6, 14; Tt 2, 13)".

Não haverá "terceira revelação".

O espiritismo, que pretende ser precisamente essa "terceira revelação", não só não entra nos planos de Deus Revelador, mas se opõe à economia divina.

Todo estudioso de Bíblia sabe muito bem que não se pode tomar tudo ao pé da letra, veja por exemplo essa passagem: Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada. De fato, eu vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora de sua sogra. E os inimigos do homem serão os seus próprios familiares. Quem ama seu pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim (Mt 10,34-37). Ninguém em sã consciência irá querer tomá-la ao pé da letra, da mesma forma devemos entender a fala de Jesus sobre a condenação ao inferno, já que isso contraria o que nos mostra da misericórdia de Deus.

É muito interessante o que se faz para distorcer a interpretação de determinadas passagens, principalmente aquelas que não se enquadram em seus dogmas. Essa passagem do rico e Lázaro é uma delas. O que podemos retirar dessa parábola, senão isso:

a) de fato haverá sempre um julgamento depois de nossa morte, a nossa consciência será o nosso juiz, as nossas ações serão medidas inevitavelmente.

b) de acordo com as nossas ações será o lugar destinado a nós depois da morte, fato incontestável.

c) que apesar de haver um abismo entre os bons e os maus, é possível sim a comunicação entre eles. Por que Deus não deixaria os bons ajudarem aos maus? Só porque o sr. bispo não gosta disso? Ressaltamos aqui que a comunicação que o sr. bispo quer sutilmente levar a conta de ser entre os vivos e os mortos, na verdade, pela passagem, seria em relação aos mortos.

d) que se houve um pedido para que o rico pudesse voltar a terra para avisar aos irmãos de Lázaro, é porque existe essa possibilidade, pois se fosse ao contrário a resposta seria que isso é impossível, e não que seria inútil.

e) a resposta final de Abraão é taxativa (v.31): “Se eles não escutam a Moisés e aos profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos", o que significa dizer que mesmo que os mortos voltem não adianta pois nem aos vivos escutaram que dirá aos mortos. Mas essa é a maior verdade, pois é o que acontece hoje, pois os mortos estão voltando para avisar os vivos e os vivos não os querendo escutar. Isso, num bom português sem distorcer os fatos como o faz o sr. bispo.

Há ainda uma outra ocorrência que nunca falam dela é que Jesus depois de morto se comunicou, fato comprovado pelo testemunho dos discípulos. Até Paulo, que perseguia aos cristãos, teve um contato com o espírito de Jesus, quando o mestre lhe aparece na estrada de Damasco. A ressurreição de Jesus, em espírito obviamente, é o maior atestado que há comunicação entre os dois planos. Mas para fugir dessa verdade é pregada a ressurreição da carne, principalmente para justificar que Jesus apareceu de carne e osso, já que não se sabe o destino dado ao Seu corpo físico, prato cheio para os dogmáticos afirmarem que apareceu corporalmente. Não ligam a mínima para “o espírito é que dá vida a carne de nada serve” (Jo 6,63), “a carne e o sangue não poderão herdar o reino de Deus” (1Cor 15,50), “Deus é Espírito” (Jo 4,24), “Pai em tuas mãos entrego o meu Espírito” (Lc 23,46), passagens que corroboram a questão da forma espiritual que Jesus se apresentou depois de morto.

Se houver mesmo, então como quer o sr. bispo a via espiritista, quem se passou por Jesus?

Os “iluminados” da Igreja de Roma sabem até mesmo o pensamento de Deus, pois o que decidem dizem ser pela vontade de Deus. Mas é exatamente isso que querem que o povo pense, senão como mantê-lo encabrestado? Chegam a ponto de afirmar que “no plano de Deus para se revelar aos homens estão excluídos os falecidos”, com base em que não sabemos, mas certamente dirão que receberam essa revelação do Espírito Santo, é de se esperar. Só que pediríamos mais coerência ao sr. bispo, pois a manter esse pensamento não poderá aceitar que Jesus revelou alguma coisa a Paulo, o apóstolo dos gentios.

Conforme já afirmamos antes os anjos, seres espirituais que aparecem na Bíblia não são seres criados à parte, mas seres humanos desencarnados, o que prova que nas Suas revelações Deus sempre se utilizou deles. Embora saibamos que a Igreja de Roma irá protestar sobre isso não sabemos por quanto tempo, quem sabe no futuro aparecerá um papa mais lúcido que os anteriores para admitir que a Igreja também estava errada nisso.

Mas o que mais os católicos fazem é perturbar o repouso dos falecidos, quando não deixam os santos “descansarem” para os atenderem em seus absurdos pedidos. Embora não saibamos de onde retiraram que os mortos repousam.

Também sabemos que Jesus não disse tudo a seus discípulos, já que segundo disse, eles ainda não tinham capacidade de entender (Jo 16,12), o que nos deixa diante da certeza que seus ensinamentos não estão completos. Por isso Ele prometeu a vinda do Espírito de Verdade para completar esses ensinamentos. Bom, para nós, não há dúvida alguma de que o Espírito de Verdade foi quem coordenou todos os Espíritos que participaram dessa nova revelação aos homens, justamente, porque viu que a liderança religiosa atual longe estava daquilo que Ele havia ensinado.

A HERESIA DA REENCARNAÇÃO

A suposição da reencarnação ou da pluralidade das existências, chamada também palingenesia, é certamente o ponto central de toda a doutrina espírita. Allan Kardec chega a dizer que é um "dogma" (O Livro dos Espíritos, ns. 171 e 222).

Todo o seu pensamento gira em torno das vidas sucessivas. O progresso contínuo através da reencarnação, da "metensomatose", como diria Platão, é o seu postulado básico. Se riscarmos de suas obras a reencarnação, sobrarão apenas cacos sem valor. Depois da sua morte, em 1870, seus amigos fizeram gravar no monumental dólmen do cemitério Père-Lachaise, em Paris, o apotegma que resume a sua doutrina: "Nascer, morrer, renascer de novo e progredir sem cessar: esta é a lei".

A palavra "reencarnação", composta do prefixo re (designativo de repetição) e do verbo encarnar (tomar corpo), significa etimologicamente: tornar a tomar corpo. Designa a ação do ser espiritual (espírito ou alma) que, tendo já animado um corpo no passado, foi posteriormente dele separado pela morte e agora torna a informar ou vivificar um corpo novo.

Escreve Allan Kardec que "o princípio da reencarnação ressalta de muitas passagens das Escrituras, achando-se espeCialmente formulado, de modo explícito, no Evangelho" (0 Livro dos Espíritos, n. 222). Opina mesmo que "sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, são ininteligíveis, em sua maioria, as máximas do Evangelho" (O Evangelho segundo o Espiritismo, 39ª ed., p. 72).

O vocábulo "reencarnação" não ocorre nos Evangelhos. O mais importante, porém, não é a palavra e sim a doutrina acerca da reencarnação, que pode ser com pendia da nestas quatro proposições:

1ª Pluralidade das existências: a nossa vida atual não é a primeira nem será a última existência corporal; já vivemos e ainda teremos que viver inúmeras vezes em corpos materiais sempre novos.

2ª Progresso contínuo para a perfeição: a lei do progresso impele a alma para sempre novas vidas e não permite não só nenhum regresso, mas nem mesmo um estacionamento definitivo a meio caminho, e muito menos comporta um estado definitivo de condenação sem fim (inferno): mais século, menos século, todos chegarão à perfeição final de espírito puro.

3ª Conquista da meta final por méritos próprios: em cada nova existência, a alma avança e progride na proporção dos seus esforços; todo o mal cometido será reparado com expiações pessoais, sofridas pelo próprio espírito em novas e difíceis encarnações (lei do carma).

4ª Definitiva independência do corpo: na proporção em que avança na incessante conquista para a perfeição final, a alma, em suas novas encarnações, assumirá um corpo sempre menos material, até chegar ao estado definitivo, em que viverá,' para sempre, livre do corpo e independente da matéria.

Sem estes quatro princípios, não há reencarnação. Quem proclama a reencarnação também afirma a pluralidade das existências terrestres, sustenta o progresso contínuo para a perfeição, garante a conquista da meta final por méritos próprios e defende uma vida definitiva independente da matéria.

Mas quem nega estes pontos, quem contesta as vidas sucessivas do homem sobre a terra, a marcha irreprimível e certa para o fim supremo, a necessidade de adquirir a perfeição final só por esforços pessoais e a definitiva independência da matéria, recusará também a idéia da reencarnação.

Por conseguinte, para sabermos se Jesus foi reencarnacionista, teremos o seguinte critério: basta verificar se aceitou ou não aqueles pontos. Daí surgem quatro indagações.

Embora para ficar mais fácil o combate, muitos querem levar a reencarnação para o lado totalmente religioso, na verdade é um princípio que deverá ter na Ciência o seu apoio, pois se trata de uma lei natural que é da alçada da Ciência, e portanto, nada tem a ver com religião ou mesmo com a filosofia, embora sob esses dois pontos possamos também justificá-la.

Há dogmas e dogmas. Evidentemente o mesmo significado que Kardec atribuiu à palavra dogma não é o que a Igreja de Roma usa. Vejamos os textos:

A vida futura

2. Por essas palavras, Jesus claramente se refere à vida futura, que ele apresenta, em todas as circunstâncias, como a meta a que a Humanidade irá ter e como devendo constituir objeto das maiores preocupações do homem na Terra. Todas as suas máximas se reportam a esse grande principio. Com efeito, sem a vida futura, nenhuma razão de ser teria a maior parte dos seus preceitos morais, donde vem que os que não crêem na vida futura, imaginando que ele apenas falava na vida presente, não os compreendem, ou os consideram pueris.

Esse dogma pode, portanto, ser tido como o eixo do ensino do Cristo, pelo que foi colocado num dos primeiros lugares à frente desta obra. E que ele tem de ser o ponto de mira de todos os homens; só ele justifica as anomalias da vida terrena e se mostra de acordo com a justiça de Deus. (KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 1996, p. 63-64)

CONSIDERAÇÕES SOBRE A PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS

222. Não é novo, dizem alguns, o dogma da reencarnação; ressuscitaram-no da doutrina de Pitágoras. Nunca dissemos ser de invenção moderna a Doutrina Espírita. Constituindo uma lei da Natureza, o Espiritismo há de ter existido desde a origem dos tempos e sempre nos esforçamos por demonstrar que dele se descobrem sinais na antigüidade mais remota. Pitágoras, como se sabe, não foi o autor do sistema da metempsicose; ele o colheu dos filósofos indianos e dos egípcios, que o tinham desde tempos imemoriais. A idéia da transmigração das almas formava, pois, uma crença vulgar, aceita pelos homens mais eminentes. De que modo a adquiriram? Por uma revelação, ou por intuição? Ignoramo-lo Seja, porém, como for, o que não padece dúvida é que uma idéia não atravessa séculos e séculos, nem consegue impor-se a inteligências de escol, se não contiver algo de sério. Assim, a ancianidade desta doutrina, em vez de ser uma objeção, seria prova a seu favor. Contudo, entre a metempsicose dos antigos e a moderna doutrina da reencarnação, há, como também se sabe, profunda diferença, assinalada pelo fato de os Espíritos rejeitarem, de maneira absoluta, a transmigração da alma do homem para os animais e reciprocamente. (KARDEC, A. O Livro dos Espíritos, Brasília: FEB, 1995, p. 143)

Pelo contexto, a palavra dogma usada por Kardec deve ser entendida como princípio, assim, querer igualar ao que a Igreja define para esse vocábulo há uma grande distância, já que a Igreja não admite a discussão sobre ele, enquanto, que no Espiritismo, deve-se mesmo questionar tudo. O questionamento é a mola mestra que faz o homem evoluir no conhecimento, é por ele também que deixa de ser “vaquinha de presépio” de pessoas que não têm compromisso com a verdade.

Adoramos a frase muito cristã do sr. bispo “se riscarmos de suas obras a reencarnação, sobrarão cacos sem valor”, mas não se poderia esperar coisa melhor de adversário, não é mesmo? Poderíamos perguntá-lo se todas as obras assistências desenvolvidas pelo movimento Espírita são também cacos sem valor? “Conhece-se a árvore pelos frutos”. Outra coisa que devemos ressaltar é que os que se tornam Espíritas o fazem por livre e espontânea vontade, não ameaçamos ninguém com fogueira tipo inquisição (não ler tipo exportação), não impomos absolutamente nada aos que nos seguem, pois sabemos que “onde não existe liberdade não se acha o espírito do Senhor” (2Cor 3,17).

Realmente, o sr. bispo tem razão já que o vocábulo “reencarnação” não ocorre nos Evangelhos, até mesmo porque só aparece num dicionário no ano de 1858, praticamente um ano após a publicação de O Livro dos Espíritos, deixando-nos, portanto, a certeza de que tal fato ocorreu por influência do Espiritismo.

Usando de suas palavras: “o mais importante, porém, não é palavra em si”, mas provar que crença em que alguém pudesse voltar a viver novamente em outro corpo está no Evangelho. Seguiremos, então a quatro proposições que o sr. bispo usou para negar a reencarnação no Evangelho.

Ah! Só para lembrar ao sr. bispo, o maior herético de todos os tempos chama-se Jesus, por isso ficamos bem por estarmos com ele e não com a Igreja de Roma.

Pluralidade de existências?

Ensinou Jesus a pluralidade das vidas terrestres? Quem conhece, lê e medita habitualmente as sagradas páginas do Evangelho, verificará facilmente que Jesus, quando fala desta nossa atual vida terrestre, costuma atribuir-lhe um valor decisivo para toda a existência posterior à morte; verificará ainda que Jesus insiste muito na importância culminante da hora da morte, advertindo-nos freqüentemente de que devemos estar sempre prontos e preparados para prestar contas da nossa vida ao Juiz Divino, prometendo aos justos recompensa imediata depois do desenlace e contestando abertamente a possibilidade de arrependimento e perdão, uma vez passados os umbrais da eternidade; verificará ainda que Jesus desconhece quaisquer vagabundeios pelos espaços ou, como dizem os espíritas, na "erraticidade", para "progredir continuamente".

Já consideramos a parábola do pobre Lázaro e do rico epulão (Lc 16, 19-31). Nela não encontramos nenhuma perspectiva para novas encarnações, nem para Lázaro, nem para o epulão. Ao ladrão arrependido, crucificado ao lado de Jesus, o divino Salvador prometeu: Hoje mesmo estarás comigo no paraíso (Lc 23, 43). Naquele mesmo dia! Nada de purificar-se em sucessivas existências e de andar pela erraticidade. Desde que o homem se arrependa sinceramente dos pecados cometidos, por maiores que tenham sido, e receba o perdão divino, entra no gozo do seu Senhor.

Particularmente claro é São Paulo, fiel discípulo e zeloso Apóstolo de Jesus Cristo e que nos assegura ter recebido o seu evangelho diretamente de Jesus (Gal 1, 12). Eis o que escreve aos Hebreus: Está decretado que o homem morra uma vez, e depois disto virá o julgamento (Heb 9, 27).

Morra uma vez! Não mais vezes, não muitas vezes, não um número indefinido de vezes: uma só vez! É a afirmação explícita da unicidade da vida terrestre contra o princípio reencarnacionista da pluralidade das existência. É, em outras palavras, a condenação explícita da teoria da reencarnação.

Foi o que recentemente ensinou o Concílio Vaticano II na Lumen Gentium, n. 48: "Vigiemos constantemente, a fim de que, terminado o único curso da nossa vida terrestre, possamos entrar com Ele para as bodas e mereçamos ser contados com os benditos". Por isso diz ainda a Escritura: "A cada um, no dia da sua morte, o Senhor retribuirá, conforme as suas obras" (Ecle 11, 28).

Ensinou Jesus a pluralidade das vidas terrestres? Resposta: “Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar” (Jo 16,12).

Cita novamente a parábola do rico e Lázaro para justificar uma só vida, conforme já dissemos não se pode tomar todas as passagens ao pé da letra.

Também apresenta como prova o ladrão arrependido, ao qual Jesus teria dito: hoje mesmo estarás comigo no paraíso (Lc 23,43). Mas é bom que se esclareça ao leitor que essa história de ladrão arrependido é um novo “conto do vigário”, pois o dito cujo não se arrependeu apenas reconheceu que ele e o outro tinham motivos de estar sendo condenados, e como todo bom puxa-saco, desculpe-nos essa expressão, disse a Jesus: quando estiveres no paraíso lembre-se de mim. Na seqüência é que está colocada a frase citada pelo sr. bispo. Fazemos questão de colocar a passagem, para que não haja dúvidas:

Lc 23,39-43: Um dos criminosos crucificados o insultava, dizendo: "Não és tu o Messias? Salva a ti mesmo e a nós também!" Mas o outro o repreendeu, dizendo: "Nem você teme a Deus, sofrendo a mesma condenação? Para nós é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal." E acrescentou: "Jesus, lembra-te de mim, quando vieres em teu Reino." Jesus respondeu: "Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso”.

E essa mesma narrativa, tomada dos outros evangelistas:

Mt 27,38.44: E foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita e outro à sua esquerda. E os mesmos impropérios lhe diziam também os ladrões que haviam sido crucificados com ele.

Mc 15,27.32: Com ele crucificaram dois ladrões, um à sua direita, e outro à sua esquerda. Também os que com ele foram crucificados o insultavam.

Jo 19,18: Onde o crucificaram, e com ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio.

Analisemos essa história, que nos parece muito mal contada:

1 – Quanto ao diálogo: Mateus, Marcos e João nada relatam de qualquer diálogo entre os três crucificados.

2 – Quanto à atitude: Mateus e Marcos dizem que os ladrões estavam, isto sim, entre os que escarneciam de Jesus. Só Lucas diz que Jesus teria dito para um deles que hoje estarás comigo no Paraíso.

3 – Quanto à testemunha: João que estava ao pé da cruz, ou seja, a testemunha ocular, nada diz sobre este diálogo de Jesus com um dos ladrões.

Como ficaremos diante desses questionamentos?

Interessante que quando a mãe dos filhos de Zebedeu (Mt 20,17-28) pede um bom lugar para os seus dois filhos, Jesus responde: “Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou esquerda”, já aqui nesse episódio, só narrado por Lucas, ele promete ao bom ladrão um lugar no paraíso, estranho, muito estranho! Também há um problema sério, foi que “o bom ladrão” chegou no paraíso antes de Jesus, já que “subiu ao céu” somente no terceiro dia depois de sua morte.

Não bastasse isso, ainda temos mais, veja como está o versículo 43 em relação à pontuação:

Ave Maria: Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso.

SBB: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.

Paulinas: Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no paraíso.

De Jerusalém: Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no paraíso.

Novo Mundo: Deveras, eu te digo hoje: Estarás comigo no paraíso.

Como deve saber o sr. bispo, e muito mais que nós, os textos originais não possuíam pontuação, isso ficava ao sabor do interesse e dá ótica do tradutor. Dessas que citamos escolhemos a que consta da Novo Mundo, porque além de não contrariar o “a cada um segundo suas obras” também se concilia com a resposta dada a mãe dos filhos de Zebedeu, citada um pouco atrás.

Por estes motivos, o argumento usado pelo sr. bispo pecou pela fragilidade.

É o cumulo da insensatez aceitar que “desde que o homem se arrependa sinceramente dos pecados cometidos, por maiores que tenham sido, e receba o perdão divino, entra no gozo do seu Senhor”, pois isso nivela por baixo todas as criaturas que tiverem tempo de se arrependerem, é claro. De que adianta então passar toda uma vida praticando o bem se as pessoas más poderão receber a mesma recompensa? Que diabos de justiça é essa? Aqui quando alguém comete um crime ouvimos: “fez tem que pagar”. Falamos assim, pois achamos justo que o criminoso receba um merecido castigo, entretanto, a justiça divina, que deveria ser infinitamente superior à nossa, não aplica esse princípio?

Gostaríamos de ver um juiz humano soltando um criminoso que diante do júri se diz arrependido e promete não matar mais ninguém. Será que irá ser solto?

Sr. bispo, Paulo está absolutamente certo, o homem físico só morre mesmo uma vez e em toda as suas possíveis reencarnações isso é válido. Seria alguma coisa contrária à reencarnação, embora, para nós, seja apenas a opinião de Paulo, se ele dissesse: ao homem está destinado a viver uma só vez.

Mas deveria buscar em Paulo também o apoio para a “a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus”, para acabar de vez com esse absurdo da ressurreição da carne.

Se no dia da nossa morte seremos julgados, qual a utilidade do juízo final para os que já morreram?

E observando a sua colocação “São Paulo, fiel discípulo e zeloso Apóstolo de Jesus Cristo e que nos assegura ter recebido o seu evangelho diretamente de Jesus”, vemos que por ela se confirma que os mortos se comunicam com os vivos. Comprovar em At 16,7, onde o Espírito de Jesus não permitiu a Paulo seguir para Bitínia.

Mais um vez, os argumentos do sr. bispo se mostram fracos.

Progresso contínuo?

Ensinou Jesus a lei do progresso irreprimível e universal para a perfeição? Para sermos claros e breves: há ou não há a possibilidade de condenação ao inferno? Esta é a questão.

Com absoluta unanimidade, os reencarnacionistas negam a doutrina cristã sobre o inferno. Todos sabem que a Igreja ensina a possibilidade de condenação eterna. Pondera Allan Kardec que "por este dogma a sorte das almas, irrevogavelmente fixada depois da morte, é, como tal, um travão definitivo aplicado ao progresso. Ora, a alma progride ou não? Eis a questão. Se progride, a eternidade das penas é impossível" (O Céu e o Inferno, 16ª ed. p. 77).

Ele é enfático e propõe um claro dilema: "O dogma da eternidade absoluta das penas, é, portanto, incompatível com o progresso das almas, ao qual opõe uma barreira insuperável. Esses dois princípios destroem-se, e a condição indeclinável da existência de um é o aniquilamento do outro. Qual dos dois existe de fato? A lei do progresso é evidente: não é uma teoria, é um fato corroborado pela experiência; é uma lei da Natureza, divina, imprescritível. E, pois, se esta lei existe inconciliável com a outra, é porque a outra não existe" (ib. p. 78).

Não será possível discutir aqui se a tal lei do progresso é compatível com o conceito de eternidade, nem pode ser este o lugar para um discurso sobre os problemas suscitados pela eternidade de um castigo. O que interessa no momento é o dilema proposto: ou admitimos a lei do progresso (e, portanto, a reencarnação), ou admitimos a possibilidade de condenação eterna (e, portanto, rejeitamos a reencarnação); os dois não podem coexistir: quem afirma a eternidade do inferno negará a reencarnação. Ora, não há dúvida de que Jesus de fato ensinou a eternidade das penas do inferno; logo, concluirá Allan Kardec, se quiser ser conseqüente, a mensagem de Jesus é incompatível com a filosofia da reencarnação.

Seria realmente prolixo citar aqui todos os textos dos quatro Evangelhos que os evangelistas colocam na boca do Divino Mestre e que nos falam do inferno. Basta lembrar que, no Juízo Final, a sentença definitiva sobre os maus será: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para 'o diabo e para seus anjos (Mt 25, 46); e Jesus acrescenta que estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna.

Jesus estabelece um perfeito paralelo entre a sorte dos justos (que é de "vida eterna") e a dos maus (que é de "castigo eterno"): uma e outra são simplesmente "eternas". Se, pois, a vida "eterna" dos justos é sem fim, sem fim será também o castigo "eterno". Pois a mesma palavra, na mesma proposição e em igual contexto, deve ser tomada no mesmo sentido.

Ensinou Jesus a lei do progresso irreprimível e universal para a perfeição? Resposta: “Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar” (Jo 16,12).

Respondendo ainda a questão proposta: não há a possibilidade da condenação ao inferno? Primeiro, porque ele não existe, é cópia de culto pagão – dos persas -, mantido pela liderança religiosa como forma de ter seus fiéis sob domínio, através do medo. Agora somos nós quem perguntamos: quando Deus criou o inferno, sr. bispo? O momento para sua criação deveria ter sido quando Deus estabeleceu normas de comportamento para a humanidade, presumimos que os dez mandamentos se enquadram nisso, certo? Bom, então quem for capaz que nos apresente a penalidade divina para quem não os cumprissem como sendo ir para o inferno. Se Ele criou posteriormente e mandou almas para lá sem que tivesse estabelecido essa pena, não agiu com justiça, coisa incompatível com Sua natureza.

Infelizmente temos que dizer que a liderança religiosa está amesquinhando Deus, pois ao atribuir atitudes a Ele que nem mesmo um pai humano teria coragem de fazer, o colocam em piores condições que uma de suas criaturas. E ainda não conseguimos encontrar uma explicação de como um ser finito consegue ofender a um ser infinito, a não ser por ignorância da grandeza incomensurável de Deus.

Qualquer pessoa, com um mínimo senso de justiça, irá ver que aplicar penas eternas para erros insignificantes é fora de propósito. Se, por exemplo, errássemos por 100 anos, o máximo, por questão de justiça, que a nossa pena poderia ir é por 100 anos, daí para frente entraríamos no campo da injustiça, com o tempo de penalidade maior que o da própria falta. Pior ainda quando admitem ser esse castigo eterno.

Evidentemente, poderão objetar que na Bíblia se fala em inferno eterno, ou que Jesus tenha falado nisso, e não seremos nós quem irá negar. Entretanto, cabe-nos, por mínima coerência, perguntar: será que o eterno aí é o mesmo conceito que temos hoje? Não. Eterno para os judeus era um tempo muito longo do qual não se tinha idéia do fim, não é portanto no sentido que damos hoje a essa palavra. Fato que podemos comprovar usando Eclo 39,20: “Seu olhar se estende de eternidade em eternidade, e para ele nada é extraordinário”, já que eternidade só existe uma. Mas podemos afirmar categoricamente que o castigo será eterno, tão eterno enquanto dure.

Com relação à afirmativa do sr. bispo que “todos sabem que a Igreja ensina a possibilidade de condenação eterna”, contra-argumentamos usando Gandhi: "O erro não se torna verdade por multiplica-se na crença de muitos, nem a verdade de torna erro por ninguém a ver...", poderíamos também quem sabe evocar o espírito Galileu Galilei para dar a sua opinião sobre essa questão, não seria uma boa?

O pior é que buscam apoiar-se nas palavras do Cristo, muito embora não as tenham entendido na profundidade desejada. Também podemos buscar várias outras passagens para rebater as que apresentam para justificar o inferno, como por exemplo: “Se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas a seus filhos, quanto mais o Pai de vocês que está no céu dará coisas boas aos que lhe pedirem" (Mt 7,11) e “daí você não sairá, enquanto não pagar até o último centavo” (Mt 5,26).

Muitas vezes é difícil explicar determinada coisa a uma pessoa se ela não tem vivência pessoal daquilo. Como explicar a um padre o que um pai sente em relação a um filho. Mas não vamos usar o amor de pai, vamos apelar para o amor de mãe, que, segundo pensamos é o grau mais elevado do amor que podemos encontrar num ser humano. Aqui vemos as mães até morrerem por seus filhos. Nas rebeliões, em penitenciárias públicas, todas elas, do lado de fora, aguardam ansiosas por notícias de seu filho, que para nós outros, são simplesmente criminosos. Assim, aqui em vida a mãe é abnegação e renúncia a favor do filho, mas depois da morte ela não está mais nem aí para o seu filho, uma vez que elas irão para o céu e os filhos para o inferno. Se a vida após a morte nos modifica, tornando-nos piores que éramos quando vivos, no caso das mães que faziam tudo pelos filhos, depois indiferença total para com seu sofrimento, então de que vale a vida na prática do amor?

Redimir-se a si mesmo?

Ensinou Jesus a necessidade de conquistar a perfeição final por esforços e méritos pessoais?

O cerne da boa nova do Evangelho é precisamente este: Jesus, por sua vida, paixão, morte e ressurreição, reconciliou a humanidade com Deus, satisfazendo superabundantemente pelos pecados de to. dos os homens e de todos os tempos. A nossa redenção por Cristo é a medula da vida neotestamentária. Está em todas as páginas.

É a mensagem que os profetas predisseram e os anjos anunciaram na primeira noite de Natal; é a mensagem de João às margens do Jordão e na qual o próprio Jesus insistiu; é sobretudo a mensagem que os Apóstolos foram depois levar a todos os povos do mundo; é a mensagem mais cara que a Igreja nos conservou através dos séculos e que se tornou o símbolo do Brasil religioso e cristão: Cristo Redentor no alto do Corcovado. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados. E não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo (1 Jo 2, 2). Vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim (Gal 2, 20).

Tal como a entendem os cristãos, a salvação não consiste apenas no perdão dos pecados, mas, e principalmente, na comunicação da vida divina ou, como dizia São Pedro, na participação da natureza divina (1 Pe 1, 4). Em virtude da redenção nos é oferecida a possibilidade de sermos filhos de Deus, e se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, conclui São Paulo (Rom 8, 17).

Daí este ensinamento do Concílio Vaticano 11 que se recolhe no Decreto Ad Gentes (n. 8): "Ninguém por si só e com as próprias forças se liberta do pecado e se eleva acima de si próprio. Ninguém se desprende em definitivo de sua fraqueza, solidão ou servidão. Mas todos necessitam de Cristo exemplar, mestre, libertador, salvador, vivificador"

É a soteriologia cristã. A ela se opõe frontalmente a soteriologia reencarnacionista. Mas por isso mesmo deixa de ser cristã. O reencarnacionismo é visceralmente anti-cristão.

Ensinou Jesus a necessidade de conquistar a perfeição final por esforços e méritos pessoais? Resposta: “Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar” (Jo 16,12).

Engana-se o sr. bispo quanto ao cerne do ensinamento da Boa Nova. Deixando o dogmatismo de lado, veremos que ele está centrado tão somente no “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

Se alguma coisa disse de que pela sua morte haveria remissão dos pecados, só pode ser por adulteração de texto para se justificar algum dogma, já que não acreditamos que iria se contradizer com o “a cada um segundo suas obras” e no simbolismo da separação dos bons e maus, quando diz que irão para a direita os que praticaram o amor ao próximo (Mt 25,31-46). Estão fazendo com Jesus exatamente o que o povo hebreu fazia como prática de expiação dos pecados, quando imolavam um boi para ser oferecido em holocausto à divindade.

Aos que querem fazer de Jesus esse “bode expiatório” então haverão de concordar que de duas uma: ou todos os nossos pecados foram perdoados e, nesse caso, “comamos e bebamos”, ou então teremos que providenciar outro Cristo para pagar pelos nossos pecados, pois a vítima de sacrifício de expiação só poderia remir os pecados do momento do ritual para trás, ou seja, não poderia redimir pecados futuros. Assim, como é que ficamos sr. bispo? Mas a incoerência é evidente, pois apesar de afirmarem que a morte de Jesus redimiu nossos pecados, o pecado de Adão e Eva continua sendo transmitido a todos que nascem, portanto, ficam fora dessa remissão. E pior ainda, todo mundo paga por ele, num pagamento perpétuo. Sem falar que é contrário ao “Os pais não serão mortos pela culpa dos filhos, nem os filhos pela culpa dos pais. Cada um será executado por causa de seu próprio crime” (Dt 24,16).

A falha dessa hipótese é tão evidente que o sr. bispo se contradiz, quando diz que “a salvação não consiste apenas no perdão dos pecados”, o que coloca também a morte de Jesus como ineficaz para a remissão dos pecados, embora tenha defendido essa tese.

No que cita sobre o Concílio Vaticano, e obviamente, não era de se esperar outra coisa, pois se colocarem nas mãos dos próprios fiéis a sua salvação, qual será a necessidade de um padre para servir de intermediário?

Discordamos da frase usada de que “O reencarnacionismo é visceralmente anti-cristão”, retificando-a para “o reencarnacionismo é visceralmente anti-católico”, pois é exatamente isso que é. Pela doutrina da Igreja de Roma só uns poucos se salvarão com certeza, embora tenham dito que já estamos salvos pelo sangue de Jesus, enquanto que pela reencarnação todos nós seremos salvos já que “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10,34). Devemos também ver que Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo que “os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino do Céu” (Mt 21,31), demonstrando que todos irão para o Reino do Céu, apenas que os detestáveis cobradores de impostos e as desprezadas prostitutas iram antes deles.

Outra passagem que merece uma reflexão mais profunda é a parábola do filho pródigo, que nos dá exatamente a idéia que todos nós um dia voltaremos ao seio do Pai.

Independência do corpo?

Ensinou Jesus uma vida definitiva independente da matéria?

Seria a negação da doutrina cristã sobre a ressurreição dos mortos. "Creio na ressurreição da carne": é a profissão de fé desde os tempos apostólicos. São outra vez unânimes os reencarnacionistas em negar a ressurreição.

Neste ponto, porém, a doutrina de Jesus também é clara e enfática: Vem a hora em que todos os que repousam nos sepulcros ouvirão a voz do Filho do homem e sairão: os que tiverem feito o bem, para uma ressurreição de vida; os que tiverem feito o mal, para uma ressurreição de condenação (Jo 5,28-29). E mais adiante declara: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia (Jo 6, 54).

São Paulo dedica todo o longo capítulo 15 da primeira epístola aos Coríntios à defesa e explicação da ressurreição; e argumenta: Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia é também a nossa (1 Cor 15, 13-14).

Ensinou Jesus uma vida definitiva independente da matéria? Resposta: “Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar” (Jo 16,12).

Vejamos essas passagens: “Deus é Espírito” (Jo 4,24), “O espírito é que dá a vida, a carne não serve para nada” (Jo 6,63), “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46) e “a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus” (1Cor 15,50). Observar que todas elas são contrárias à ressurreição da carne. Paulo, inclusive, em 1Cor 15,35-50, é taxativo em dizer que iremos ressuscitar no corpo espiritual. A clareza é tanta que ficamos admirados da coragem da Igreja de Roma em pregar o contrário.

O Espiritismo não nega a ressurreição, apenas não a admite sob a ótica da Igreja, quer por ser contrária aos ensinos de Jesus, quer por ser também ser anticientífica, já que a ciência nos afirma a impossibilidade de se reagrupar, após a decomposição, os elementos que compunham o corpo físico para dá-lo novamente a vida que possuía.

Duas perguntas adicionais

Era João Batista a reencarnação de Elias? Para provar que também Jesus era partidário das vidas sucessivas, Allan Kardec nos manda ver o Evangelho segundo São Mateus, capítulo 17, onde Jesus teria afirmado que João Batista era a reencarnação do profeta Elias.

Mas a argumentação espírita é confusa. E certo que havia alguma relação entre o intrépido João Batista, precursor da primeira vinda de Jesus e o corajoso profeta Elias, o anunciado precursor do segundo advento de Cristo. Já o anjo que viera anunciar a Zacarias o nascimento de João explicara: Ele caminhará à sua frente com o espírito e o poder de Elias (Lc 1, 17).

Sabiam os fariseus e escribas que, segundo a profecia de Malaquias (4, 5), a vinda do Messias seria preparada por Elias. Ora, Jesus de Nazaré declarava ser o Messias: como era isso possível se Elias ainda não aparecera? Era a objeção que os fariseus alegavam contra a autenticidade da missão messiânica de Jesus (cf. Mt 17, 10).

Eles confundiam de fato as duas vindas do Messias: a primeira como Redentor e a segunda como Juiz. Malaquias profetizara a vinda de Elias "antes que venha o dia grande e terrível" do Juízo Final, referindo-se, pois, ao segundo advento de Cristo. O precursor da primeira vinda seria João Batista que, consoante as palavras do anjo, viria "com o espírito e o poder de Elias".

Daí dizer Jesus, para refutar a objeção dos fariseus e tranqüilizar os discípulos: Se quiserdes compreender, ele mesmo (João Batista) é Elias que deve vir. Quem tiver ouvidos, ouça (Mt 11, 14-15). E uma afirmação enigmática. As palavras de Jesus têm no contexto o sentido de que o enviado de Deus que devia preceder a primeira vinda do Messias (e que os judeus confundiam com Elias), já apareceu. E o evangelista acrescenta: Então compreenderam os Apóstolos que Jesus se referia a João Batista (Mt 17, 13).

Por fim, diretamente interrogado por uma comissão de judeus se era Elias, o próprio João Batista respondeu categoricamente: Não o sou (Jo 1, 21), com o que ele mesmo, João Batista, dirimiu a questão.

E como entender o "nascer de novo"? Citando João (3, 3), sustenta Allan Kardec que "as próprias palavras de Jesus não permitem dúvidas a tal respeito". O texto citado seria este: Respondendo a Nicodemos, disse Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se um homem não nascer de novo, não poderá ver o reino de Deus.

A tradução do texto grego, que é o original do Evangelho segundo São João, não é exata. No original grego temos a palavra ánoothen, que quer dizer: nascer do alto, e não: nascer de novo. A tradução exata deve ser: Quem não nascer do alto não pode entrar no reino de Deus.

Mas também Nicodemos não entendera bem a afirmação de Jesus e pediu maiores esclarecimentos. Jesus explica então o seu pensamento: Em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito. Não te admires de eu te haver dito: deveis nascer do alto (Jo 3, 5-7).

Para Jesus, portanto, nascer do alto é o mesmo que nascer da água e do Espírito. E isso não é reencarnação. Também em outros lugares a Sagrada Escritura nos fala desta necessidade de uma "nova" vida, da regeneração espiritual: Renovai-vos, pois, no espírito do vosso entendimento, e vesti-vos do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade verdadeira (Ef 4, 23-24). Noutra ocasião disse Jesus: Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, não haveis de entrar no reino dos céus (Mt 18, 3).

Por isso o sacramento do Batismo, instituído por Jesus Cristo (cf. Mt 28, 19; Mc 16, 16), mas negado pelos reencarnacionistas, foi sempre chamado de "sacramento da regeneração".

São Paulo nos explica muito bem esta doutrina cristã: Também nós antigamente éramos insensatos, desobedientes, extraviados, escravos de toda sorte de paixões e de prazeres, vivendo em malícias e inveja, odiados pelos homens e odiando-nos uns aos outros. Mas quando a bondade e o amor de Deus,nosso Salvador, se manifestaram, ele salvou-nos, não por causa dos atos justos que houvéssemos praticado, mas porque, por sua misericórdia, fomos lavados pelo poder regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele ricamente derramou sobre nós, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que fôssemos justificados pela sua graça, e nos tornássemos herdeiros da esperança da vida eterna (Tit 2, 3-7).

Rico texto cristão, mas que não entra nas categorias reencarnacionistas.

  É hilariante a tentativa do sr. bispo em querer levar uma passagem clara sobre a reencarnação à conta de que Jesus queria apenas “tranqüilizar os discípulos”. Esqueceu-se que a idéia de que uma pessoa poderia voltar é bem nítida nas passagens do Evangelho, especificamente, quando Jesus perguntando aos seus discípulos quem o povo pensava que Ele era. A resposta é uma prova cabal de que acreditavam que uma pessoa poderia voltar num outro corpo, já que pensavam que Jesus poderia ser Jeremias, Elias ou algum dos profetas ressuscitados, palavra que possuía vários significados entre eles o de reencarnar, conforme o exposto.

  O povo hebreu não acreditava em duas vindas do Messias, mas em apenas uma, onde o Messias iriam libertá-los e julgar os ímpios. Só mais tarde é que se passou a aceitar a segunda vinda, isso porque o próprio Jesus disse que voltaria novamente.

  Pelas palavras de Jesus podemos aceitar que João Batista era de quem falava as escrituras (Mt 11,10), relação direta à profecia de Malaquias. Jesus é categórico: João é o Elias que devia vir, como sabia que haveria muitos que não iriam acreditar arremata: “Ouça quem tem ouvidos de ouvir” (Mt 11,15). De fato ainda há muitos que não querem ouvir, como o sr. bispo, por exemplo.

  O historiador Flávio Josefo nos informa que os fariseus acreditavam na ressurreição, com o significado de reencarnação mesmo. Orígenes, um dos pais da Igreja, também defendia essa crença, que era aceita no cristianismo primitivo, só sendo “anatematizada” pelo Concílio de Constantinopla, em 553 d.C, quando foram “revogadas” a idéia da preexistência defendida por Orígenes, forma capciosa de, por tabela, “acabar” com a reencarnação. A história registra isso, o sr. bispo deve muito bem saber, mas se não sabe; deveria.

  Vamos transcrever de um nosso texto intitulado “Reencarnação, o significado bíblico”[1], o seguinte trecho.

Vejamos agora o que ainda mais encontrarmos para desvendar qual era o conceito de ressurreição.

a) Voltar à vida no mesmo corpo

Elias, que ressuscitou um filho de uma viúva (1Rs 17,14),

Elizeu, que fez o mesmo com um filho de uma sunamita (2Rs 4,32-37),

Pedro, por ter ressuscitado a jovem chamada Tabita (At 9,36-40),

Paulo, que fez voltar à vida o menino Êutico, que havia morrido após ter caído de uma janela (At 20,9-12).

Jesus, a filha de Jairo (Mt 9,24), o filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17) e Lázaro (Jo 11,1-44).

Será que realmente houve propriamente uma morte? Devemos observar, que no caso da filha de Jairo, Jesus disse: “a menina não morreu, está dormindo” (Mt 9,24; Mc 5,39 e Lc 8,52). Em relação a Lázaro (Jo 11,1-44) a coisa é mais complicada, pois apesar de Jesus ter afirmado que “esta doença não é para a morte”, e “nosso amigo Lázaro dorme”, o texto bíblico apresenta uma contradição a partir do versículo 13 a 16, dizendo que se trata de morte mesmo. Ora, isso, a nosso ver, para se justificar a tese da ressurreição corporal, fizeram um acréscimo ao texto original, cujo conteúdo se retirarmos da passagem não perde a solução de continuidade da narrativa.

Temos dito, em várias oportunidades, que os médicos de hoje se tivessem vivido naquele tempo seriam considerados “profetas”, pois com certeza, com os atuais conhecimentos de medicina, iriam “ressuscitar” inúmeras pessoas. A grande questão é saber se Lázaro e a filha de Jairo, e o filho da viúva de Naim estavam realmente mortos, ou se passaram por uma EQM - Experiência de Quase Morte, que tem despertado o interesse de vários pesquisadores nos tempos atuais.

Esse conceito é o popular, mas, como já demonstramos pelo Dicionário Bíblico, ele não é exato.

b) Voltar à vida em outro corpo

Lucas (9,7-9): “O tetrarca Herodes, porém, ouviu tudo o que se passava, e ficou muito perplexo por alguns dizerem: ‘É João que foi ressuscitado dos mortos’; e outros: ‘É Elias que reapareceu’; e outros ainda: ‘É um dos antigos profetas que ressuscitou”. Herodes, porém, disse: ‘A João eu mandei decapitar. Quem é esse, portanto, de quem ouço tais coisas?’ E queria vê-lo”. (ver Mt 14,1-2 e Mc 6,14-16).

Lucas (9,18-19): “Um dia Jesus rezava num lugar retirado e seus discípulos estavam com ele. Ele lhes fez a seguinte pergunta; ‘Quem sou eu no dizer das turbas?’ Eles responderam: ‘Para uns, João Batista, para outros, Elias ou algum dos antigos profetas ressuscitado’”. (ver também Mt 16,13-19; Mc 8,27-28).

          Por essas passagens podemos perfeitamente saber que o povo realmente acreditava que alguém que já havia morrido poderia voltar como outra pessoa, senão não teria sentido o que o povo pensava a respeito de Jesus. E se isso não fosse possível, com certeza, Jesus teria dito dessa impossibilidade. Assim, fica claro que o conceito de ressuscitar aqui nessas passagens pode muito bem ser entendido por reencarnar.

          Somente devemos fazer uma ressalva quanto a João Batista, que não poderia se enquadrar nesse conceito, nós o estaremos explicando no item “d”.

c) Ressurgir em Espírito

Qual a ressurreição foi pregada por Jesus, a da carne ou a do Espírito?

Para responder essa questão é necessário lermos a resposta que Jesus deu aos saduceus, negadores da ressurreição, sobre uma mulher que, para cumprir a lei mosaica, teve que casar com os sete irmãos. A dúvida deles era, quando da ressurreição ela seria mulher de qual deles? A isso responde Jesus: “As pessoas deste mundo se casam. Contudo, as que são julgadas dignas de ter parte naquele mundo e na ressurreição dos mortos, lá não se casam. E já não podem morrer outra vez, porque são iguais aos anjos e filhos de Deus, sendo participantes da ressurreição”. (Lc 20, 34-36). São iguais aos anjos, isso significa que serão seres espirituais, daí não se justifica mais o casamento, que é coisa para os que possuem corpos materiais.

Jesus disse que “O espírito é que dá vida a carne de nada serve” (Jo 6,63), o que vem reforçar a nossa natureza como sendo a espiritual. Por outro lado, partindo de que “Deus é Espírito” (Jo 4,24) e que somos a sua imagem e semelhança, é inevitável concluirmos que, na verdade, somos também Espíritos.

Seguindo a leitura de Lucas, temos: “E que os mortos ressuscitem, é Moisés quem dá a conhecer através do episódio da Sarça Ardente, quando chama ao Senhor: o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos; para ele, então, todos são vivos”. (Lc 20, 37-38). Considerando que se afirma, na narrativa, que Abraão, Isaac e Jacó “todos são vivos” e que ainda não aconteceu o juízo final, para a esperada ressurreição dos corpos, se eles são vivos, são vivos, portanto, em Espírito. E concluindo, pela comparação de Jesus, eles já ressuscitaram, ou seja, estão vivendo a vida do Espírito, por isso não morrem mais.

Assim, concluímos que, o que Jesus ensinou foi a ressurreição do Espírito, não a do corpo físico, dogma de igrejas tradicionais. O que também poderá ser confirmado em Paulo, quando diz: “a carne e o sangue não poderão herdar o reino de Deus” (1Cor 15,50)

d) Ressurgir em Espírito influenciando outra pessoa

Mateus 14,1-2: “Naquele tempo, Herodes, o tetrarca, veio a conhecer a fama de Jesus e disse aos seus oficiais: ‘Certamente se trata de João Batista: ele foi ressuscitado dos mortos e é por isso que os poderes operam através dele!’”.

Essa passagem nós a estamos colocando para explicar a questão de João Batista. Ora, se acreditavam que Jesus estava fazendo prodígios porque “os poderes de João Batista operam através dele”, isso, num português bem claro, seria a possibilidade de um morto exercer algum tipo de influência sobre um vivo. Confirmando, pelo menos como uma hipótese muito provável, que aceitavam a interferência dos mortos sobre os vivos, ou seja, isso nada mais é que a comunicação entre os dois planos da vida.

Assim, também, podemos dizer que ressurreição, neste caso, seria a volta de um morto à condição de espírito.

Quanto à justificativa para não se aceitar a reencarnação de que João Batista negou ser Elias, apesar de preferirmos ficar com Jesus que afirmou que ele é, podemos explicar com o que os Espíritos responderam a Kardec:

392. Por que perde o Espírito encarnado a lembrança do seu passado?

“Não pode o homem, nem deve, saber tudo. Deus assim o quer em Sua sabedoria. Sem o véu que lhe oculta certas coisas, ficaria ofuscado, como quem, sem transição, saísse do escuro para o claro. Esquecido de seu passado ele é mais senhor de si”. (KARDEC, A. O Livro dos Espíritos, Brasília: FEB, 1995.)

  Assim, por não se lembrar do seu passado como Elias é que João Batista negou essa possibilidade. Mas aqui há um fato muito interessante, leiamos:

Mt 11, 11-12: “Eu garanto a vocês: de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino do Céu é maior do que ele. Desde os dias de João Batista até agora, o Reino do Céu sofre violência, e são os violentos que procuram tomá-lo”.

Dois pontos a considerar. Primeiro, levando-se em consideração que “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10,34), como explicar que nenhum homem é maior que João Batista a não ser aceitando que ele em vidas anteriores deve a oportunidade de se tornar “maior”, quando, evidentemente, evoluiu mais rapidamente que os outros homens. Segundo, para alguém que lhe é contemporâneo não se aplicaria a expressão “desde os dias”, por ser ilógico, entretanto, se entendemos que “desde os tempos em que João vivia como Elias”, as coisas se encaixam como uma luva ao conceito da reencarnação.

Sobre o nascer de novo, vamos, também recorrer a um outro texto nosso intitulado: Conversa de Jesus com Nicodemos[2]:

O texto em exame

A passagem está em João capítulo 3, versículos de 1 a 12, leiamos:

1. Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um notável entre os judeus. 2. à noite ele veio encontrar com Jesus e lhe disse: “Rabi, sabemos que vens da parte de Deus como mestre, pois ninguém pode fazer os sinais que fazes, se Deus não estiver com ele”. 3. Jesus lhe respondeu: "Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus”. 4. Disse-lhe Nicodemos: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Poderá entrar segunda vez no seio de sua mãe e nascer?” 5. Respondeu-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. 6. O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito. 7. Não te admires de eu te haver dito: deveis nascer de novo. 8. O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito” 9. Perguntou-lhe Nicodemos: “Como isso pode acontecer?” 10. Respondeu-lhe Jesus: “És mestre em Israel e ignoras essas coisas? 11. Em verdade, em verdade, te digo: falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, porém não acolheis o nosso testemunho. 12. Se não credes quando vos falo das coisas da terra, como crereis quando vos falar das coisas do céu?” (Bíblia de Jerusalém).

          O realce aos termos dos versículos 3 e 7, é nosso, já que devemos destacar isso mais à frente.

A Teologia Católica

          A polêmica instala-se por conta do termo grego anóthem, que tanto pode ser entendido como “de novo” quanto “do alto”. Isso é um prato cheio para que os teólogos tirem dessa passagem a idéia da reencarnação, para introduzir a idéia do batismo.

          Uma das traduções que destacamos é a da Bíblia de Jerusalém, pelo motivo dela ter sido elaborada por uma equipe de tradutores católicos e protestantes. Nela lemos a seguinte explicação: “João emprega um termo grego, anóthem, que significa também ‘do alto’ (cf. 3, 7.31). Esse duplo sentido não existe na língua de Jesus e de Nicodemos”. (p. 1847). Aqui vemos um golpe de morte naqueles que querem buscar nisso um pretexto para retirar dessa passagem a idéia da reencarnação.

          Vejamos o que encontramos em outras Bíblias católicas:

Ave Maria: no v. 4 está dito “renascer”, e quanto ao v. 5 explicam que é uma alusão ao batismo.

Pastoral: apenas no v. 3 usaram “do alto”, buscam, também, relacionar essa passagem ao rito do batismo.

Barsa: aplicaram ao v. 3 a expressão “renascer de novo”, no v. 5 “renascer” e no 7 “nascer outra vez”. Embora não falem nada sobre batismo, implicitamente querem levar a essa idéia quando, no v. 5, ao invés de colocar “e do Espírito”, mudam para “e do Espirito Santo”. Um detalhe importante dessa Bíblia é sua antigüidade; foi editada em 1965, do que concluímos que nas edições mais recentes, a preocupação de retirar a idéia da reencarnação fica mais evidente.

Santuário: Usam no v. 3 e 5 “de novo”, na explicação do v. 3, colocam:

“O termo grego aqui empregado é ambíguo. Tanto se pode traduzir por ‘nascer de novo’ como por ‘nascer do alto’. Nicodemos entende-o no primeiro sentido, como se vê pelo contexto. Jesus, porém, reconduz a conversa ao seu caminho: os que pertencem ao Reino, não são os que nasceram da carne e do sangue (os descendentes de Abraão, como pensavam os judeus), mas os que nasceram de Deus (cf. Jo 1,13). Tal nascimento realiza-se no batismo (Jo 3,5)”.

Do Peregrino: informam-nos que Nicodemos em grego quer dizer “vitória do povo”, aliás significativo para a idéia da reencarnação.

Vozes: nos v. 3 e 7, aplicam o “do alto”, dando a seguinte explicação:

“A expressão nascer do alto (v. 3) em grego pode se entendida também como nascer de novo, como faz Nicodemos (v.4), no sentido de ser concebido e dado à luz. Jesus, no entanto, fala de um novo nascimento de Deus, da água e do Espírito Santo (v.5), numa referência direta ao rito do batismo (cf. 1,12s)”.

Aqui temos a confirmação de que, pelo contexto, a expressão deverá ser entendida como “nascer de novo”, pois foi assim que Nicodemos entendeu, conforme nos afirmam alguns tradutores da Bíblia. Não adianta, para justificar o contrário, querer comparar o significado de uma palavra colocada em textos diferentes, pois poderá muito bem ter significados distintos, o que somente o contexto de cada uma poderá dar a conhecer.

          Quanto à questão do batismo iremos falar mais à frente, noutro tópico.

(....)

Jesus estaria pregando o Batismo?

Um fato incontestável é que Jesus nasceu, viveu e morreu como judeu. Também não há como discutir que o batismo não era prática ritualística do judaísmo, que era a da circuncisão, ato a que, segundo narrativa no Evangelho, o próprio Jesus foi submetido.

Curioso é que, dos quatros evangelistas, somente João diz algo sobre o batismo. Primeiro, ele afirma que Jesus batizava (Jo 3, 22), entretanto, logo depois contradiz o que disse antes dizendo que Jesus mesmo não batizava, mas sim os seus discípulos (Jo 4, 2). O que nos deixa desconfiados, pois sabemos que os Evangelhos foram escritos em grego, exceto o de Mateus que foi em aramaico, e que João era iletrado, portanto, sem instrução (At 4, 13), como então poderia ter escrito o Evangelho que lhe é atribuído? Por isso, não é absurdo supor que, na verdade, outra pessoa o escreveu, fato que nos coloca diante também da possibilidade de que os textos poderiam ter sido ajeitados aos interesses dogmáticos daquela época. Todavia, a contradição pode ser apenas aparente, já que o batismo de Jesus não era o mesmo batismo de João Batista. Sobre isso encontramos uma passagem que diz: “Eu, na verdade, vos batizo em água, na base do arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu, que nem sou digno de levar-lhe as alparcas; ele vos batizará no Espírito Santo, e em fogo.” (Mt 3,11)

Outrossim, considerando que Nicodemos “era membro do Conselho supremo chamado Sinédrio” (Ave Maria, p. 1386), portanto, entendedor das práticas ritualistas dos judeus, como explicar que “ignorava essas coisas” se Jesus tivesse se referindo ao batismo? Pois se fosse mesmo isso, a ele era muito fácil de entender. Se ignorava é porque, na verdade, era sobre outra coisa que Jesus lhe falava. Pelos seus questionamentos a Jesus, fica claro que era algo mais profundo do que um simples batismo, teria que ser de um assunto mais complexo que esse. Com certeza, a reencarnação é algo assim, já que a maioria das pessoas por “ignorar essas coisas”, não sabe exatamente como pode “um homem velho voltar a nascer de novo, porventura irá entrar no ventre de sua mãe para nascer pela segunda vez?” A esses Jesus replicaria, como já o fizera antes: “Não te admires disso”.

Não obstante tudo isso, se o batismo nas águas fosse mesmo uma prática recomendada aos Cristãos, porque Paulo não deu ênfase a isso? Ele mesmo o responde:

“Para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. É verdade, batizei também a família de Estéfanas, além destes, não sei se batizei algum outro. Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não em sabedoria de palavras, para não se tornar vã a cruz de Cristo”. (1Cor 1, 15-17).

Informa-nos L. Palhano Jr.:

(...) A água tinha grande simbolismo entre os hebreus; tanto o espírito como as água são fecundos (Is 32:15; 44:3; Ez 36:25-27); o espírito é coisa que Deus envia e derrama, como água (Jl 3:1-2; Zc 12:10). Água era uma expressão para indicar influências boas ou más, como no (Sl 1:3): “Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto na estação própria, e cujas folhas não caem; e tudo quanto fizer prosperará”. (...) (p. 403). (grifo do original)

Daí a necessidade de pegá-la pelo seu simbolismo e não no sentido literal como querem se apegar os que não acreditam na reencarnação. Ademais, se compararmos os versículos 5 e 6 e a respectiva conclusão no 7, veremos que não poderá ser mesmo do batismo que Jesus falava. Existe uma evidente relação entre o versículo 5 e o 6, especificamente nas expressões “nascer da água” com “nasceu da carne é carne” e “nasceu do Espírito” com “nasceu do Espírito é espírito”. Essa relação nada tem a ver com batismo e nem mesmo com renovação espiritual como acreditam muitos outros, já que Jesus finaliza taxativo: “Não te admires de eu te haver dito: deveis nascer de novo” (v. 7). Significando que o homem fisicamente descende do homem, e o Espírito provém de Deus.

Por outro lado, sendo a reencarnação coisa da terra explicaria, indubitavelmente, essa fala final de Jesus a Nicodemos: “Se não credes quando vos falo das coisas da terra, como crereis quando vos falar das coisas do céu?” (v. 12).

Embora não seja do desejo do sr. bispo, a reencarnação está sim entre os ensinamentos de Jesus, entretanto, para ele deve ser necessário combatê-la, pois ela é uma arma terrível contra a exploração religiosa, já que a nossa salvação passa para nossas próprias mãos.

Conclusão

Sustenta Allan Kardec que, "sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, são ininteligíveis, em sua maioria, as máximas do Evangelho".

Depois de tudo o que acabamos de ver, podemos inverter a frase e concluir: se admitimos a pluralidade das existências terrestres, a garantida salvação final de todos os seres racionais, a necessidades de conquistar a perfeição por esforços e méritos próprios e a vida espiritual definitivamente independente do corpo; se, em suma, admitimos o princípio da reencarnação, então, sim, seriam ininteligíveis, na sua maioria, as máximas do Evangelho.

A palavra "reencarnação" está prenhe de postulados, pressuposições, princípios e conclusões diretamente contrários à mensagem do Evangelho. Na verdade, seria difícil encontrar outro termo tão carregado de elementos opostos à doutrina cristã. Em um só vocábulo estão compreendidas as mais radicais heresias contra a fé cristã: reencarnação.

Por tudo isso o católico não aceita o espiritismo.

  Acreditamos que o sr. bispo irá defender até à sua morte essa idéia, mas a reencarnação, conforme já afirmamos, é uma questão de lei natural, nada tem a ver com religião. Achamos que Kardec o ajudaria a entender melhor o Evangelho. Dia virá em que a reencarnação será provada cientificamente, temos absoluta certeza disso, dada as fortes evidências já acumuladas por inúmeros pesquisadores, a questão agora é só de tempo. Esperamos que, quando isso acontecer, o sr. bispo não leve quatrocentos anos para aceitá-la.

O ESPíRITA PERANTE A IGREJA

Em 1953, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil reafirmou a determinação feita pelo Episcopado Nacional na Pastoral Coletiva de 1915, revista pelos Bispos em 1948 nestes termos:

"Os espíritas devem ser tratados, tanto no foro interno como no foro externo, como verdadeiros hereges e fautores de heresias, e não podem ser admitidos à recepção dos sacramentos, sem que antes reparem os escândalos dados, abjurem o espiritismo e façam a profissão de fé".

Segundo o novo Código de Direito Canônico (de 1983), "chama-se heresia a negação pertinaz, após a recepção do batismo, de qualquer verdade que se deve crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dela" (cân. 751).

E no cânon 1364 § 1, a nova legislação eclesiástica determina que "o herege incorre automaticamente em excomunhão", isto é, deve ser excluído da recepção dos sacramentos (cân. 1331 § 1), não pode ser padrinho de batismo (cân. 874) nem de confirmação (cân. 892), e não lhe será lícito receber o sacramento do matrimônio sem licença especial do Bispo (cân. 1071) e sem as condições indicadas pelo cânon 1125. Também não pode ser membro de associação ou irmandade católica (cân. 316).

Ao compararmos a doutrina espírita com a mensagem cristã, vimos que o espiritismo de fato nega quase todo o Credo Apostólico. E quando analisamos a teoria da reencarnação, ficou claro que a palingenesia se opõe, em pontos essenciais, à pregação de Nosso Senhor Jesus Cristo, negando, principalmente, toda a soteriologia cristã.

É evidente, pois, que o católico, quando adota a doutrina espírita, se enquadra na descrição que o citado cânon 751 faz da heresia, cometendo um "delito contra a religião", segundo a terminologia do novo direito eclesiástico, e incorre na penalidade prevista pelo cânon 1364 § 1. Ou, falando mais exatamente: o católico que resolve tornar-se espírita, por esse fato, exclui-se a si mesmo da Igreja Católica, perdendo todos os direitos de católico.

Mas, na prática pastoral, a aplicação destas determinações jurídicas encontra a seguinte dificuldade: o vocábulo "espírita" é, de fato, entre nós, polivalente. Já Allan Kardec observava em suas Obras Póstumas (20ª edição, p. 367 s.):

"O qualificativo de espírita, aplicado sucessivamente a todos os graus de crença, comporta uma infinidade de matizes, desde o da simples crença nas manifestações, até as mais altas deduções morais e filosóficas; desde aquele que, detendo-se na superfície, não vê nas manifestações mais do que um passatempo, até aquele que procura a concordância dos seus princípios com as leis universais e a aplicação dos mesmos princípios aos interesses gerais da Humanidade; enfim, desde aquele que não vê nas manifestações senão um meio de exploração em proveito próprio, até o que haure delas elementos para seu próprio melhoramento moral. Dizer-se alguém espírita, mesmo espírita convicto, não indica, pois, de modo algum, a medida da crença, essa palavra exprime muito com relação a uns, e muito pouco, relativamente a outros. Uma assembléia para a qual se convocassem todos os que se dizem espíritas apresentaria um amálgama de opiniões divergentes, que não poderiam assimilar-se reciprocamente, e nada de sério chegaria a realizar, sem falar dos interessados a suscitarem no seu seio as discussões a que ela abrisse ensejo".

Mas, pondo de lado as ambigüidades, pode-se dizer que, segundo Allan Kardec, "espírita" é todo o espiritualista que admite a prática da evocação dos falecidos. Sobre esta base mínima podem constituir-se os mais variados sistemas doutrinários. Assim, são "espíritas" os adeptos do espiritismo anglo-saxão que não aceitam a doutrina da reencarnação, como são "espíritas" os que fazem das idéias reencarnacionistas o ponto central da sua filosofia. E porque os partidários da Umbanda praticam assiduamente a evocação dos falecidos (e, aliás, endossam a doutrina da metensomatose), também eles são "espíritas" verdadeiros, no sentido original em que Allan Kardec entendia o vocábulo por ele criado.

E como não existe nenhum nexo necessário entre a prática da evocação dos falecidos e, a doutrina da reencarnação, é perfeitamente imaginável que alguém aceite e pratique a necromancia sem admitir a palingenesia, como é igualmente concebível que alguém adote a filosofia da pluralidade das existências sem endossar a prática da evocação das almas dos que morreram. Mas, a dimensão herética (isto é, negadora da doutrina de fé cristã) do espiritismo está principalmente na reencarnação. Pode-se admitir ainda que alguém professe sinceramente toda a doutrina cristã, tal como é proposta pela Igreja Católica, e ao mesmo tempo julgue ser possível e lícito evocar os falecidos.

Já é evidente que nem todos, embora se digam ou sejam chamados "espíritas", podem ou devem ser considerados ou tratados. da mesma maneira. Há evidente necessidade de distinguir:

1.° Os que dirigem ou organizam o espiritismo (em qualquer de seus ramos) ou um centro espírita ou terreiro de Umbanda, e os que tomam parte ativa nas sessões (médiuns): são espíritas no sentido mais estrito do termo, valendo para eles a determinação do Episcopado nacional: "devem ser tratados como hereges". Mas esta norma se aplica apenas aos que antes eram ou diziam ser católicos.

O mesmo não vale para os que já nasceram num ambiente espírita e nele foram educados. Os espíritas convictos e coerentes já não fazem batizar os seus filhos, visto que, como lhes fez saber em 1952 o Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira, "o Espiritismo é religião sem ritos, sem liturgia e sem sacramentos". Por conseguinte, já não são nem cristãos e devem ser considerados e tratados como os demais adeptos de religiões não-cristãs.

2.° Os que se inscreveram como sócios em alguma entidade espírita. Os espíritas costumam controlar a fidelidade de seus sócios mediante caderneta individual, carimbada cada mês. Quem deixar de cumprir durante seis meses os seus deveres de sócio é excluído.

Segundo os Preceitos Gerais, publicados pela Federação Espírita Brasileira e válidos para todas as sociedades espíritas do Brasil, os sócios inscritos têm os seguintes deveres:

a) estudar a doutrina espírita (que aqui no Brasil é reencarnacionista);

b) freqüentar regularmente as sessões de estudo da doutrina;

c) pagar pontualmente as suas contribuições pecuniárias.

Deve-se, pois, supor que todo o sócio de mais de seis meses, não é apenas necromante, mas também reencarnacionista e, como tal, herege, e assim há de ser tratado.

3.° Os que, embora não inscritos, freqüentam habitualmente, por mais de seis meses, sessões para consultar os mortos, receber receitas ou passes, etc. As assim chamadas "sessões públicas de estudo" são franqueadas a todos indistintamente. Mas toda sessão desta espécie é doutrinária: nela se ensina e administra a doutrina espírita (reencarnacionista). Por conseguinte, quem por mais de meio ano assiste habitualmente a tais sessões, já não pode ser tido apenas como necromante, mas com razão é considerado adepto da doutrina reencarnacionista. Logo, é herege e deve ser tratado como tal.

4.° Os que esporadicamente vão às sessões para consultar os falecidos, receber passes, receitas etc., levados talvez pela necessidade (doença, tristeza pela morte de alguém da família, situação embaraçosa) ou a convite insistente de amigos, vizinhos, etc.

Supondo que não vão por mera curiosidade, eles não são necessariamente reencarnacionistas; são, todavia, necromantes ou "espíritas" no sentido lato do termo, tal como foi definido por Allan Kardec. Se admitem a reencarnação, são sem dúvida hereges e como tais deverão ser tratados.

Mas se não aceitam a pluralidade das existências, senão apenas a prática da evocação, serão também hereges?

A Santa Sé declarou que este tipo de práticas inclui um "engano inteiramente ilícito e herético" (em latim: "deceptio omnino illicita et haereticalis", cf. Dz 1653 e 1654). Neste documento, de 1856 (naqueles anos começava na França a prática da evocação dos falecidos), a Santa Sé repete por duas vezes ser pecado de heresia querer aplicar meios puramente naturais com o fim de obter efeitos não-naturais ou supra-naturais. Por conseguinte, o espiritismo como evocação dos mortos, seja na forma de necromancia ou de magia, já é herético e, aliás, puro "engano".

É preciso atender bem a este particular: estas práticas da evocação são rejeitadas não apenas como ilícitas (nisto está o pecado, pois, como vimos, a evocação é um ato severamente interditado por Deus) ou contra a moral, mas também como heréticas ou contrárias à fé cristã. A heresia está na suposição de se poderem produzir efeitos não naturais com meios naturais.

5.° Os que vão de quando em quando às sessões espíritas por motivo de estudo ou divertimento ou de mera curiosidade. A suposição é que não são reencarnacionistas, nem querem praticar a evocação. Podemos dividi-los em duas categorias:

a) Os que fazem isso sem nenhuma licença: não são espíritas (é a suposição), mas praticam um ato ilícito e expressamente proibido pela Igreja, pois pelo Decreto de 24 de abril de 1917 declarava a Santa Sé ser ilícito" assistir a sessões ou manifestações espiritistas, sejam elas realizadas ou não com o auxílio de um médium, com ou sem hipnotismo, sejam quais forem estas sessões ou manifestações, mesmo que aparentemente simulem honestidade ou piedade; quer interrogando almas ou espíritos, ou ouvindo-lhes as respostas, quer assistindo a elas com o pretexto tácito ou expresso de não querer ter qualquer relação com espíritos malignos".

b) Os que fazem isso devidamente autorizados. Bons moralistas interpretam a citada decisão de 1917 de tal maneira que. pode ser dispensada, em casos particulares, em favor de médicos, sociólogos ou outros estudiosos que vão, não por curiosidade, não apenas para ver, mas para estudar. Excluída, pois. toda a evocação e com a condição de que não ocorra perigo nenhum de perversão própria, nem de I escândalo para outros, poderia o Bispo permitir a assistência.

6.º Os que nunca assistem às sessões, mas por qualquer motivo ajudam moral ou materialmente na construção ou manutenção de obras e empresas espíritas. São os fautores do espiritismo no Brasil. Tal cooperação consciente seria ilícita. E evidente, porém, que não devem ser tratados como espíritas ou hereges e sim como "fautores de heresia", conceito que já não ocorre na nova legislação canônica, mas que nem por isso deixa de ter o seu valor.

7.º Os que assistem às sessões ou apóiam moral ou materialmente o espiritismo por ignorância. No Brasil, são muitos. Devem ser tratados como ignorantes; isto é: devem ser instruídos. O presente livrinho foi escrito também com este objetivo.

8.º Os que não querem praticar nem a necromancia nem a magia, não assistem às sessões espíritas, mas professam a doutrina da reencarnação, como os esoteristas, rosacruzes, teósofos e outros ocultistas. São hereges formais e como tais devem ser tratados.

Cita o sr. bispo, no início desta parte, o seguinte: “Em 1953, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil reafirmou a determinação feita pelo Episcopado Nacional na Pastoral Coletiva de 1915, revistas pelos Bispos em 1948...”, isso merece uma pergunta: será que não tem algo mais novo por aí? Mas é impressionante que o que é fonte de orgulho para uns para nós é sinal de ortodoxia. Imagine a primeira data citada é o ano de 1915, é bem provável que os bispos daquela época já estejam até reencarnados, provando a inflexibilidade da igreja para determinados assuntos, como se os costumes e a humanidade não evoluíssem. Para se chegar a bispo há que se ter muita experiência o que custa anos de estudo, assim concluímos que os bispos que se juntaram em 1915 para tomar certas decisões não eram de membros novos, certamente eram os arcaicos de sua época, será difícil assim à Igreja a renovação?

Agora vamos provar a esperteza do sr. bispo que deveria fielmente seguir o Catecismo da Igreja Católica, um livro básico de sua crença, que diz:

2482 - "A mentira consiste em dizer o que é falso com a intenção de enganar." O Senhor denuncia na mentira uma obra diabólica: "Vós sois do diabo, vosso pai, . . nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira" (Jo 8,44).

2483 - A mentira é a ofensa mais direta à verdade. Mentir é falar ou agir contra a verdade para induzir em erro. Ferindo a relação do homem com a verdade e com o próximo, a mentira ofende a relação fundante do homem e de sua palavra com o Senhor.

2484 - A gravidade da mentira se mede segundo a natureza da verdade que ela deforma, de acordo com as circunstâncias, as intenções daquele que a comete, os prejuízos sofridos por aqueles que são suas vítimas. Embora a mentira, em si, não constitua senão um pecado venial, torna-se mortal quando fere gravemente as virtudes da justiça e da caridade.

2485 - A mentira é condenável em sua natureza. E uma profanação da palavra que tem por finalidade comunicar a outros a verdade conhecida. O propósito deliberado de induzir o próximo em por palavras contrárias à verdade constitui uma falta à justiça e à caridade. A culpabilidade é maior quando a intenção de enganar acarreta o risco de conseqüências funestas para aqueles são desviados da verdade.

2486 - A mentira (por ser uma violação da virtude da veracidade) é uma verdadeira violência feita ao outro porque o fere em sua capacidade de conhecer, que é a condição de todo juízo e de decisão. Contém em germe a divisão dos espíritos e todos os males que ela suscita. A mentira é funesta para toda a sociedade; mina a confiança entre os homens e rompe o tecido das relações sociais.

Como meia verdade é uma mentira, leiamos, na integra, o que Kardec disse, para não ficarmos com as meias palavras e sujeitos à má-fé alheia:

DO PROGRAMA DAS CRENÇAS

A condição absoluta de vitalidade para toda reunião ou associação, qualquer que seja o objeto, é a homogeneidade, quer dizer, a unidade de vistas, de princípios e de sentimentos, a tendência para um mesmo objetivo determinado, em uma palavra, a comunhão de pensamentos. Todas as vezes que homens se reúnem em nome de uma idéia vaga, jamais chegam a se entender, porque cada um compreende essa idéia à sua maneira. Toda reunião formada de elementos heterogêneos leva em si os germes da sua própria dissolução, porque ela se compõe de interesses divergentes, materiais, ou de amor-próprio, tendendo a um objetivo diferente, que se combatem, e muito raramente estão dispostos a fazer concessões ao interesse comum, ou mesmo à razão; que sofrem a opinião da maioria se não puderem fazê-lo de outro modo, mas que não se reúnem jamais francamente.

Assim o foi até este dia com o Espiritismo; formado gradualmente, em conseqüência de observações sucessivas, como todas as ciências, a aceitação tomou pouco a pouco mais amplitude. A qualidade de Espírita, aplicada sucessivamente a todos os graus da crença, compreende uma afinidade de nuanças, desde a simples crença nos fatos de manifestações, até às mais altas deduções morais e filosóficas; desde aquele que, detendo-se na superfície, nele não vê senão um passatempo de curiosidade, até aquele que procura concordância dos princípios com as leis universais, e suas aplicações aos interesses gerais da Humanidade; enfim, desde aquele que nele não vê senão um meio de exploração em seu proveito, até aquele que nele haure os elementos de sua própria melhoria moral.

Dar-se por Espírita convicto, não indica, pois, de nenhum modo, a medida da crença; essa palavra é muito dita por uns, e muito pouco pelos outros. Uma assembléia na qual se convocasse todos aqueles que se dizem Espíritas, apresentaria um amálgama de opiniões divergentes que não saberiam se assimilar e não desembocariam em nada de sério; sem falar dessas pessoas interessadas em nela semear a discussão, às quais abriria suas portas.

Essa falta de precisão, inevitável no início e durante o período de elaboração, freqüentemente causou equívocos lamentáveis, naquilo que fez atribuir à Doutrina o que não era senão o abuso ou um desvio. Foi em conseqüência dessa falsa aplicação que é diariamente feita da qualidade de Espírita, que a crítica, que pouco se inquieta com o fundo das coisas, e ainda menos com o lado sério do Espiritismo, pôde encontrar matéria para a zombaria. Que um indivíduo se diga espírita ou pretenda fazer do Espiritismo, o que os prestidigitadores pretendem fazer da física, fosse ele um saltimbanco, é, aos seus olhos, o representante da Doutrina.

Tem-se feito, é verdade, uma distinção entre os bons e os maus, os verdadeiros e os falsos Espíritas, os Espíritas mais ou menos esclarecidos, mais ou menos convencidos, os Espíritas de coração, etc.; mas essas designações, sempre vagas, nada têm de autênticas, nada que as caracterizem quando não se conhece os indivíduos, e quando não se teve ocasião de julgá-los pelas suas obras.

Pode-se, pois, ser enganado pelas aparências. Disso resulta que a qualidade de Espírita, não permitindo senão uma aplicação incompleta, não é uma recomendação absoluta; essa incerteza lança nos espíritos uma espécie de desconfiança que impede estabelecer entre os adeptos um laço sério de confraternidade.

Hoje, que se fixou, entre todos, os pontos fundamentais da Doutrina, e sobre os deveres que incumbem a todo adepto sério, a qualidade de Espírita pode ter um caráter definido que não tinha antes. Um formulário de profissão de fé pode ser estabelecido, e a adesão, por escrito, a esse programa, será um testemunho autêntico da maneira de encarar o Espiritismo. Essa adesão, constatando a uniformidade dos princípios, será, além disso, o laço que unirá os adeptos numa grande família, sem distinção de nacionalidades, sob o império de uma mesma fé, de uma comunhão de pensamentos, de vistas, e de aspirações. A crença no Espiritismo não será mais uma simples aquiescência, freqüentemente parcial, a uma idéia vaga, mas uma adesão motivada, feita com conhecimento de causa, constatada por um título oficial entregue ao adepto. Para evitar os inconvenientes da falta de precisão da qualidade de Espíritas, os signatários da profissão de fé tomarão o título de Espíritas professos.

Essa qualificação, repousando sobre uma base precisa e definida, não dá lugar a nenhum equívoco, permite aos adeptos que professem os mesmos princípios e caminhem no mesmo caminho, se reconhecerem sem outra formalidade senão a declaração de sua qualidade, e, havendo necessidade, a produção de seu título. Uma reunião composta de Espíritas professos, será necessariamente tão homogênea quanto o comporta a Humanidade.

Um formulário de profissão de fé, circunscrito e nitidamente definido, será o caminho traçado; o título de Espírita professo será a palavra de união.

Mas, dir-se-á, esse título é uma garantia suficiente contra os homens de sinceridade duvidosa?

Uma garantia absoluta contra a má-fé é impossível, porquanto há pessoas que fazem um jogo dos atos mais solenes; mas convir-se-á que essa garantia é maior do que quando não a havia de todo. Tal, aliás, que se dá sem escrúpulos por aquilo que não é, quando não se trata senão de palavras que se evolam, recua freqüentemente diante de uma afirmação espírita que deixa marcas, e que lhe poderia ser oposta no caso em que se desviasse do caminho reto. Se, entretanto, houvesse os que não fossem retidos por essa consideração, o número deles seria muito pequeno e sem influência. De resto, esse caso está previsto pelos estatutos, e é provido pela disposição especial.

Essa medida terá, inevitavelmente, por efeito afastar das reuniões sérias as pessoas que nela não estariam em seu lugar. Se delas se afastassem alguns Espíritas de boa fé, isso não seria sempre senão aqueles que não estão bastante seguros, por si mesmos, para se afirmar, os timoratos que temem se colocar em evidência, e aqueles que, em todas as circunstâncias, não são jamais os primeiros a se pronunciarem, querendo ver antes como as coisas amadurecerão. Com o tempo, uns se esclarecerão mais completamente, os outros tomarão coragem; até lá nem uns nem os outros poderão contar entre os sólidos defensores da causa. Quanto àqueles que se poderia lamentar, o número deles será pequeno e diminuirá a cada dia.

Não sendo nada perfeito neste mundo, as melhores coisas têm seus inconvenientes; querendo-se rejeitar tudo o que não está deles isento, nada seria admissível. Em tudo é preciso pesar a forma das vantagens e dos inconvenientes; ora, é bem evidente que aqui as primeiras levam a melhor sobre as segundas.

Nem todos aqueles que levam o nome de Espíritas aderem, pois, à constituição, isso é certo; também ela não é senão para aqueles que a aceitarão livre e voluntariamente, porque ela não tem a pretensão de se impor a ninguém.

O Espiritismo, não sendo compreendido do mesmo modo por todo o mundo, a constituição chama àqueles que o encaram do seu ponto de vista, com o objetivo de lhes dar um ponto de apoio quando se encontrarem isolados, de cimentar os laços da grande família pela unidade de crenças. Mas, fiel ao princípio da liberdade de consciência, que a Doutrina proclama como um direito natural. respeita todas as convicções sinceras, e não lança anátema àqueles que têm idéias diferentes; delas não aproveitará menos as luzes que poderão emitir fora de seu seio.

O essencial, pois, é conhecer aqueles que seguem a mesma senda; mas como sabê-lo com precisão? É materialmente impossível aí chegar por interrogatórios individuais, e, aliás, ninguém pode estar investido do direito de perscrutar as consciências. O único meio, o mais simples, o mais legal, é estabelecer um formulário de princípios, resumindo o estado dos conhecimentos atuais que ressaltam da observação, e sancionados pelo ensino geral dos Espíritos, aos quais cada um está livre para aderir. A adesão escrita é uma profissão de fé que dispensa de toda outra investigação, e deixa a cada um sua inteira liberdade.

A constituição do Espiritismo tem, pois, por complemento necessário, um programa de princípios definidos no que toca à crença, sem o qual isso seria uma obra sem importância e sem futuro. Esse programa, fruto da experiência adquirida, será a baliza indicadora do caminho. Para caminhar com segurança, ao lado da constituição orgânica, é preciso a constituição da fé, um credo, se o quiserem, que seja o sinal de referência de todos os aderentes.

Mas esse programa, não mais do que a constituição orgânica, não pode e nem deve acorrentar o futuro, sob pena de sucumbir, cedo ou tarde, sob as opressões do progresso. Fundado para o estado presente dos conhecimentos, deverá se modificar e se completar à medida que novas observações vierem demonstrar-lhe a insuficiência ou os defeitos. No entanto, essas modificações não devem ser feitas levianamente e nem com precipitação. Serão obras dos congressos orgânicos que, na revisão periódica dos estatutos constitutivos, juntará a do formulário de princípios.

Constituição e credo, caminhando constantemente de acordo com o progresso, sobreviverão na seqüência dos tempos. (KARDEC, A. Obras Póstumas, Araras-SP: IDE, 1993, pp. 355-359).

  Para facilitar a identificação colocamos, no segundo e terceiro parágrafos, em itálico, o trecho citado pelo sr. bispo. Veja leitor, como quer intencionalmente o prelado levar as pessoas a conceituar os espíritas como sendo qualquer um que admite a prática da evocação dos falecidos. No trecho realçamos, em negrito, várias frases para demonstrar que não é exatamente o que o sr. bispo quer passar, ao contrário, preocupado com a vulgarização do uso do nome espírita é que Kardec define, que somente poderá ser considerado espírita confesso os que aderirem à constituição e ao credo do Espiritismo. Assim, são espíritas, sr. bispo, somente os que aderem à essa constituição e credo, portanto, os adeptos do “espiritismo” anglo-saxão, os umbandistas ou qualquer outra pessoa que apenas acreditar na reencarnação ou na comunicação dos mortos, ou em ambos, não é espírita, apenas espiritualista, que fique isso bem claro.

  E, mais uma vez, diremos Espiritismo não é necromancia, a não ser por má-fé de quem fala isso. Não negamos a doutrina cristã, ao contrário queremos restabelecê-la, já que ela foi inteiramente deturpada pelos dogmas da Igreja de Roma.

Hodhen, faz, sobre isso, uma interessante colocação:

“A epopéia do cristianismo começa com o maior paradoxo da história: a condenação do maior gênio religioso do mundo pela mais poderosa sociedade religiosa do tempo. A Sinagoga, detentora oficial da religião revelada, considerava Jesus como o maior pecador, herege, blasfemo e aliado de Satanás”.

“... Muitos dos grandes gênios religiosos da história foram condenados pelas igrejas e seitas como hereges ou ateus – alguns deles também eram considerados santos, mas em geral só muito depois de sua morte. Alguns desses gênios religiosos foram condenados como hereges e endemoniados pela mesma Igreja que, séculos mais tarde, os canonizou como santos, como, entre outros, aconteceu com Joana d’Arc“. (Lampejos Evangélicos, p. 85-87)

  É exatamente isso que estão fazendo com Kardec, sem tirar nem por, um gênio em sua época.

  A reencarnação é com certeza uma das mais radicais “heresias” contra o catolicismo, disso não temos dúvidas, mas jamais o foi contra a fé cristã, já que consta dos ensinamentos de Jesus, o que infelizmente não conseguiu prevalecer contra os dogmas da Igreja.

  Ainda bem que o sr. bispo teve um pouquinho de consciência e resolveu não tratar todos os que se dizem espíritas da mesma forma, por isso listou alguns tipos para definir os que serão ex-comungados por ele ou os que serão mandados, certamente a seu pedido, para o fogo do inferno.

  Enquanto Jesus veio para salvar os doentes, o sr. bispo prefere condenar. O Mestre, repetimos, nem mesmo a prostituta condenou, o sr. bispo, talvez supondo-se com maior poder que Jesus, o faz na maior tranqüilidade e ainda por cima achando que está fazendo um grande bem à sua Igreja. É por esta e muitas outras que precisamos urgentemente resgatar os ensinos de Jesus das mãos desses fariseus dos tempos atuais.

  Com razão está o teólogo Huberto Rodhen, quando diz:

O egoísmo eclesiástico proclama a sua religião, Igreja ou seita como a única verdadeira, considerando ao mesmo tempo como falsas todas as outras formas de culto divino. É esse o mais perigoso e funesto de todos os egoísmos humanos, pelo fato de vir aureolado de misteriosa sacralidade e ser inoculado no homem como dever de consciência baseado em revelação divina. É fora de dúvida que esse egoísmo sectário é o mais abominável e sacrílego de quantos têm desgraçado e estão ainda desgraçando o gênero humano, impossibilitando qualquer harmonia universal no seio da humanidade. (Lampejos Evangélicos, p. 73).

  Veremos agora o último tópico abordado pelo sr. bispo.

CARIDADE E FÉ

Diante da severidade da Igreja em preservar a pureza da doutrina cristã e punir os delitos contra a fé, surge espontaneamente a pergunta: Por que tanto rigor? Não basta a caridade?

Para conservarem as aparências cristãs e se acobertarem sob o manto cristão, os espíritas repetem as palavras de Jesus sobre a caridade e proclamam o princípio: "Fora da caridade não há salvação". E sem dúvida certo: sem a caridade cristã, não há salvação; e quem não tiver a caridade, não é verdadeiro discípulo de Jesus Cristo. E a Igreja seguramente não condenou o espiritismo por causa deste princípio.

A Igreja Católica tem sido sempre e ainda hoje continua sendo a pregoeira máxima da caridade cristã. E preciso ter os olhos cegos pelo fanatismo para não vê-lo. Quem poderá contar as instituições de caridade mantidas, dirigidas ou inspiradas pela Igreja em todo o mundo? Quem poderá contar os inúmeros católicos que se dedicam exclusiva e totalmente à caridade? Os maiores heróis da caridade, mesmo aqueles apregoados pelos espíritas, como um São Francisco de Assis ou um Santo Antônio de Lisboa (ou Pádua), eram santos catolicíssimos.

O erro dos espíritas não consiste na pregação da caridade (nisso, pelo contrário, eles são dignos de aplauso e louvor); seu erro está em dizer que basta a caridade somente. Jesus Cristo nunca ensinou isso. Pois Jesus, o Evangelista da caridade, foi também o Evangelista da fé. A sua doutrina não é apenas moral. São Marcos nos refere as últimas e solenes palavras de Jesus, dirigidas aos Apóstolos pouco antes da sua ascensão ao céu: Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Aquele que crer e for batizado será salvo; o que não crer será condenado (Mc 16, 15-16).

Quem não crer será condenado! São também palavras de Jesus. E em São Mateus damos com estas outras palavras de Jesus, não menos solenes e formais: Toda a autoridade sobre o céu e sobre a terra me foi entregue. Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. E eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt 28, 18-20).

Instruídos por Cristo e fortalecidos pelo Espírito Santo, os Apóstolos saíram a pregar. Advertidos por Jesus, eles sabiam que o inimigo tudo faria para dispersar a grei que o Senhor queria una; alertados por Cristo, previam que os lobos viriam vestidos em pele de ovelha e que o anjo das trevas se apresentaria lisonjeiro como anjo da luz; prevenidos pelo divino Mestre, sabiam que o "homem inimigo" aproveitaria as sombras da noite e a desprevenção dos homens que dormem para espargir o erro e a discórdia. Por isso conservaram-se vigilantes e enérgicos.

E quando, por exemplo, na novel comunidade dos Gálatas se infiltrou o erro dos judaizantes, São Paulo não hesitou: Ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anunciem um evangelho diferente do que vos anunciamos, seja anátema. Como já vo-lo disse, volto a dizê-lo agora: se alguém vos anunciar um evangelho diferente do que recebestes, seja anátema (Gal 1, 8-9).

E ao despedir-se da Ásia Menor, em Mileto, o que mais pesava em sua alma era a previsão dos primeiros vestígios de gnosticismo, de um sincretismo de seitas judaístas, de filosofias helenistas e de religiões de mistérios que rebaixavam Jesus Cristo a um dos espíritos cujo culto propagavam; e implora então os presbíteros responsáveis: Sede solícitos por vós mesmos e por todo rebanho, do qual o Espírito Santo vos estabeleceu guias para apascentar a Igreja de Deus, que ele adquiriu para si pelo sangue do seu próprio Filho. Eu sei que, depois da minha partida, introduzir-se-ão entre vós lobos cruéis que não pouparão o rebanho, e que no meio de vós surgirão homens que farão discursos perversos com a finalidade de arrastar discípulos atrás de si. Por isso sede vigilantes, lembrando-vos de que durante três anos, dia e noite, não cessei de exortar com lágrimas a cada um de vós (At 20, 28-31).

Igual solicitude pela pureza da fé encontramos nas cartas aos Efésios, aos Colossenses e, sobretudo, nas cartas pastorais a Tito e Timóteo. Assim escreve a seu colaborador Timóteo: Eu te conjuro, diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de vir julgar os vivos e os mortos, pela sua aparição e por seu Reino: proclama a palavra, insiste, no tempo oportuno e no importuno, refuta, ameaça, exorta com toda a paciência e doutrina. Pois virá um tempo em que alguns não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, segundo os seus próprios desejos, como que sentindo comichão nos ouvidos, se rodearão de mestres. Desviarão os seus ouvidos da verdade, orientando-os para as fábulas (2 Tim 4, 1-4).

E a Tito recomenda: Depois de uma primeira e de uma segunda admoestação, nada mais tens a fazer com um homem faccioso, pois é sabido que um homem assim se perverteu e se entregou ao pecado, condenando-se a si mesmo (Ti 3, 10-11). O mesmo modo inexorável de tratar os hereges nos é recomendado por São Judas Tadeu e também pelo "discípulo do amor", São João, que chega até a proibir qualquer relação com eles: Não o recebais em vossa casa nem o saudeis. Aquele que o saúda participa de suas obras más (2 Jo 10).

Foi neste mesmo espírito de apostólico zelo que os nossos Bispos denunciaram a heresia do espiritismo, para conservar no nosso povo não apenas a caridade, que é necessária e deve incendiar todos os corações cristãos, mas também a fé, ensinando-os a observar tudo o que Cristo ensinou e mandou. Pois quem não crer será condenado (Mc 16, 16) e sem fé é impossível agradar a Deus (Heb 11, 6).

Sejamos, pois, integralmente cristãos. Sigamos a Cristo, Evangelista da caridade; mas sigamos também a Cristo, Evangelista da fé. Caridade ardente e fé inabalável: eis as duas asas com que nos alçaremos ao céu, para tomar posse do reino que nos está preparado desde o princípio do mundo (Mt 25, 34).

No nosso empenho de conservar e defender a pureza da fé devemos sempre distinguir entre a heresia e o herege, entre o pecado e o pecador. O erro ou o pecado são dados objetivos acerca dos quais a Igreja pode julgar e deve manter uma atitude firme e intransigente. O herege ou o pecador são pessoas subjetivas sobre as quais não devemos julgar (cf. Mt 7, 1; Rom 2, 1-2; 1 Cor 4, 5).

Quem mata, rouba, comete adultério ou pratica a evocação dos falecidos, pratica algo que, objetivamente, está errado. Diante de tais pessoas, porém, a caridade cristã nos impõe o dever de ajudá-las mediante o esclarecimento, socorrê-las fazendo-lhes ver que procedem mal, orientá-las para a verdade e a virtude, instruí-Ias com o conhecimento da vontade divina, reintegrá-las no convívio humano e conduzi-las a Deus e ao seu Reinado.

Seremos então sem dúvida intransigentes em denunciar o que está errado ou anunciar o que é pecaminoso; ao mesmo tempo, porém, seremos compreensivos, tolerantes, bondosos e caridosos para com aqueles que se desviaram ou pecaram. Colocado diante da adúltera (cf. Jo 8, 2-11), Jesus condenou o adultério ("não peques mais"), mas poupou a pecadora ("nem eu te condeno").

Ao escrever estas páginas não era minha intenção pronunciar um veredito sobre os espíritas, mas sobre o espiritismo, isto é, sobre a heresia da reencarnação e o pecado da evocação. Tomei certamente uma atitude clara e firme ao recordar o mandamento divino que proíbe a evocação e a doutrina cristã que se opõe à reencarnação. Não cumpriria o meu dever profético de pastor se ficasse omisso ou calado diante da difusão do erro e da prática do pecado. Mas tenho outrossim a obrigação pastoral de procurar a ovelha extraviada (cf. Lc 15, 4-7) e de ir ao encontro do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32). Saiba o católico que se fez espírita, qualquer que tenha sido o motivo, que a casa por ele abandonada continua aberta à sua disposição. A própria firmeza na fé nos conduz necessariamente à bondade no amor.

Kardec, em Obras Póstumas, diz: “Criamos a palavra Espiritismo pelas necessidades da causa; temos muito o direito de determinar-lhes as aplicações, e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita”. (p. 369). Assim, diante dessa prerrogativa que evoca a si, é Kardec quem define o que é ou o que não é Espiritismo. Não cabe, portanto, a ninguém fazê-lo, por mais autoridade que tenha.

Vejamos o pensamento de Kardec sobre esse assunto, conforme trecho que transcreveremos no nosso texto “O Espiritismo é o que afinal?”:

No período de 1857 a 1863, Kardec buscou realçar apenas a característica de ser uma ciência. Mas, não deixou, algumas vezes, de dizer que era uma ciência filosófica, que tinha, portanto, conseqüências de ordem moral.

Sem muita ênfase, dizia: “Todos aqueles que compreendessem verdadeiramente a essência do Espiritismo, deveriam praticar a caridade cristã, segundo os ensinos de Cristo”.

As bases em que o Espiritismo, segundo Kardec, estava se apoiando era nesta nova ciência. Não queria que ele fosse confundido como uma nova religião, embora reconhecesse que ele era um poderoso auxiliar da religião. Nas conseqüências morais do Espiritismo, via o sentimento do Cristianismo.

O interessante é que, ao procurar de todas as maneiras colocar em evidência seu aspecto de ciência, não o fazia sem razão, pois ao realçar a sua natureza cientifica queria atrair para ele os intelectuais, os pensadores, as pessoas de mente aberta, não se importando com qual fosse a religião que abraçavam. Várias vezes, ele enumerou pessoas de outras religiões na hoste Espírita.

Assim era proposital e deliberado não colocá-lo como uma nova religião, pois não via nele o que as religiões dogmáticas possuíam, como: culto, templos e ministros. E não via, também, misticismo algum, que era uma característica forte daqueles que professavam essas religiões. Ora, o Espiritismo vem exatamente lançar isso por terra, já que sob seu aspecto científico, estava longe, portanto, de qualquer idéia mística ou supersticiosa.

Dizia que, longe do Espiritismo ser antagonista das religiões, ele estava em todas elas.

Nesse período classificou os Espíritas em três categorias e, seguramente, ainda são válidas para os dias de hoje, apesar de quase um século e meio da Doutrina Espírita, quais sejam:

1)            Espíritas Experimentadores – aqueles que só o viam como ciência de observação, sendo a filosofia e a moral para eles simples acessórios, com os quais não se preocupavam;

2)            Espíritas Imperfeitos – reconheciam a importância filosófica, admiravam a moral dela decorrente, mas não a praticavam;

3)            Espíritas Cristãos – seriam, segundo ele, os verdadeiros Espíritas, pois praticavam toda a moral espírita, e para eles a caridade era uma regra de conduta.

Em dezembro de 1863, referindo-se sobre a luta que o Espiritismo estava travando, para se implantar, disse que ele estava entrando numa nova fase, que seria o período religioso. Dizia isso porque já estava preparando o lançamento do livro “Imitação do Evangelho Segundo o Espiritismo”, cujo conteúdo era a explicação das máximas morais do Cristo. Acrescentando que: “Esta obra é para o uso de todo o mundo; cada um pode nele haurir os meios de conformar a sua conduta à moral do Cristo”, convidando, por isso, a todos os espíritas à prática do Evangelho.

A partir daí, a ênfase científica foi perdendo destaque, para ceder lugar ao aspecto religioso do Espiritismo. Não sem antes fazer uma ligação entre as duas fases, dizendo: “Se o acordo entre ciência e religião fosse impossível, não haveria religião possível”. Pregava a possibilidade e, até mesmo, a necessidade desse acordo: “A ciência e a religião são irmãs para a maior glória de Deus, e devem se completar uma pela outra, em lugar de se desmentir uma pela outra”. Para Kardec, o Espiritismo seria “o traço de união” que permitirá “a ciência e a religião se olharem face a face, uma sem rir e a outra sem temer”. Concluindo: “É pelo acordo da fé e da razão que ele conduz, cada dia, tantos incrédulos a Deus”.

Em junho de 1865, reafirma que: O Espiritismo, que é o Cristianismo apropriado ao desenvolvimento da inteligência, e livre dos abusos, ligando-o ao Consolador prometido por Jesus”. Outra afirmação de Kardec digna de nota é a que disse em abril de 1866: “Inscrevendo no frontispício do Espiritismo a suprema lei do Cristo, abrimos o caminho para o Espiritismo Cristão, e fomos instituídos, pois, em desenvolver-lhe os princípios, assim como os caracteres do verdadeiro espírita sob esse ponto de vista”.

Entendemos, finalmente, Kardec, quando do seu discurso de abertura na Sociedade de Paris, feito no dia 1º de novembro de 1868, dia consagrado aos mortos, em que ele disse: “Se assim é, dir-se-á, o Espiritismo é, pois, uma religião? Pois bem, sim! sem dúvida, Senhores; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e disto nos glorificamos, porque é a doutrina que fundamenta os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as bases mais sólidas; as próprias leis da Natureza”.

 Por que, pois, declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Pela razão de que não há senão uma palavra para expressar duas idéias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; que ela desperta exclusivamente uma idéia de forma, e que o Espiritismo não a tem. Se o Espiritismo se dissesse religião, o público não veria nele senão uma nova edição, uma variante, se assim nos quisermos expressar, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com um cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo, e dos abusos contra os quais a opinião freqüentemente é levantada”.

“O Espiritismo, não tendo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não se poderia, nem deveria se ornar de um título sobre o valor do qual, inevitavelmente, seria desprezado; eis porque ele se diz simplesmente: doutrina filosófica e moral”.

Assim, quando disse que não era uma nova religião, é porque não queria que fosse mais uma religião nos moldes das que já existiam. Queria, isto sim, separar o Espiritismo do conceito tradicional de religião. Fora isso, Kardec diz abertamente que o Espiritismo é uma Religião.

Não bastasse isso, podemos colocar a fala de Paulo, que será, para nós, o mesmo que “ensinar o pai-nosso ao seu vigário”: “Olhem as coisas frente a frente. Se alguém está convencido de pertencer a Cristo, tome consciência, de uma vez por todas, de que assim como ele pertence a Cristo, também nós pertencemos a Cristo”. (2Cor 10,7).

Daí, não há porque dizer que “temos a aparência cristã”, senão por má-fé, já que essa posição de Kardec é clara, sem meios termos. Parabenizamos ao sr. bispo por ter reconhecido como princípio cristão a máxima do Espiritismo: “fora da caridade não há salvação”. Entretanto, peca ao dizer “a igreja não condenou o espiritismo por causa deste princípio”, já que não reconhecemos na igreja nenhuma autoridade moral para condenar a quem quer que seja, a não ser por querer ser o discípulo maior que o Mestre.

A história é a testemunha incorruptível para dizer se a Igreja é mesmo a pregoeira máxima da caridade cristã. Aliás, não sabemos o porque, mas a palavra pregoeira nos lembrou fogueira, teria alguma coisa a ver com acontecimentos registrados pela história?

Mas o que se deve esperar de fanáticos, que na sua ingenuidade acham que os outros é que são os cegos, deles Jesus afirmou: “são cegos guiando cegos”. (Mt 15,14)

Querer enxergar apóstolos da caridade só no meio católico, é outra prova incontestável da cegueira do sr. bispo: “A luz clareia aqueles que abrem seus olhos, mas as trevas se espessam para aqueles que querem fechá-los” (SIMEON).

Rodhen, também, percebeu isso, vejamos:

... O teólogo simplesmente erudito não admite que, para além das raias do cristianismo, possa existir o Cristo, porque, falto de verdadeira experiência espiritual, identifica cristianismo com Cristo. Por exemplo, a idéia de que um não-cristão como Mahatma Gandhi possa ter tido uma profunda experiência de Cristo e ter sido um homem cristificado, sem ser membro oficial do cristianismo – essa idéia não entra na cabeça de um erudito estudioso da letra do cristianismo, mas sem contato com o espírito de Cristo... (ROHDEN, H. Lampejos Evangélicos, São Paulo: Martins Claret, 1995, p. 178)

Sr. bispo, não somos fanáticos para não reconhecer os valores espirituais de uma pessoa por conta de seus rótulos religiosos, já que a nós, e ao Cristo, O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem” (Lc 6,45), ou seja, do seu interior.

Vejamos se é mesmo o nosso erro dizer que basta a caridade para a “salvação”, nas palavras de Jesus:

Mt 5,16: Assim também: que a luz de vocês brilhe diante dos homens, para que eles vejam as boas obras que vocês fazem, e louvem o Pai de vocês que está no céu.

Aqui Jesus realça a fé ou as obras?

Mt 16,27: Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então retribuirá a cada um segundo as suas obras.

A forma de retribuição será segundo a fé ou segundo as obras?

Mt 19,16-21: Um jovem se aproximou, e disse a Jesus: "Mestre, que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?" Jesus respondeu: "Por que você me pergunta sobre o que é bom? Um só é o bom. Se você quer entrar para a vida, guarde os mandamentos." O homem perguntou: "Quais mandamentos?" Jesus respondeu: "Não mate; não cometa adultério; não roube; não levante falso testemunho; honre seu pai e sua mãe; e ame seu próximo como a si mesmo." O jovem disse a Jesus: "Tenho observado todas essas coisas. O que é que ainda me falta fazer?" Jesus respondeu: "Se você quer ser perfeito, vá, venda tudo o que tem, dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois venha, e siga-me".

  Por cumprir todos os mandamentos o jovem era realmente uma pessoa de fé. Entretanto Jesus diz que ainda lhe falta uma coisa: vender tudo que tem e doar aos pobres, ou seja, mais obras.

Mt 25,31-46:Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita, e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: 'Venham vocês, que são abençoados por meu Pai. Recebam como herança o Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo. Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar'. Então os justos lhe perguntarão: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?' Então o Rei lhes responderá: 'Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram.' Depois o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: 'Afastem-se de mim, malditos. Vão para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque eu estava com fome, e vocês não me deram de comer; eu estava com sede, e não me deram de beber; eu era estrangeiro, e vocês não me receberam em casa; eu estava sem roupa, e não me vestiram; eu estava doente e na prisão, e vocês não me foram visitar'. Também estes responderão: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou sem roupa, doente ou preso, e não te servimos?' Então o Rei responderá a esses: 'Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês não fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram'. Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna.

  Nessa passagem simbólica do juízo final o critério de separação entre os bons e os maus foi a fé ou as obras?

Lc 10,25-37: Um especialista em leis se levantou, e, para tentar Jesus perguntou: "Mestre, o que devo fazer para receber em herança a vida eterna?" Jesus lhe disse: "O que é que está escrito na Lei? Como você lê?" Ele então respondeu: "Ame o Senhor, seu Deus, com todo o seu coração, com toda a sua alma, com toda a sua força e com toda a sua mente; e ao seu próximo como a si mesmo." Jesus lhe disse: "Você respondeu certo. Faça isso, e viverá!"  Mas o especialista em leis, querendo se justificar, disse a Jesus: "E quem é o meu próximo?" Jesus respondeu: "Um homem ia descendo de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de assaltantes, que lhe arrancaram tudo, e o espancaram. Depois foram embora, e o deixaram quase morto. Por acaso um sacerdote estava descendo por aquele caminho; quando viu o homem, passou adiante, pelo outro lado. O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu, e passou adiante, pelo outro lado. Mas um samaritano, que estava viajando, chegou perto dele, viu, e teve compaixão. Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio animal, e o levou a uma pensão, onde cuidou dele. No dia seguinte, pegou duas moedas de prata, e as entregou ao dono da pensão, recomendando: 'Tome conta dele. Quando eu voltar, vou pagar o que ele tiver gasto a mais'." E Jesus perguntou: "Na sua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?" O especialista em leis respondeu: "Aquele que praticou misericórdia para com ele." Então Jesus lhe disse: "Vá, e faça a mesma coisa."

  Nessa passagem podemos ver que o herético samaritano foi o exemplo a que Jesus mandou seguir, mas que exemplo, o da fé ou o da obra? Não podemos deixar de ressaltar que os de fé, representados pelo sacerdote e levita, tinham obrigação moral de ajudar ao próximo não o fizeram. Qualquer relação que se possa fazer com a liderança religiosa dos nossos tempos, não é mera coincidência, já que deve ser a de outrora reencarnada.

  Se pregarmos as obras como fator essencial de nossa “salvação”, o que demonstramos ser objetivamente o ensinamento do Cristo, então mesmo que alguém ache que não é assim, seguiremos em frente, já que o que nos importa é seguirmos o exemplo de Jesus. E mais, Tiago enfatiza que: “A fé sem obras é morta” (Tg 2,26), numa evidente valorização das obras, ao contrário do que prega o sr. bispo.

  A citação de Mc 16,15-16, como sustentação carece de base sólida, pois conforme já falamos anteriormente é tida por muitos eruditos como interpolação ao texto original. Mas para justificar os dogmas do batismo e o da fé, só dentro da sua igreja é obvio, é que, sem o menor constrangimento, ajustaram os textos a isso.

  Quanto à citação de Gal 1,8-9: “... se alguém vos anunciar um evangelho diferente do que recebeste, seja anátema”, podemos lhes trazer a opinião do teólogo Frei Betto:

... a religiosidade vaticana está impregnada de elementos judaicos e pagãos, herdados do Império Romano e da nobreza européia. Basta conferir seus símbolos e rituais” (Jornal O Estado de Minas, 14/04/2005, caderno de Cultura, p. 10).

Oportuno também, é o que disse Espinosa:

... a igreja foi, desde os tempos dos apóstolos até hoje, incessantemente vexada e com certeza continuará a sê-lo até o dia em que a religião, finalmente, se aparte das especulações filosóficas e se reduza àquele pequeno número de dogmas muito simples que Cristo ensinou aos seus discípulos.... (ESPINOSA, B. Tratado Teológico-Político, São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 194)

  Isso nos coloca evidentemente na questão avocada contra o Espiritismo, que vem justamente para resgatar os ensinos de Jesus, adulterados pela Igreja de Roma e mantidos aprisionados no cárcere de dogmas inconciliáveis com a razão e a lógica.

  Paulo estava absolutamente certo, que o sr. bispo tire as vendas dos olhos e veja o que a sua Igreja fez em nome do Cristo, mas não leia só os livros produzidos pela própria igreja, busque a verdade fora dos muros dela: “a verdade que liberta” está lá fora.

  Enquanto busca na Bíblia apoio para seu ataque insano ao Espiritismo, nós apenas podemos lhe lembrar: “amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês” (Mt 5,44), “com efeito, eu lhes garanto: se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entraram no Reino do Céu” (Mt 5,20) e Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não; pois o que passa daí, vem do Maligno” (Mt 5,37).

  Jesus, diante da mulher surpreendida em adultério, tendo que enfrentar os que exigiam o cumprimento da lei, apenas disse-lhes: "Eu também não a condeno. Pode ir, e não peque mais”, o que, segundo acreditamos, encaixa com uma luva na atitude do sr. bispo em querer cumprir determinadas exigências contra nós os heréticos espíritas. Só que há um detalhe, quem taxa os outros de heréticos, conseqüentemente está se autodenominando de herético, pois, para os outros, ele também será um herético.

  Quanto a querer manter fora dos ensinamentos de Jesus a reencarnação e a comunicação com os mortos, é perfeitamente compreensível, pois se isso for verdade como ficaria a função do intermediário entre Deus e os homens, se os próprios fiéis podem diretamente conversar com Deus, não necessitando deles para que sejam salvos?

Conclusão

  Preocupasse mais o sr. bispo com a salvação de seus fiéis, não teria tempo para ver coisas onde não existem. Veria que o mais importante para ele seria cuidar do se rebanho. Não se irritaria porque outras pessoas pensam diferente dele, o que é um direito delas. Saberia que a lei de amor pregada por Cristo é: fazer aos outros tudo o que queirais que os outros vos façam (Mt 7,12).

  Devemos, para não sermos interpretados erroneamente, dizer que todas as vezes que usamos da expressão Igreja de Roma, não estamos querendo atingir a Instituição, já que ela não pode ser culpada pelos excessos cometidos pelos seus membros, assim, dever ser entendido que estamos nos referindo à liderança ortodoxa que está no seu meio, principalmente essa retrógrada composta de indivíduos refratários ao progresso, esses que vivem ainda na era pré-histórica.

  Mas a verdade seja dita, graças a Deus que não são todos os bispos que pensam como este, cujo texto estamos comentando. Vamos transcrever da Revista Espírita Allan Kardec, uma reportagem contendo a opinião de um outro bispo, leiamos:

As idéias arejadas do Bispo

Aureliano Alves Netto

"Sem uma idéia superior não pode subsistir nem um homem nem uma nação” - DOSTOIEWSKI

Graças à prestimosidade do confrade Wladimir Cabral de Araújo, alagoano radicado na Paulicéia, tomamos conhecimento dum importante pronunciamento do Bispo D. Francisco, de Juiz de Fora, MG, publicado no jornal A LUZ, de Santa Rita de Jacutinga, MG, Edição de 10/12/1932.

Muito sensatamente, começa o antístite salientando:

"A verdade consegue, sempre, os seus fins. Se a aprisionam de um lado, ela sai de outro. A ciência avança incessantemente".

E em seguida, declara incisivamente:

"Segundo a minha maneira de pensar, eu, bispo católico romano, digo que o Espiritismo não deve ser condenado como obra diabólica e que os espíritas não devem ser declarados fora das vias de salvação, nem chamados heréticos, nem reservados ao inferno. Se mais tarde têm de reconhecer a bem fundada CIÊNCIA, por que na hora atual se permitem considerá-la como sacrilégio? A ciência está acima de tudo. Que surpresas não reserva ela às gerações futuras"?

Reiterando e enfatizando seu ponto-de-vista, prossegue:

"Eu não sou espírita e não pretendo aqui tomar a defesa do Espiritismo, desta evolução de crenças que quotidianamente ganha terreno nas almas e nos cinco continentes. Mas, eu sou como muitos homens de boa fé, um observador dos fatos que não podem ser contestados, um estudante das idéias modernas, e inteiramente disposto a abraçar a verdade desconhecida, sejam quais forem as pessoas que me traga e me mostrem debaixo de formas aceitáveis".

Com uma lógica irrefutável, ajunta:

"Se o Espiritismo fosse uma obra satânica, se todos os Espíritos que aparecem no mundo fossem maus Espíritos, então seriam também maus Espíritos os que aparecem a todos os Santos personagens de que está provada a história do cristianismo. Todas as visões de Santos teriam sido visões diabólicas! E isso nós não podemos crer".

De pleno acordo, Sr. Bispo. Outra não seria a argumentação de um espírita. D. Francisco finaliza seu pronunciamento com estas judiciosas palavras:

"Condenam ex-abrupto todas as intervenções dos Espíritos nos assuntos humanos. É uma aberração. Esta ciência nova da qual, a bem dizer, a origem é anterior ao nascimento de Cristo, merece reter o máximo de nossa atenção. Vamos, ergamos os olhos para a luz. Voltemos para aquele que disse: CREDE E VIVEREIS".

Infelizmente, nem todos os clérigos da Igreja Romana rezam pelo catecismo de D. Francisco. Ainda medram ali e alhures alguns quevedos e boaventuras. Transcrito de "O Mundo Espirita" (Revista Espírita Allan Kardec, nº 03, dez/1988, Goiânia – GO: Paulo de Tarso, p. 20)

   E finalizando passamos a Kardec a palavra:

É verdadeiro prazer ver o trabalho que se dão os adversários do Espiritismo para atacá-lo com todas as armas que lhes caiam à mão; mas o que há de singular é que, apesar da multidão de setas que lhe atiram, apesar das pedras que se semeiam em seu caminho, apesar das armadilhas que se lhe estendem para fazê-lo desviar de seu objetivo, ninguém ainda encontrou o meio de detê-lo em sua marcha, e que ganha um terreno desesperador para aqueles que crêem abatê-lo dando-lhe piparotes. (KARDEC, A. Revista Espírita 1861, Araras-SP, IDE, 1993, p. 217)

 

 

 

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Out/2005.

 

 

 

 

Referências bibliografia

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Revista Espírita Allan Kardec, nº 03, dez/1988, Goiânia – GO: Paulo de Tarso

Catecismo da Igreja Católica: http://angelgireh.tripod.com/tp11.html



[1] os interessados podem lê-lo por completo no link:

http://www.apologiaespirita.org/assuntos_biblicos/ressurreicao_significado_biblico.htm

[2] Texto completo no link: http://www.apologiaespirita.org/respostas_detratores/conversa_de_jesus_com_nicodemos.htm