Meu encontro com Chico Xavier
Célia Xavier Camargo

Há poucos dias recebi, enviado por José Euclides Renzo, um amigo espírita e médium de notáveis recursos, residente na cidade de São Paulo, uma história comovente, que passo a transcrever.

"O ano de 1974 entrava no derradeiro trimestre. Ate então, dias difíceis eram a tônica dos últimos três anos da minha vida. Eu estava com vinte e quatro anos de idade, casado ha três, e a primeira filha, Bianca, iria completar três meses dentro de alguns dias, e já sofria também as consequências da crise que vivíamos. O leite materno durou menos de um mês e, impossibilitado financeiramente de comprar o leite em pó indicado pelo pediatra, passamos a dar-lhe o leite tipo C, único que ainda podíamos comprar. As contas não paravam de chegar, inclementes, acumulando-se com as anteriores, avisos, ameaças de protesto, advogados, etc.. Muitas delas, é certo, resultados da imprevidência, da inexperiência e da crença tola de que no próximo mês tudo ia melhorar, mas que, ao contrário, só piorava.

Eu estava cansado, humilhado, derrotado. Especialmente nesse dia 9 de outubro o desânimo envolvera-me fortemente, e a consciência de que tudo ida piorar se agigantou em minha mente : E o Natal que se aproxima? 0 que fazer? Como pagar as contas? E os pensamentos se sucediam em avalanche, lembrando-me e cobrando os compromissos importantes a serem pagos: a prestação do apartamento já com três meses de atraso, condomínio, luz, água, tudo, tudo exigindo quantias que não havia corno conseguir em lugar nenhum. Porém, tudo era prioritário, e o salário da esposa mal cobria a terça parte das despesas. Eu havia arriscado muito! — pensava, culpando-me pela decisão de mudar de emprego ha pouco tempo. Antes era registrado e assalariado, agora como vendedor era comissionado e as vendas de madeira para construção caiam verticalmente mês a mês. Apostara tudo no conhecimento da clientela, mas só não contava com o excesso de ofertas das madeireiras do Paraná. Cada dia surgia um concorrente ofertando mais barato na ânsia de vender estoques.

"NÃO ESTAMOS ATENDENDO VENDEDORES DE MADEIRA."

A tabuleta colocada friamente na recepção da empresa de um grande cliente, no qual eu colocara toda minha esperança de grandes negócios, dada a amizade do passado adquirida no antigo emprego, foi a gota d’água. Os ombros caíram, o olhar fixo no chão do hall do elevador, o sentimento de impotência para mudar a situação, tudo aconteceu de uma só vez.

De repente, o pensamento veios forte: Chega ! Basta ! vou por um fim em tudo isso. Não aguento mais ! E as lágrimas chegaram copiosas, junto com a decisão abrupta e fria: VOU ME MATAR ! o viaduto do Chá é logo ali. Pronto ! Assim acaba tudo. Minha esposa , Thereza, cria nossa filha Bianca e pode até se casar novamente. Isso. Isso mesmo, chega de dar murros em ponta de faca !

Em segundos a idéia se materializou, cresceu como um monstro devorando todo o bom senso que dizia: "Calma, você é espírita e sabe o que acontece a quem se mata. Você já leu tantas obras sobre esse assunto. Lembra-se de Memórias de um suicida ? E as obras de André Luiz ? Pare e pense. "

O bom senso porém não prevaleceu. E quando o elevador me deixou no térreo daquele prédio da rua Barão de Itapetininga, meus passos foram rápidos em direção à rua e ao viaduto do Chá que me aguardava como a única e melhor solução encontrada até então.

À minha frente , no final do corredor que dava para a rua, havia dois degraus onde tive que parar para esperar a minha vez de entrar na calçada. De repente, eu o vi, bem ali, pertinho, à distância de um braço. - Não, não pode ser ! deve ser alguém muito parecido !

Na televisão eu o tinha visto no célebre programa "Pinga Fogo" e ele pareceu-me mais alto e mais magro. Aquele que ali estava era baixo e robusto, mas muito parecido.

Na dúvida, sem perceber, fui acompanhando-o quase hipnotizado. Envolto num misterioso encanto fui literalmente "arrastado", olhos fixos nele.

Ele estava de braços dados com um outro senhor do qual só me lembro que era calvo e um pouco mais jovem que ele. De repente, apressei meus passos com medo de o perder de vista. Parei à sua frente , tímido, gaguejando, mas esperançoso: - O Senhor é . . . é . . . o Chico Xavier ? – Sim – foi a doce resposta, dissipando as minhas dúvidas – Em que lhe posso ser útil, meu irmão ?

Sem saber o que dizer, emocionado, eu tirei um cartão de visita do bolso e balbuciei algo como que a pedir um autógrafo. Gentilmente, ele perguntou-me o nome e o endereço residencial, enquanto escrevia uma dedicatória. Nada existia naquele momento: a multidão frenética indo e vindo, as buzinas, o burburinho da cidade grande. O tempo parou para mim. Só existia ele e eu numa simbiose vibratória que, hoje eu sei, beneficiava-me muito mais do que eu poderia supor. Após guardar meu cartão com o endereço em seu bolso, ele olhou serenamente para mim e disse: "- Meu irmão, nunca se esqueça de que atrás da nuvem mais escura o sol brilha sempre; e nada melhor que um dia atrás do outro para nos mostrar que tudo se renova inexoravelmente".

A magia daquelas palavras ditas com voz frágil, mas cuja força permaneceu até hoje em minha alma, produziram um efeito devastador nas trevas e no desânimo que me envolviam até aquele momento. Quando dei por mim estava, inexplicavelmente, próximo do Largo Santa Cecília, na rua das Palmeiras, olhando para o céu que agora se mostrava entre as nuvens. Lia e relia o cartão para ter a certeza da realidade, mas ali estava: "Ao caro Euclides Renzo com grande abraço". Chico Xavier – 09/10/1974

Três dias depois recebo em minha residência um livro de Cornélio Pires com a seguinte dedicatória: "Ao caro amigo José Euclides Renzo, do seu servidor humilde e reconhecido". Chico Xavier.

Ele, meu servidor ! Ele, grato a mim ?! . . . como pode ser ? Ali, chorando muito de emoção e de gratidão, eu abracei definitivamente por toda a vida a Doutrina Espírita e os ensinamentos de Jesus, tentando até hoje, imperfeitamente, seguir a lição que o Chico me ensinou: SERVIR SEMPRE !

<-Voltar para "Colunistas"

< Voltar para "Homenagem ao Chico Xavier"