Discípulos a caminho de Emaús

 

 

  Nos capítulos finais dos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João há registros das profecias de Jesus, de sua vinda nos tempos difíceis anunciados e de suas aparições a seus discípulos, dias após a crucificação.

 

  Nestas, ora se mostrava em silêncio, ora em breves conversas, e, noutras vezes, em longos diálogos com os discípulos.

 

  Dessas aparições e seus diálogos há uma que, a nosso ver, se sobressai: é a que consta em Lucas (24:13-35), que trata da conversação mantida pelo Mestre com dois discípulos, a caminho da aldeia de Emaús.

 

  Os dois caminhavam entristecidos, comentando os acontecimentos relativos à crucificação e morte de Jesus, amargurados e deprimidos pela enorme frustração que o fato lhes acarretava e à comunidade de seus seguidores. Criam que Jesus libertaria Israel do jugo romano; com Sua morte, todas suas esperanças se esvaíram.

 

  Esperavam que os libertaria de um jugo tirânico, que os oprimia economicamente e que os humilhava. Esperavam nele o Salvador de um reino terrestre. Àquela época ainda não compreendiam qual era o Reino a que o Mestre se referia e a real tarefa do Sublime Mensageiro.

 

  Aconteceu que, enquanto assim caminhavam, “(...) o próprio Jesus se aproximou e ia com eles.”

 

  Após questioná-los a respeito de suas inquietações, sem ser reconhecido e, a princípio, sem demonstrar que tudo sabia a propósito dos infaustos acontecimentos recentes, em Jerusalém, Ele os admoestou com energia, e lhes disse:

 

“— Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!”

 

  — Porventura não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória?”

 

  E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a Seu respeito constava em todas as Escrituras.”

 

  Entardecia. Eles se aproximavam da pequena aldeia de Emaús.

 

Ao perceberem que Ele fez menção de seguir adiante, convidaram-no a ficar com eles, aquela noite. E Jesus, ainda não reconhecido, acedeu ao generoso convite.

 

Também a nós nos convém convidá-Lo a permanecer conosco, nos dias que correm.

 

  Então, estando com eles “(...) à mesa, tomando Ele o pão, abençoou-o, e tendo-o partido, lhes deu; então se lhes abriram os olhos, e O reconheceram; mas Ele desapareceu da presença deles.”

 

  Aí é que se lembraram de Sua segurança, ao falar das Escrituras e de como, assim agindo, os encantava.

 

Felizes, na mesma hora, voltaram para Jerusalém, para relatarem aos outros apóstolos o que lhes sucedera.

 

...

 

  Belíssima passagem do Evangelho que nos leva a meditar que, também hoje, profecias se cumprem e que não devemos ser “(...) tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram.” E que a maioria dos homens nos inquietamos pelas coisas exteriores, sem perceber que o Mestre segue ao nosso lado, conduzindo o barco chamado Terra e as nossas almas frágeis à Emaús de nosso destino, de nossa libertação espiritual.

 

  Também nós nos portamos assustadiços, inseguros, como se desconhecêssemos as Escrituras e suas previsões para estes e os tempos futuros!

 

  “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino.” (Lucas, 12:32.)

 

  A íntegra do capítulo 24, do Evangelho de Mateus, fala com clareza das profecias relativas aos dias hoje vividos.

 

  O túmulo vazio e, nas suas proximidades, a aparição de “(...) dois varões com vestes resplandecentes (...)” (Lucas 24:4) oferece-nos a certeza da sobrevivência do Espírito à morte do corpo, da realidade do Espírito imortal.

 

  Mas o episódio dos discípulos a caminho de Emaús dá-nos a confiança de que o Bom Pastor, segura e suavemente, conduz o indócil rebanho e haverá de levá-lo ao divino redil, que é, em verdade, o Reino de Deus, a que se refere, sem que uma só ovelha se tresmalhe!

 

Encaminhado à FEB, via E-mail [email protected], em 01.05.01.

Publicado na edição de mai/02, p. 142.