CIÊNCIA DO INFINITO

 

 

 

“Anos são precisos para formar-se um médico (...). Como pretender-se em algumas horas adquirir a Ciência do Infinito?”1

 

Conta-se que um prisioneiro, por vinte anos, passou a pão e água, em local sombrio.

 

Um dia percebeu que a porta da prisão estivera sempre aberta. Saiu e buscou o sol, o verde, o ar puro e a liberdade! Perdera longo tempo de sua vida por falta de iniciativa!

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A breve narrativa ilustra a ignorância de que somos prisioneiros, por absoluta preguiça mental.

 

E a porta do saber está sempre aberta! Mas acomodamo-nos à “prisão”. Conduta essa incompatível com a condição de espíritos eternos, cuja evolução deve ser buscada consciente e prioritariamente.

 

É mais que tempo de buscarmos o estudo que liberta.

 

A Doutrina Espírita é meio adequado a essa realização, pois, bem assimilada, suaviza essa caminhada de Espíritos a caminho da luz, abreviando ou eliminando dores, por nos favorecer o entendimento das Leis Cósmicas.

 

Com muita propriedade, Allan Kardec a intitula Ciência do Infinito, enfatizando a necessidade de seu estudo perseverante, assíduo:

 

“(...) o estudo de uma doutrina, qual a Doutrina Espírita, que nos lança de súbito numa ordem de coisas tão nova quão grande, só pode ser feito com utilidade por homens sérios, perseverantes, livres de prevenções e animados de firme e sincera vontade de chegar a um resultado.”2 (Destacamos).

 

“Nunca (...) dissemos que esta ciência fosse fácil, nem que se pudesse aprendê-la brincando, o que, aliás, não é possível, qualquer que seja a ciência. Jamais teremos repetido bastante que ela demanda estudo assíduo e por vezes muito prolongado.”3 (Grifamos).

 

Afinal, que há de tão importante nessa Doutrina, indagará o leigo, para ser assim valorizada pelos espíritas e por seu Codificador, Allan Kardec, a ponto de dedicar-se, este último, a seu estudo e divulgação, a partir de seus cinqüenta anos, em 1854, até desencarnar, aos sessenta e cinco de idade, em 31.03.1869?

 

Responde ele próprio, em artigo intitulado “O que ensina o Espiritismo”4 — do qual transcrevemos excertos —, publicado em obra pouco conhecida e estudada, mesmo entre os que se dizem espíritas. Pois não basta assistir a reuniões públicas e receber passes, para ser verdadeiro espírita. Indispensável estudá-la e buscar viver seus ensinos, aliando ao estudo o trabalho e a reforma íntima, corrigindo vícios e adquirindo virtudes. Eis suas palavras:

 

“1º -  (...) dá (...) a prova patente da existência e da imortalidade da alma. (...)

 

2º - Pela firme crença que desenvolve, exerce ação poderosa sobre o moral do homem; leva-o ao bem, consola-o nas aflições, dá-lhe força e coragem nas provações da vida e o desvia do pensamento do suicídio.

 

3º - Retifica todas as idéias falsas que se tivessem sobre o futuro da alma, sobre o céu, o inferno, as penas e  as recompensas; destrói radicalmente, pela irresistível lógica dos fatos, os dogmas das penas eternas e dos demônios; numa palavra, descobre-nos a vida futura e no-la mostra racional e conforme à justiça de Deus (...).

 

4º - Dá a conhecer o que se passa no momento da morte; este fenômeno, até hoje insondável, não mais tem mistérios; as menores particularidades dessa passagem tão temida são hoje conhecidas; ora, como todo mundo morre, tal conhecimento interessa a todo mundo.

 

5º - Pela lei da pluralidade das existências, abre um novo campo à filosofia; o homem sabe de onde vem, para onde vai; com que objetivo está na terra. Explica a causa de todas as misérias humanas, de todas as desigualdades sociais.

 

6º - Pela teoria dos fluidos perispiritais, dá a conhecer o mecanismo das sensações e das percepções da alma; explica os fenômenos da dupla vista, da visão à distância, do sonambulismo, do êxtase, dos sonhos, das visões, das aparições, etc.; abre um novo campo à fisiologia e à patologia.

 

7º - Provando as relações existentes entre os mundos corporal e espiritual, mostra neste último uma das forças ativas da natureza, um poder inteligente e dá a razão de uma porção de efeitos atribuídos a causas sobrenaturais, e que alimentaram a maioria das idéias supersticiosas.

 

8º - Revelando o fato das obsessões, faz conhecer a causa, até aqui desconhecida, de numerosas afecções, sobre as quais a ciência se havia equivocado, em detrimento dos doentes, e dá os meios de os curar.

 

9º - Dando-nos a conhecer as verdadeiras condições da prece e seu modo de ação; revelando-nos a influência recíproca dos Espíritos encarnados e desencarnados, ensina-nos o poder do homem sobre os Espíritos imperfeitos para os moralizar e os arrancar aos sofrimentos inerentes à sua inferioridade.

 

10º - Dando a conhecer a magnetização espiritual, que era desconhecida, abre ao magnetismo uma nova via e lhe traz novo e poderoso elemento de cura.”

 

  A moral que adota é a do Evangelho, eis que nenhuma outra existe superior à que nos trouxe Jesus, o Mestre incomparável! Traduz a Boa Nova em ações.

 

À vista dessa breve síntese, indagamos: tem razão, ou não, o ilustre Codificador, ao denominá-la de Ciência do Infinito? É realmente sublime roteiro de luz!

 

  Cabe-nos, a nós, abolir comodismo e preguiça mental. É dever estudá-la e compreendê-la, afeiçoando nossas vidas a seus ensinos. E divulgá-la com amor, para que outros se beneficiem de suas luzes, e realizem evolução consciente.

 

  O próprio Codificador5 orienta-nos sobre a seqüência em que deve ser estudada essa Doutrina libertadora: iniciar pelo “O que é o Espiritismo” e prosseguir, nessa ordem: “O Livro dos Espíritos”; “O Livro dos Médiuns”; “O Evangelho Segundo o Espiritismo”; “O Céu e o Inferno” e “A Gênese”.

 

É ele ainda que nos afirma que a compreensão da teoria, facilitar-nos-á a aceitação dos fatos e o entendimento de quaisquer outros ensinos posteriores. Comecemos, assim, da base, do princípio!

 

Além desses estudos, são inúmeros os cursos de Doutrina Espírita, ministrados nas Instituições Espíritas, graciosamente, favorecendo seu conhecimento e aprendizado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

1.      KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 77.ed. Rio de Janeiro: FEB. 1997, Introdução, Cap. XIII, p. 38-9;

2.      Id. Ibid., Cap. VIII, p. 31;

3.      Id. Ibid., Cap. XII, p. 38;

4.      KARDEC, Allan. Revista Espírita. São Paulo: EDICEL. 1865, p. 222-3;

5.      KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. 22.ed. Rio de Janeiro: FEB. 1980, p. 149.

 

NOTA: Na questão 466, de ‘O Livro dos Espíritos’ eles, respondendo a Kardec, também a chamam de ciência do infinito.

 

 

Publicado em março/02, na Revista “Reformador”, editada pela FEB..

 

 

 

A CÓLERA

 

Gebaldo José de Sousa

 

                     “A cólera prejudica o repouso da vida e a saúde do corpo;

                              ofusca o entendimento e cega a razão.”   Diderot - 1713/1784.

 

O HOMEM QUE NÃO TEIMAVA: Em cidade interiorana, havia um homem que não se irritava, não teimava e não discutia com ninguém. Sempre encontrava saída cordial, não feria a ninguém, nem se aborrecia com o próximo.

  Morava em modesta pensão, onde era admirado e querido.

  Seus companheiros combinaram-se entre eles para levá-lo à teima, à irritação ou à discussão.

  À noite, serviam saborosa sopa, de que o nosso amigo era apreciador.

  Numa delas, a garçonete chegou próximo à sua mesa, pela esquerda, e ele, prontamente, levou o próprio prato para aquele lado, para lhe facilitar a tarefa.

  Ela, ágil, serviu aos que estavam naquela mesa e dali partiu para outras direções.

  Ele, calmamente e em silêncio, esperava, quando ela outra vez se aproxima, agora pela direita. Volta ele a levar o prato para a direção da jovem, que, novamente, se distanciou, ignorando-o.

  Após servir aos demais, passa bem rente a ele, acintosamente, com a sopeira fumegante, exalando saboroso aroma, como quem concluiu a própria tarefa e retorna à cozinha.

  Nesse momento, não se ouvia qualquer ruído. Todos espreitavam discretamente, para ver-lhe a reação.

   Educadamente, chama ele a garçonete, que se volta, fingindo impaciência:

  — O que o Senhor deseja? - Ao que ele responde, naturalmente:

  — A Senhorita não me serviu a sopa. - Novamente ela lhe retruca, agora, para provocá-lo, desmentindo-o:

  — Servi, sim senhor!

  Ele olha para ela, olha para o próprio prato vazio e limpo... Todos pensam: vai teimar ou brigar. Suspense e silêncio total. É quando ele a todos surpreende, ponderando, afavelmente:

  — A Senhorita serviu sim; mas eu aceito mais!

  Não teimou, não se irritou, nem discutiu; e passou pelo teste; além de nos deixar bela lição de paciência!

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A cólera — filha do orgulho — leva-nos a cometer crimes, a desrespeitar o próximo e a nós mesmos, pois que envenena nosso organismo, levando-o às enfermidades.

Quando nos irritamos:

- despendemos mais energia do que aquela necessária para resolver o problema que nos

trouxe a cólera;

- afastamos aqueles que poderiam nos ajudar; pois temem aproximar-se e não serem compreendidos;

- atraímos péssimas companhias espirituais, cuja presença nos agravará os males;

- geramos antipatias, onde vamos. Estaremos sempre com a verdade? Convêm-nos indagar a nós mesmos;

- revelamos falta de educação, de respeito ao próximo;

- envenenamos nosso organismo com toxinas. É como se uma cobra se mordesse a si mesma;

- agimos como suicidas indiretos, tal como aquele que fuma, que bebe, que se excede em

qualquer hábito.

A irritação se traduz em falta de cortesia, que afasta amigos, atrai antipatias e gera maus fluidos.

  “A cortesia é o primeiro passo da caridade.

    A gentileza é o princípio do amor. (...)

As melhores oportunidades de cada dia no mundo pertencem àqueles que melhores se fazem para quantos lhes rodeiam os passos. E ninguém se faz melhor, arremessando pedras de irritação ou espinhos de amargura na senda dos companheiros.”1

  Nosso estado de humor influencia benéfica ou maleficamente nossa própria saúde e a daqueles que nos cercam, suportando-nos o mau humor, ou compartilhando de nossa alegria de viver. Quando nos irritamos, derramamos bílis em excesso no estômago, dificultando a digestão e envenenando todo o organismo. Quando alimentamos o hábito da cólera, inútil ingerir medicamentos. Há que se eliminar a causa.

  A cólera — esse torpedo mental — gera vítimas em graus diversos, além daqueles que as expressam e alimentam. Muitas delas pagam preço elevado pelos atos que cometem sob seu império, sob a forma de remorso, nos presídios, nos hospitais e nos túmulos, ou melhor, no plano espiritual.

  “Não farias explodir uma bomba dentro de casa, comprometendo a vida daqueles que mais amas. No entanto, por vezes, não vacilamos em detonar a dinamite da cólera (...).2

Muitos se justificam: é o meu temperamento! Ousamos discordar, afirmando que não é, não: é falta de educação mesmo!

“O Evangelho Segundo o Espiritismo”3 assegura-nos:

“O orgulho vos induz a julgar-vos mais do que sois; (...) a vos considerardes (...) tão acima dos vossos irmãos, quer em espírito, quer em posição social (...), que o menor paralelo vos irrita e aborrece.”

“Compenetrai-vos, pois, de que o homem não se conserva vicioso, senão porque quer permanecer vicioso; de que aquele que queira corrigir-se sempre o pode. De outro modo, não existiria para o homem a lei do progresso.”

“Em seu frenesi, o homem colérico a tudo se atira: à natureza bruta, aos objetos inanimados, quebrando-os porque lhe não obedecem. Ah! Se nesses momentos pudesse ele observar-se a sangue-frio, ou teria medo de si próprio, ou bem ridículo se acharia! Imagine ele por aí que impressão produzirá nos outros.”

“Se ponderasse que a cólera a nada remedeia, que lhe altera a saúde e compromete até a vida, reconheceria ser ele próprio a sua primeira vítima. (...) torna infelizes todos que o cercam. Se tem coração, não lhe será motivo de remorso fazer que sofram os entes a quem mais ama? E que pesar moral se, num acesso de fúria, praticasse um ato que houvesse de deplorar toda a sua vida!

“(...) a cólera não exclui certas qualidades do coração, mas impede se faça muito bem e pode levar à prática de muito mal.”

Para os animais, há a vacina anti-rábica, para nós, seres humanos, a vacina chama-se educação.

Um dos primeiros passos para dominá-la é aprender a amar o próximo, pois a irritação demonstra falta de amor, de respeito ao semelhante, seja ele quem for.

           “Longe de vós toda a amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda a malícia.” - Paulo: Efésios 4-31.4

           “A caridade é paciente; é branda e benfazeja;(...) não se agasta; nem se azeda com coisa alguma;(...). Paulo - 1 Cor. 13-4.4

           “(...) Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.” Tiago 1-19.4

  Tanto o Velho quanto o Novo Testamento são fartos nas lições quanto à cólera, à ira — revelando-nos que o problema é antigo — mas em parte alguma há exaltação maior da virtude que as elimina, quanto na passagem em que Jesus assim se exprime, suavemente:

  “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.” Jesus - Mateus 5-5.4

  Nem tão bela e resumida receita de paz, quanto nesta outra:

  “... não se ponha o sol sobre a vossa ira,...”  Paulo: Efésios 4-26.4

Para nos educarmos, observemos a própria conduta; e analisemos nossas reações aos problemas, além de buscarmos as causas de nossas irritações e eliminá-las, uma a uma. Sem desculpismos e justificativas.

“Contrariar-se alguém a propósito de bagatelas e a todos os instantes do dia será baratear os dons da vida, desperdiçando-os, de modo inconseqüente, sem o mínimo proveito para si mesmo ou para os outro.”5

  Nesse aprendizado, importa-nos corrigir o automatismo das reações desequilibradas, quando despendemos muita energia inutilmente, com a cólera.

Direcionar as energias para a solução dos problemas, sem perda de tempo com irritações desnecessárias, é o melhor caminho.

O Espírito André Luiz6, na mensagem “Pacificar”, apresenta belas sínteses, das quais destacamos algumas muito divulgadas e que têm modificado a conduta de muita gente:

“Não grite. Converse.

  Não critique. Auxilie.

  Não acuse. Ampare.

  Não se irrite. Sorria.”

  Adotemos soluções práticas.

O pneu furou? Troquemos o pneu, sem irritação inútil. Pneus furam mesmo. O gás se acaba. É da vida.

Alguém nos agrediu? Aviemos a receita de Jesus: ofereçamos a outra face. Silêncio à injúria; ou resposta educada, às vezes até se desculpando por um mal não praticado. Não importa. O que vale é a Paz. O outro compreenderá um dia e aí se emenda. Para Espíritos eternos, é sempre oportuno o aprendizado.

  O poeta Raimundo Correia, no soneto intitulado “Mal Secreto”, expressa verdade incontestável:

Se a cólera que espuma (...) no rosto se estampasse (...) quanta gente, talvez, que inveja agora nos causa, então piedade nos causasse!

Grande progresso faríamos nesta encarnação se, triunfando de nós mesmos, lográssemos vencer a ira, a cólera, por ninharias ou mesmo por grandes razões. Indispensável crescer e superar-se.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1. Emmanuel/Francisco C. Xavier. Escrínio de Luz. 2 ed. Matão: Casa Ed. O Clarim, 1982. 220p. p. 62;

2. Emmanuel/Francisco C. Xavier. Encontro Marcado. 3 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978. 182p. p.53;

3. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 82 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1981. 456p. pp.171-173: Cap. 9;

4. Bíblia Sagrada, trad. de João Ferreira de Almeida, Soc. Bíblica do Brasil, Brasília (DF), 1969;

5. André Luiz/Francisco C. Xavier. Entre a Terra e o Céu.  6 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978. 266p. p. 138.

6. André Luiz/Francisco C. Xavier. Respostas da Vida.9 ed. São Paulo: IDEAL, 1980. 127 p. pp. 93-94: Cap. 27.

 

Publicado no Jornal Auta de Souza, out/96.