A CÓLERA

 

Gebaldo José de Sousa

 

                     “A cólera prejudica o repouso da vida e a saúde do corpo;

                              ofusca o entendimento e cega a razão.”   Diderot - 1713/1784.

 

O HOMEM QUE NÃO TEIMAVA: Em cidade interiorana, havia um homem que não se irritava, não teimava e não discutia com ninguém. Sempre encontrava saída cordial, não feria a ninguém, nem se aborrecia com o próximo.

  Morava em modesta pensão, onde era admirado e querido.

  Seus companheiros combinaram-se entre eles para levá-lo à teima, à irritação ou à discussão.

  À noite, serviam saborosa sopa, de que o nosso amigo era apreciador.

  Numa delas, a garçonete chegou próximo à sua mesa, pela esquerda, e ele, prontamente, levou o próprio prato para aquele lado, para lhe facilitar a tarefa.

  Ela, ágil, serviu aos que estavam naquela mesa e dali partiu para outras direções.

  Ele, calmamente e em silêncio, esperava, quando ela outra vez se aproxima, agora pela direita. Volta ele a levar o prato para a direção da jovem, que, novamente, se distanciou, ignorando-o.

  Após servir aos demais, passa bem rente a ele, acintosamente, com a sopeira fumegante, exalando saboroso aroma, como quem concluiu a própria tarefa e retorna à cozinha.

  Nesse momento, não se ouvia qualquer ruído. Todos espreitavam discretamente, para ver-lhe a reação.

   Educadamente, chama ele a garçonete, que se volta, fingindo impaciência:

  — O que o Senhor deseja? - Ao que ele responde, naturalmente:

  — A Senhorita não me serviu a sopa. - Novamente ela lhe retruca, agora, para provocá-lo, desmentindo-o:

  — Servi, sim senhor!

  Ele olha para ela, olha para o próprio prato vazio e limpo... Todos pensam: vai teimar ou brigar. Suspense e silêncio total. É quando ele a todos surpreende, ponderando, afavelmente:

  — A Senhorita serviu sim; mas eu aceito mais!

  Não teimou, não se irritou, nem discutiu; e passou pelo teste; além de nos deixar bela lição de paciência!

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A cólera — filha do orgulho — leva-nos a cometer crimes, a desrespeitar o próximo e a nós mesmos, pois que envenena nosso organismo, levando-o às enfermidades.

Quando nos irritamos:

- despendemos mais energia do que aquela necessária para resolver o problema que nos

trouxe a cólera;

- afastamos aqueles que poderiam nos ajudar; pois temem aproximar-se e não serem compreendidos;

- atraímos péssimas companhias espirituais, cuja presença nos agravará os males;

- geramos antipatias, onde vamos. Estaremos sempre com a verdade? Convêm-nos indagar a nós mesmos;

- revelamos falta de educação, de respeito ao próximo;

- envenenamos nosso organismo com toxinas. É como se uma cobra se mordesse a si mesma;

- agimos como suicidas indiretos, tal como aquele que fuma, que bebe, que se excede em

qualquer hábito.

A irritação se traduz em falta de cortesia, que afasta amigos, atrai antipatias e gera maus fluidos.

  “A cortesia é o primeiro passo da caridade.

    A gentileza é o princípio do amor. (...)

As melhores oportunidades de cada dia no mundo pertencem àqueles que melhores se fazem para quantos lhes rodeiam os passos. E ninguém se faz melhor, arremessando pedras de irritação ou espinhos de amargura na senda dos companheiros.”1

  Nosso estado de humor influencia benéfica ou maleficamente nossa própria saúde e a daqueles que nos cercam, suportando-nos o mau humor, ou compartilhando de nossa alegria de viver. Quando nos irritamos, derramamos bílis em excesso no estômago, dificultando a digestão e envenenando todo o organismo. Quando alimentamos o hábito da cólera, inútil ingerir medicamentos. Há que se eliminar a causa.

  A cólera — esse torpedo mental — gera vítimas em graus diversos, além daqueles que as expressam e alimentam. Muitas delas pagam preço elevado pelos atos que cometem sob seu império, sob a forma de remorso, nos presídios, nos hospitais e nos túmulos, ou melhor, no plano espiritual.

  “Não farias explodir uma bomba dentro de casa, comprometendo a vida daqueles que mais amas. No entanto, por vezes, não vacilamos em detonar a dinamite da cólera (...).2

Muitos se justificam: é o meu temperamento! Ousamos discordar, afirmando que não é, não: é falta de educação mesmo!

“O Evangelho Segundo o Espiritismo”3 assegura-nos:

“O orgulho vos induz a julgar-vos mais do que sois; (...) a vos considerardes (...) tão acima dos vossos irmãos, quer em espírito, quer em posição social (...), que o menor paralelo vos irrita e aborrece.”

“Compenetrai-vos, pois, de que o homem não se conserva vicioso, senão porque quer permanecer vicioso; de que aquele que queira corrigir-se sempre o pode. De outro modo, não existiria para o homem a lei do progresso.”

“Em seu frenesi, o homem colérico a tudo se atira: à natureza bruta, aos objetos inanimados, quebrando-os porque lhe não obedecem. Ah! Se nesses momentos pudesse ele observar-se a sangue-frio, ou teria medo de si próprio, ou bem ridículo se acharia! Imagine ele por aí que impressão produzirá nos outros.”

“Se ponderasse que a cólera a nada remedeia, que lhe altera a saúde e compromete até a vida, reconheceria ser ele próprio a sua primeira vítima. (...) torna infelizes todos que o cercam. Se tem coração, não lhe será motivo de remorso fazer que sofram os entes a quem mais ama? E que pesar moral se, num acesso de fúria, praticasse um ato que houvesse de deplorar toda a sua vida!

“(...) a cólera não exclui certas qualidades do coração, mas impede se faça muito bem e pode levar à prática de muito mal.”

Para os animais, há a vacina anti-rábica, para nós, seres humanos, a vacina chama-se educação.

Um dos primeiros passos para dominá-la é aprender a amar o próximo, pois a irritação demonstra falta de amor, de respeito ao semelhante, seja ele quem for.

           “Longe de vós toda a amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda a malícia.” - Paulo: Efésios 4-31.4

           “A caridade é paciente; é branda e benfazeja;(...) não se agasta; nem se azeda com coisa alguma;(...). Paulo - 1 Cor. 13-4.4

           “(...) Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.” Tiago 1-19.4

  Tanto o Velho quanto o Novo Testamento são fartos nas lições quanto à cólera, à ira — revelando-nos que o problema é antigo — mas em parte alguma há exaltação maior da virtude que as elimina, quanto na passagem em que Jesus assim se exprime, suavemente:

  “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.” Jesus - Mateus 5-5.4

  Nem tão bela e resumida receita de paz, quanto nesta outra:

  “... não se ponha o sol sobre a vossa ira,...”  Paulo: Efésios 4-26.4

Para nos educarmos, observemos a própria conduta; e analisemos nossas reações aos problemas, além de buscarmos as causas de nossas irritações e eliminá-las, uma a uma. Sem desculpismos e justificativas.

“Contrariar-se alguém a propósito de bagatelas e a todos os instantes do dia será baratear os dons da vida, desperdiçando-os, de modo inconseqüente, sem o mínimo proveito para si mesmo ou para os outro.”5

  Nesse aprendizado, importa-nos corrigir o automatismo das reações desequilibradas, quando despendemos muita energia inutilmente, com a cólera.

Direcionar as energias para a solução dos problemas, sem perda de tempo com irritações desnecessárias, é o melhor caminho.

O Espírito André Luiz6, na mensagem “Pacificar”, apresenta belas sínteses, das quais destacamos algumas muito divulgadas e que têm modificado a conduta de muita gente:

“Não grite. Converse.

  Não critique. Auxilie.

  Não acuse. Ampare.

  Não se irrite. Sorria.”

  Adotemos soluções práticas.

O pneu furou? Troquemos o pneu, sem irritação inútil. Pneus furam mesmo. O gás se acaba. É da vida.

Alguém nos agrediu? Aviemos a receita de Jesus: ofereçamos a outra face. Silêncio à injúria; ou resposta educada, às vezes até se desculpando por um mal não praticado. Não importa. O que vale é a Paz. O outro compreenderá um dia e aí se emenda. Para Espíritos eternos, é sempre oportuno o aprendizado.

  O poeta Raimundo Correia, no soneto intitulado “Mal Secreto”, expressa verdade incontestável:

Se a cólera que espuma (...) no rosto se estampasse (...) quanta gente, talvez, que inveja agora nos causa, então piedade nos causasse!

Grande progresso faríamos nesta encarnação se, triunfando de nós mesmos, lográssemos vencer a ira, a cólera, por ninharias ou mesmo por grandes razões. Indispensável crescer e superar-se.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1. Emmanuel/Francisco C. Xavier. Escrínio de Luz. 2 ed. Matão: Casa Ed. O Clarim, 1982. 220p. p. 62;

2. Emmanuel/Francisco C. Xavier. Encontro Marcado. 3 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978. 182p. p.53;

3. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 82 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1981. 456p. pp.171-173: Cap. 9;

4. Bíblia Sagrada, trad. de João Ferreira de Almeida, Soc. Bíblica do Brasil, Brasília (DF), 1969;

5. André Luiz/Francisco C. Xavier. Entre a Terra e o Céu.  6 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978. 266p. p. 138.

6. André Luiz/Francisco C. Xavier. Respostas da Vida.9 ed. São Paulo: IDEAL, 1980. 127 p. pp. 93-94: Cap. 27.

 

Publicado no Jornal Auta de Souza, out/96.