Nada de sobrenatural

Onde estão as pesquisas científicas dos fenômenos produzidos pelos espíritos?

O escritor Wallace Leal V. Rodrigues, no Prefácio do Autor de sua obra Katie King (1), escreveu: “(...) Aqueles três anos – que foi o período em que o Espírito se materializou – pareciam-nos mágicos, uma espécie de conto-de-carochinha, e que jamais se repetiram na História do Espiritismo (...)”.

Na mesma obra, na Apreciação de Gabriel Delanne – que o autor colocou após o Prefácio –, encontramos: “(...) Como explicar seu incessante progresso*? Simplesmente, porque tem por método a investigação científica, emprega a observação e a experimentação, recrutando seus adeptos entre as mentes positivas, ávidas de conhecimentos precisos acerca do que seremos depois da morte. (...) Willian Crookes é, na Europa, o primeiro cientista que teve o valor de comprovar, escrupulosamente, as afirmações dos espíritas. Muito céptico, a princípio, suas investigações o conduziram progressivamente à convicção de que esses fenômenos são verdadeiros e não titubeou um único momento em proclamar, alto e bom som, a certeza em que resultou o seu trabalho. Com a altiva firmeza que oferece quanto é comprovado, cientificamente, converteu-se em campeão de uma impopular mais indiscutível verdade. (...)”

Citando o livro Trinta anos entre os mortos, de autoria do Prof. Charles Richet, Wallace usa frase daquele autor para dizer igualmente que “... a pesquisa psíquica começa, na História, com Sir Willian Crookes...”, pois que contemporâneo de uma época de grandes nomes da ciência, de importantes descobertas científicas que mudaram a vida da humanidade, Crookes (2) dedicou-se avidamente na pesquisa dos fenômenos produzidos pelos espíritos. Notadamente no caso das materializações do Espírito Katie King através dos recursos mediúnicos da jovem Florence Cook (3).

Pois é exatamente utilizando a frase de Gabriel Delanne, na apreciação publicada no livro de Wallace, de que a Doutrina Espírita “...tem por método a investigação científica, emprega a observação e a experimentação...”, é que usamos o título Nada de sobrenatural para dizer, usando as palavras do próprio Kardec, na Revista Espírita de abril de 1867 (4), que “(...) os fatos desse gênero tiveram lugar bem antes que o Espiritismo fosse questão, e que depois quase sempre se passaram entre pessoas que não o conheciam nem mesmo de nome, o que exclui toda influência devida à crença e à imaginação. (...) nos limitamos a constatar aqui que nada se afasta do que o Espiritismo admite a possibilidade, nem das condições normais nas quais semelhantes fatos podem se produzir; e esses fatos se explicam por leis perfeitamente naturais, e, conseqüentemente, nada tem de maravilhoso. Só a ignorância dessas leis pôde, até este dia, fazê-los considerar como efeitos sobrenaturais, assim como o foi com quase todos os fenômenos dos quais a ciência mais tarde revelou as leis. (...)”.  Fatos naturais, pois, que suportam e requerem a observação, a investigação científica e a experimentação para serem compreendidos. Nada, pois, de sobrenatural com eles.

 Vale observar ao leitor que o comentário de Kardec, acima transcrito, não se refere especificamente aos casos de materializações, pois a própria matéria traz o título de Manifestações Espontâneas, ligando-se a interessante caso das habilidades de um espírito brincalhão diante de uma família, cuja leitura integral constitui importante fonte de informações sobre o fato das manifestações em suas diversas faces.

Por outro lado, muito mais que abordagens, por que não prosseguir com pesquisas na área científica? Será difícil, confiável, possível?

Para responder essas indagações nada melhor que oferecer a palavra ao próprio Codificador:

 a) Na Revista Espírita, mesma edição acima citada (4), abordando o tema Manifestações Espontâneas, Kardec pondera que “(...) Os fenômenos reais têm um caráter sui generis, e se produzem em circunstâncias que desafiam toda suspeita.  Um conhecimento completo desses caracteres e dessas circunstâncias podem facilmente fazer descobrir a fraude. (...). Sugerimos ao leitor a leitura integral do caso relatado naquela edição, mas é exatamente o detalhe da circunstância em que se produzem que desafiam pesquisadores e observadores comuns ao uso do raciocínio e do bom senso, como tão bem usou Kardec;

b) Na mesma publicação, edição de julho de 1859, em pronunciamento na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, o mesmo Kardec afirma: “(...) O conjunto dos raciocínios sobre os quais se apóiam os fatos, constitui a ciência... (...)”. Ora, pois é exatamente este raciocínio na observação dos fatos e experimentos que deve continuamente ser estimulado em todos os que estudam o Espiritismo e os fenômenos produzidos pelos Espíritos, uma vez  que (5)  “(...) o princípio essencial, verdadeira pedra principal da ciência espírita... (...)” reside no fato de que “(...) esses fenômenos estão submetidos  a condições que saem do círculo habitual de nossas observações...”, já que “(...) esse agente é constantemente  uma inteligência que tem sua vontade própria, e que não podemos submeter aos nossos caprichos (...)”. 

 Esta adoção do raciocínio diante dos fatos, da experimentação através da pesquisa é tema para ser amplamente discutido especialmente por quem estuda o Espiritismo, inclusive graduados das diversas áreas da ciência. Poderemos promover pesquisas nas diversas facetas oferecidas pela ciência espírita. Considere-se aqui o direcionamento das últimas linhas do item b) acima.

 O que pesquisar? Onde pesquisar? Como pesquisar? Que métodos utilizar? Que recursos podem ser disponibilizados? Quais as condições humanas e materiais?

  Seria no próprio campo das materializações, das energias mentais e psíquicas, nas manifestações psicofônicas ou psicográficas, nos desdobramentos? Ou poderíamos adentrar o campo das recordações passadas? Eis um universo de temas à disposição e valoroso campo experimental de pesquisas.        Eis perguntas para gerar estudos. Eis um universo de possibilidades, seja na área anímica ou mediúnica. Volta-se, pois, a questão: por que a pesquisa espírita está tão esquecida? Já não é tempo de retomar estes estudos e pesquisas, usando o exemplo de Crookes, para citar apenas um dos inúmeros casos?

Deixamos a resposta aos mais capacitados, para que apareçam novamente, pois como o Espiritismo é, simultaneamente, ciência, filosofia e religião, o campo de pesquisa está aberto. Desde, é óbvio, que observados os critérios e métodos científicos de observação e experimentação, onde o misticismo é deixado de lado e surge com toda força o bom senso, a lógica, ao lado da seriedade e conhecimento que o assunto requer.  E que não esqueçamos o que Kardec disse: “(...) esse agente é constantemente  uma inteligência que tem sua vontade própria, e que não podemos submeter aos nossos caprichos (...)” (6).

 Porém, oportunas considerações extraídas do mesmo estudo em referência (Revista Espírita de abril de 1867), cabem como conclusão nesta abordagem:

 a) Do fato de que o estado de nossos conhecimentos não nos permita deles dar ainda uma explicação concludente, isto não prejulgaria nada, porque estamos longe de conhecer todas as leis que regem o mundo invisível, todas as forças que este mundo encerra, todas as explicações das leis que conhecemos.

b) O Espiritismo não disse ainda a última palavra, muito longe disto, não mais sobre as coisas físicas do que sobre as coisas espirituais.

c) O Espiritismo não fez, de alguma sorte, até o presente, senão colocar os primeiros degraus de uma ciência.

d) Se um fato é constatado, se diz que ele deve ter uma causa, e que esta causa não pode ser senão natural, e então ele a procura.

e) Na falta de uma demonstração categórica, pode dar uma hipótese, mas até a confirmação, não a dá senão como hipótese, e não como verdade absoluta.

Leitura atenta dos itens acima enumerados deixa claro o critério adotado pela Doutrina Espírita diante dos fatos: a) a limitação de nossos conhecimentos; b) o caráter progressivo da própria doutrina; c) a prudência diante dos fatos.

Estejamos de olhos bem abertos para compreender, à luz do Espiritismo, que os fatos das manifestações promovidas pelos espíritos são absolutamente naturais, convocando-nos para a pesquisa desses mesmos fatos, o que permite a busca da verdade.

 

*o autor refere-se aos progressos da Doutrina Espírita.

Edição da Casa Editora O Clarim, atualmente esgotada.

Willian Crookes nasceu em 17 de junho de 1832 e desencarnou em 4 de abril de 1919; foi químico e físico inglês, publicou diversas obras de sua área de pesquisas. Em 1861 descobriu e estudou o Talium, inventou posteriormente um novo método para separar o ouro e a prata de seu mineral, por meio do sodium.

Florence era jovem de apenas 15 anos e sua potencialidade mediúnica permitiu anos de pesquisa na área de materializações; submeteu-se humildemente aos critérios científicos de observação dos fenômenos que se produziam por seu intermédio.

Tradução de Salvador Gentille, edição IDE.

A partir deste trecho trata-se de outra abordagem constante da edição de fevereiro de 1859.

Revista Espírita, edição de fevereiro de 1859.