Ano novo vida velha

 

 

 

José Medrado

 

 

 

Chegou o tão esperado ano novo. Projetos foram feitos. Estratégias montadas, para se conseguir o programado.

 Buscou-se a ajuda do imponderável: tomou-se banho de descarrego ou de folhas – imperdível o de abre caminhos. Fez-se promessa, oferecendo rosas a Iemanjá ou algo ao Senhor do Bonfim, como ir andando até a Sua Igreja. Foi-se ao Centro e tomaram-se passes, fazendo mentalizações. Ah! Ia me esquecendo: a cor. Entrou-se o ano com uma peça da cor do Orixá regente do novo tempo.

Enfim, cada um buscou a “muleta” que pode para garantir a conquista de seus sonhos. Tudo bem. Até acho que essas muletas podem ajudar a quem só nelas acredita e põe fé. A fé é tudo. Todavia, como começar o novo com o velho aprisionado?

     

Vê-se, de pronto, que a disposição real de mudar não emplaca. Assim como o seu armário está cheio de roupas que você não mais usa: aquela calça que não entra mais, pois você engordou, mas está lá guardada, esperando você emagrecer os dez quilos; ou então aquelas roupas que você se prometeu reformá-las, mas até hoje nada; ou ainda aquelas caixas fechadas nos maleiros, que você nem mais sabe o que tem dentro delas. Assim é com o nosso coração, a nossa alma.

Buscamos o novo, mas guardamos antigas mágoas e culpas.

Firmamos propósitos, mas fraquejamos na força de vontade.

Continuaremos indo aos templos religiosos, mas o que neles se ensina não entra em nós. Ainda fazemos da religião um instrumento de dominação e interesses muitas vezes inconfessáveis.

A presunção e o orgulho assaltam nossos pensamentos, ações e palavras. Cremo-nos os melhores, a nossa religião a melhor, e ai de quem diga o contrário. Em nome de Jesus, brigaremos. Insensatez atrás de insensatez, e o pior: tendo como fulcro a mensagem de paz e amor de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Como poderemos encher um copo com a cristalina água da esperança e conquistas, se ele se encontra sujo, empoeirado, engordurado? É preciso, lógico, lavá-lo. Retirar os agentes contaminadores de seu interior, a fim de que não continue o velho copo recebendo e sujando o novo.

Então, com o novo ano que chega, é preciso disposição de vida nova, ainda que seja difícil mudar. Mas é preciso começar, como se fosse o lutar contra vícios. Não deixa de sê-lo, pois temos também os vícios emocionais da inveja, do ciúme, da avareza, do egoísmo... Quanta droga para ser desintoxicada, heim?!

Seguramente, os seus propósitos e intenções de mudança não sairão da cabeça, se a sua ação está aprisionada ao medo de transformar, de mudar. É certo, toda mudança gera instabilidade, mas não se pode cultivar o velho, quando se quer o novo.

A vida é dinâmica por excelência: as coisas mudam, as pessoas mudam... Conceitos se atualizam. Só os princípios de dignidade, ética e moral se mantêm os mesmos, desde quando nascidos do sensato e não do cultural, que invariavelmente é cheio de preconceitos e equívocos. Assim, cuidado com a confusão que se pode fazer entre moral e cultural. Comece seu novo ano.

José Medrado é médium, fundador e presidente da Cidade da Luz


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